Bulletproof
1 Prólogo
Notas iniciais
O helicóptero aterrissou, trazendo uma jovem muito bonita. Pelas roupas de grife, com certeza pertencia à classe alta e havia recebido os valores dos mais nobres. O cabelo castanho tão bem tratado, a maquiagem impecável, o batom vermelho e as bochechas rosadas também se faziam visíveis de longe, dando-lhe um aspecto majestoso, o qual foi aumentado ao tirar os óculos de sol, assim que saiu do elevador, de uma maneira quase teatral.
O salto quinze batia no piso de mármore da grande empresa, ressoando sua chegada pelos corredores. Recebia olhares atentos e invejosos, no mínimo, mas que logo voltavam às suas tarefas diárias. Escoltada por dois homens fortes e sérios, ela continuava com a expressão altiva, apontada para cima, e cheia de ''não me toque''. É claro. Por tudo pelo qual passou e aprendeu ao longo da vida, tinha que se mostrar de outro nível, mais superior, a não ser que quisesse ser um alvo fácil.
Chegaram em uma ala mais ampla e iluminada. Tanto a mesa de vidro como a cor dos sofás contribuíam para a claridade do ambiente, e, sentada, uma secretária desligava o telefone, anunciando:
— Srta. Fyers, o Sr. Merlyn logo irá recebê-la. Sente-se, por favor. Posso oferecer uma água?
Com uma leve inclinada de cabeça, a moça negou e sentou-se na poltrona de couro branco, cruzando as pernas. Parecia uma estátua de mármore com o brilho perolado das jóias que trajava.
Minutos passaram e ela continuava com o queixo meio levantado e o olhar conciso e compenetrado, fitando apenas o necessário. Ela não estava muito confortável, como se ainda não estivesse acostumada em sentar de forma tão ereta e perfeita, mas conseguia disfarçar muito bem, como se tivesse estado em uma situação como aquela inúmeras vezes.
— Srta. Fyers. O Sr. Merlyn irá recebê-la agora. — A secretária levantou-se. — Queira me seguir, por gentileza.
Os saltos voltaram a bater na brancura do chão e, no fim do corredor, uma porta de madeira, com um tom quase negro, foi aberta. Dentro da sala, o ricaço abriu um sorriso contido ao ver a linda jovem que adentrava a sala, porém, isso não durou muito, pois franziu o cenho logo depois, analisando-a, enquanto os guardas postavam-se, fiéis, atrás da mulher.
— Ora, ora, Srta. Fyers, está magnífica como sempre...
Ela fechou os olhos, contendo um certo incômodo. Por um instante, permaneceu dessa forma e, então, respirou fundo e passou a fitá-lo duramente, enchendo o recinto com um azul de dar inveja.
— Sente-se e fique à vontade. — Apontou as cadeiras estofadas. — Não a vejo faz um tempo. O que andou fazendo? Desde que seu pai adoeceu, apenas seu irmão vinha às reuniões.
Mal sabia ele os segredos que a jovem guardava, o que fora obrigada a fazer nesses anos nos quais não se encontraram.
— Perdoe minhas palavras, mas nada que lhe diga respeito... — Declarou, evasiva. — Não vim para falar sobre isso.
Sua voz era digna da beleza exterior e interior para aqueles que a conheciam. Uma delicada serenata de fonemas bem polidos e pronunciados de uma forma que apenas uma dama conseguiria. Tinha um charmoso sotaque britânico, o qual combinava muito bem com suas nobres características.
Malcom Merlyn deu um riso anasalado pela resposta ferina, mostrando apreciar uma garota de caráter.
— Bom, e sobre o que gostaria de falar, então? Admito: foi uma surpresa saber, há dez minutos atrás, que o seu helicóptero estava pedindo permissão para pousar. Eu tenho uma agenda cheia e...
— ... e, mesmo assim, aqui estamos. — Ela continuou.
O homem deu um sorriso de lado, estreitando os olhos como se a testasse.
— ... e, mesmo assim, aqui estamos. — Repetiu, saboreando o rumo da conversa. — Não esperava que eu fosse recusar um encontro com uma Fyers, certo?
A moça suspirou educadamente e ignorou a última pergunta.
— Eu esperava que pudéssemos falar sobre negócios, Sr. Merlyn... Como vão as transações comerciais desse ano?
O homem ficou confuso por um breve instante, pois esperava a menininha que vinha com o pai, vez ou outra, para brincar na recepção. Aquela criança sorridente, a personificação da pureza e inocência. Só que o que havia ali era uma mulher adulta, dona de seu próprio caminho, corrompida pela dura realidade do mundo. Rígida como uma pedra deve ser, linda como uma preciosidade ''guardada a sete chaves''. Uma verdadeira pedra preciosa, por assim dizer.
Ele mascarou seu desconforto, molhando os lábios e fitando o piso. Decidiu, então, levantar-se e pegar uma bebida para ambos, já que nada lhe vinha à mente para mudar de assunto e, por fim, rendeu-se e tentou formular uma resposta, sem escapatória.
— Bem, obrigado. Com a contribuição da família Fyers, muitos foram os avanços em Starling City. — Entregou-lhe um copo de uísque. — Deveríamos brindar pelas próximas conquistas, que serão em breve, eu prometo.
A jovem respirou fundo e engoliu em seco, com mil ideias turbilhando em sua cabeça: sua razão de ter voado até os Estados Unidos, os planos e o uísque estendido a centímetros dela. Delicadamente, pegou o cristal, tomando o máximo de cuidado possível para não tocar na pele do empresário. Conseguiu disfarçar muito bem tal ato.
O encontro dos copos preencheu o escritório com um ar mais familiar, quase amigável, e esse não era o objetivo dela. Tinha que fazer algo a respeito, portanto, após o pequeno gole amargo, fixou o olhar no horizonte, através da janela que ocupava a parede inteira com uma privilegiada vista da cidade.
Pigarreou discretamente e ajeitou-se na cadeira de couro. Segurava o copo com as mãos juntas, apoiadas em seu colo, em um gesto comportado.
— Sr. Merlyn, vim comunicar que não vamos mais financiar parte de suas despesas ou fazer empréstimos. A Corporação Fyers não se comprometerá a cuidar da burocracia do Grupo Merlyn Global, não mais.
Ele estreitou os olhos. Uma onda irritada estava por assumir seu rosto, mas a jovem já previa isso. O parceiro, em breve, ex-parceiro, era leal e compreensivo até algo atrapalhar seus interesses. E, ali, seus interesses estavam sendo cortados pela raiz. Um nervo saltava em sua testa, indicando os primeiros sinais de uma longa discussão, a qual poderia facilmente ser evitada se o executivo não fosse tão movido pelas próprias ambições.
— O que quer...
— Quero dizer exatamente o que ouviu. — Cortou, irredutível. — A partir de agora, a família Fyers está rompendo os laços comerciais com sua empresa. — Travou o maxilar. — Para sempre. — Acrescentou por via das dúvidas.
Malcom assentiu lentamente com a cabeça algumas vezes, mas não por concordar ou estar aceitando a mudança súbita de seus planos, e sim, pois tentava manter-se profissional antes que tornasse a situação mais desagradável.
— Esse não era o acordo.
De forma lenta e calculada, a moça colocou o copo na mesa, pronta para rebater.
— Acordos foram feitos para serem quebrados. — Molhou os lábios. — Não foi isso que me ensinou?
— Está certa de que quer fazer isso, Srta. Fyers? Os laços econômicos entre nossas empresas já sobreviveram terríveis tormentas. Acha que um simples comunicado quebrará uma aliança de mais de duas décadas?
Ela lembrava-se muito bem da época da ruptura diplomática, afinal, fora o grande conflito gerador de sua vida. A partir daí, tudo virou de cabeça para baixo, ficou sabendo das infinitas mentiras acerca de seu próprio eu e tornou-se uma pessoa mais sábia e ciente das calamidades que o mundo abrigava.
— Não só acho, como tenho certeza. Eu levarei a Corporação Fyers a um patamar diferencial e o senhor poderá assistir de camarote a sua ruína.
— Você não sabe com quem está lidando.
— Ah, Sr. Merlyn, acredite, sei exatamente com quem estou lidando...
O homem acomodou-se melhor na cadeira de couro e engoliu em seco.
— Seu pai. Aonde ele está?
Pela primeira vez, a mulher permitiu-se dar um sorriso. Um sorriso contido, porém, que trazia um mistério a ser desvendado, um segredo. Por que iria sorrir à menção do pai morto?
— Meu pai... — Suspirou. — Do seu belo caixão, poderia esclarecer que eu sou a herdeira de direito e afirmar que posso, como sua herdeira e filha legítima, fazer o que bem entender para proteger o legado da minha família. E você, Sr. Merlyn, é uma ameaça constante ao nome dos Fyers. Não vou conseguir corrigir os erros de meu querido pai e honrá-lo prosseguindo com essa aliança econômica. Afinal, é o senhor que precisa do dinheiro. Nós só recebíamos legitimidade e, de agora em diante, vou manter essa legitimidade por minha conta.
Se o que dizia era verdade, por enquanto, provado não poderia ser, mas ele optou por acreditar nas palavras tão poderosas.
— Ele faleceu... — Suspirou, imaginando que desculpa usaria. — Quando? Da última vez que o visitei, disseram-me que estava melhorando...
Era certeiro que o homem só perguntara para pensar e poder convencer a linda moça a sua frente que nada deveria mudar. Se precisasse barganhar, iria. Se precisasse matar e ameaçar, iria. Uma parceira de tamanha importância não sairia dessa forma, pois um contrato havia sido assinado e, da tinta de ônix, pouco poderia ser anulado. Não poderia arriscar que seu nome fosse citado na primeira página do jornal, anunciando os casos de corrupção e assassinatos.
— Pela madrugada... — Ela anunciou, mesmo sabendo de suas reais intenções e da verdade diante o familiar morto. — Creio que, com um simples telefonema, descobrirá o que aconteceu, mas poderá esperar pelo anúncio oficial de hoje à tarde. A maioria dos jornais ingleses cobrirá essa matéria, garanto que encontrará suas respostas facilmente. — Estreitou os olhos. — Se estivesse menos preocupado com o projeto nos Glades, saberia do ocorrido.
Levantando-se, a mulher mostrava estar de saída.
— Tenho um voo em uma hora e espero que estejamos acertados... Não posso me atrasar.
— Seu irmão... — Arqueou a sobrancelha. — Não seria ele o herdeiro de direito?
Ela travou o maxilar, fitando o empresário de maneira assassina.
— Perdi ambos.
O ricaço estreitou os olhos e preparava-se para falar quando o telefone começou a tocar.
— Com licença. — Deu um sorriso falso. — Sim? Ah, sim, obrigado.
Merlyn, então, abriu o e-mail e passou a analisar por cima várias informações sobre a jovem a sua frente. Havia solicitado uma pesquisa bem detalhada sobre ela assim que soube do helicóptero e, ali, a secretária acabara de avisar que alguns documentos estavam prontos e finalmente teria algumas respostas.
— Sr. Merlyn, creio que esteja ocupado, mas felizmente já estamos entendidos...
Ela fez menção de ir novamente, porém, foi impedida pelo empresário, o qual fazia de tudo para tê-la mais alguns minutos, somente como chances de dissuadi-la de seu plano.
— Srta. Fyers...
O tom de sua voz indicava que não poderia sair ainda e não estava nem um pouco abalado pela revelação do irmão da moça ter falecido. Não sentia qualquer pesar, a não ser pela possibilidade de sua ganância não ter um desfecho positivo.
— É de seu conhecimento que seu pai foi um dos grandes contribuidores do projeto? Ele aceitou na hora.
Uns segundos passaram até ela assentir.
— Então, fala de honrá-lo mesmo tendo fatos concretos de que seu desejo era ver minha ideia concluída com êxito? Quando, na realidade, deveria prosseguir com a opinião dele?
Ela enviou suas safiras ácidas ao ricaço, em uma mensagem subliminar.
— Vou corrigir os erros de meu pai. Um exemplo? Esse projeto insano. — Um pouco de raiva foi colocada em sua resposta. — Essa reunião acabou.
A mulher virou às costas, encaminhando-se para a porta de vidro.
— Pelo contrário, Srta. Fyers. Está só começando...
Antes de pisar no corredor, voltou-se ao executivo, que erguia o copo de uísque, saudando o início de uma nova era, em que ambos dobrariam a atenção um sobre o outro a fim de acabar logo com a acirrada disputa e os choques de interesses.
— Vou lhe dar um conselho. Um último conselho para o homem que destruiu minha família. — Ergueu o queixo em posição sábia e superior. — Vá se tratar com um psiquiatra porque só um deficiente mental elaboraria uma tese tão inapropriada, eloquente em sua própria loucura sobre os de mente inferior, usando como desculpa, como uma razão, melhorar essa cidade. Então, aconselho que procure ajuda. Estou há muito tempo vendo a sua situação gradativamente piorar e o senhor está chegando no limite.
A jovem, então, tentou seguir em direção à porta. Mais uma vez, porém, foi interrompida pelo executivo.
— Um jantar. La Tour D' Argent, às oito e meia. Mando um carro buscá-la.
— Eu já tenho uma reserva lá para esta noite. — Arqueou a sobrancelha, séria. — E é claro que já sabia disso.
— Podemos desfrutar de um bom vinho tinto, enquanto discutimos sobre...
— Não há mais nada para se discutir, Sr. Merlyn. — Cortou-o. — Prefiro passar esta noite a sós.
— Ora, minha reserva está feita também... — Sorriu de forma maldosa. — Acho que nos encontraremos lá, não é mesmo?
Ela engoliu em seco, temendo ser seguida por mercenários ou espiões, caso não aceitasse a oferta, ou até mesmo o real motivo de ir à Starling City ser descoberto, por isso, concordou, alertando:
— Não se atrase.
Por fim, passou pela porta, seguida por seus fiéis guardas. Teria um longo dia pela frente e uma noite também, pelo visto.
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