Brumas Da Morte

9 A floresta de Brianna


Notas iniciais
O mal pode estar a sua volta, esperando o momento certo para te acertar... mas, o bem está em todo lugar, esperando o momento certo para te ajudar.

Gareth ouviu os gritos de Nathan chamando-o e, sua voz ficava cada vez mais distante, a ave monstruosa continuava sua trajetória. O jovem se distanciava das terras de Aislin, tinha que escapar de alguma forma, colocou a mão em sua espada, mas a bainha estava vazia. Lembrou do punhal que carregava e empunhou a arma, analisou rapidamente o local onde iria cair. Estava passando por uma enorme floresta. Gareth ficou pensativo, a queda certamente o mataria. Talvez com muita sorte os galhos amortecessem sua queda. Não pensou em mais nada e cravou o punhal na ave que caía tentando manter o equilíbrio e urrando de dor. Gareth aproveitou que o maldito ganhava menos altura e com esforço sobre-humano arrancou o punhal e cortou parte da única pata que o mantinha preso. Gareth sentiu a liberdade e a morte aproximando-se.

E como o cavaleiro havia previsto sentiu o primeiro baque em suas costas e antes de encontrar seu fim nos demais galhos daquelas árvores imensas, começou a perder aos poucos seus sentidos. Seu corpo caía em alta velocidade, e como por pura magia, uma das árvores estendeu seus galhos em forma de copa de folhas, impedindo a queda direta ao solo. Gareth semi-consciente tentou colocar as ideias no lugar, era sua cabeça lhe pregando peças ou fora salvo por uma árvore que agora lhe observava? Certamente as pancadas estavam fazendo-o imaginar coisas. E as brumas da inconsciência o levaram de seus devaneios.

Horas depois...

Gareth não soube distinguir o que ocorria com ele, sentiu várias mãos tocando seu corpo, dolorido e ensangüentado. Mesmo estando em um estado de dormência, o jovem teimava em abrir os olhos, apenas borrões e imagens desconexas lhe eram mostradas. A dor parecia consumi-lo por completo até o momento que escutou uma voz serena e feminina soprando-lhe palavras em seu ouvido. Seu cérebro tentava processar e formar palavras que não compreendia, no entanto, seu corpo parecia relaxar com aquela espécie de melodia que transmitia tanta paz e conforto para seu espírito.

O jovem cavaleiro viu-se deitado ao chão, olhou para as próprias mãos que refletiam uma cor dourada tão intensa que ofuscou sua visão momentaneamente.

“Eu morri?”

Foi o primeiro pensamento do homem, sentiu o corpo leve e sem dor. Para sua surpresa estava levitando, era a melhor sensação que já experimentara. Sentia-se tão livre que sorriu.

“Morrer não é tão ruim assim”

Infelizmente Gareth não pôde desfrutar de sua pequena felicidade, sombras negras o circundavam. Como por extinto levou a mão á cintura em busca de sua espada, só então se deu conta de que estava desprovido de suas roupas, totalmente indefeso. E, para piorar ainda mais a sua situação aquela paz de espírito desaparecera, as feridas voltaram surrando-lhe a pele dourada. Vergões e cortes terríveis o faziam gemer e gritar por ajuda. Ninguém lhe ouvia, apenas as sombras nefastas gargalhavam e o tocavam repulsivamente, cada toque um corte, cada corte uma dor profunda e uma agonia sem fim.

Muito distante de onde estava ele vislumbrou aquela árvore estranha observando-lhe, como se ela lhe estendesse os galhos, como uma mão estendida e pronta para guiá-lo. Gareth sentiu a perda do domínio de suas pernas, as sombras continuavam a castigá-lo severamente. A voz em sua cabeça agora parecera ainda mais nítida.

“Enfrente seus demônios cavaleiro dos setes dragões, siga o caminho que lhe é mostrado...”

Gareth ergueu os olhos, seu corpo agora estava tomado pelas sombras e suas gargalhadas mortíferas tentavam ensurdecê-lo. O jovem ajoelhou-se prendendo os próprios braços em seu corpo e sentiu-se caindo em um abismo cada vez mais escuro e profundo.

“Liberte-se das trevas cavaleiro, lute pela sua vida... você é muito mais do que pensa que é...”

Um vento forte agora passava pelo seu corpo, aquele sopro gélido o tirou de seus devaneios e voltou a ficar em pé. Só que agora ele não era o cavaleiro Gareth, sentia que era ele mas estava menor, mais frágil, sim, Gareth voltara a ser uma criança.

O menino agora sentiu a extrema necessidade de chamar por sua mãe, gritava mãe e parou abruptamente quando percebera que não conhecia sua mãe, não sabia seu nome e nem seu rosto. Lágrimas banharam aquele rosto de menino sofrido, lembranças de um passado distante o assombravam, tinha um irmão. Sim, era isso. Um irmão, e Gareth correu ao encontro daqueles galhos que lhe mostravam um caminho.

Corria deixando para trás imagens tenebrosas, mortes, enforcamentos, fogo, gritos e em seu caminho bem a sua frente estava ele. Ambos garotos idênticos, só que o da frente estava sorrindo, juntamente com as sombras anteriores que lhe abraçavam.

Gareth interrompeu sua jornada, tudo ao seu redor parecia modificar-se a cada batida de seu coração acelerado. Não sabia mais o que fazer, o caminho antes tão claro e verde estava desaparecendo, o vento continuava contra seu peito, cada vez mais forte. No momento seguinte ele já não era mais um garoto, era ele mesmo na frente de si mesmo.

“Não deixe as sombras da dúvida o envolverem, siga apenas o caminho que lhe é oferecido”

O cavaleiro balançou a cabeça que doía cada vez mais, e sem aviso ou premeditação correu de encontro ao menino que lhe interrompia o caminho até transpassá-lo como uma miragem e atirar-se naqueles galhos verdejantes que lhe acenavam.

Gareth levantou o corpo rápido demais e se amaldiçoou por tal ato. Sua visão continuava turva, porém sabia perfeitamente que estava em uma cama. Aos poucos fora ganhando sentido ao que estava ao seu redor. O homem empurrou o lençol que o cobria e voltou a puxá-lo rapidamente ao perceber que estava nu. Uma risada suave tirou-o de seus questionamentos internos.

— Quem... quem está aí? — o jovem apertou o cenho na tentativa de melhor enxergar.

Alguns passos foram ouvidos naquela espécie de salão dourado, havia cortinas que dançavam sensualmente com o toque do vento. Gareth observou o vulto por trás daqueles véus tomando forma. Empurrou o corpo para trás melhorando consideravelmente sua visão.

— Percebo que tu és um guerreiro forte, conseguiu ludibriar a dama da morte — aquela voz, onde ele já a ouvira?

— Dama da morte? Eu não compreendo, onde estou? E minhas roupas? — o homem foi impedido de continuar seus questionamentos quando um punhal repentinamente encontrava-se em seu pescoço.

Gareth ficou imóvel, não estava em condições de começar uma briga.

— Ok, ok. Você está no comando. Não estou atrás de encrenca — Gareth disse mantendo a calma e controlando ímpeto de tirar aquele punhal que pressionava sua garganta.

— Ao menos os cavaleiros do rei tem cérebros.

Notas finais
E então, gostaram? Espero que sim. Abraço a vocês que me acompanham!