Bulimia
18 Capitulo 18 - Parte I
Notas iniciais
[“... Prefiro não pensar em nada por enquanto.”]
[Orihara Izaya]
[“Pensar dói. E é uma dor tão maldita que eu prefiro evitar. Quanto mais você pensa, mais se lembra de todas as merdas que fez e de todas as oportunidades que deixou passar. Pensar te faz raciocinar que algumas coisas poderiam ter sido melhores se você não houvesse estragado tudo com palavras ou atos. Dói e dói muito. É aquele tipo de dor que não te faz dormir direito a noite. E eu gosto de dormir.”]
[Heiwajima Shizuo]
[“Penso que o pai de Shinra gostaria de saber que dullahans podem sentir dor de cabeça apesar de suas cabeças estarem longe.”]
[Celty Sturluson]
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Apartamento de Kishitani Shinra
Ikebukuro
Kanto
Japão
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A primeira vez que Izaya abriu os olhos, o relógio marcava 10:08h da noite (não que ele estivesse lúcido o suficiente para saber disso). O sedativo administrado por Shinra parecia ter tido o efeito duplicado em seu organismo fragilizado. Não conseguiu manter-se “acordado” por mais de um minuto. Sua cabeça latejava e a visão embaçada não entrava em foco por mais que tentasse. Pensou estar sonhando, vultos dançavam em um fundo branco, seguidos por barulhos indefinidos.
A segunda vez que Izaya abriu os olhos, o relógio marcava 00:17 da madrugada. Embora não houvesse vencido a sonolência, sua mente não estava mais um mingau de sentidos embaralhados. Conseguiu reconhecer o quarto e formar curtos pensamentos. Vendo-se sozinho e não tendo forças para chamar o médico, pôs-se a refletir. Sabia que não conseguiria ter a conversa que queria naquele estado débil. O informante cambaleava pela tênue linha da raiva e do medo. Por um lado, enraivecia-se de sua fraqueza, de sua estupidez. Por outro, amedrontava-se ao imaginar o futuro, as dores, a desesperança, a incapacidade e as desgraças que viriam. Caiu em um sono sem sonhos, agradecendo aos resquícios do medicamento por afastar os pesadelos antes de se entregar completamente a inconsciência.
A terceira vez que Izaya abriu os olhos, ele desejou não ter feito isso. O relógio marcava 09:52 da manhã. Demorou algum tempo até que seus olhos se acostumassem com a claridade. No entanto, muito antes de abrir os olhos, o tec-tec de teclas o havia alertado que não estava sozinho no quarto com nas últimas vezes. Não era preciso virar o rosto para saber quem estava ao seu lado. Amassou o lençol fino com a mão, debatendo se falaria ou não com a mulher. Ela ainda não havia notado que ele estava acordado. Lambeu os lábios secos, molhando-os com saliva espumada. O tec-tec parou.
[“Você está bem?”]
Arqueou a sobrancelha, sorrindo de maneira cínica. [“De todas as perguntas que você podia fazer, logo a mais idiota para a situação, Celty? Juro que te subestimei”], zombou. Abriu a boca para responde-la, porém, nem chegou a dizer um “ah”. Um poderoso ataque de tosse seca tomou conta de si, deixando-o quase sem respirar, trazendo lágrimas aos seus olhos como reflexo. Em questão de segundos, Celty estava ao seu lado, apoiando-o nos travesseiros. Respirou fundo, prendendo e soltando o ar apenas pelo nariz. Conseguiu recuperar a compostura.
“Minha garganta parece estar cheia de areia.” Murmurou com a voz áspera.
[“Vou buscar um pouco de água para você.”] O ser sobrenatural saiu do quarto. Suspirou, passando a mão pelo rosto. Estava cansando. Não em um nível físico, não, ele não se sentia cansado fisicamente, era algo mais... Mais profundo, mais de dentro. Uma sensação familiar. A última vez que ficou assim, tão desolado e sufocado, foi na época que Shizu-chan e ele ainda não namoravam. Na época do não-estou-nem-aí-com-o-que-acontece-comigo. Entretanto, a apatia (não conseguia imaginar outra palavra que pudesse descrever seu estado de espírito) estava bem mais forte do que antes. Apesar de ter reagido mal a notícia, negando-se a aceita-la, agora, podendo ser o efeito do remédio ou não, via que não tinha a menor ideia de como realmente se sentia perante a doença.
Triste? Zangado? Assustado? Resignado? ... Talvez, indiferente?
“Tomar água de barriga vazia faria você vomitar, então trouxe chá de gengibre. Esse chá ajuda a hidratar a garganta e é gostoso.” Shinra chegou segurando uma caneca verde. “Além disso, você deve estar com um gosto horrível na boca, né?” O informante aceitou a caneca, tomando um longo gole do líquido quente. Fitava o outro na expectativa de que ele começasse a falar o que viera falar. “Como está se sentindo?” O moreno mexeu-se na cama, ficando sentando com as costas eretas.
“Como você acha que eu estou me sentindo?” Respondeu com sarcasmo, colocando a caneca no criado-mudo. “Estou maravilhosamente bem! Não poderia estar melhor!” Sorriu vendo o homem de cabelos castanhos suspirar. Suas palavras aparentemente foram puro ácido para os ouvidos do recém-chegado. Não havia razão em despejar intolerância em cima do outro, pois a doença não sumiria daquela forma. Porém, o informante estava chateado com o outro por tê-lo deixado sozinho para lidar com a bagagem emocional que viera junto do diagnóstico. E por tê-lo sedado. Se bem que, graças ao sedativo, não precisou lidar muito tempo com o desespero. Bom, tanto faz. Estava zangando e ponto final. Ou não. Droga, ao que tudo indica, seu cérebro ainda está um mingau.
[“Que tipo de resposta idiota é essa? Você está sendo infantil! E rude!”]”] A mulher sem cabeça entrou no quarto a tempo de escutar a resposta maldosa do namorado do melhor amigo. [“Não aja dessa maneira, é ridículo.”]
“Relaxe, Celty, ele nunca foi uma daquelas pessoas que acorda de bom-humor pela manhã.” Shinra tentou apaziguar, colocando as mãos na frente de corpo. Se a Dullahan pudesse, ela teria revirado os olhos para a desculpa esfarrapada.
“Oh? Eu? Infantil? Como assim? Só estava falando sobre a minha garganta. Lembra que ela estava arenosa? Agora ela está de volta ao seu estado normal.” O ser humano de cabelos negros respondeu com cinismo. “Como disse antes, não poderia estar melhor!”
“Viu? Graças ao chá.” O dono do apartamento rebateu com tom de zombaria. Orihara revirou os olhos, recostando-se nos travesseiros. “Conte-me a verdade.” Kishitani tornou-se sério. Qualquer traço de brincadeira foi apagado de seu rosto. Izaya espelhou a expressão. “Como você está se sentindo, Izaya? Eu preciso saber, é importante. Alguma dor em algum canto? Tontura? Náusea? Desconforto? Seu organismo está fraco, e enquanto eu não puder fazer os exames necessários, tenho que confiar e usar tudo que você me disser. Preciso saber se você está bem.” A última parte deixou visível a apreensão existente.
“Eu estou com câncer, Shinra.” Havia algo na voz do paciente que fez o médico arquear a sobrancelha. Ou melhor, faltava algo na voz do paciente. Diferente de alguns minutos atrás, não existia acidez no tom, nem sarcasmo, muito menos zombaria, só... Na verdade, não existia nada que denunciasse os reais sentimentos de Izaya referentes ao diagnóstico. Óbvio que, com o trabalho dele, acostumou-se a mascarar os verdadeiros pensamentos, no entanto, nunca antes escutara palavras tão pesadas ditas de um jeito tão sem emoção. Era claro como dia que seu amigo de infância não utilizava máscara alguma no momento. Alguma coisa errada acontecera dentro daquela mente já perturbada no tempo em que ficou sozinho. Provavelmente. “Perguntar se estou bem é pura burrice. Sem falar que é irritante ao extremo. Mas sei que vocês querem uma resposta, então, sim, estou sentindo tudo que você citou, Shinra, e mais um pouco. Me sinto destruído.” Voltou a sorrir. A malícia em seus lábios não chegou em seus olhos. “Satisfeitos agora? Era essa a resposta que desejavam?”
[“Nós sentimos muito.”] A mulher mostrou-lhe a tela do PDA. [“Entenda que não estamos satisfeitos com a sua dor, muito pelo contrário, estamos tristes por causa dela. Quer queira, quer não, somos seus amigos, buscamos seu bem-estar.”]
“...Izaya...”
“Quando vou poder voltar para casa?” Cortou a fala do homem de jaleco. “Hoje? Amanhã? Depois de amanhã? Daqui a uma semana? Duas? Meu estado ainda não é crítico, não é?” A pergunta soou mais como uma afirmação que precisa ser confirmada do que como curiosidade. Shinra ajeitou os óculos. Não queria ter aquela conversa agora. O estresse que ela implicava trazer afetaria negativamente o paciente. Em especial, alguém como Orihara Izaya, que, com certeza, não lidaria nada bem com as informações. Decidiu dar uma versão resumida, assim como fez com sua amada.
“Você vai precisar realizar uma série de exames para detectar o estágio do câncer. E depois de detectar qual é o estágio, o segundo passo é detectar mais um quinhão de coisas que serão cruciais para o seu tratamento. Você pode ser liberado ainda hoje. De noite, talvez. Não possuo recursos para estes exames, então, está subentendido que terá que fazê-los em uma clínica. Se subterrânea ou não, é da sua escolha e somente. Sei que irá em busca dos melhores profissionais estejam eles onde estiverem. Tudo que te peço é os resultados.” Colocou as mãos nos bolsos do jaleco.
“O que faria com eles?” O infame corretor de informações fitou o amigo com desconfiança. Estranhou o pedido, pois, aos seus olhos, não havia muito sentido nele. O que o outro faria com os papéis? “Acho que eles não te serviriam para nada. Você não é de mexer com doenças graves.”
“Realmente não sou de estudar ou de lidar profundamente com doenças graves. Um clínico especializado é exatamente a quem você deve e vai recorrer de imediato após receber os exames. Porém, eu gostaria muito de receber essas cópias. É um interesse pessoal.” Orihara mantinha a expressão não vou concordar com nada se não me convencer com argumentos sólidos. Shinra deu-se por vencido. Não havia outra escapatória se não contar a verdade. “Quero acompanhar seu tratamento. Apesar de não poder fazer muitas coisas a respeito.”
“Ainda tenho esperanças que seja uma brincadeira de mau-gosto. Ou que o caso não seja assim tão... Que o caso não seja terminal.” Nenhum dos dois em pé retorquiu o comentário. Ele suspirou de forma dramática, sorrindo. “A esperança é a última que morre.” Gesticulou com as mãos teatralmente. “A esperança é sempre a última que morre.” [“A esperança é a última que morre por que é bem mais fácil se envenenar com mentiras do que aceitar a verdade. Esperança foi o nome dado ao egoísmo em sua forma mais pura. Os seres humanos desejam a todo custo que tudo saia como o planejado, mesmo quando está óbvio que não existem meios possíveis, então depositam sua fé em uma expectativa falsa. O ser humano se engana e tenta enganar os demais humanos ao redor. É patético. É patético e fascinante. Sim, fascinante.”]
[“É provável que o estágio do câncer não seja tão avançado. É possível que existam meios de revertê-lo. Eu prefiro pensar assim, sabe? Ser negativa neste momento multiplicaria a dor.”] A irlandesa, apesar de ser um monstro, se mostrava tão humana quanto sempre. Lutou contra a vontade de bufar ao ler. Então não precisava se iludir, alguém já estava fazendo isso por ele. E falando em monstro... Onde estaria Shizu-chan agora? Trabalhando? Esperando do lado de fora do quarto? Fumando e praguejando enquanto caminha pela rua? Contando sobre como sua vida estava um inferno por causa de um namorado problemático como ele para Tom-san? Dormindo? Aliás, por que estava tão preocupado com aquele bruto quando o único com problemas era ele? Foi arrancado de seus devaneios ao som da voz alegre do médico subterrâneo. Voz alegre que de tão alegre soava falsa.
“Não sei se está falando sério ou não sobre ter esperanças, então, err, nós teremos por você, ok? Daí você fica só com a parte racional de procurar as soluções certas para a doença.” Uma das duas maiores lendas vivas de Ikebukuro (visto que Celty não poderia ser considerada viva) gargalhou, não conseguindo se conter diante de tamanha bobagem (embora as demonstrações de carinho estivessem sendo gravadas com fogo no fundo de sua mente). Alguma coisa deve ter entregado seus sentimentos conflituosos de escárnio e afeto, visto que não foi repreendido. Seu riso exagerado cessou em instantes.
“Algum de vocês têm mais alguma coisa para falar? Estou com fome, e se não for muito incômodo, adoraria comer sushi. De preferência, ootoro.” Travou os olhos vermelhos com os castanhos. “Sushi não faz mal, faz?”
“Em pequenas quantidades, não. Quer que eu ligue para o Sushi Russo?”
[“Tenho uma entrega para fazer naquela região. É um trabalho bem rápido. Na volta, poderia trazer o sushi. Pode ser?”] O dono do apartamento soltou um Anw, minha amada Celty é tão prestativa! Que mulher maravilhosa! e recebeu como resposta um tabefe na nuca. A motoqueira negra se despediu e saiu do quarto para ir fazer sua entrega, prometendo trazer o sushi quando voltasse. Um silêncio estranho se instalou entre os homens. Assim como uma leve tensão. O moreno tamborilava os dedos sobre a coxa.
“Pergunte, Izaya.”
“Oh? Por que acha que eu vou te fazer uma pergunta?”
“Sua fome foi só uma desculpa para me deixar a sós com você, não foi?”
“Em parte.” Deu de ombros. “Realmente estou com fome.”
“Então admite que foi uma desculpa ainda que em parte.”
“Nunca neguei que fosse.” Usou seu sorriso de assinatura. “Só questionei essa sua certeza ao mandar-me perguntar.”
“Pergunte, Izaya.” A firmeza na face e no tom de voz do médico fez o paciente largar sua fachada atrevida. Desviando o olhar momentaneamente para as mãos (trêmulas), lutou contra a vontade de morder o lábio enquanto ponderava se deveria ou não acatar a ordem. Por um lado, poderia muito bem descobrir sozinho, por outro, temia a própria vulnerabilidade se a sua descoberta confirmasse seus medos. O homem de cabelos castanhos esperava pacientemente o resultado do debate mental. Por fim, pondo uma máscara de desinteresse no rosto, Orihara soltou a dúvida que roía seu cérebro.
“Você contou?” Não era realmente de grande importância. Idiotice ficar nervoso. E daí se ele soubesse? Pelo engasgo de Kishitani, não seria necessário complementar a frase. Não seria necessário dizer Você contou para o Shizu-chan sobre a minha condição?, pois estava claro a quem se referia. Seus dedos inquietos batiam ritmicamente contra a carne de sua coxa. Para que uma demora tão grande em uma questão que poderia ser respondida com sim ou com não?! Abriu a boca para exigir um revide, mas não chegou a pronunciar uma silaba.
“Não, não contei.” Shinra sustentou o olhar fixo dos orbes escarlates. “Não me achei no direito de contar nada a ele. Além disso, essa responsabilidade não é minha.”
“Hmmm.” Cantarolou o paciente. A responsabilidade de contar ao protozoário sobre o câncer pertencia a ele, hein? Como namorados, esperava-se o nascimento de um certo nível de confiança mútua, visto que em toda relação saudável, a base era construída com ela. Confiar em alguém implica diretamente na revelação de segredos. Shizuo não é um homem de segredos. Izaya não é um homem de explanar (seus) segredos. E a relação deles não é saudável. Se possível o coletor de informações manteria a bactéria no escuro até o último momento. “Fez bem em não contar.”
“Palpitei que você não gostaria que ele soubesse.” Izaya surpreendeu-se com a forma como o médico acertara na mosca em seu palpite. “Embora ele deva.”
“Tch.”
“Sem tch para mim! Por que não abrir o jogo? Do que tem medo?” [“Do que eu tenho medo? Boa pergunta, Shinra, boa pergunta. Do que eu tenho medo? Por que eu tenho medo? O que aconteceria se o Shizu-chan soubesse?”] Honestamente não fazia ideia de como o loiro agiria se soubesse da doença. O monstro de Ikebukuro não era outra coisa senão imprevisível. Poderia esperar-se de tudo vindo dele. A realização acertou-o em cheio. [“E-eu tenho medo... Do Shizu-chan ter pena de mim?!”]
“Eu não tenho medo.” Meneou a cabeça. “Só acho que não adianta fazer alarde sendo que ainda não se tem nada definido. E se o estágio da doença não for tão avançado? Preocupá-lo à toa? Nha.” Falou com desdém. O homem de óculos não pareceu convencido.
“Faça como bem entender.”
“É o intuito.”
Fim da Parte I
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