Bulimia
19 Capitulo 18 - Parte II
Notas iniciais
[“Bons conselhos vêm daqueles que não sabem cuidar de suas próprias vidas. Eu não quero conselhos, conheço todos de cor, muito menos palavras de apoio, por que a pena disfarçada em cada sílaba me deixa doente"]
[Orihara Izaya]
[“Se eu soubesse que ser um humano normal significava ser impotente frente aos desafios, jamais desejaria tão ardentemente ser um. Minha força não é nada senão uma maldição, porém, maldição maior é não poder ajudá–lo no momento em que mais precisa. Me sinto fraco e isso me assusta”]
[Heiwajima Shizuo]
[“Uma criatura mágica não os amedronta, mas a possibilidade da morte de um deles, sim. Creio que nunca entenderei suas formas peculiares de ver o mundo”]
[Celty Sturluson]
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Ikebukuro
Kanto
Japão
Três semanas depois
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Três meses se passaram após a recaída de Izaya e nada havia mudado desde então; Heiwajima continuava no escuro. Hmm, mais ou menos. Ele suspeitava que algo de ruim (envolvendo a pulga) piorava a cada respiração que dava. O sentimento de frustração preenchia seu peito de forma periódica. Do início da noite ao início do amanhecer. Embora não fosse de seu feitio refletir tanto sobre um determinado assunto – odiava a dor de cabeça que vinha anexada a pensar demais – desconhecer a doença do moreno fazia com que desperdiçasse horas e horas (não consecutivas, pois se irritava fácil) tentando achar pistas.
Não adiantava o quanto o maldito informante tentasse esconder, o cheiro característico dos hospitais impregnado em suas roupas e em sua pele entregava metade da história que ele não queria contar. Em sua forma simplista de analisar as diversas situações da vida, Shizuo tinha para si que se alguém adoecesse, a primeira opção seria consultar um médico. Levando para o caso Heiwajima-Orihara: A primeira opção seria visitar Shinra; A segunda opção seria pedir ajuda a alguém de confiança [ele recorria a Tom-san ou Celty {no desespero, Kasuka} e Izaya recorria a Izaya {por que ele não confiava em mais ninguém, se Shinra não resolvesse, resolveria sozinho}]; E já não tendo a quem recorrer, a terceira opção seria o hospital.
E hospital significava coisa séria.
Coisa séria pra caralho.
O cobrador de dívidas ficou pra lá de chateado ao concluir que o desgraçado recorrera – secretamente – a terceira opção. Não que ele esperasse qualquer sinal de confiança da parte do parasita (seu nível de estupidez não é tão alto), porém, ainda assim, cultivava um pouco de esperança tendo referência na proximidade que alcançaram nos últimos meses. Tch! Já devia saber que estava se iludindo! Pelo amor dos céus, eles eram ex-inimigos! Anos e anos de tentativas falhas de homicídio não seriam apagados de uma hora para outra. Não era preciso refletir muito para perceber o óbvio; Nenhum deles conseguiriam confiar da noite para o dia em alguém que até pouco tempo atrás desejava seu óbito!
(Não valia a pena criar esperanças ou planos que envolvessem coisas boas em sua vida; um relacionamento comum estava além dos seus limites. O destino é simplesmente filho da puta demais para permitir-lhe felicidade plena).
Retirou o isqueiro e um cigarro do bolso. Encostado em uma árvore, observando a fluidez caótica dos transeuntes, aproveitava a pausa do almoço para torrar alguns neurônios. E fumar. Principalmente para fumar. Nos últimos dias, sua principal atividade era afundar-se em um mar de fumaça tóxica. Tom-san repreendera seu consumo excessivo naquela manhã. Em respeito ao senpai, escutou a extensa palestra sobre os malefícios do exagero. Escutar não significa prestar atenção. As palavras entraram em um ouvido e saíram em outro.
Não negava que a falta de respeito com o mais velho ao ignorá-lo contradizia sua ação de despeito ao escutá-lo sem fazer comentários. Envergonhou-se da hipocrisia, pediria desculpas em uma situação oportuna. Tragou o cigarro. Ora, nada podia fazer, nicotina acalmava seus nervos! Heh! Shizuo sabia que não existia mais nenhum maldito osso ou músculo em seu corpo que já não sofrera dano, sinceramente, mesmo alguns órgãos já haviam sido afetados em suas brigas passadas, por que, então, ter que se preocupar com câncer no pulmão? Doenças normais não afetavam o fortíssimo de Ikebukuro!
... Se bem que câncer não é uma doença normal...
Voltando ao assunto principal: seu namorado (?!) [que termo estranho para se usar com o filho da puta] estava muito fodi-... Debilitado. Ou algo assim. Era a única explicação plausível para que ele buscasse outras fontes de ajuda que não fossem seu amigo de longa data. Kishitani cuidava de tudo que envolvesse os dois lendários da cidade, até retirava as balas dos ferimentos, ele não estar à frente dessas visitas constantes do parasita ao hospital significava que a doença (ou o que quer que fosse) precisava ser tratada por especialistas.
Desconhecer a gravidade do possível problema de saúde de Orihara causava-lhe irritação, chateava-se com os segredinhos desnecessários, meio que ficava ultra-tenso, frustrado, sei lá. No sentido de "olha-não-sei-bem-como-descrever-minhas-emoções-vamos-falar-essas-coisas-por-falta-de-palavras-melhores". Colocando cada peça em seu devido lugar no tabuleiro, verdade seja dita, o homem de olhos vermelhos poderia estar à beira da morte e jamais abriria a boca para dizer um AI perto dele!
{Sentiu como se cubos de gelo deslizassem por sua coluna com o pensamento}
Antes de tanta especulação, o loiro encuralou o informante e exigiu respostas. Perguntou as razões por trás do comportamento estranho (não tocando no assunto do cheiro, pois era seu trunfo). O mimimi odeio demonstrar fraqueza mimimi não vamos falar disso, me deixa em paz mimimi você não entenderia mimimi era insuportável, daí, preferia não insistir no assunto. Não que Izaya seja mimizento, longe disso, se há algo que o desgraçado não é, é mimizento! Ainda assim, em alguns momentos, dramático torna-se um termo insuficiente para descrevê-lo.
Shizuo jura de pés juntos que procura entender – ao menos – parte dos dramas (internos e externos) e das filosofias distorcidas do outro. É como fazer um dos doze trabalhos impossíveis daquele ocidental lá... Her-alguma-coisa. Herman, talvez? Foda-se! Nem é Herman, é He-man! Tanto faz, ninguém é obrigado a lembrar o nome de gente de época antiga, não é?!
Enfim, como se não bastasse o restante das suas frustrações, outra é adicionada na lista a cada tentativa de entender o parasita, pois sabe que falha todas as vezes que tenta, conhece as limitações da própria paciência. Seu ex-inimigo tem o dom de desgastar até mesmo a reserva da reserva da reserva de calma que costuma guardar no interior do interior do interior do coração. Tanto esforço para entendê-lo e tudo jogado no lixo!
O miserável zomba e afirma uma e outra vez que um “ser unicelular” não é capaz de entender um [/risca/] Deus [/risca/] cara como ele. Revirou os olhos ao lembrar que aquele foi um argumento usado na última discussão que tiveram (três horas e alguns minutos atrás). Consultou o horário pelo celular, faltava pouco até Tom-san terminar de almoçar. Um garoto – não mais que dez anos de idade– passou perto deles trajando um casaco que lembrava muito o de Izaya, exceto por suas cores. O casaco do menino era rosa e branco em vez de preto e bege (aqueles pêlos eram bege, certo?) clássicos da pulga. Além disso, headphones pink-neon não faziam o estilo "monocromático" do adulto.
Tão distraído com a visão da criança de rosa (por que, pelos céus, o pirralho parecia uma miniatura do informante!) demorou a notar a moto negra parada a uma distância razoável dali, sob uma outra árvore. A mulher acabou por notá-lo no mesmo instante. Celty acenou. Pediu licença ao senpai, dirigindo-se até a amiga a passos largos.
"Hey!"
[" Yo! ( ≧∀≦)ノ"]
"Você parece animada hoje, aconteceu alguma coisa legal?'
["Huh? Não, não, nada fora do normal! ( ・_ゝ・)"]
"Tem certeza? Você tá usando essa coisinha estranha no fim das frases. Pensei que estivesse animada, feliz, sei lá."
["Coisinha estranha? (。–ω-) O emojin? ( ゚ェ゚) Aaaah, foi mal, é que eu descobri esses emojins no teclado agora a pouco e quis testá-los. (* ̄▽ ̄)ノMe sinto mais expressiva com essas carinhas pré-formadas! (*^▽^)/★*☆]
Nenhum dos dois soube como continuar a conversa. Embora não quisessem admitir, no momento em que a Dullahan negou-se a divulgar qualquer informação sobre o segredo/doença do homem de olhos vermelhos, sua amizade ganhou um aspecto ligeiramente tenso. Pairava sobre eles um sentimento de cautela que nunca existiu antes. Durante os segundos que se passaram, a mulher não soltou o guidom da moto, como se estivesse preparada para fugir tão logo Shizuo tentasse interrogá-la. E, acredite, o olhar em seu rosto dava dicas de sua luta mental quanto as perguntas referentes a Izaya que machucavam sua língua.
"Ei, Celt-..."
["O que Izaya está fazendo conosco é errado, Shizuo, mas não adianta insistir, nós (dois) sabemos como aquele & é escorregadio quando quer ser. Na verdade, nem posso usar "nós" ou "conosco", não é justo, é "você" e "Shinra". O correto seria dizer /O que Izaya está fazendo com ambos é errado, Shizuo, mas nós (três) sabemos como ele é escorregadio quando quer/. Me incluí nas duas vezes porque (querendo ou não) acabei me metendo nesta bagunça que é conviver com Orihara Izaya. Apesar do meu único envolvimento nisso tudo se dar por causa da amizade entre Shinra e ele e do (atual/recente) namoro de vocês, acredito que divido alguns temores e preocupações. Diferente de vocês, que foram colegas de classe (e {ex} arqui-inimigo, no seu caso), não há nenhum laço (forte) que me prenda a ele... Sendo sincera, nem sei se podemos nos considerar amigos (embora eu frequentemente insista na ideia). Izaya e eu compartilhamos o que os outros chamam de "convivência pacífica"."] Os dedos dela deslizavam pelo teclado como patinadores profissionais em uma corrida. ["O que eu estou querendo dizer é que Izaya está prejudicando aqueles que querem ajudá-lo! E, como se não bastasse, está prejudicando a si mesmo no processo!"] Heiwajima não conseguia acompanhar a rapidez da digitação da Dullahan. Quando terminava de ler uma palavra, ela já havia digitado outras sete. Perguntou-se se era alguma habilidade especial da criatura mágica. ["É difícil aguentar todo mundo sofrendo assim! (´ロ`ノ)ノ Shinra agora vive com a cara enfiada em livros de medicina, você parece ter dobrado sua cota diária de cigarros, Izaya emagreceu além do limite do aceitável (você tem supervisionado a rotina alimentar dele nos últimos dias?)... Ele beira a um esqueleto ambulante, Shizuo! "]
"Então quer dizer que você também percebeu?" O comentário escapuliu de sua boca antes que pudesse sequer pensar em evitá-lo. Embora as visitas à Shinjuku diminuíram graças a determinação do outro de ocultar seja-lá-o-que-quisesse-ocultar, o cobrador de dívidas percebera a lenta degradação que o corpo do corretor de informações enfrentava nas escassas vezes que conseguia um vislumbre dele no meio das ruas.
["E tem como ignorar ou não perceber? (。–`へ´-。)"] Estalou a língua em irritação. O ser sobrenatural tinha razão, a probabilidade de não notar aquela mudança externa era mínima. Mexeu os dedos dos pés, dobrando-os e desdobrando-os, para controlar o desejo de caçar o homem de olhos vermelhos e forçá-lo a contar cada detalhe das merdas que estavam acontecendo.
"Não, não tem." Murmurou ao jogar a bituca do cigarro na lixeira. "Acho que vou enlouquecer de vez! Só consigo pensar na minha incapacidade de alcançá-lo, de entendê-lo, aaarght, de arrancar dele a verdade, enfim, só consigo pensar nele! Odeio essa sensação de sufoco!"
["É esse tipo de coisa que causa em ambos uma espécie de dupla preocupação, certo? Estar sempre em estado de alerta devido as bobagens de Izaya e lidar com os próprios medos e dúvidas... Tudo ao mesmo tempo... É uma sobrecarga tremenda! Eu não gosto disso! Não gosto do rumo que esta história está tomando, algo me diz que isso não vai acabar bem, sabe? Me sinto confusa e acho que nada do que estou falando faz sentido realmente. (。>д<)"]
"Nada nunca acaba bem quando o parasita está metido no meio! É uma lei do universo!" Shizuo tragou o cigarro, absorvendo a nicotina. Jamais imaginou ter que explanar o óbvio para a amiga. "Pensei que Shinra soubesse de tudo que está acontecendo, afinal, é mais fácil a pulga confiar nele do que em mim!" Sua voz saiu amarga. Não guardava rancor do médico, contudo, não conseguia deixar de lado o sentimento infantil — a inveja infundada — que tomava conta do coração quando lembrava que o namorado de Celty detinha mais informações sobre a situação do segundo lendário de Ikebukuro do que ele."Shinra parecia bem a par das coisas naquele dia..."
["Não é bem assim, Shizuo! (¬_¬) Ele não sabe de TUDO, ele estava par de GRANDE PARTE naquele dia, verdade, mas não de TUDO. O único que realmente sabe de tudo é o Izaya! Se Shinra soubesse de tudo, nós não estaríamos esta pilha de nervos <(`^´)>"]
"Por quê?"
["Por que seria fácil convencê-lo a me dar dicas sobre o assunto (*ゝω・)ノ"] O loiro quase rosnou em concordância. A digitação não parou, aparentemene a criatura mágica estava a fim de conversar. ["Shinra anda tão estressado ultimamente que até eu estou sendo afetada por suas oscilações de humor. Hoje, só pra você ter uma ideia, demorei alguns minutos para lembrar a localização deste prédio, estava focada no comportamento estranho dele esta manhã e me distraí!"]
O fortíssimo de Ikebukuro arregalou os olhos no momento em que leu sobre as alterações de comportamento do médico. O ex-colega de classe era alguém que disfarçava as emoções com maestria (talvez mais do que Orihara), então, se algo transparecera naquela máscara intransponível... Sua linha de pensamento foi cortada pelo PDA balançando em frente ao seu rosto.
["Detesto vê-lo agitado já que isso me deixa agitada também. Queria muito descobrir a razão de tanto estresse (mental), quem sabe eu não poderia ajudá-lo? Mesmo que apenas um pouquinho..."]
"Você não sabe? Nem desconfia do que pode ser? Tem certeza?" Dificilmente a Dullahan mentiria para ele, confiava na amiga de longa data, ainda assim, seus instintos alertavam-no que haviam fatos que ela ocultava em suas palavras. "Nada? Nenhum chute?"
["Izaya não permitiu que ele me informasse sobre o assunto, nem mesmo uma mínima dicazinha (ーー;)”] Pausa. ["Juro que se eu soubesse de algo te contava na hora, acredito firmemente que se existe alguém que NECESSITA e DEVE estar por dentro dessa história do início ao fim este alguém é você!"]
Não era expert em ler as pessoas como se fossem livros de criança (capacidade reservada somente para "os mais dotados" como a praga dizia), entretanto, após anos e anos convivendo com o casal, achava meio difícil acreditar que o médico não dera um pio sobre o assunto com a namorada. Lutou contra a vontade de fumar outro cigarro, preferindo abrir e fechar os punhos para controlar a chateação. Caso ela estivesse REALMENTE mentindo de forma descarada -assim ele suspeita- a situação é tão fodida que a verdade poderia deixá-lo descontrolado. Ou algo parecido.
"Shizuo!" Tom chamou seu nome a distância, acenando. "Está na hora de voltar!" Heiwajima suspirou, despedindo-se da amiga.
["Cuide-se (⌒ー⌒)!"] O loiro duvidava que aquela carinha esquisita substituísse a possível expressão fácil do ser fantástico. Voltou para o lado do senpai, metendo as mãos nos bolsos. Conversando com Celty percebera que estava usando métodos errados, falando com as pessoas erradas, em horas inoportunas, deixando-se levar pelas provocações ou pelos excessos de confiança, enfim, fazendo tudo de um modo idiota que não iria gerar resultados de jeito nenhum.
Contudo, para a sua felicidade, o rosto de alguém materializou-se no fundo de sua mente. Seria o inconsciente dando-lhe uma colher de chá? Ha-ha, claro que não! Hmmm, quem sabe? Até que podia ser, hein?! Fechou os olhos por alguns breves segundos, focando na imagem em seu cérebro. Esquecera o nome da pessoa, mas lembrava com clareza sua localização "semi-fixa" e seus horários de trabalho. Terminando o serviço, passaria por lá (apesar de não ser mais tão bem-vindo) e escutaria qualquer merda se isso significasse sair desse poço de ignorância que o forçaram a permanecer dentro.
Tanaka estremeceu ao olhar para o kouhai e vê-lo sorrindo como um predador. Shizuo não chegou a perceber seu rosto contorcido em uma expressão animalesca tão mergulhado no orgulho de ter tido uma boa ideia. A tal pessoa não negaria uma chance de ferrar Izaya, negaria?
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Shinjuku
Kanto
Japão
Apartamento de Orihara Izaya
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"Namie-saaaaan ~ ♪" Orihara Izaya girava sem parar em sua cadeira giratória como se fosse uma criancinha de sete anos. A mulher de longos cabelos castanhos deu-lhe um olhar enojado, jogando a sacola plástica em cima do birô. Variados tipos de remédio espalharam-se pela superfície de madeira. O informante parou de rodar como um pião, observando as embalagens. "Hmm, tão rude!"
"Você não merece minha educação." A secretária respondeu, revirando os olhos. O dono do apartamento riu, recolhendo as caixinhas de papelão de cima dos seus papéis. "Espero que morra de uma vez!" Ela resmungou sem dar a mínima se era ouvida ou não.
"Você está tão chata hoje, Na-mi-e-saaan ~♪" Orihara rebateu, apoiando a bochecha na palma da mão. "Teve um dia ruim? Vamos, desabafo comigo, diga-me o porquê deste mau-humor ~♪"
"Olhar para você estraga meu dia por inteiro." Ela respondeu sem dó. "E a causa do meu mau-humor não poderia ser mais óbvio, é a sua existência! Aaah, nem se atreva a abrir a boca para fazer gracinhas, engula logo essas porcarias."
"Faaaaalta água ~♪"
"Pare de falar cantando, me dá nos nervos." Namie cruzou os braços, zombando. "Levante-se e vá pegar!"
"Você é tão malvada! Como espera que eu tome meus remédios sem um copo de água? Eu poderia engasgar e morrer! Não posso me levantar, estou tonto de tanto rodar! Eii, Namie-san, você comprou tudo?"
"Fala isso como se eu me importasse com a sua vida. Tá, tá, eu vou buscar o maldito copo de água! E sim, comprei tudo que estava no receituário médico. Aaah, a propósito, você está bem ferrado, hein?" Não freiou o comentário maldoso, sorrindo de canto. Seu contratante não conseguiu ver o sorrisinho, mas percebeu-o no tom de voz. Resolveu ignorar a última frase, ou melhor, tudo que a outra falara. Com a seriedade estampada no rosto, analisou os medicamentos um por um.
Antibióticos. Antioxidantes. Vitamina C. Betacaroteno. Vitamina E.
Com uma rápida pesquisada no smartphone, descobriu que um ou dois daqueles eram conseguidos somente por médicos licenciados. Arqueou a sobrancelha, achando a realização divertida, afinal, tanto escândalo, tanta insistência em afirmar seu ódio diariamente, tantas observações venenosas, tantos xingamentos, e, mesmo assim, a mulher usara seus contatos no submundo para conseguir cada item da lista. Não confiando totalmente no pedaço de papel, nem nas drogas sobre o birô, pois conseguiu o receituário médico de uma clínica de fachada feito por um dos médicos importantes da parte "estragada" do Japão, foi lendo na internet e nas bulas para quê serviam, quais os efeitos colaterais, quando tomar, de quantas e quantas horas e blah-blah-blah.
"Aaah..." Mordeu o lábio. "Que dor!" Agarrou a barriga, sucumbindo a dor. Recentemente, as pontadas em seu estômago pioraram, tornando-se uma ardência insuportável. Essa sensação de ser pinicado por centenas de espinhos na parede do órgão era antiga, nunca deu devida atenção, pensando se tratar de um leve desconforto por passar tempos e tempos sem engolir alimentos sólidos. Ele não costumava sentir isso com frequência antes, porém, no fim da segunda semana após descobrir sobre o câncer, as incidências de problemas estomacais preencheram sua agenda. Além do aumento da recorrência de vômitos com sangue, problemas para comer e perca exagerada de peso. "Ai, ai, ai, ai!"
"Doendo?" Não respondeu a provocação, nem chegou a olhar para a cara da secretária, agarrou o copo com água oferecido e engoliu o conteúdo com um comprimido que Shinra indicara para momentos como este. Puta merda, estava ferrado, hein? Muito, muito, muito ferrado!
Fim da Parte II
Continua
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