Gareth e os demais cavaleiros do rei estavam unidos, como uma barreira humana investiam contra as criaturas voadoras que rasgavam a pele dos oponentes com suas garras afiadas e curvadas. Suas espadas repercutiam um ritmo sinfônico e mesmo sem o sol para abrilhantar os guerreiros de Aislin, eles exalavam poder e proteção aos cidadãos. Um dos cavaleiros que trajava um manto negro que cobria sua armadura de tons prateados e vermelho, sentiu as garras de seu oponente voador atravessar seu punho, fazendo a espada longa e pesada cair sobre a lama que se formava no campo de batalha.

—Criatura dos infernos! — o sangue era abundante, o cheiro atraiu as gárgulas que investiam ferozmente no cavaleiro que tentava inutilmente bloquear os ataques com seu escudo adornado pelo símbolo do corvo,, que simbolizava seu clã.

—Louis! —Gordik girou o martelo pesado sobre sua cabeça arremessando-o contra a maldita gárgula, o monstro rodopiou pelos ares chocando-se contra o muro do castelo do rei. O homem caminhava a passos largos e pesados em direção do cavaleiro ajoelhado que tentava proteger-se. —Venha homem, vamos para o abrigo do castelo.

—Não! Posso lutar. Meus irmãos estão esperando por mim. — o homem gritava como um mantra as palavras. Gordik olhou-o, seu pulso estava perfurado e rasgado se não fosse pelo sangue poderia ver o osso e as artérias expostas.

—Você apenas os mataria Louis, não pode ajudar se morrer até sangrar. —Louis olhou pela primeira vez para seu salvador, compreendeu as palavras rudes do homem a sua frente e anuiu positivamente com a cabeça, deixando-se ser ajudado. Louis aparentava uns trinta anos, cabelos castanhos e olhos negros e desafiadores. Havia cortes por toda a extensão de sua armadura, cortes esses rasos e outros profundos em alguns pontos. Gordik já havia passado por uma situação semelhante e sabia o quão doloroso era as garras das gárgulas.

O pequeno Ryan, agora dentro da segurança do castelo via de longe o massacre, o sangue, as pessoas gritando por socorro e correndo desesperadas. Ryan viu o padeiro levantar vôo e logo em seguida seu corpo jazia em uma pedra enorme com a gárgula arrancando seus intestinos, os olhos avermelhados da criatura encontraram os do garoto e, por segundo depois Ryan ouvira os portões serem abertos novamente, mais um ferido que o gigante Gordik deixava no castelo. O pequeno garoto andou como pôde apoiado em um pedaço de pau, sua perna ainda doía por causa da árvore, mas cada sobrevivente que entrava pelas pesadas portas de ferro, faziam seu coração acelerar. Sua adorável mãe, seu padrasto e sua meia irmã ainda estavam fora dos muros do castelo. O terror começava a assolar seu coração a medida que o tempo passava, e os que chegavam estavam cada vez mais feridos.

As multidões que se aglomeravam dentro do castelo estavam por todos os lados, muitos dividiam suas tarefas ajudando os feridos e acalmando os corações daqueles que viam de longe suas casas destruídas, seus familiares sendo desmembrados e devorados. O rei estava junto a sua amada esposa e filho recém nascido, temia pela segurança deles e de seu povo. A rainha Betina continuava agarrada ao pequeno Benjamin Constantin e seus olhos banhados em lágrimas acompanhavam o movimento do marido em direção ao baú lacrado no fundo do quarto.

—Querido? —sua voz falhava, ela mesma não reconhecia seu próprio som.

O rei Thortien interrompeu sua caminhada e voltou a abraçar Betina. Depositou-lhe um delicado beijo em seus lábios rubros e molhados.

—Acalme-se minha esposa. Acalme-se. —suas mãos sentiram o fio sedoso e brilhante entre seus dedos. O perfume adocicado de orquídeas selvagens invadia suas narinas. Ah, como gostaria de celebrar o nascimento de seu filho! Agora que os deuses haviam lhes concedido essa graça, estavam marcados pelo massacre de sua gente.

O copo em cima da mesinha estilhaçou-se no chão do quarto, o rei e a rainha se entreolharam. A terra tremia sob passos de gigantes que se aproximavam do castelo, guardas soaram o alarme. Arqueiros de prontidão redirecionaram seus arcos incandescentes em direção ao sul do castelo.

Gareth trazia nos braços uma garotinha e uma velha senhora ao seu lado quando sentiu o tremor nas terras de Aislin. Seu rosto encontrou a sombra enorme que se aproximava pesadamente, não teria chance de seguir até os portões. Não poderia proteger a velha mulher e a criança, no entanto, não estava disposto a abandoná-las a sorte.

—Pequena suba em minhas costas e agarre-se em meus ombros firmemente, e senhora Parsh...perdoa-me!

Gareth viu os olhos da velha senhora espantados, o cavaleiro corria como podia em direção ao castelo meio trôpego pelo esforço em manter a menina em suas costas e carregar a mulher que mal andava em seus braços. Seus pés corriam, desviando corpos e saltando pequenos galhos. A garotinha gritava e chorava e em meio a suas desconexas palavras Gareth entendeu o perigo imediato.

—O monstro...ele...corre atrás da gente!

Gareth sentiu as mãozinhas da garotinha pressionarem o que restou de sua armadura, não tinha como sair do caminho e percorrer algum lugar seguro, estava quase tudo destruído e descampado. Não olharia para trás, apenas intensificou sua corrida. Estava tão perto da entrada..., antes mesmo de poder equilibrar-se Gareth sentiu sua perna amortecer e ajoelhou-se ofegante.

—Vão vocês duas, AGORA!— sua voz saiu grave e urgente. Vislumbrou o rostinho da garota mais uma vez e sorriu ao ver Gordik levando-as embaixo de cada braço, virou-se empunhando sua espada banhada em sangue. Uma lança transpassava sua coxa e o prendera no tronco da árvore ao qual celebravam há poucos minutos. Venderia sua pele muito caro.

A enorme escuridão aproximava-se e os tremores do solo se intensificavam violentamente. Gareth retirou o elmo, o vento agora soprava a cabeleira negra e o corajoso homem daria tudo de si para dar tempo a Gordik chegar aos portões.

Gordik corria com a garota e a velha mulher em disparada, talvez pudesse voltar e ajudar seu amigo. Sabia que se deixasse as duas sozinhas e tentasse ajudar Gareth, estaria colocando muitas vidas em jogo. Gareth jamais o perdoaria.

“Maldito bruxo Asmeth!”

Gareth visualizou o enorme gigante a sua frente, jamais havia visto criatura tão medonha. Havia confrontado um gigante ao leste de Aislin, mas nada comparado ao que via. O ser gigantesco possuía três olhos formando um triângulo no centro de sua testa, a pele era muito enrugada e revestida por uma espécie de crosta de árvores antigas.

O cavaleiro e o gigante se encaravam enquanto a chuva aumentava e os raios e relâmpagos intensificavam-se mostrando o campo de batalha em que se tornara Aislin.

Gareth apertou a espada firmemente, seus cabelos negros grudaram em sua pele branca, as rajadas de vento e chuva lhe castigavam os olhos. Chegara a hora do combate final, o cavaleiro sentia a dor insuportável do esforço em manter-se parado, preso pela lança. O gigante grunhiu deixando a mostra dentes tortos e escuros avançando ferozmente contra o cavaleiro dos sete dragões.


Notas finais
Então gostaram?
Agradeço ao Francisco pelos reviews, valeu amigo!
Abraço para os futuros leitores!