Gareth sentiu o hálito do gigante no momento da investida contra ele, um hálito morno e repulsivo acompanhado de um urro tão intenso que o cavaleiro teve que concentrar sua atenção no que estava acontecendo atrás da criatura que interrompera bruscamente sua corrida. Ganchos foram lançados contra o gigante e o mesmo estava sendo preso por eles que perfuraram sua espessa pele, um sangue negro corria pelo seu corpo e os gritos ainda mais furiosos emudeciam os trovões. Oito cavaleiros, cada um com sua própria vestimenta, puxavam o aço até as hastes cravadas ao chão e Gareth sentiu a presença de um dos cavaleiros ao seu lado.

— Agüenta firme meu amigo, isso vai doer. — E o homem quebrou a lança e puxou-a logo em seguida da perna do rapaz. Gareth não conseguiu manter-se em pé, a dor e a perda do sangue estavam deixando seu corpo entorpecido. Mas reconheceu imediatamente o homem ao seu lado.

— Meu rei! O senhor... não pode estar na linha de frente, o senhor é nossa esperança e...

— Cale-se garoto! Steve! Steve! — Gritou o rei para um dos cavaleiros que usava um arco de bronze, ignorando a expressão de apelo de Gareth.

— Senhor? — O homem aproximou-se rapidamente. Ele era corpulento, alto e sem dúvida o mais velho e experiente dos cavaleiros do rei.

— Ajude Gareth a chegar até os portões do castelo e mantenha a guarda. Esse gigante não pode aproximar-se dos portões, prepare os arqueiros com flechas embebidas em óleo e se mantenha atento ao meu sinal. Você compreendeu? — O rei olhou firmemente para o amigo de longa data. E ambos cumprimentaram-se com aperto de mãos que passavam pelo punho.

A criatura com esforço sobrenatural sentiu um dos ganchos rasgar sua pele e libertar-se de um dos ganchos, suas investidas estavam cada vez mais violentas. O rei Thortien gritou ferozmente movendo todos os seus seguidores de encontro ao gigante, sua espada foi a primeira a sentir a pele do monstro, com movimentos ágeis e precisos Thortien acertou o pé do gigante que tentou chutá-lo mas, o rei rolou pela esquerda entre as pernas da criatura e mais uma vez sua espada atingiu profundamente o calcanhar. Os demais cavaleiros aproveitaram para seguirem os passos do rei e o gigante urrou mais uma vez antes de tombar ao solo e ser morto pelas espadas dos cavaleiros.

Um brado de guerra e saudações ao rei foi ouvido do portão do castelo, Gareth e Steve sorriram e continuaram até que os portões pesados do castelo se abriam lentamente. Haviam vencido momentaneamente, porém a custo de muitas outras vidas que se perderam nessa sangrenta batalha. O início dos tempos difíceis ao reino de Aislin estava apenas começando e o rei Thortien sentia esse terror expandir-se por seu corpo. Não deixaria transparecer o medo e nem o receio que sentia. Seus amigos, seguidores e afins depositavam esperanças nele e não quebraria a promessa que fizera de proteger seu povo. Thortien só não entendia como Asmeth havia conseguido tanto poder, como adentrara em Aislin sem ser percebido? O rei olhou para o céu e não reconheceu o que seus olhos verdes lhe mostravam, uma imensidão sangrenta, cujas nuvens negras eram formadas por muitas criaturas desconhecidas e ferozes. O rei apertou os lábios sentindo o próprio sangue em sua boca. Justo no momento em que seria pai, teria uma vida plena de alegrias ao lado do tão sonhado filho essa luta começava sem prazo de acabar. Thortien passara seus quarenta anos em constante luta pela a harmonia e a paz. Participara da guerra na floresta de Brianna aos dezessete anos, onde descobrira a dor da perda e a maldição da rainha da floresta. Seu pai um homem bondoso, porém muito ambicioso não contentou-se com o espaço de Aislin e planejou tomar a floresta de Brianna. Como prova de seus atos heróicos Thortien solicitou a permissão de fazer parte dos cavaleiros do rei, seu pai, e partir juntamente para o campo de batalha. Hoje o homem compreendia o erro que haviam cometido, e, pagaram caro por tentarem tomar um reino que não era deles e que não os ameaçavam. Seu pai foi transformado em pedra e de lá nunca saiu. Thortien fez de tudo para resgatar o corpo de seu pai, no entanto todos seus esforços foram em vão, perdera amigos, homens leais e fora amaldiçoado a nunca gerar um herdeiro. Enfim após anos de tentativas frustradas, magias do mago confiável da família Gerald Kindisk, jamais conseguiram preencher o vazio em seu coração. E quando finalmente conseguira quebrar o feitiço, o reino estava em desordem e o caos começava a alastrar-se sobre Aislin como uma erva daninha.

—Senhor? — a mão do cavaleiro do manto negro tirou Thortien de suas amargas lembranças.

— Martin, pesadas provações nos aguarda. TODOS VOCÊS, voltem comigo! —disse o rei em alto tom de voz com a espada tocando o solo.

Os cavaleiros o seguiam cautelosamente, estava escuro demais, quieto demais. Nem mesmo o som dos trovões se ouvia, os relâmpagos cessaram. O único ruído eram suas botas de encontro à lama sangrenta. Um balanço de criança começou a mover-se de um lado para o outro, pendurado a um velho carvalho. Seu movimento era intenso e firme, como se houvesse alguém sentado nele, Thortien tivera a sensação de que alguma coisa os observava algo sinistro, e implacável. Parou momentaneamente, como gostaria de estar em cima do lombo de seu puro sangue que atendia por Veloz e galopar o mais rápido possível para dentro da proteção do castelo, para os braços da amada e seu herdeiro recém nascido. No entanto, era o rei e cumpriria com seu papel.

— Cavaleiros de Aislin, tempos difíceis e ameaçadores estão se alastrando pelo nosso amado lugar, não vejo com os olhos do corpo a feitiçaria que nos ronda, e, sim, com os olhos da alma o quão dolorosa será nossa batalha. Juntos, unidos venceremos a escuridão e acabaremos de uma vez por todas com ASMETH! VOCÊS ESTÃO COMIGO? — a afirmação dos cavaleiros fora ouvida muito além dos portões de Aislin e como uma adrenalina em seus corpos seguiram adiante com total esperança e confiabilidade em seu rei. Não era preciso ser um adivinho, os cavaleiros sentiam a enorme tensão que recaia sobre os ombros do seu rei, conheciam sua coragem e orgulho, era agora um homem com grandes conhecimentos, longe daquele garoto que adorava cavalos e destacava-se entre os melhores espadachins, sua habilidade era notável. E mostrara mais uma vez que morreria por eles, assim como eles morreriam por seu rei.

Aquela aura, essa energia e vitalidade criaram uma espécie de circulo entre eles, os envolvendo e protegendo do mal que espreitava uma fraqueza qualquer e, como por encanto, o balanço parou abruptamente e o espectro de um homem muito curvado e com a pele agarrada aos ossos de seu corpo esquelético, que ali estava, deixou-se ser engolido de volta para a terra, ninguém o vira, mas o sentiram, esperaria o melhor momento e os conduziria ao reino dos mortos.