Bulimia
14 Capitulo 14
Notas iniciais
[“Existe uma linha tênue entre o que as pessoas sabem sobre mim e o que as pessoas pensam que sabem sobre mim.”]
[ Orihara Izaya ]
[...]
Já se sentiu sufocado por uma força invisível que vinha de algum lugar desconhecido? Uma força que dava a você a mesma sensação de ser estrangulado? Uma força tão grande que era capaz de te deixar zonzo e fraco? Uma força que te fazia pensar que talvez fosse melhor fechar os olhos, ceder à dor e nunca mais acordar? Uma força que causava dormência ao seu corpo e mente? Uma força que não importava o quanto você lutasse contra, ela só parecia crescer mais e mais?
Essa cruel força invisível vem de dentro de você.
Ela é como um monstrinho desses de história infantil que sai da toca sempre que você se encontra sozinho, perdido na escuridão da sua própria existência. Colocando no visível o quê não se pode ver, ela é como uma sombra que te envolve em um abraço cheio de espinhos, que te cobre com um manto que impossibilita a passagem do oxigênio, que sussurra coisas malvadas e verdades distorcidas ao seu ouvido, que faz seus olhos encherem de lágrimas e sua cabeça de pensamentos cruéis que destroem sua vida como um suicida colocando uma lâmina nos pulsos. Você vê o horror com os olhos abertos.
Durma, meu pequeno ser humano, durma e tente esquecer todo esse sofrimento.
Com o tempo, você começa a temer a hora de dormir. Ela parou de ser um momento de descanso e se tornou um momento quase eterno de tormento, tortura e tantos outros males que a falta de luz traz às mentes frágeis. Os fantasmas que você consegue esconder debaixo da cama durante o dia saem assim que o sol se põe no horizonte, mostrando seus rostos distorcidos enquanto cantam sobre seus segredos vergonhosos, debocham das suas fraquezas e riem dos seus medos.
Por que você ainda respira esse gás tóxico chamado “esperança de que tudo vai terminar bem”?
É a forma “levemente” desagradável que o seu subconsciente encontra para lembra-lo que não se pode fugir de si mesmo. Nenhum canto é seguro, o cobertor não protege de verdade, a oração não acalma o espírito, as fantasias não são eficazes para distrair, não há saída do labirinto onde te jogaram, não existe chance de escalar o poço que se mantem com água na altura da sua boca impedindo seu grito, não existem palavras carinhosas que curem feridas na alma.
Você se equilibra no limiar entra a loucura e a sanidade.
Você deseja quebrar tudo ou simplesmente desaparecer. Você não consegue parar de se incomodar com a garganta que não para de coçar com urros de raiva reprimidos ou nós de choro engolidos a força. Você não consegue comer ou come demais. Você se isola ou tenta de tudo para estar na roda social. Você se machuca fisicamente ou machuca os outros emocionalmente para se sentir melhor. Você vê os olhares de desgosto dos outros ou pensa que vê, afinal sua noção da realidade está torta, refletida de cabeça para baixo. Você se tranca no seu próprio mundo para sofrer ou monta um mundo onde os outros te fazem sofrer. Você não fala ou fala exageradamente.
Você odeia o mundo ou odeia você? Ou mundo te odeia?
Você sente tudo e nada.
Sem ous.
Não existe alternativa nessa parte.
Se houvesse, você com certeza preferia não sentir.
Você está cercado de pessoas que não te enxergam realmente.
Você está doente. O diagnóstico é tão demoníaco que corta seu coração, alucina sua mente, quebra seus ossos, destrói sua estima e põe um fim a sua força de vontade. Além de te deixar dramático. E sabe qual é o nome dessa doença? É o seu. É o da sua mãe. É o do seu pai. É o das suas irmãs. É o do seu melhor amigo. É o do seu professor. É o do seu inimigo. É o da pessoa que você gosta. É o da sua empregada. É o do seu chefe. É o nome de quem você quiser. Você está morrendo, culpe alguém por isso.
E mesmo podre por dentro, sorria falsamente, pois ninguém é obrigado a ter ver tão deprimido. Ninguém se importa em te ver tão deprimido.
Não se sinta especial ao se identificar com algum elemento desse texto, pois você não é. Embora ninguém consiga sentir a mesma dor ou entender a intensidade dela, a reciproca é verdadeira, você também não consegue sentir ou entender a intensidade da dor das outras pessoas. Especial você seria se conseguisse. O quê está escrito aqui é uma analise geral das minhas experiências pessoais que, por coincidência, batem com as suas próprias experiências, mas pode ter certeza que as nossas feridas são diferentes. A dor que você sente ao ler é diferente da minha ao escrever.
[...]
Izaya sentiu uma imensa vontade de jogar o celular na parede com força suficiente para quebra-lo além do reparo, mas não fazia seu estilo ser tão violento, então optou por colocá-lo de volta no criado-mudo. No fim das contas, o aparelho eletrônico possuía muitos contatos importantes, não seria proveitoso destruí-lo devido a um pequeno surto de raiva. Estar perto do ex-barman começava a ter consequências ruins para seu QI. E autocontrole.
Ao seu lado, o fortíssimo de Ikebukuro fez um barulho de chateação antes de enfiar o rosto no travesseiro mais uma vez. Aparentemente o loiro ficara incomodado com a claridade do celular. Orihara reprimiu um barulhinho de deboche. Os olhos vermelhos procuraram o relógio digital. Mesmo no meio da tarde, tudo estava escuro. As cortinas negras em seu quarto faziam maravilhas, obrigado. Temperatura amena, escuridão bem-vinda, corpo dormente. Um cenário confortável para sua mente recém-perturbada. Estava tão cansado. Seus membros de chumbo impediram-no de fazer qualquer coisa que exigisse esforço físico.
[“Por que li essas besteiras de novo?”] Suspirou de irritação. [“Elas são tão antigas! Não acredito que conseguiram me afetar.”] E como afetaram. Voltou a sentir aquela dor apática, aquela explosão fria de violência pacifica.* Nem lembrava mais da última vez que se afogara tanto em auto-piedade. Tudo por conta de um capricho nostálgico. Uma vontade infeliz. Seu cérebro estúpido tomou a decisão estúpida de voltar às estúpidas postagens da sua fase mais estúpida. [“E eu achando que já tinha superado essa bobagem dramática da minha vida.”] De certa forma não podia deixar de ficar orgulhoso. Escrevia naquele blog de autoajuda (que acabava sendo um fórum To-Depressed-For- Suicidal) no intuito de afetar a todos que lesse. Todos. Sem exceção. E se mesmo quem já sabia cada palavra de cor estava sendo afetado, então era um feito e tanto.
Voltou a pegar o celular do criado-mudo. [“Droga, tanto tempo sem me importar com isso só pra ter uma recaída num momento inoportuno!”] Queria poder jogar a culpa em alguém e sair ileso como era rotina, no entanto, o moreno sabia mais do que ninguém que feridas psicológicas não curavam assim. O que restava era se culpar por ser fraco. Nos últimos meses Orihara Izaya já não era Orihara Izaya. Nos últimos meses Orihara Izaya se tornou um ser humano. Assim como o monstro de Ikebukuro. Quase sorriu com o pensamento irônico, um ser que era quase um Deus sendo humanizado por uma besta instintiva. Não sabia explicar o quão reconfortante era admitir estas pequenas observações mentalmente.
Passou a língua pelos lábios ressecados, espalhando saliva branca espumosa sobre eles. Havia um gosto amargo dominando sua boca, incomodava. O estomago roncou, reclamando de fome. Começou a sentir os irritantes efeitos colaterais da “dieta saudável” que Shinra criara; dos hábitos alimentares que Shizuo o forçara a ter e manter nos últimos meses. Sentou-se na cama com esforço, fazendo uma careta ao sentir a bile subir até sua garganta e descer.
Arght, maldito médico e seus tratamentos! Da próxima vez visse o amigo de infância iria esfaqueá-lo! Não o havia perdoado ainda por confiscar sua balança. Orihara passava por um inferno cada vez que saia do banho sem se pesar.* A situação simplesmente era revoltante. Se controlar seu peso já era difícil por conta da constante vigilância do protozoário, ficou muito mais difícil com a vigilância e sem a balança. Agonizava silenciosamente sem saber o quanto engordava a cada dia.
Vivia ouvindo deles que não existiam motivos plausíveis para continuar a forçar o vômito, que nunca existiram motivos plausíveis, que ele deveria se controlar, que ele isso e que ele aquilo... Tsk, não dava ouvidos e nem daria. Shinra podia fingir o quanto quisesse que se importava com a sua saúde, mas o moreno de olhos vermelhos sabia melhor. Apesar das cansativas palestras, Kitanashi nunca tinha exigido um exame aprofundando sobre os possíveis danos que a bulimia causava, limitando-se sempre a perguntas e pequenas observações para as coisas mais óbvias: desidratação e Inflamação na garganta.
Toda vez que escutava a ladainha cansativa do homem de cabelos castanhos ficava perdido entre duas opções: 1. Cortar a garganta dele com o canivete. 2. Esfaqueá-lo na garganta repetidas vezes. As duas eram tão atraentes que Izaya não conseguia se decidir. Bom, tanto faz, Shinra não tinha jeito, não era produtivo ficar chorando pelo leite derramado. E, verdade seja dita, o informante gostava um pouco daquela falsa preocupação, da atenção que o amigo dava e da sua quase total dedicação a ele sempre que seu corpo fraquejava.
Uau! Aquilo soava tão carente.
Ignorando os devaneios bobos, aproveitou que ainda estava no site e procurou mais um dos seus textos para ler. Já que seu cérebro estúpido tomou a decisão estúpida de voltar ao estúpido passado, continuaria a remoer magoas até cansar e/ou achar algo mais interessante. Ler seus antigos textos foi um erro que poderia ter sido evitado, como não foi, que a merda continuasse. Não conseguiu evitar o sorriso de júbilo que tomou posse do seu rosto enquanto passava as páginas até achar o quê queria. Não demorou muito.
Os mais visualizados da semana.
Os mais comentados da semana..
Tudo o quê digitava sempre acabava em destaque no site.
Os seres humanos desesperados deste local parecem vermes corroendo um cadáver. Pensava toda vez que lia os comentários. Deliciam-se com a desgraça dos outros tanto quanto eu me delicio com a deles. Entretanto, o que proporcionava orgulho era o fato de que ele publicara alguns daqueles “desabafos” anônimos quando estava no ensino médio e eles continuavam fazendo “sucesso”.
[...]
Definitivamente patético esse desejo de chamar atenção.
Primeiro, odeio quando as pessoas pensam que sabem algo sobre mim além do que eu as deixo saber. Me dá a falsa sensação de que não tenho controle. É irritante. Segundo, odeio quando disfarçam a pena com palavras doces na tentativa de me “ajudar”. Não sou feito de vidro, não sou frágil. Quem não me conhece teme meu nome, quem me conhece sabe os motivos para temê-lo. Terceiro, o corpo é meu. Posso preenche-lo com hematomas, posso entorpece-lo com remédios, posso destruí-lo aos poucos.
Eu habito um corpo que não é meu.
Não estou dizendo que odeio meu corpo, mas também não estou dizendo que gosto dele. Não desejo meu corpo, mas quero que ele seja desejável. Meu corpo me deixa desconfortável e ao mesmo tempo não consigo me imaginar em um diferente. Não quero marcar meu corpo, quero que alguém o marque. Quero modifica-lo de muitos jeitos, mas não quero que ele mude. Quero me olhar no espelho sem criticá-lo, mas só encontro imperfeições refletidas. Não quero destruí-lo, mas minhas ações falam o contrário.
Estas contradições alimentam minha insanidade, eu sei.
A loucura é uma vertente constante em minha vida. Ela está em cada ato, em cada palavra, em cada plano, em cada risada, em cada pensamento. Ela não me deixa sozinho mesmo quando estou dormindo. No entanto, não é meu objetivo escrever sobre nosso tórrido relacionamento. Pensando bem, estou escrevendo sem objetivo. Apenas pensei que seria uma boa ideia deixar meus devaneios tomarem forma, principalmente após uma estressante ladainha sobre meus hábitos alimentares pouco ortodoxos.
Por isso o texto está hospedado na parte de distúrbios alimentares.
Prático, não? Esse site é bem sistemático.
Gostaria de dizer não lembro quando, onde e por que coloquei dois dedos na minha garganta e forcei o vômito pela primeira vez. Gostaria de dizer que devido a grande correria que é minha vida e o enorme fluxo de informações que minha mente manipula por segundo não consigo lembrar. Gostaria de mentir descaradamente como faço todos os dias. No entanto, aproveitando-me do anonimato que este site me propícia, serei sincero.
Mais ou menos.
Quando? Primeiro ano do ensino médio. Onde? No banheiro da minha casa. Por quê? ... Muito bem, por quê? Por que alguém como eu iria forçar o vômito se meu corpo já era magrelo? Acho que pela mesma razão que alguém com problemas de temperamento corta os pulsos apenas para sentir dor. A necessidade de descontar frustrações pessoais sem alertar ninguém. E é exatamente com esse tipo de pensamento que as pessoas se ferram. Os seres humanos são tão estranhos que chegam a ser fascinantes. Cada ação gera uma reação. Descontando a frustração no corpo ou em um objeto, isso nunca ficará em segredo. Tudo em você muda depois de deixar um pouquinho dos seus sentimentos vazarem. As cicatrizes no pulso são visíveis a olho nu. O ácido do vômito amarela seus dentes.
Houve um tempo que eu quis desaparecer.
E fiz isso.
Geralmente já é muito difícil encarar frustrações, principalmente para uma pessoa orgulhosa como eu que surta com o mínimo pensamento de possuir frustrações. Não ter expectativas cumpridas é inadmissível em minha vida. Ou quase. Desde que não fuja do meu controle, pessoas que não são previsíveis me encantam. Enfim, dos variados motivos que me levaram ao início da bulimia, meu orgulho. é um dos mais importantes. Também não descartaria o bullying que sofri minimamente naquela época. Mesmo que não fosse tão preocupante, escutar tantas críticas, piadas e acusações mexeu comigo o suficiente para causar, humm, desequilíbrio. As crises adolescentes foram fatores expressivos. É, infelizmente fui uma vítima do inferno adolescente. Inferno cheio de dúvidas e medos. Momentos que eu prefiro enterrar. Por que foi a partir dessas fraquezas que a pior coisa que poderia ter me acontecido, aconteceu. Eu me apaixonei.
E essa paixonite virou obsessão.
Virou perseguição.
Virou doença.
Virou amor.
Eu me apaixonei por um monstro. Ah, não me entendam mal, meu monstro não é o mesmo que o de vocês. Ele não é um estuprador, um chantagista, um bullie, um assassino. Não, ele não tem capacidade para isso. Estuprador? Mesmo fazendo sexo normal, ele poderia ser confundido com um. Ou talvez ele seja dessa forma por que transa comigo. Chantagista? Falta inteligência. Bullie? Totalmente contra intimidar pessoas inocentes. Assassino? Tem potencial.
Mas ele é do tipo que preferia morrer a matar alguém.
Ele é, em todos os sentidos fantasiosos da palavra, um monstro. Força bruta pura. Transpira violência. É irritadiço. Assustador. Animalesco. Irracional. E me lembra muito a fera de a Bela e a Fera. Um príncipe amaldiçoado. Um humano transformado em monstro. Uma pena que eu tenha afugentado todas as possíveis princesas que poderiam quebrar a maldição. Ele é MEU monstro.
Não joguei a maldição, mas a tripliquei.
Esquecendo as metáforas infantis, ele deteriorou minha sanidade já em ruínas. E nem ao menos sabe disso. Não sei quando meu simples desejo de obter sua atenção virou essa busca excessiva de motivos para mantê-lo focado apenas em mim. Realmente não sei. Quando percebi as coisas que estava fazendo já era tarde demais para voltar atrás, não conseguia respirar sem pensar nele. O ódio que nós possuíamos me destruía e me mantinha de pé dia após dia. No começo me negava a acreditar que o que sentia por ele ia além de interesse “científico”. Sentir —amor — por aquele monstro era uma ideia abominável. Definitivamente não entrava na minha cabeça que logo ele, a encarnação de tudo que detesto, era meu objeto de afeição.
Por mais estranho que pareça, a partir das falhas em conquista-lo, em fazê-lo me amar, em convencê-lo a me aceitar com todos os meus defeitos, descobri que comer sem medidas era uma ótima solução para preencher vazio. Inventei desculpas para o ganho de peso. Tão esfarrapadas que não fariam meu estilo e por isso só poderiam ser tomadas como a verdade.
Mas no meu trabalho, estar fora de forma não é viável...
E para escapar do amargo gosto da solidão, comer era viável...
A resposta foi comer e vomitar.
Depois passou a evitar comer e vomitar mesmo assim.
Tudo virou uma bagunça.
Estava viciado em algo danoso.
Aquele desgraçado é tão ignorante as coisas ao redor. Tão fascinante. Tão idiota. Eu me apaixonei por ele sabendo que nada de bom viria disso. Não fui feito para amar ou ser amado. Meu amor pela humanidade é sádico. Meu amor por ele é venenoso.
[...]
Cerrou o punho. As unhas cravaram-se na palma da mão. A visão estava embaçada por lágrimas que não conseguiam cair. O peito parecia vazio. A mente se encontrava tão cheia de pensamentos insanos que tudo ficava em branco como num hospício.* O colapso parecia tão distante e tão perto ao mesmo tempo. Havia tanto para sentir que ele não conseguia sentir nada direito. Quem olhasse para ele deitado imóvel naquela cama, olhando fixamente para o aparelhinho eletrônico sem demonstrar expressões, não saberia dizer o quão afundado na loucura o coletor de informações estava.
“Não vou ler mais nada disso.” Decidiu-se, levantando da cama. “Para o inferno com essa melancolia” Falou da boca para fora e sabia disso. Havia se levantando da cama e caminhava para fora do quarto... mantendo o celular na mão sem fechar a aba do texto.
Continua.
Fale com o autor