Brown Eyes
3 Capítulo 3- Conversão Sexta-Feiramental
Notas iniciais
Durante o fim de semana, Karen, como sempre, passou a maior parte do tempo enfiada em algum livro na biblioteca de sua casa. Levaria um lençol e dormiria sobre as almofadas fofas dali se lhe permitissem.
Então a semana começou e, pela primeira vez, a menina estava realmente animada para ir à escola segunda-feira. Tanto que causou estranheza em sua mãe, que a observou mexer de leve o corpo no ritmo de uma música imaginária ao invés de ficar estática olhando fixo para a janela no banco de trás do carro.
Shinara estivera preocupada com a pequenina o fim de semana inteiro, mas, assim que seus olhares se cruzaram em sala, um sorriso grande (ao nível de Karen) se espalhou pelo angelical rostinho infantil, e o coração da professora pôde bater em paz.
Depois de cantar o hino, todos voltaram para a sala, e a aula prosseguiu normalmente. O intervalo chegou até rápido demais para o gosto de alguns (cof, cof, Gustavo), mas todos saíram (cof, cof arrastado por Gabrielle, cof), deixando a professora sozinha com Karen.
— Então, pequena, o seu fim de semana foi bom? — perguntou, recebendo em resposta um aceno positivo. — Menos a sexta-feira, certo? — Karen bufou e revirou os olhos como se dissesse “nem me fale sobre isso”. — Eu fiquei realmente preocupada, embora você tenha dito pra não ficar. Quando te perguntei o porquê, você me pareceu bem abalada. — a pequena sacudiu os ombros e gesticulou com a mão que a professora deveria deixar esse assunto para lá. — Tudo bem, você que sabe. Mas não se esqueça de que, sempre que precisar, ou quiser, uma amiga, tem eu aqui.
Karen sorriu em resposta. Tinha a mais plena confiança na mulher à sua frente. Sentia no fundo de seu âmago que, diferente daquela Nicole Lira, Shinara Amorim realmente se importava consigo e não desperdiçaria essa amizade tão sincera, pois era a primeira que tinha desde... Aquela noite.
Os minutos que passaram sozinhas “conversando” se foram voando, e logo a sala estava cheia de criancinhas risonhas e suadas ou cheirando a comida.
***
Como na semana anterior, ia tudo às mil maravilhas até a bendita sexta-feira chegar. Shinara realmente estava começando a detestar esses dias tanto quanto Karen, ao mesmo tempo que desejava muito saber o motivo de serem tão desagradáveis para a pequena. Quem sabe assim pudesse ajudá-la.
Na semana seguinte, foi a mesma coisa. E, na próxima, Shinara estava muitíssimo incomodada com a quietude da aluna.
— Só olha pra sua amiga um minuto, pequena. — a voz triste e suplicante tocou fundo o coração de Karen, fazendo-a se sentir culpada novamente e olhar a professora. — Eu sei que você não gosta de sexta, meu bem. E, seja o que for, eu realmente espero que melhore. Mas eu estou aqui agora e podemos conversar sobre qualquer coisa ao invés de você ficar aí remoendo o que te desagrada. Quem sabe, se apenas tentar conversar comigo, você não acaba esquecendo que hoje ser hoje te incomoda?
Karen se concentrou por um instante nos olhos negros da professora. Conversar com ela era sempre a melhor parte de seu dia, e estava deixando aquela doutorazinha estragar isso também.
Shinara estava certa. Não valia a pena ficar pensando naquilo antes do necessário, então pegou uma folha de papel e escreveu no topo com uma caneta roxa: “Certo, certo. Sobre o que quer conversar?”
Shinara sorriu e fez uma expressão pensativa enquanto pegava a caneta vermelha do bolso da camisa para responder: “Você nunca chegou a me responder as perguntas do primeiro dia de aula. Só o seu nome.”.
“Ah é. Nem me lembro mais quais eram :”
“Sua idade, cor favorita e o que faz pra se divertir.”
“Bom, completei oito anos no mês passado. Pro meu azar, caiu em uma sexta-feira -.- Minha cor favorita... Hm... Difícil escolher entre lilás e azul.”
“São duas cores lindas. Se eu te contar um segredo, você não conta pra ninguém?”
Karen leu a pergunta três vezes para ter certeza de que não havia lido errado, então riu da forma muda de sempre. Só então respondeu. "Ora, pra quem eu contaria??"
“Haha. Okay. Eu digo pra todo mundo que minha cor favorita é branco, mas, na verdade, é preto.”
“Por que mente sobre isso?”
“Sei lá. Sou professora de primário, acho que não se espera que minha cor favorita seja preto. Mas, enfim, o que você faz pra se divertir?”
“Eu não sei se quero falar sobre isso. É meio constrangedor. Não se espera isso de uma pessoa com a minha idade. Não é comum.”
“Eu te contei uma coisa que as pessoas não esperam sobre mim. Seria justo me contar uma também. E além do mais, não gosto de você por te achar ‘comum’. Gosto de você por ser única. Assim como gostas do meu nome.”
“Bons argumentos, senhorita Amorim. Tá bem, eu conto. O que eu mais gosto de fazer é ler. Amo livros e o cheiro que eles têm. Amo me sentir parte da história e viajar no tempo e no espaço sem sair da minha confortável almofada. Além do que melhora a minha memória, meu cognitivo, etc. e tal.”
“Aaaah. Isso explica o seu vocabulário. Não sei por que você achou que isso seria constrangedor. Achei muito bom saber que uma menina tão novinha já desenvolveu interesse por leitura.”
“E você? Gosta de ler?”
“Amo. Sinceramente, prefiro desenhar, mas eu A-M-O fazer os dois.”
“Eu até poderia gostar de desenhar se eu não fosse um completo desastre. E também porque me lembra...” Antes de terminar a frase, Karen se interrompeu e rabiscou o início, entregando o papel de volta à professora.
— Ei. — Mais uma vez Shinara encarou profundamente os olhos achocolatados da aluna na intenção de mostrar o quão sincera estava sendo. — Você sabe que pode falar comigo sobre qualquer coisa, não é?
Karen pegou o papel de volta, suspirando antes de escrever: “Claro que sei, mas tudo a seu tempo. Não estou realmente pronta pra falar sobre isso ainda. Então podemos continuar com o antigo assunto?”
Antes que Shinara pudesse ao menos pensar em algo para responder, o sinal soou, anunciando o fim do recreio e, no mesmo instante, Gustavo entrou na sala com Gabrielle logo atrás.
— Comprei isso pra você, professora Shinara – disse o garoto sorridente estendendo um chocolate para a professora que havia acabado de levantar.
— A mamãe deu dinheiro pra eu comprar um pra mim e um pra ele. Ele que não quis comer — retorquiu Gabrielle em seu típico tom superior.
— Só porque ela não tinha dinheiro trocado. — Gusta deu língua para a irmã antes de voltar a sorrir para a professora. — Não é verdade que eu só dou porque não quero. Eu até quero, mas quero mais dar pra você porque eu gosto de você.
Desde que os dois entraram, Karen já havia voltado a encarar o magnífico ponto imaginário no jardim da escola, entretanto estava ouvindo cada palavra da conversa.
— Ah. Ouça, eu não sou de comer chocolate sem ser no fim de semana, então você pode comer. Mas muito obrigada por pensar em mim, Gusta. Você é mesmo um cavalheiro. — A professora se abaixou para beijar a bochecha cheia de sardas do aluno, deixando-o ruborizado, porém com um sorriso bobo ainda maior enfeitando o rostinho angelical.
A aula passou tranquilamente, e logo todos estavam indo embora. Como Gabrielle sabia que Gustavo iria querer ficar para babar um pouco mais a professora, saiu puxando-o pela orelha enquanto resmungavam um com o outro.
— Para de me tratar como bebê!
— Sou cinco minutos mais velha, tenho esse direito.
— Só cinco minutos, Bibi! Só cinco minutos!
Quando as vozes sumiram pelo corredor, Karen se sentiu à vontade para se levantar e colocar um bilhete em cima da pilha de tarefinhas que Shinara corrigia.
“Eu já te vi comer chocolate dia de semana, professora.”
“Eu sei. Até aceitaria o do Gusta, mas ele queria, então só recusei de um jeito delicado. Só ele já é um doce. Queria vê-lo feliz por um chocolate.”
“Você também é um doce. Gosto cada vez mais de você.”
“Que bom, pequena. Digo o mesmo sobre você.”
Karen sorriu e girou nos calcanhares para voltar ao seu lugar no canto da sala. Mesmo que lá no fundo tivesse plena ciência de que, em algumas horas, estaria sentada aturando aquela nojenta da Nicole Lira, estava feliz pelo papinho que tivera com alguém que se importava, e isso valia a pena.
***
Mais uma semana se passara e durante todos os dias letivos, Karen e Shinara passaram o intervalo inteiro “conversando” sobre seus livros favoritos, e o tempo que a pequena passava apenas gesticulando antes de pegar um papel para conversarem melhor estava cada vez mais curto, porém o humor “sexta-feiramental” de Karen continuava ruim.
Mas Shinara já esperava por isso, então, quando o intervalo chegou (e depois que Gustavo finalmente saiu), a professora pegou um embrulho retangular de dentro de sua pasta e andou com um meio sorriso no rosto até a mesa de Karen. Esperava de verdade que seu plano desse certo.
— Bom dia, pequena. — O tom de animação saíra menos forçado do que esperava, então se sentiu à vontade para prosseguir. — Eu tenho uma surpresa pra você. — Embora estivesse naturalmente desanimada por ser sexta-feira, Karen ficou intrigada e pousou o olhar achocolatado sobre Shinara. — Espero que goste — anunciou, estendendo o embrulho para a pequena, que logo o abriu, revelando a capa de “O Pequeno Príncipe”. – É um dos meus livros favoritos, como você já sabe, e eu achei que você gostaria de lê-lo também. — Os olhos castanhos brilharam, admirando o livro ainda coberto pela proteção plástica e, em seguida, a professora, em um agradecimento mudo. — De nada. Mas esse é só o primeiro. Vou te dar um livro por semana, aí sexta-feira passa a ser “o dia em que a Shi me dá um livro”, e não... Bem, seja lá o que fosse antes. Gostou?
Karen ficou indescritivelmente encantada e emocionada com o gesto de sua professora. Sentiu vontade de abraçá-la, mas, só para variar, foi impedida por sua própria retração.
Mas não desistiu. Mesmo um pouco hesitante (ou não tão pouco assim), estendeu o braço para frente e fez uma breve pausa antes que seus pequenos dedos tocassem a pele macia do rosto de Shinara em uma carícia leve e suave. A professora tomou um susto no primeiro momento, mas logo em seguida sorriu e estendeu a mão na intenção de acariciar o cabelo castanho da aluna, mas Karen a impediu sem interromper a própria ação.
— Então eu não posso te tocar ainda? — Karen negou com a cabeça. — Entendi. Tudo a seu tempo, não é? — A baixinha sorriu e assentiu. — Mas fico feliz que ao menos se sinta confortável o bastante pra me tocar, pequena. — Karen sorriu e retirou a mão da pele de Shinara para abrir o presente e sentir aquele cheiro delicioso de livro novo, então tornou a olhar a professora com aquela expressão emotiva que demonstrava gratidão. — Não precisa agradecer tanto. Eu vou deixar você ler.
A professora retornou à sua mesa e trocou um último sorriso com a pequena antes de abrir o caderno e se concentrar em um desenho que começava a fazer.
Continua
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