B'shert

2 a esperança é uma distância inalcançável


Notas iniciais
Oi, desculpinha pela demora, Gabi ♥ (e outras pessoas que possam estar lendo também) Pra ti, Lara, deixo os meus famigerados agradecimentos por ser uma beta toptoptop e ninja. Obrigada! Boa leitura!

"And I run from wolves
Breathing heavily
At my feet
And I run from wolves
Tearing into me
Without teeth"

— Wolves Without Teeth, Of Monsters and Men.

Foi numa manhã fria da segunda semana de novembro que os ingredientes que Remus e Lily encomendaram para o projeto deles chegaram. No final das contas, haviam decidido por seguir com a ideia de “alma gêmea” da garota, que estava muito animada por isso. Logo, planejaram primeiro recriar a poção Amortentia e estudá-la mais de perto, para então terem uma boa base e poderem aplicar certas propriedades interessantes na sua própria criação. Remus, é claro, entendia disso muito menos que Lily, que era “o monstrinho de poções” e faria a maior parte dessa etapa, enquanto ele, que era melhor em feitiços, arranjaria alguma forma de fundir tudo com um feitiço simples de rastreamento ligeiramente modificado.

— O negócio é… Amortentia não reproduz exatamente o amor, Lils — pontuou Remus, enquanto eles levavam as caixas de ingredientes e utensílios que usariam para uma sala de aula vazia que haviam solicitado para poderem trabalhar no projeto.

— Sim, por isso não usaremos exatamente a poção, mas vamos trabalhar em cima de como, por exemplo, sentimos o cheiro da pessoa amada nela… Vai dar certo, Remus — contra argumentou, tentando explicar o seu ponto.

Ele assentiu, então começaram a preparar os ingredientes.

— Sabe, Sirius tem me incomodado a semana inteira para que eu o conte no que trabalharemos. — Ele riu. — Eu até diria, mas é mais engraçado assim.

A amiga riu também, pois sabia como Black poderia ser às vezes.

— James me disse que eles não tem uma ideia ainda, mas nem estão preocupados, já que — ela bufou — “ainda faltam vários meses” — completou, imitando a voz de James muito mal.

Riram novamente e o assunto acabou em seguida, portanto continuaram a trabalhar em silêncio, com Lily no comando, corrigindo o livro-texto que seguiam e passando novas instruções para Remus vez ou outra.

Horas depois estavam suados e com fome, mas com um sorriso satisfeito no rosto, pois, na frente deles, tremeluzia a fumaça perolada da poção no caldeirão, que seguia em espirais características para cima: amortentia.

Lily andou com passos firmes, porém cautelosos, em direção ao caldeirão e deu uma bela fungada no ar. Então sorriu satisfeita, e Remus se perguntou ao que Prongs deveria cheirar para ela. Para ele, o amigo tinha um cheiro característico de suor e lama, dado os treinos frequentes de quadribol e a frequência que James aparecia todo sujo após estes.

— Do que você sente cheiro? — perguntou Lily, fazendo-o retesar antes de dar alguns passos hesitantes em direção à poção mágica. Era uma pergunta um tanto quanto pessoal, contudo estava tudo bem, já que era Lils perguntando e ela certamente tinha esse benefício pelos anos de amizade. Porém ele nunca havia se perguntado o que sentiria ao cheirar a poção Amortentia, sempre passara longe de qualquer fumaça da poção, simplesmente porque não poderia conceber a ideia de que poderia ser amado ou amar alguém de forma justa.

Cheirando a poção com extremo cuidado, como se estivesse em frente a um veneno, Remus paralisou por um segundo, surpreso. Franziu o nariz, e a amiga logo se preocupou com os vincos na testa dele.

— Remus?

Ele relaxou, então deu passos seguros para longe da poção.

— Credo, Lils, isso fede horrivelmente para mim.

ღ



Após o seu almoço atrasado, Moony retornava lentamente em direção à sala, para começar a trabalhar na sua parte do projeto. Não tinha nenhuma pressa, e até podia-se dizer que atrasava a chegada até o destino final. Não queria voltar e enfrentar novamente a existência da poção, sabia. Mas os motivos disso eram muito difíceis de admitir e ele havia passado todo o tempo desde que cheirara aquilo em negação. Afinal de contas, não seria possível ter sentido aquele cheiro.

Enfim, destrancou a sala e suspirou de alívio quando viu que Lily deixara a poção tampada, quase escondida no canto da sala. Pensou em avançar, tirar a tampa e cheirar novamente, para constatar se sentiria a mesma coisa, mas logo impediu o impulso, pois ele tampouco gostaria de confrontar aquela ideia novamente e aquilo seria besteira.

Começou a trabalhar na mesa mais longe o possível da poção, mas não demorou muito para que fosse interrompido, já que Sirius Black surgira na porta, vestindo o uniforme do time de quadribol e carregando o mapa do maroto na mão.

— Hey, Moony, vim ver se você precisa de ajuda — declarou ele, adentrando a sala e puxando uma cadeira para o lado de Remus, então guardou o mapa com cuidado no bolso após dizer malfeito feito. — O que você está fazendo?

O outro suspirou pesadamente e revirou os olhos, porém soltou uma risada anasalada, porque quase previra isso. Não pôde deixar de notar que Sirius cheirava a cigarro trouxa, o que ele fumava só por rebeldia, mas também que havia um leve cheiro de menta impregnado no maroto. Talvez fosse o shampoo que Remus havia dado para ele alguns meses atrás.

— Não precisa tentar disfarçar, o que você faz muito mal, por sinal, sei que está curioso sobre o projeto que Lily e eu escolhemos — acusou Moony, arqueando uma sobrancelha para o garoto, que dava de ombros, levantando as mãos no ar como se estivesse se entregando.

Sirius tirou um pacote do bolso e, de dentro do pacote, retirou um cigarro trouxa.

— Certo, certo, você me pegou! — Ele pousou a mão livre na perna de Remus, fazendo-o sentir um arrepio subir pela sua coluna. O momento não durou muito, porque logo Sirius se levantou, indo para o canto oposto da sala enquanto dizia: — Eu já sei, ok, não vou tragar essa “coisa fedida” perto do seu rosto.

Mas a poção tampada logo chamou a atenção de Sirius, que se movia curiosamente em direção a ela, ávido para xeretar qualquer coisa que pudesse o ajudar a descobrir qual seria o projeto do amigo.

— Não toque nisso — mandou Remus, de mau humor, de repente enervado com a presença de Padfoot ali. O amigo olhou para ele inocentemente, sem se ofender com o súbito mau humor de Lupin, vislumbrando-o com uma careta e vendo o conhecido vinco na testa. Merlin, jurava que Moony teria rugas já aos vinte anos, ele se preocupava demais, sempre estava tenso demais.

— O que é? — quase implorou, curioso, todavia respeitou o pedido de não tocar. Wingardium Leviosa não contaria como tocar, contaria?

— Amortentia. — Remus desviou os olhos para suas anotações na sua frente, incomodado, e tentou voltar a trabalhar. Contudo estava nervoso demais, antecipando que Sirius provavelmente o perguntaria que cheiro sentia ali e essa era uma das coisas que ele gostaria de evitar pensar dali em diante.

Entretanto, Black permaneceu em silêncio, aparentando calma diante da tempestade que se formava em Remus. Acendeu o seu cigarro com a varinha, então tragou longamente, soltando a fumaça em seguida, ele não tinha pressa. Moony podia sentir o cheiro característico daquele cigarro de onde sentava, e se perguntou como é que Sirius gostava daquilo. De todas as coisas estranhas que Pads gostava, ele incluso, como diabos gostava daquele cigarro fedido?

— Posso cheirar? — questionou Sirius, com toda a calma do mundo, apontando para a tampa da poção. Remus se levantou, tentando manter sua expressão neutra, decidido a ir embora antes que se aprofundassem mais naquela linha de assunto sobre a poção.

— É claro. — Ele parou na porta, olhando para trás. — Tranque a porta quando sair.

E então foi embora.

ღ



Não foi até uma semana antes do natal que Sirius Black veio a descobrir, afinal, sobre o que era o projeto dos amigos. Remus andava esquivando-se dele, não sabia exatamente o porquê, e Lily sempre o enxotava quando estava trabalhando na criação deles. Com essas coisas unidas, não tivera muitas oportunidades para xeretar e descobrir o que fariam.

Contudo, sabia que estavam chegando a um ponto perigoso, já que dali a menos de dois meses o prazo de entrega acabava, e ele e James continuavam sem uma mísera ideia para aplicar. Assim, aceitou de bom grado quando uma ruiva afoita interrompeu uma conversa entre ele, Prongs e Wormtail pra convidá-los para a experimentação do feitiço que haviam criado. Merlin, Sirius rezava para que, quem sabe, aquilo os desse alguma inspiração para o seu próprio projeto.

Nos jardins, lugar onde tinham combinado o encontro para realizarem o feitiço criado, a temperatura estava congelante, fazendo Sirius agradecer pela sua jaqueta de couro quentinha, graças a um feitiço de aquecimento que Remus havia feito dois anos atrás. Pensar no amigo o rendeu uma sensação estranha na barriga, lembrando-o que não estavam conversando muito nos últimos tempos, pois Moony vivia escapulindo toda vez que o Black tentava puxar papo.

Padfoot estava a ponto de deixar de sentir os dedos do pé quando avistou os amigos, numa roda, mais à frente. Cumprimentou Remus, que acenou, mas logo desviou o olhar e também disse oi para James, Peter e Lily, que estavam ansiosos para começar e ver se o projeto funcionava.

— Mal posso esperar para ver se vai funcionar! — exclamou Lily, pegando a mão de James e apertando nervosamente. — Ok, podemos começar, Remus.

Moony deu alguns passos à frente do grupo, virando-se na direção deles e pegando a varinha do bolso da sua jaqueta grossa de inverno. Do mesmo bolso também pegou um frasco com um líquido rosa, derrubando um pouco, esfregando no seu pulso e então guardando o frasco novamente com o restante da poção que sobrara.

— Amoris Revelio — disse ele, apontando a varinha para o mesmo lugar que havia despejado a poção.

Surpreendendo a todos, exceto Remus (é claro, pois ele havia trabalhado nessa parte do feitiço), uma bússola apareceu no pulso do garoto, desenhada na sua própria pele como se fosse uma tatuagem. Em seguida, os traços acenderam, num tom de dourado brilhante e metálico.

— Ok, agora, é quando deveria funcionar e guiar Remus para a “alma gêmea” dele — Lils anunciou, impaciente.

Dito e feito, o ponteiro da bússola começou a rodar loucamente, apontando para todas as direções. Às vezes, ele parava e apontava para a direção de Sirius, vibrando nervosamente como se estivesse prestes a sair girando para todos os lados de novo.

— Cara, essa bússola está obviamente apontando para o Pads — falou James, com a maior tranquilidade do mundo e sem fazer muito caso da situação. Peter, que claramente não estava entendendo nada, franziu as sobrancelhas.

Ninguém falou nada, porque ninguém sabia muito bem o que dizer. Logo o clima foi ficando cada vez mais estranho, até que felizmente Sirius quebrou o silêncio.

— É, pessoal, o feitiço não deu certo, que merda. — Ele tentava descontrair. Como usal, era sempre o trabalho de Padfoot quebrar o clima pesado assim que ele se instaurava.

— Ou talvez não saiba diferenciar tipos de amor diferentes — ofereceu Lily, vendo a deixa, já que Sirius encarava Remus hesitante, mas este olhava para o seu próprio pulso estupefato. — Deixa eu tentar também.

— Vai logo, que eu estou com o pé congelando, Lily — reclamou Sirius.

Dessa forma, ela se apressou para executar o feitiço no próprio pulso, criando a característica bússola dourada. Todos aguardaram ansiosamente, até Remus, que permanecera em silêncio encarando sua tatuagem até então.

— Aponta para James — ela anunciou. O namorado dela, como o grande bobo que era, comemorou, como se não soubesse o resultado até aquilo acontecer.

Moony, por outro lado, não via muito motivo para comemoração. Agora que a amiga havia efetuado o feitiço nela, via que não tinham errado no projeto. Assim, na sua cabeça, isso só poderia significar uma coisa: ele não tinha uma alma gêmea. Como o monstro que era, e a besta que se transformava todo mês, nunca seria realmente merecedor de amor.

— Agora eu só espero que essa tatuagem realmente saia e não fique aqui pra sempre — articulou Remus, tentando disfarçar a infelicidade que se espalhava por cada centímetro do seu ser. Na verdade, ele não poderia ligar menos para se a bússola ficaria no seu pulso ou não. — Eu… acho que vou falar com o professor Slughorn, para ver se ele recomenda alguma poção para remoção.

Então Sirius assistiu Moony dar as costas e ir embora, em passos apressados. Mas tudo bem, pensava, pois se afastar era tudo que ele fazia nos últimos dias.

ღ



Na manhã de natal, a tatuagem já havia desbotado quase completamente do pulso de Remus, mesmo que ele nunca tivesse chegado a falar com o professor de poções. Ele levantou tarde, de propósito, para conseguir evitar os amigos, que já haviam descido para o salão principal. Sentia a cabeça pesada com os seus pensamentos, que eram muitos e o sufocavam. Parecia que nunca conseguia chegar a uma conclusão sem isso acabar levantando mais um milhão de dúvidas.

Andava fugindo de interações humanas desde o dia da bússola, porque ele não sabia mais como se portar diante da sua própria tempestuosidade. O fato era: agora que havia pensado sobre e se acostumado com certas ideias, e se…? Nunca havia imaginado a possibilidade de que a pessoa que amaria seria um cara. Muito menos que essa pessoa seria Sirius. Na verdade, nunca havia pensado muito sobre o amor, por sempre se considerar indigno de ser amado. Mas agora, que podia finalmente, quem sabe, aceitar isso, ainda existiam muitos problemas e dúvidas. Amor nunca era uma estrada de mão única.

— Moony? — chamou Padfoot, entrando hesitante no quarto que os marotos e mais alguns garotos compartilhavam. Já era quase horário de almoço, Remus notou, havia se distraído com os seus pensamentos, e não esperava que Sirius voltasse para o quarto tão cedo. Bom, agora, não tinha para onde fugir. — Feliz natal.

— Feliz natal. — Remus se arrumou na cama, nervoso, assim que o amigo se aproximou para sentar na que estava na sua frente.

— Olha, Moony… — pausou Sirius, puxando o cabelo da testa para trás com uma mão só. Parecia estar nervoso também. — Acho que precisamos conversar… Eu sei que as coisas estão estranhas, mas eu quero te dizer que não estou chateado, nem ligo pro que aconteceu no dia da bússola. A gente tem amor fraternal, ela endoidou e ponto. Não tem motivo para a nossa amizade ficar estranha, eu odiaria te perder.

Remus desanimou, mais triste do que poderia ter imaginado que ficaria. Não imaginara essa conversa… Muito menos dessa forma.

— Tudo bem, cara… — disfarçou. — E desculpe pela forma como reagi, eu… não sei o que deu em mim.

A expressão de Sirius, que até então estivera tensa, aliviou, mesmo que ainda houvesse algo no fundo dos seus olhos cinzentos. Surpreendentemente, antes que pudessem continuar a conversa um tradicional visgo natalino de Hogwarts cresceu no espaço entre as duas camas, entre eles, pendurado no teto. Então, Sirius fez a única coisa que sabia fazer em situações complicadas: tentar descontrair o clima.

— Então, eu suponho que é agora a hora que a gente se beija pra fazer as pazes? Você sabe, tradição de natal...

Notas finais
Espero que tenham gostado!