Brown Eyes
2 Capítulo 2- A Psicóloga
Notas iniciais
Sexta-feira não demorou a chegar, e Shinara passou mais um intervalo com a pequena Karen dentro da colorida sala do segundo ano B. No decorrer da semana, a aluna não havia dito uma palavra sequer, mas estava gesticulando de forma que era possível manter uma conversa e, às vezes, até escrevia um bilhete ou mais.
Porém, naquele dia, a dona dos olhos mais encantadoramente achocolatados do mundo estava ainda mais quieta do que o normal, então Shinara desistiu de tentar interagir com ela e apenas ficou sentada em uma cadeira próxima com o rosto apoiado nas mãos.
Quando todos os demais alunos voltaram do recreio, a professora pôs uma máscara de alegria e tentou manter a aula normal, mas por vezes deixava a máscara cair por alguns segundos e olhava para Karen com certa tristeza. Preocupação, na verdade. Estavam indo tão bem.
Por que a pequenina se afastara de novo tão subitamente?
Ao fim da aula, Gustavo ainda ficou alguns minutos tagarelando sobre nenhum assunto específico com Shinara, porém logo Gabrielle apareceu e o puxou para o portão da escola para esperarem seus pais juntos. Só nesse momento, quando a sala ficou completamente vazia, Karen levantou de seu lugar e caminhou a passos lentos até a mesa da professora, deixando um papelzinho em cima da pilha de tarefas que ela estava corrigindo.
“Desculpa sei que não fui uma boa companhia hoje :(”, era o que estava escrito no bilhete.
Shinara ergueu os olhos e percebeu a postura de Karen ainda mais retraída que o normal. A pequena se culpava pela professora ter ficado triste, fazendo-a e sentir culpada por tê-la feito pensar isso. Então pegou outro pedaço de papel e escreveu um bilhete também.
“Não é isso, pequena. Só fiquei um pouco preocupada. Você está bem mais quieta e distante do que de costume hoje :/”
“Não fica assim. Eu to bem, de verdade, okay? É só que sexta-feira não é bem o meu dia favorito da semana por assim dizer”, escreveu de volta no mesmo papel e com a caneta de Shinara, já que suas coisas estavam guardadas em sua mochila estampada com infinitos Pascals do filme “Enrolados”, que ainda estava encostada em sua cadeira no fim da sala.
“Por quê?”, a professora estranhou. O dia favorito de qualquer criança/adolescente era sexta (e sábado, é claro).
Karen ficou tensa ao ler a pergunta e mirou todos os lados antes de tornar a olhar para Shinara, a respiração acelerada e o cérebro trabalhando em alguma desculpa. Não era um assunto o qual gostaria de compartilhar com sua professora.
— Ei, ei. Relaxe. Me desculpe, eu invadi o seu espaço sem querer. Já disse que pode falar comigo quando quiser, e apenas se quiser. Não quis ser indelicada te perguntando isso.
Karen sacudiu os ombros e abaixou a cabeça; em seguida, voltou para o canto da sala e ficou lá admirando o tão interessante ponto imaginário no jardim da escola através da janela.
Shinara se amaldiçoou mentalmente e desejou ter escrito apenas um “Okay” para que a pequena não tivesse ficado sem graça.
***
Karen estava sentada no banco de trás do Cross Fox preto com uma expressão ainda mais desanimada que o usual. Realmente, odiava aquele trajeto e o lugar para onde ele a levava.
Atrás do volante, estava sua mãe. Tinha que prestar atenção na rua e já tivera provas o suficiente na vida de que isso era importante, porém seus olhos sempre acabavam fugindo de seu controle e se viravam para o retrovisor, analisando a pequenina no banco traseiro.
Em geral, O rosto de Karen ficava parcialmente coberto pela cortina de cabelo enquanto seus olhos achocolatados encaravam a paisagem da forma que o vidro fumê permitia, mas o desânimo das sextas-feiras fazia com que sua cabeça ficasse baixa e com que não fosse possível ver nem um centímetro de sua pele por baixo da cabeleira castanha.
Ao estacionar em frente ao prédio branco e azul-claro, a mãe desceu e abriu a porta para a filha, todavia Karen preferiu sair pelo outro lado e não ter que olhar para ela. E, à mulher, não restou nada além de segui-la clínica adentro.
Enquanto sua mãe apresentava o cartãozinho de paciente e pagava pela consulta, Karen deu uma olhada na tão conhecida porta da sala número 4 com aquela plaquinha identificando que era o consultório da doutora Nicole E. Lira e suspirou pesadamente, sentindo cada célula de seu corpo implorando para voltar para casa; mas, como não tinha escolha, apenas se arrastou para uma das confortáveis (pelo menos isso) poltronas da sala de espera.
Ao ouvir seu nome sendo chamado, a pequena jogou o corpo para fora do estofado e se encaminhou da forma mais lenta que podia até a porta da sala, fazendo uma careta quando aquela mulher lhe tocou os ombros para conduzi-la para dentro do cômodo.
“Eu tento deixar bem claro, transparente que eu não gosto que me toquem e você fica insistindo. Qual é o seu problema?”, pensou sacudindo os ombros, mas a psicóloga não soltou até chegarem a uma das duas cadeiras que ficava de frente a uma mesa branca e cinza de compensado e metal.
Karen sempre achou aquela decoração deprimente demais para um consultório de psicologia infantil. Tudo ali era branco com alguns detalhes em um tom muitíssimo claro de cinza, desde o sofá em um canto mais afastado até as cadeiras em frente à mesa, do teto as paredes texturizadas com desenhos abstratos de círculos e espirais, o tapete felpudo, o arquivo e até mesmo o chão. O lugar todo era apagado e melancólico. O único ponto de contraste naquela sala era a cadeira da própria Nicole, que era de couro negro.
“Não sei de onde tiraram que branco traz a sensação de tranquilidade”, foi o pensamento da pequena a primeira vez que estivera ali. “Isso tá é me deixando tonta.”
A psicóloga voltou para fechar a porta e, em seguida, sentou-se em sua cadeira, diante da paciente mais desafiadora que já tivera na vida. Sorriu amarelo e cruzou os braços em frente ao corpo. Sua pele era extremamente pálida, os cabelos tão negros quanto a noite mais escura e tão lisos que já havia desistido de usar presilhas, pois elas ficavam escorregando dos fios sedosos. Os olhos eram uma mescla de verde e mel, dependendo da luz ambiente, e os dentes eram tão brancos e brilhantes quanto pérolas. Era uma mulher absolutamente linda que Karen definitivamente detestava.
— Olá, Karen. Bem-vinda de volta, minha gatinha. Como você está?
Karen apenas a olhou de forma entediada e bufou. “Qual é, Nicole? Você sabe que não vou falar e sabe que eu sei que você sabe disso. Qual o sentido de desperdiçar o nosso tempo?”
— Vamos lá, Karen. Eu só quero te ajudar, mas tens que me ajudar a fazer isso.
Os lábios da menina se curvaram em um sorriso irônico, e seus olhos encararam os de Nicole de uma forma intensa, como se ela assim pudesse ler seus pensamentos. “‘Eu só quero te ajudar...’ Faz-me rir. Eu sei bem por que ainda não me mandou para outro profissional”.
— Não me olhe assim, okay? Eu sou sua psicóloga. O que mais iria querer além de te ajudar? — Karen continuou a encará-la da mesma forma, deixando-a desconfortável. —Vamos... — pigarreou. — Vamos tentar os cartões de novo.
A doutora abriu uma gaveta e tirou de lá os cartões com desenhos de objetos e seus respectivos nomes. A paciente revirou os olhos achocolatados e deixou os ombros caírem em total incredulidade. “Você não pode tá falando sério, Nicole.”
— O que é isso? — mostrou o primeiro cartão, que tinha a imagem de um barquinho colorido.
“É isso? Sua melhor tática pra tentar me fazer falar alguma coisa é me tratar como retardada, Nicole? Parei com você.”
Karen baixou a cabeça, analisando as próprias mãos que repousavam em seu colo, e permaneceu assim até o horário da consulta acabar.
— Droga, Karen, você não me ajuda! Vá lá fora e chame sua mãe. Quero falar com ela.
A criança saiu um pouco (ou talvez muito) irritada. O que aquela mulher poderia ter arranjado como desculpa para falar com sua mãe agora?
Ao sair, deu umas batidinhas na bancada da recepcionista para chamar sua atenção.
— O que foi, baixinha? — disse a adolescente que não deveria ter mais do que 16 ou, no máximo, 17 anos. — Ela quer falar com a sua mãe de novo? — Karen assentiu. — Por que você mesma não chama dessa vez, hã? — Karen negou. — Quem sabe na próxima, né? —Sorriu torto para ela e virou-se para a sala de espera. — Senhora, a doutora Nicole quer conversar com você.
A mãe de Karen a olhou e percebeu que ela já estava voltando para o consultório para não ter que olhá-la. Então suspirou pesadamente e a seguiu, sentando-se na cadeira restante em frente à psicóloga.
— Algum progresso hoje? — Mesmo depois de tantos meses, ela ainda tinha esperança de que sua filha melhorasse.
— Pra falar verdade, não. Por isso, eu a chamei aqui. Não acho que vai gostar do que eu vou sugerir, mas estou de mãos atadas.
— O que é?
— Talvez seja melhor internar a Karen em uma clínica psiquiátrica para receber um tratamento intensivo pós-traumático.
Karen arregalou os olhos para a doutora enquanto seu queixo caía. Não era louca, muito menos perigosa. Não podia ser internada em uma clínica psiquiátrica!
— Perdão, mas a senhorita disse "internar"?!
— Me desculpe, mas eu acho que seria melhor pra ela ser tratada com antidepressivos e acompanhamento psicológico diário, já que não estamos tendo progresso aqui.
— Você só pode estar louca! Está se ouvindo? Percebe o absurdo que acabou de falar?
— Olha, eu não disse isso antes porque tenho por você uma grande... — antes de terminar de falar, Nicole a olhou de cima a baixo e mordeu o lábio inferior. — Consideração. Mas eu já venho pensando nisso há algumas semanas.
— Eu definitivamente não concordo...
— Eu sou uma profissional. Talvez devesse levar minha opinião em conta. Ainda mais considerando que ela nem olha na sua cara desde...
— EU SEI! — gritou exaltada, mas logo em seguida recobrou a compostura. — Tenho plena ciência disso e posso não ser uma profissional, mas sei e sinto que isolar a minha filha de oito anos do resto mundo e lhe enfiar remédios garganta a baixo não é a melhor forma de deixá-la menos depressiva e muito menos de fazê-la voltar a interagir com as pessoas ou... — Suspirou e baixou a cabeça por um segundo antes terminar a frase. — Comigo. Eu não vou fazer isso com ela.
Os olhos achocolatados de Karen se encheram de lágrimas, e sua vontade de olhar para a mãe era tão esmagadora em seu peito que quase a impedia de respirar. Mas simplesmente não conseguia fazê-lo, então permaneceu estática em seu lugar com os longos fios castanhos escondendo as lágrimas que molhavam suas bochechas.
— Eu entendo — disse a psicóloga em tom profissional.
— Já que essa é a sua opinião, acho que talvez seja melhor mudar a Ka de psicóloga.
E, mais uma vez, a montanha-russa emocional de Karen deu uma guinada. De irritada para preocupada, passou para emotiva e, agora, estava quase animada, deixando um início de sorriso brotar em seus lábios rosados. Porém, ele logo foi apagado pela frase seguinte.
— Não! Não é necessário ainda. Deixe-a aqui por mais algumas semanas e, se não houver melhora, você pode pensar na minha sugestão ou... Procurar outra psicóloga.
“Por favor, mãe, diz ‘obrigada, mas não’ e procura outra psicóloga.”
— Tudo bem. Mas só mais algumas semanas.
“Droga. Mais algumas semanas com essa mulher. Oh, vida.”
— Então vejo as senhoritas semana que vem — a doutora disse, estendendo a mão para um aperto.
— Não me chame de senhorita.
— Perdão.
— Até semana que vem.
Ignorando a mão ainda no ar da psicóloga, a mulher se levantou e fez sinal para sua filha a seguir, mesmo sabendo que ela não estaria olhando. Antes de sair, Karen ofereceu um olhar raivoso a Nicole e, outra vez, como se ela pudesse ler seus pensamentos através do olhar, gritou mentalmente “Eu detesto você!”.
Continua...
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