Bulimia
15 Capitulo 15
Notas iniciais
[“Tudo se torna mais real quando você escreve sabendo do que está falando. A dor se torna mais descritiva por que você sabe como ela é.”]
[Orihara Izaya]
[“Por que você tem que ser tão malditamente complicado?”]
[Heiwajima Shizuo]
–-------------------
Apartamento de Orihara Izaya
Shinjuku
Kanto
Japão
–------------------------
“Não vou ler mais nada disso!” Decidiu-se, levantando da cama. “Para o inferno com essa melancolia!” Falou da boca para fora e sabia bem. Havia se levantando da cama e caminhava para fora do quarto... mantendo o celular na mão sem fechar a aba do texto. Não havia chances de estar falando sério sobre deixar a melancolia de lado quando nem sequer conseguia ignorar a fonte dela.
(Nossa, ele precisava de um banho urgentemente! O cheiro do monstro estava sobre todo o seu ser.)
Limpou as lágrimas que se acumularam no canto dos olhos. Fazia meses desde a última vez que se sentira tão miserável. O moreno de orbes escarlates se sentia tão amaldiçoado quanto Sísifo; tendo como única diferença a pedra.* Em vez de carregar uma pedra nas costas até o topo da montanha, Izaya empurrava seus sentimentos montanha à baixo apenas para que eles retornassem ao topo num piscar de olhos.
Tanto esforço por nada.
Estar com Shizuo trouxera uma falsa sensação de alívio apesar de todas as brigas que lhes eram características. O informante fingira com facilidade que tudo estava “bem” e a tática vinha dando certo até então. Vinha do verbo Vir conjugado no Pretérito imperfeito do Indicativo, mais conhecido como “Tudo-estava-desandando-e-ele-não-conseguia-mais-manter-a-farsa”. As consequências de anos indo no fluxo do distúrbio alimentar estavam começando a interferir no seu dia-a-dia... Por mais que ele odiasse admitir, era infrutífero ficar adiando o inevitável, ele teria que procurar Shinra mais cedo ou mais tarde e, eer, bom, obter um check-up.
No reles pensamento do check-up, sentiu o estômago embrulhar. Seu corpo já apresentava “sérias complicações” desde o fim do ensino médio, no entanto, como elas nunca haviam interferido diretamente no seu trabalho, nem na sua aparência, Orihara as jogava para escanteio. E agora já era tarde demais para voltar a trás. E agora já era tarde demais para reverter. E agora já era tarde demais para correr atrás do prejuízo.
A dura realidade havia imposto duas escolhas a ele; 1. Ou ele começava a cuidar do próprio corpo e seguia vivo com seu amor pelos seres humanos. 2. Ou ele deixava tudo como estava e morria pateticamente levando seu amor aos seres humanos para o túmulo. A segunda escolha ia contra tudo o que ele planejava e planejou. Jamais deixaria a bulimia derrubá-lo do trono que ele construiu para si.
Orihara Izaya gostava de coisas, situações e pessoas imprevisíveis desde que ele mantivesse o poder apesar das surpresas. Infelizmente isso não estava acontecendo com essa... doença. E diferente do seu amor ex-unilateral pelo ser unicelular que agora babava em seu travesseiro, ela realmente possuía chances de mata-lo. E o moreno só contribuía para que isso acontecesse. Izaya tinha que detê-la o mais rápido possível, não pelo medo de morrer, mas pelo medo de não concluir seus objetivos a tempo.
“Que inferno.” Apoiou-se na parede da cozinha, fechando os olhos por um minuto. Sua carne machucada não parava de doer. Antigamente era mais fácil superar esses “pequenos incidentes” no trabalho. O coletor de informações enfraquecia a cada hora que se passava. Intolerância ao frio, fadiga, dor abdominal, apatia, letargia e dificuldade de concentração encabeçavam a lista de problemas que estavam se sobrepondo. Seu corpo se acostumara com o mínimo do mínimo, ser forçado a ingerir tanta comida em poucos intervalos de tempo não o ajudavam em nada. Aliás, ele estava com fome.
O celular vibrou em sua mão, assustando-o momentaneamente.
“Hã? Ah.” Ele havia logado na sala de chat quando acordara e esquecera disso. Quando entrou, ninguém estava online para conversar, por isso acabou deixando a mente vagar e... Ah, olha, gente interessante no chat.
–-----------X-----------------
Sala de chat.
*Taro Tanaka está on*
Taro Tanaka: Olá!
* Setton está on*
*Saika está on*
Kanra: Boa tarde! C:
Saika: Bom tarde.
Setton: Boa tarde a todos.
Kanra: Estou entediada :c
Setton: Eu também.
*Bakyura está on*
Bakyura: Olá! :D
Kanra: Boa tarde, Bakyura-kun.
Bakyura: ... Morra.
Taro Tanaka: Boa tarde.
Bakyura: Boa tarde!
Kanra: Aaaaanw, Bakyura-kun não gosta de mim. ;w;
Bakyura: Ninguém gosta.
Kanra: Aposto que existem pessoas que gostam de mim!
Bakyura: Tá apostando errado.
Taro Tanaka: Parem de discutir!
Kanra: Não estamos discutindo. ;3; Bakyura-kun só está sendo idiota.
Bakyura: Morra.²
Saika: Falando em apostas, uma coisa que aconteceu hoje na cidade gerou algumas..
Saika: Houve um acidente hoje na cidade.
Kanra: Que acidente?
Bakyura: Que acidente?
Setton: Que acidente?
Taro Tanaka: Que acidente?
Saika: N-ninguém sabe se fo-foi acidente mesmo ou briga de gangues..
Saika: Encontraram alguns caras de terno espancados perto da antiga fábrica.
Saika: Estão dizendo que o fortíssimo de Ikebukuro estava envolvido..
Taro Tanaka: Aaah! Eu sei sobre isso!
Taro Tanaka: As pessoas da minha sala estavam comentando. O motoqueiro negro também estava envolvido.
Kanra: Só eles?
Setton: E o quê mais?
Saika: Ninguém sabe de nada. Tem gente fazendo aposta por aí.
Kanra: Que tipo de aposta?
Taro Tanaka: Eu ouvi falar que Orihara-san (vocês sabem, o informante) mandou pesquisadores disfarçados atrás do Heiwajima-san.
Kanra: Oh?
–-----------X-----------------
Izaya gargalhou alto, divertindo-se com as fofocas fresquinhas.
Ele? Mandar pesquisadores atrás daquele protozoário imbecil? Olha, sendo sincero, nunca havia pensando nisso... Iria até anotar para a posterioridade (se o seu corpo lhe permitisse viver por mais tempo). Apertou a barriga, dobrando-se de tanto rir. Estava surpreso com a imaginação da população de Ikebukuro. Os seres humanos sempre se provam como os mais engraçados e belos brinquedos do mundo. Tsk, tsk, inventam cada coisa que só vendo mesmo.
–-----------X-----------------
Sala de chat.
Kanra: E os pesquisadores se deram mal, então. :DD
Kanra: LOL
Bakyura: Queria ter visto.
Kanra: Tem outra aposta? Queria participar de alguma! (*0*)/
Saika: Tens uns que dizem que os homens eram do governo.
Setton: Governo?
Taro Tanaka: Governo?
Kanra; Eu duvido muito. U.U
Bakyura: Qual governo?
Saika: N-não sei dizer.
Kanra: Eu estou com uma inveja. ;3; Geralmente sou eu que conto as novidades.
Taro Tanaka: Estou preocupado. As três lendas de Ikebukuro juntas, fico com pena dos homens de terno. Ouvi dizer que eles estavam... destruídos.
Saika: O engraçado é que os corpos desapareceram.. Só quem andou lá pela manhã bem cedo conseguiu vê-los. Chamaram ambulâncias, porém, nenhum corpo estava mais lá quando elas chegaram.
Setton: Vai ver o motoqueiro negro desapareceu com os corpos.
Kanra: Será?
Setton: Eu tenho quase certeza.
Kanra: Yay! ^0^
Kanra: Ops, parece que eu vou ter que sair agora...
*Kanra está off*
–-----------X-----------------
Sorrindo maliciosamente, guardou o celular no bolso. Parece que o FBI não ia dar as caras em Ikebukuro por um bom tempo. Obrigada, Celty.
“Vamos ver o quê temos aqui.” Não aguentou os constantes roncos do seu estomago e cedeu. Cantarolou baixo quando abriu a geladeira e encontrou recheada de alimentos. Desde que a bactéria se instalara em sua vida, não faltava comida. Não que alguma vez tenha faltado, mas a quantidade triplicou. O pior é que 60% da quantidade são só doces. Revirou os olhos, aquele homem comia muito doce. Doce e leite. “Ai, ai, é enjoativo esse cheiro doce na minha geladeira. Só podia ser mesmo coisa do Shizu-chan.” Pegou uma maçã (a menor). Não era nem de longe o suficiente para aplacar sua fome, serviria apenas para enganá-la.
Ele não queria começar a sentir aquelas dores terríveis de novo.
Dor e queimação constantes na barriga, azia, náuseas, indigestão*... Há mais ou menos dois anos, toda vez que ficava um longo período de tempo sem comer, esses sintomas atacavam e o homem de olhos escarlates passava horas incapacitado enrolado em uma bola sobre a cama. Fisicamente falando, era um inferno. Sem poder trabalhar, acabava perdendo uns 0,2% de credibilidade com alguns clientes menores. Seu ego se chateava e essa chateação acabou criando uma rotina de comer de quatro em quatro horas. Às vezes cinco. E agora, devido a maldita dieta de Shinra, de duas em duas horas.
O intervalo de horas entre as refeições não incomodava tanto, pois ele comia pouco e devagar para impedir as dores e queimações na barriga, o problema real eram os alimentos. Laranjas, limões, queijos e doces faziam estragos terríveis. E para a sua infelicidade, Orihara foi obrigado a diminuir a quantidade de café drasticamente. Por conta própria. De alguma forma, a cafeína estava causando muitos problemas ao seu organismo. Psicologicamente falando, não beber café o deixava estressado, sobrecarregado e com sono. Novamente dificultando seu trabalho.
Deixou a maçã pela metade e ia jogar fora quando uma voz rouca e irritada o congelou no lugar.
“Oye, pulga, nem pense em fazer isso!” Virou-se com um sorriso irritado nos lábios.
“Oya, oya, Shizu-chan, fazer o quê?” O loiro bufou. “Tá, tá, eu não vou jogar a maçã no lixo.” Deu uma grande mordida para provar. “Agora não me perturbe. Tenho que tomar um banho.” Piscou. “Acompanha-me?”
“Não.”
“Se é assim.” Deu de ombros com descaso, sabendo que irritaria ainda mais o recém-acordado monstro.
Continua.
Fale com o autor