Os preparativos para a viagem à Santorini começaram ainda na sexta-feira. A família Berger tinha um helicóptero particular pronto para ser usado por Giancarlo. À tarde, o rapaz e o seu acompanhante de luxo pegaram a aeronave e voaram para a ilha do Mar Egeu.

— Parece sério? Não tá curtindo a viagem?

— Estou sim. É que sempre fico pensativo quando viajo.

Para Gian, porém, a expressão de Matteo havia ficado assim por conta da breve discussão com Victor Hugo. Seus pensamentos invadiram a mente e logo pensou na possibilidade do acompanhante estar ciumento devido a confissão de Victor. Entretanto, Matteo deixou claro tantas vezes que não se apaixonava e não misturava sentimentos com a sua profissão.

Por volta das 17 horas, o helicóptero pousou no hotel da família. Os dois pegaram as bagagens e entregaram aos empregados.

Santorini era uma ilha belíssima. Dava para ver todo o mar do heliponto. As casas brancas no morro. Era uma vista exuberante.

— Nunca pisei aqui.

— Sempre tem uma primeira vez, querido — Gian colocou óculos escuros e pegou o braço do acompanhante. — Melhor irmos.

À noite, os dois foram para um bar luxuoso e tomaram drinques de todos os tipos. Uma banda tocou alguns clássicos de jazz.

Enquanto isso, Victor Hugo ligou para a mãe de Giancarlo e perguntou para onde ele havia viajado. A perua contou tudo sobre a viagem do seu menino. Isso deixou o homem esperançoso para fazer uma confissão. Ele sabia que Gian estava apaixonado pelo gigolô, no entanto a recíproca não era verdadeira. Matteo nunca quis se apaixonar por um cliente seu. E era isso que deixava Victor com esperança.

— Nunca se apaixonou por alguém? — questionou Gian. Os dois estavam sentados à uma mesa do bar.

— Sou apenas um trabalhador, senhor Giancarlo. Por que quer saber da minha vida?

— Oh... amor. Toda vez você fica reticente quando o assunto é a sua vida amorosa. Já que um dia vamos nos separar, eu quero conhecê-lo.

O Silvestri bebeu o líquido transparente na taça e comeu a azeitona.

— Já namorei com uma pessoa que me fez mal. E é por isso que o meu coração ficou duro feito o meu pênis.

Gian gargalhou.

— Queria tocar o seu coração assim como toco o seu pau. É uma pena que não queira mais se relacionar. Você é um completo desperdício.

Os dois se beijaram. Outros casais gays também curtiram o bar, pois era um bar arco-íris.

...

Em Roma, o prefeito pediu desculpas aos cidadãos pelo apagão na cidade. Havia ocorrido um acidente e muitos bairros ficaram sem energia por algumas horas.

Lucca recebeu uma ligação de Coronatto sobre a live stream da noite anterior, parabenizou-o e pediu mais esforço para conquistar outros recordes de audiência. O dono do site ganhou uma boa grana na semana.

— Obrigado, senhor...

— Amanhã terá outra live, não é? Eu mesmo vou acompanhar para ver o seu desempenho.

— Não precisa se incomodar tanto.

— Sua voz está um pouco diferente. Algum problema?

— Não, claro que não. Amanheci um pouco rouco.

— Pois se cuida. Precisa ficar 100% disposto para amanhã.

— Pode deixar, senhor.

A farsa era quase totalmente segura. O corpo, a voz, o rosto... tudo era praticamente igual. No entanto, os gêmeos ainda possuíam certas diferenças mínimas quase imperceptíveis. Mesmo assim, havia o fato da grande diferença no comportamento. Matteo Silvestri era muito mais extrovertido, enquanto Lucca Silvestri preferia ser mais quieto.

— Isso vai acabar mal.

...

Úrsula impediu Marco Polo de cometer alguma besteira com Matteo. Implorou que ele ficasse calmo e não fosse para Roma.

— Do jeito que você está, tenho medo de que acabe tendo um acidente na estrada — falou enquanto massageava os ombros do marido.

— Você viu? A foto do Matteo estampada num anúncio para maiores de idade. O que o nosso filho tanto faz lá?

— Eu irei lá e falarei pessoalmente com Matt. Você indo só vai piorar as coisas.

Donatello apareceu na sala e perguntou sobre Lucca. Úrsula afirmou que ele estava na companhia de Matteo.

— Vi Matteo recentemente em Roma. Ele estava bem diferente...

A matriarca puxou o ruivo para a sala de estar e sentou junto com ele no sofá.

— Sabe o que ocorre com o Matteo?

— Senhora Silvestri...

— Preciso de respostas. Ele está aprontando algo muito sério. Ele sempre foi um garoto meio danado, serelepe. Quando o viu, o que notou?

— Nada, senhora. Ele estava mais sério do que de costume.

— E o Lucca?

— Não vi o Lucca em momento algum. Vim até aqui para falar com ele, mas aparentemente não está.

— Matteo arrastou Lucca sem mais nem menos. Desde então não tenho notícia dos meus filhos.

O ruivo perguntou o motivo da preocupação de Úrsula. Ela mostrou a propaganda com a foto do "Matteo". Donatello logo falou que aquele era Lucca, não Matteo.

— Não brinque comigo, Don.

— Não, senhora! Olhe no pescoço dele. A corrente de ouro no pescoço que dei a ele de presente. Só não faço ideia do porquê fez essa foto?

Ambos se olharam e perceberam que algo de muito errado estava acontecendo. Úrsula e Donatello resolveram viajar para Roma e confrontar Matteo e Lucca.

...

Sábado chegou tanto na Itália quanto na Grécia. E no Mar Egeu, a dupla quase romântica estava agarrada debaixo do edredom. Não transaram na noite anterior; apenas se masturbaram. Mesmo assim, a companhia de Matteo era incrível para Gian.

— O que foi...? — disse Gian ainda sonolento. Viu o homem ao seu lado olhando fixamente para o seu rosto.

— Bom dia.

— Tá acordado desde quando?

— Desde uns vinte minutos atrás. Não havia nada para fazer, por isso decidi ficar admirando a sua beleza.

Gian se espreguiçou.

— Até parece que esse olhar... é... apenas admirando. Você quer fazer outra coisa.

— Nunca neguei isso.

Gian se aproximou de Matteo e pediu um abraço. Eles ficaram nessa posição por algum tempo. Aproveitariam o fim de semana paradisíaco.

Enquanto isso, Victor Hugo acessou a ilha na manhã bem cedo. Disposto a tudo, o empresário se hospedou no mesmo hotel da família Berger que Giancarlo estava.

Às 10 horas da manhã, o empregado do hotel levou um carrinho cheio de frutas, alimentos e sucos. Era um café da manhã das mil e uma maravilhas. Ambos foram para a mesa de cristal e aproveitaram a vista do mar.

— Olhando o celular. Ainda preocupado com o seu irmão?

— Talvez. Hoje ele volta a fazer outra live. Mas não quero pensar nisso agora. Hoje teremos um dia especial — Matteo beijou Gian na boca.

— Tem um iate esperando por nós, sabia?

— Até quando vai me mimar?

— Você merece, meu gostoso. Sou uma pessoa disposta a tudo.

E continuaram os beijos e o desjejum.

Eles embarcaram no iate da família de Gian. Cumprimentaram o capitão e foram para cabine de luxo. O local era bem grande e nem parecia ser parte de uma embarcação. O iate navegou por vários quilômetros. Gian e Matteo aproveitaram as paisagens e o serviço vip ate o anoitecer. E quanto mais tarde, mais apreensivo Matteo ficava. Um pouco menos de 3 horas para o seu irmão realizar a live.

— Gian — chamou Victor Hugo no píer.

O loirinho saiu do iate e se deparou com Victor a poucos metros. De repente, Victor andou mais rápido e segurou o menor pela cintura. Houve um beijo.

— Eu gosto de você.

Mas Matteo deu um empurrão, fazendo o outro cair. Abraçou o Gian logo em seguida.

— O que esse vira-lata faz aqui?

— Canalha!

— Calma, gente — falou Gian.

— Tá só se aproveitando do dinheiro do Gian, não é? Qual é o seu problema? É apenas um garoto de programa. Gian merece um companheiro para toda a vida.

— Espera, Victor. Não precisa falar assim dele.

— Deixe-o falando sozinho. Afinal, sempre será aquele que segurou a vela — Matteo debochou de Victor, pondo a mão no ombro do outro.

Os dois se agarraram numa briga frenética. Giancarlo gritou de desespero, haja vista os dois machos alfas se agrediam com o máximo de violência.

...

Ainda na Itália, Lucca se preparou para começar o vídeo. Como na quinta-feira, decidiu ir vestido com as suas próprias roupas.

Por volta das 21 horas, abriu o computador no site e preparou para iniciar finalmente a live. Porém, a campainha tocou.

— Não espero ninguém.

Ele foi até a porta de entrada e viu pelo olho mágico um entregador de comida.

— Eu não pedi nada.

— O senhor é Lucca Silvestri?

Lucca ficou pensativo por um momento. Pensou que aquele entregador fora contratado pelo próprio Marteo.

— Sim, sou eu.

— Tenho uma entrega para o senhor Matteo Silvestri.

Ele abriu a porta.

— Obrigada pela ajuda, senhor — disse Úrsula ao pagar 20 euros para o entregador.

— Mamãe?!

— É esse o colar no pescoço dele?

— Sim, senhora.

— Don? O que fazem aqui? Lucca não está.

— Poupe-me da sua canastrice em atuar, filho. Sei quem você é.

*Lucca viu o verdadeiro terror!!

O Lucca quase teve uma síncope. Estava iniciando a live. Não deu tempo de impedir a mulher de entrar e ir atrás do estúdio de gravação. Desligou o computador e foi procurar os objetos eróticos no quarto de Matteo.

— Don... desculpe.

— Não sei o que falar, amigo. Mas já nem sei se somos amigos.

Úrsula praticamente gritou no quarto. Ela havia achado a "caixa de pandora" das putarias e afins de Matteo. Lucca não havia verdadeiramente jogado no lixo.

— Cadê o Matteo?

— Viajou.

— E você aceitou fazer parte dessa pouca vergonha?

— Tive um forte motivo. Tá okay?

— Já te falei para não falar "tá ok". Isso me irrita. Parece coisa de malandro.

Durante a discussão entre mãe e filho, Donatello resolveu ir embora antes da mulher. Não aguentou ver como Lucca havia se fingido de Matteo. Eram amigos. Infelizmente, a amizade fora abalada.

— Como soube disso?

— Olha aqui — Úrsula mostrou o screenshot da imagem da propaganda.

— Malditos! Como pegaram uma foto minha sem o meu consentimento?

— Teu pai quer ver o Matteo de qualquer maneira. No entanto, falei para ele se acalmar. Deixou para eu resolver. Enfim, larga tudo e vamos voltar para a fazenda.

— Não posso, mãe. Matteo me chantageou.

Chantagem. Nunca que Úrsula imaginaria que um filho seu recorreria a uma atitude tão baixa.