Notas iniciais
Oi, oi gente!
Nesse capítulo eu dei uma empolgada básica e acabei extrapolando no número de palavras. Não que isso seja uma coisa ruim, mas é que talvez tenha ficado um pouquinho enrolado demais. Prometi que a partir desse capítulo a trama iria se desenrolar mais, mas não sei se saiu do jeito esperado. As coisas ainda estão engatando, então... Paciência! rs.

Enfim, boa leitura.

Soul POV


– Maka! Gritei com todas as minhas forças, mas não obtive retorno.

A loira corria à minha frente, sem ao menos olhar para trás. Meus passos ágeis e eufóricos a seguiam por entre as ruas desertas da Cidade da Morte. Era manhã de um dia comum, mas não havia ninguém transitando nas vias da cidade. Portas, janelas, comércio, lojas... Tudo estava fechado, deixando que um clima ermo reinasse ali. As únicas presenças notáveis eram a minha e a de Maka, que por sinal havia se distanciado mais ainda de mim, fazendo com que eu a perdesse de vista. Por que ela estava correndo, e agora parecia estar brincando de se esconder? Eu já estava tomado pela exaustão de correr debaixo daquele sol escaldante, e meus pulmões agora estavam se dilatando com dificuldade pelo pouco oxigênio que eu conseguia inspirar. Me esgueirei por um beco estreito que passava por baixo de uma pequena ponte de pedras, buscando fugir da queimação que os raios solares me causavam, procurando por uma sombra sob aquela ponte. Foi quando notei uma sombra dobrar a esquina, rapidamente e quase imperceptivelmente, como um rato de esgoto que foge do predador. Com esperanças de que fosse a projeção da sombra de Maka, dei um jeito de abandonar o cansaço e iniciei novos passos rápidos, perseguindo aquela sombra. Dobrei a mesma esquina que ela e dei de cara com o final do beco. Ali não batia luz, pois as densas nuvens acima daquela área impediam qualquer avanço dos raios solares. A umidade do beco tornava o clima frio, o qual causava uma série de arrepios pelo entorno de meu corpo. Por entre a pouca iluminação, notei uma silhueta escura parada rente à parede que dava fim àquela ruela, e em frente a ela havia uma alma de áurea alaranjada flutuando.


– Coma. – Subitamente, uma voz sussurrada soou, ordenando que eu engolisse aquela alma.

A voz pareceu vir da silhueta à minha frente no beco. “Maka?” Indaguei mentalmente, enquanto inclinava um pouco a cabeça, tentando enxergar melhor e reconhecer aquela presença que me servia de companhia naquele beco. A silhueta permanecia imóvel, parecia não se mover nem para respirar, e isso me angustiava cada vez mais. Os ombros largos e a estatura um pouco alta me indicavam que aquela pessoa definitivamente não era a Maka. Assim que eu me posicionei para avançar sobre aquela silhueta misteriosa e acabar de vez com aquele suspense agonizante, senti uma força maior dentro de mim tomar meus movimentos, e começar a me dirigir calmamente até a alma flutuante a poucos metros de mim. “Mas o que está acontecendo comigo?!” Indaguei com discrepância, porém, antes que eu pudesse compreender de onde vinha a força que me impulsionava a me mover inconscientemente, vi minhas mãos agirem por vontade própria e tomarem para si aquela alma alaranjada. Em um gesto quase automático, as mesmas mãos começaram a levar aquela alma na direção de minha boca, e mesmo que eu tentasse impedir, elas não paravam, parecendo que haviam adquirido vida própria. Num átimo, senti a resistência em não comer aquela alma cessar dentro de mim, e uma vontade espontânea brotar em meu ser. Eu não precisava daquela alma, já que há anos eu havia conseguido minha formação como Death Scythe. Também não poderia devorar aquela por ser uma alma saudável e não um ovo de kishin. Mas eu conseguia ouvir uma fraca voz sussurrar ao meu ouvido: “Coma, coma, coma...”. E de repente, eu queria mesmo comê-la. Quando a alma estava a centímetros de meu rosto, me dei ao luxo de apenas separar os lábios para que minhas mãos fizessem o restante do serviço, e inserissem aquela alma dentro de minha boca. Assim que voltei a unir os lábios, senti uma sensação fria e arrepiadora sobre mim, e quando engoli a alma, minha garganta pareceu estar sendo queimada com ácido. De imediato, a silhueta à minha frente finalmente se moveu, mas não do jeito que eu esperava. Ela levou as mãos até a face e começou a mexer de leve os ombros, dando menção de que estava rindo. Achei que estivesse interpretando aqueles movimentos de forma equivocada, mas ao fundo eu podia mesmo escutar algumas risadinhas. Em um momento inesperado, as risadas baixas tornaram-se fervorosas gargalhadas, e os movimentos contidos da silhueta misteriosa explodiram em uma pose de triunfo, onde as pernas se separaram por alguns centímetros, as mãos agarraram o ar e o peito da sombra se estufou enquanto dava alguns tremores causados pelas gargalhadas. Por não aguentar mais o clima de suspense propenso sobre aquele beco, dirigi meus passos urgentes até a silhueta risonha e quando minhas mãos sedentas avançaram sobre ela, a sombra se desfez e transformou-se em fumaça bem a minha frente. “O que?!!” Questionei incrédulo, enquanto encarava furioso o vácuo deixado entre mim e à parede que dava fim ao beco. Quando me virei para sair correndo daquele lugar úmido e arrepiante, notei as nuvens se dissiparem, assim dando passagem para a luz do sol, que agora estava um pouco mais fraca. Com a iluminação, foi possível que eu notasse um líquido escuro brotar por entre as pedras do calçamento do beco, formando uma poça relativamente grande no chão. Cessei meus movimentos de fuga imediatamente, e, antes de qualquer outra ação minha, o líquido severamente escuro começou a levitar, e a poça passou a tomar forma humana. Diante dos meus olhos, aquele líquido tornou-se uma pessoa. E o pior... Tornou-se uma pessoa igual a mim.


– Você pensou que eu estivesse brincando? – A voz grotesca daquela cópia minha fez com que eu me lembrasse do sonho bizarro de alguns dias atrás.

– Demônio?! – Indaguei incrédulo, analisando de cima a baixo aquele “segundo eu”. Apesar da incrível semelhança, havia algumas diferenças marcantes entre eu e ele. Seu cabelo, ao contrário do meu, era negro como a noite mais obscura, e no lugar do branco de seus olhos havia um vermelho sangue, quebrado apenas pelas pupilas negras e dilatadas dele.

– Eu avisei para que você se preparasse, mas pelo visto, você optou por me ignorar. Entretanto, agora você terá que me enfrentar, estando pronto ou não! – Ele exclamou ao mesmo tempo em que esboçava seu sorriso carregado de maldade.

– Mas que merda é essa que você está falando? – Gritei em uma intensidade maior.

– A alma que acaba de devorar, você não foi capaz de reconhecê-la? – Ele deu início a algumas risadas. – O sabor daquela garota deveria mesmo ser desprezível. – O demônio gargalhou, enquanto eu sentia um embrulho no estômago e uma acidez banhar meu esôfago.

– MAKA?! – Explodi na indagação, não conseguindo acreditar no que meus ouvidos captavam. – Você não pod-...– Meu protesto contra o demônio foi interrompido por uma voz perturbadora, que começou a rondar minha mente, em uma série de choros acompanhados de soluços. “Por que você me matou, Soul? Eu te amava tanto.” Murmurou a voz trêmula, me fazendo reconhecê-la como sendo de Maka. “Não! Eu não te matei!” Comecei a exclamar mentalmente, mas era como se a voz dela tivesse sido gravada numa secretária eletrônica, e por mais que eu protestasse contra aquelas acusações, não adiantaria, pois elas continuavam junto ao choro contínuo de Maka. Eu estava completamente perturbado com aquilo, não sabia o que fazer, como agir.

Ao longe, pude escutar as risadas maldosas do demônio continuarem, fazendo com que minha insanidade mental se triplicasse. Em um ato irracional, avancei sobre o meu “quase sócia” com as mãos alçadas no ar, e quando tornei nossa distância mínima, impulsionei com força as mãos até que elas batessem com tudo no demônio, que instantaneamente se transformou no líquido escuro de antes, espirrando sangue negro para todos os lados, me deixando totalmente coberto por aquela solução negra.


Num baque, voltei à sã consciência, e quando me dei conta, estava em cima da motocicleta, com Maka sentada na garupa, segurando-se em mim. Compreendi que havia acabado de voltar de um pesadelo, o qual eu não sabia se tinha durado apenas alguns segundos ou se tinha chegado a tomar minutos. Apesar da libertação daquele desagradável sonho, a sensação que me tomou enquanto estive inconsciente ainda me tomava por inteiro. Olhei com a visão embaçada para o velocímetro, notando que o veículo de duas rodas estava a mais de 180 km/h. Sentindo uma tonteira tomar minha cabeça, percebi Maka me segurar mais forte e arfar por baixo do capacete. Quando ergui novamente o olhar, entendi a razão do espanto da loira. Eu estava dirigindo bem no meio das duas faixas da estrada, e um caminhão no sentido oposto a nós vinha em alta velocidade, buzinando e me alertando. Mas não houve tempo para que eu conseguisse desviar. Quando virei o guidon da motocicleta, os faróis do caminhão se aproximaram de nós com rapidez, e em questão de milésimos de segundos, senti o impacto da colisão nos arremessar para o canteiro da pista. Percebi os braços de Maka se desvencilharem de mim, e em seguida, me vi sendo jogado para longe da moto, que agora a pouco eu me prendia. Rolei com intensidade pelo mato alto do canteiro, sentindo dores por todo o corpo que batia com força contra o solo. Não tive tempo de conferir se Maka estava bem, pois bastaram alguns segundos para que eu perdesse a consciência, caindo em um completo breu de minha mente.


。。。


Maka POV


Ao abrir os olhos, tive a visão levemente irritada por uma claridade excessiva do ambiente ao meu redor. Esfreguei as pálpebras com as mãos fracas, e depois de me acostumar com a luminosidade, consegui observar melhor onde eu estava. Era um quarto muito bem iluminado, com as paredes todas brancas. Um quarto de hospital, provavelmente. Analisei-me e percebi que estava deitada em uma cama com lençóis verde-claro, enquanto ao meu lado havia uma segunda cama, que servia de berço para Soul, que dormia tranquilamente. Me espantei ao observá-lo melhor, pois ele tinha vários hematomas pelo corpo. Possuía um série de 5 pontos costurando um corte abaixo de sua sobrancelha, uma faixa enrolando a testa, algumas manchas avermelhados e até arroxeados pela extensão de seu rosto e seus membros superiores. Um de seus braços estava coberto por uma camada grossa de faixas. Todos aqueles ferimentos me fizeram lembrar do acidente ocorrido na estrada. Soul parece ter dormido ao volante e acabou perdendo o controle quando recobrou a consciência. O restante das lembranças depois da batida ficou muito vago em minha mente. Me recordo apenas de ter caído sobre uma moita, que deve ter salvado minha vida, e depois vi algumas luzes na beira da estrada e me senti sendo carregada por alguém que não me lembro. Lancei o olhar para o lado e fitei meu reflexo em um espelho, notando alguns curativos no rosto e no pescoço, mas não era nada comparado à situação de Soul. Apoiei minhas mãos sobre o colchão e projetei as pernas para fora da cama, para que eu me levantasse em seguida. Mas antes que realizasse tal ato, vi a porta do quarto, que estava a poucos metros, se abrir.


– Com licença. – Uma mulher, que aparentava ser enfermeira, adentrou o cômodo, com uma prancheta em mãos. – Peço que permaneça na cama até que eu finalize a sua ficha. – Com um gesto, ela sinalizou para que eu não descesse da cama.

Eu não relutei. Apenas continuei sentada na beirada do colchão, de frente para onde a enfermeira havia entrado e de costas para Soul. A funcionária do hospital ergueu a prancheta à sua frente e retirou uma pequena lanterna do bolso. Ela acendeu a lanterna em frente ao meu olhar, causando uma breve irritação. Depois de analisar meus olhos, ela abaixou a lanterna e voltou a guardá-la no bolso do jaleco.

– Está sentindo algum desconforto? – Ela perguntou pegando uma caneta.

– Não. – Respondi, mesmo sentindo um fraco incômodo na cabeça.

A enfermeira anotou algumas coisas na prancheta e voltou o olhar até mim quando terminou de escrever.

– Depois que vocês dois foram resgatados na estrada, a nossa equipe médica encontrou um endereço no bolso do rapaz. – A enfermeira ditou, enquanto retirava do bolso do jaleco o convite da festa de bodas dos pais de Soul, me entregando o papel na sequência. – Já que não sabíamos quando vocês acordariam, tomamos a liberdade de procurar o telefone desse endereço e ligamos para lá, pedindo para que algum parente comparecesse ao hospital. Dois deles já estão aqui, então posso permitir que eles entrem no quarto? – A funcionária perguntou gentilmente.

– Ah, pode sim. – Respondi no mesmo tom que a enfermeira.

Observei a mulher se virar e retirar-se do quarto, deixando-me a sós com Soul, novamente. Permaneci na mesma posição, por me sentir ainda um pouco fraca e não querer me mover sem necessidade. Foi quando ouvi a porta voltar a se abrir, revelando as visitas que esperavam do lado de fora.

– Podem entrar. – A enfermeira proferiu para alguém ainda do lado de fora, depois de abrir caminho para que passassem.

Meu olhar, que estava fixo no limiar de madeira, observou dois homens adentrarem o cômodo. Um deles era Wes, que parecia um pouco tenso com as mãos dentro dos bolsos da calça social de marca. O outro era um homem mais velho – de certa forma parecido com Wes – de porte fino, cabelo grisalho e uma barba rala igualmente grisalha. O mais velho tinha uma expressão de seriedade, e pereceu nem notar minha presença ali, pois seu olhar rígido pousou diretamente sobre a cama de Soul. Assim que a enfermeira fechou a porta, ouvi Wes proferir algumas palavras a mim.

– Maka, você está bem? – Ele questionou preocupado, se dirigindo até mim com as mãos fora dos bolsos.

– Já estou melhor, foi só um susto mesmo. – Respondi enquanto sorria sem graça por sentir o olhar zeloso de Wes se fixar em mim. – Quem parece que se feriu mais foi o Soul. – Disse na continuação. Levei o olhar até o grisalho deitado na cama, relembrando da condição que ele se encontrava.

– Mal chegou e já está arrumando problema. – A voz rouca e grossa do homem mais velho proferiu tal frase, me surpreendendo.

Fitei o homem com urgência e vi que ele ainda observava fixamente o grisalho deitado. Ele tinha os mesmos olhos carmim de Soul, mas possuía um ar frio e rígido, que me dava um arrepio na espinha. Ao meu lado, Wes pigarreou, como se chamasse a atenção do rude homem.

– Pai... – Wes proferiu em tom de súplica. “O que?! Pai? Aquele era o pai de Soul?” Indaguei mentalmente, incrédula, mas logo tive os pensamentos interrompidos pela voz de Wes. – Não começa, por favor.

O homem bufou impaciente, dando a ideia de se sentir contrariado por estar ali. Ele cruzou os braços e continuou olhando Soul friamente. E parece que o olhar rígido dele atingiu o Evans mais novo como uma pedra, pois Soul tremeu o corpo por um momento e abriu os olhos na mesma hora.

– Soul! – Exclamei animada por vê-lo vivo.

Desci do colchão rapidamente e me dirigi até ele como os passos ágeis, ignorando o olhar fuzilante de seu pai parado ali em frente. Quando cessei os passos na lateral da cama, notei o grisalho mais novo ter a mesma reação que eu quando acordara. A diferença foi que, depois de esfregar os olhos, ele me olhou com surpresa, parecendo não esperar me ver ali.


– Maka! – Exclamou ele, e ainda meio deitado, me agarrou pelos quadris em um abraço de desespero. – Eu nunca quis te matar. Nunca! Acredita em mim, por favor! – Soul suplicava, enquanto dobrava a força de seu abraço em torno de mim.

Eu não estava entendendo nada, obviamente. O acidente pode ter sido feio, mas eu sei que ele não queria me matar com aquilo. Então do que ele estava falando? Antes de perguntá-lo, pousei as mãos com ternura sobre seus ombros, fazendo com que ele relaxasse um pouco.

– Soul, calma. – Proferi branda, sentindo os ombros dele se libertarem de parte da tensão que o tomava. – Nós temos visitas. – Passei as mãos carinhosas ao redor de seu rosto, querendo que todos aqueles ferimentos dele desaparecessem.

Quando o soltei, ele ergueu o tronco e deu de cara com a inalterável expressão fria de seu pai. O semblante do mais novo também não era dos melhores, e uma troca de olhares indesejados cortou o ar num átimo. Como se buscasse se libertar daquela batalha muda entre o olhar dele e de seu pai, Soul girou a cabeça para o lado, mas acabou encontrando a outra visita, que pareceu não lhe agradar muito também. Como reação ao choque de olhares entre irmãos, Soul desviou de imediato, e parou com as íris sobre o colchão, deixando que seu olhar se tornasse cabisbaixo.


– Ainda bem que sua mãe não está aqui para ver essa vergonha. – O homem mais velho começou.

– Pai! – Wes protestou ainda parado ao lado de minha cama vazia. Ele tentou interromper uma futura briga, mas não pereceu ser muito eficaz, pois seu pai deu continuidade.

– Ela já não está bem de saúde, imagina se tivesse que ver-te nessa situação deplorável, ela iria sentir-se ainda pior. – O homem cuspiu as palavras com desprezo. – Pelo visto, você ainda não criou maturidade o suficiente para aprender o que é responsabilidade.

Ao fim das palavras rudes do homem, Soul levantou-se com um único impulso e avançou com fúria sobre o próprio pai, mas foi impedido de fazer alguma coisa pelo outro Evans.

– Não faz isso, irmão. – Pediu Wes, que estava entre os dois, segurando Soul pelos ombros e de costas para o pai.

– Cala a boca, Wes! Você é outro que pensa a mesma merda de mim. A diferença é que esse aí pelo menos assume! – Soul gritou depois de afastar-se do toque o irmão com um empurrão. – Pra que vocês apareceram aqui?! Tripudiar em cima do lixo que vocês criaram? Já podem ir embora então!

Soul gritava ainda mais, até que foi interrompido pela enfermeira, que abriu a porta imediatamente, sussurrando um “Shhh” em pedido de silêncio. Antes que a funcionária voltasse a fechar a porta, o homem mais velho se moveu rapidamente e iniciou sua retirada dali, sem nem olhar para trás.

– Vou pagar a conta do hospital. Quando terminarem o show, me encontrem no estacionamento. – Suas palavras praticamente congeladas soaram, seguidas do bater da porta de madeira.

Assim que a presença do homem não fazia-se mais presente ali dentro, Soul socou o colchão com fúria, depois de rosnar com o maxilar rígido.


– Eu sabia que eu não devia ter insistido em ir a essa festa ridícula! – O grisalho mais novo balbuciou em meio aos dentes trancados. – Vamos voltar pra casa, Maka! – Me surpreendi com a frase dirigida a mim.

Senti uma das mãos de Soul tocar meu pulso e começar a me arrastar para fora dali, mas antes disso, Wes tentou nos parar.

– Não, Soul! Vá pela nossa mãe, por favor! Você não tem ideia do quanto ela ficou feliz quando soube que você iria aparecer lá em casa depois de tantos anos. – O Evans mais velho proferiu, tentando fazer que o irmão não fosse embora. Ele parecia ser o mediador da família, o ponto de equilíbrio entre dois pólos opositores que eram Soul e seu pai. Ele parecia realmente preocupado em querer deixar as coisas em paz na família.

Levei meu olhar até Soul, que visivelmente transparecia seu afeto para com sua mãe. Ele engoliu seco, como se engolisse todas as palavras de raiva que soltaria, e voltou a proferir mais brando desta vez.

– Sendo assim. – O mais novo deu-se por vencido, despertando um sorriso sincero no rosto de seu irmão.

Seguimos os três para fora do quarto, consequentemente até o estacionamento, onde o pai dos irmãos Evans nos esperava dentro de um luxuoso carro prateado. Eu e Soul teríamos que continuar a viagem com aquele homem frio, já que a moto provavelmente estava em destroços após o acidente. Nós três entramos no carro em silêncio e assim permanecemos por todo o trajeto, que foi regado por um clima tenso de fim de guerra. Ou de início dela.

A atmosfera que nos rondava era tão sobrecarregada, que eu não pude nem apreciar a vista de Los Angeles como queria, já que os vidros escuros do automóvel tornavam a paisagem mórbida, com ar fúnebre. Quando dei por mim, estávamos ultrapassando os grandes portões bem vigiados da mansão dos Evans, que contava com uma exuberante fonte de água cristalina no jardim fronteiro do casarão. Assim que os movimentos cessaram em frente à entrada da frente da mansão, descemos do carro e adentramos a casa, depois de subirmos uns 5 ou 6 degraus de marfim que compunham a entrada. A sala de recepção era enorme, o piso era impecavelmente lustrado, um lustre enorme de cristais tomava o centro e abaixo dele havia alguns divãs e um tapete carmim. Duas escadas, que começavam de pontos diferentes e se encontravam lá em cima, davam acesso ao segundo andar. Nas laterais, vários corredores cheios de serviçais levavam a vários outros cômodos. Depois de muito analisar o ambiente com o olhar deslumbrado, notei o pai de Soul continuar a andar, desta vez sozinho, até um dos corredores laterais.

– Você deveria ir ver a sua mãe, Soul. Ela iria gostar de ver-te. – O homem proferiu surpreendentemente mais calmo do que no hospital. – Só trate de melhorar essa cara. – Ele finalizou, lançando as últimas palavras de costas, enquanto seguia para fora da sala. Eu não sei se havia sido impressão minha, mas o chefe da família Evans pareceu certamente arrependido por suas atitudes tomadas mais cedo, no hospital. “É... Talvez ele não fosse esse homem de pedra que eu imaginei.”

– Você vem comigo? – Fui puxada de volta à realidade pelo questionamento vindo de Soul.

– Claro. – Segurei sua mão que não estava enfaixada e iniciei novos passos junto a ele, deixando Wes sozinho na sala.

Seguimos uma das escadas acima e percorremos o corredor à direita, no segundo andar, até chegarmos em frente a uma porta larga de madeira lustrada. Soul soltou minha mão por um momento e bateu levemente sobre a madeira com o punho fechado. Em seguida, ele usou a mesma mão para abrir a porta, revelando um luxuoso e enorme quarto. Era um cômodo muito bem iluminado, com vários móveis por sua extensão. Entretanto, o que me chamara a atenção foi a silhueta esguia de uma mulher sentada em uma cadeira estofada na varanda do quarto. Soul e eu seguimos até ela, e à medida que diminuíamos a distância, eu podia perceber o quão bela aquela mulher era. A pele extremamente branca sem manchas ou rugas, os finos traços de seu rosto, seus longos fios de cabelos loiros quase brancos formando uma trança enorme em suas costas. Ela estava de olhos fechados, enquanto tomava um banho de sol sob os fracos raios solares daquele dia. Não precisou que falássemos nada. Bastou que nos aproximássemos para que ela notasse nossa presença. Suas pálpebras abriram-se rapidamente, revelando suas íris azul-acinzentadas.

– Filho! – Exclamou a mulher extremamente satisfeita. Ela apoiou-se nos braços da cadeira para se levantar, mas pareceu faltar-lhe forças para isso.

– Ei, não precisa sair daí. – Proferiu Soul, enquanto repousava as mãos sobre a mulher e colocava-a sentada novamente.

Quando ainda estava curvado auxiliando a mãe, ela passou as mãos no rosto do grisalho, parecendo sentir os ferimentos dele assim como um cego sente um texto em braile.

– O que aconteceu com você?! – Perguntou a mulher espantada.

– Não foi nada... – Soul respondeu calmo, depois ergueu o corpo, assim cessando as carícias da mãe. – Hãm... Eu queria te apresentar uma pessoa. – Ele balbuciou meio desconcertado, em seguida, me pegou pela mão. – Essa é Maka Albarn, minha namorada e, quem sabe, futura noiva. – Ele me aproximou de sua mãe, e lançou um sorriso de canto ao término de suas palavras. “Noiva?! Foi isso mesmo que eu ouvi?

– Oh, me perdoe por não tê-la visto antes, mocinha! Minha visão não anda muito boa. – A mulher proferiu depois de um arfar, esboçando surpresa. – É um prazer conhecê-la.

– O prazer é mútuo, Sra. Evans. – Disse, logo depois cumprimentando-a com um leve aperto de mãos acompanhado de um sorriso largo.

– Me chame de Frances. – Ela rebateu, em um tom de voz amigável. Como resposta, apenas assenti, sinalizando que compreendia o desconforto que supostamente ela sentia em ser chamada por “senhora”.

Quando me afastei da mulher com um passo de recuo, continuei observando o sorriso em seus lábios que não se desfazia. Pelos poucos segundos passados em sua presença eu sabia que ela era uma pessoa doce e gentil. “Como foi possível então que ela conseguiu ficar casada com um homem frio daquele por 25 anos?” Me questionei enquanto notava Frances abrir os braços e fitar Soul com o olhar carinhoso.

– Eu pensei que não seria necessário pedir um abraço para o meu próprio filho. – Disse a mulher, ainda sentada, como se aplicasse uma bronca e ao mesmo tempo tentasse parecer confortadora.

Soul curvou-se novamente até ela, desajeitado e demonstrando ainda ter dificuldades sobre a reaproximação de sua família. Sem dar tempo para que ele recuasse, a mulher o envolveu em seus braços, num gesto afetuoso, e fechou os olhos ao sentir o filho com o abraço duradouro. Naquele momento passei a me sentir como uma intrusa entre mãe e filho, então resolvi deixá-los conversarem a sós.

– Vou te esperar lá fora, está bem? – Perguntei retoricamente ao grisalho, pois prossegui com as palavras antes de uma resposta dele. – Até mais, Frances. – Lancei um sorriso sutil para a mulher, que sorriu reciprocamente.

Sem querer atrapalhar mais o momento dos dois, me virei e saí do cômodo, assim retornando pelo mesmo caminho que me levara até ali. Quando desci as escadas, percebi que não havia mais ninguém na sala de recepção. Cessei meus passos sobre o tapete de veludo ao centro da sala e fiquei ali por alguns segundos, me sentindo deslocada, sem saber para onde ir. Foi então que, em certo momento, ouvi o som de algumas notas musicais soarem de um dos corredores laterais à sala.A música que tocava (http://www.youtube.com/watch?v=IdwQqkSOm_A) era uma de minhas preferidas, e eu me senti totalmente tentada a verificar a fonte de tal som. Sendo assim, dirigi meus passos pelo caminho que minha audição trilhava por entre corredores e acabei em outra sala. A diferença era que esta era composta por vários instrumentos musicais, dando menção de que era uma espécie de sala que servia para ensaios ou até mesmo aulas de música. Quando adentrei o cômodo, consegui finalmente encontrar o emissor da música: Era Wes tocando um exuberante violoncelo. Ele estava de olhos fechados, parecendo completamente submerso em um mundo paralelo, mostrando-se concentrado no toque de cada corda do instrumento. Como não queria causar nenhum incômodo, permaneci na espreita, em frente à porta, espiando em silêncio a tão bela e tão triste melodia muito bem tocada por Wes. Quando a música chegou ao fim, o grisalho reabriu os olhos calmamente, revelando um semblante abatido, de profunda tristeza. Me senti no dever de tentar entender o que se passava e em tentar ajudá-lo, sendo assim, adentrei a sala com passos estreitos e lentos.

– Atrapalho em algo? – Indaguei com um sorriso tímido nos lábios. Wes se surpreendeu com minha presença e se ergueu da banqueta rapidamente.

– Não, imagina! – Ele respondeu depois de deixar o instrumento em um apoio. O grisalho deslocou-se até mim, com um sorriso largo nos lábios. – Está há muito tempo aí?

– Não muito, mas foi o suficiente para ouvir você tocar. Você é muito bom nisso! – Exclamei empolgada, mesmo sabendo que ele devia estar cansado de ouvir isso de todo mundo. Como resposta, Wes apenas sorriu, parecendo ficar sem jeito. – Eu adoro essa música. Ela é linda na voz do Johnny Cash, mas devo confessar que na versão clássica, ela fica bem mais bonita. – Continuei os elogios enquanto notava a mania que o grisalho tinha de me fitar tão fixamente.

– Nossa, obrigado. Eu queria que a pessoa, pra quem eu compus essa partitura, tivesse gostado como você. – Wes balbuciou e voltou a esboçar a mesma expressão cabisbaixa de quando estava tocando o violoncelo.

– E quem foi a surda que não gostou dessa obra-prima? – Perguntei em tom animador, levando as mãos até a cintura. Ele riu, parecendo parcialmente recuperado.

– Minha ex-noiva. – Respondeu ele.

Sua resposta era tão inesperada que eu senti que ele havia largado uma bomba em minhas mãos e eu não sabia o que fazer, como agir.

– Ér... Eu sinto muito. – Balbuciei enquanto vasculhava minha mente em busca de alguma frase que se encaixasse bem naquele momento. Acabei não encontrando nada, mas para meu alívio, Wes cortou o clima tenso que começava a nos rondar.

– Ah, está tudo bem. Eu já estou superando isso. – Ele proferiu, com uma nova expressão em seu rosto, desta vez menos melancólica. – O Soul ainda está falando com minha mãe? – Indagou neutro.

– Sim. Resolvi deixar que eles conversassem sozinhos. – Dei a resposta no mesmo momento.

– Sendo assim, você quer dar uma volta pela cidade? Se quiser, posso te mostrar que Los Angeles não é tão ruim quanto parece. – Wes lançou o convite, enquanto levava uma das mãos à nuca, demonstrando certa insegurança. Por alguns segundos, permaneci em silêncio, pensando nas possíveis consequências que aquele passeio causaria. Talvez Soul ficasse bravo quando soubesse, e isso poderia causar novos conflitos na família Evans. E isso era a última coisa que eu queria. – Então... – Wes proferiu, interrompendo meus pensamentos frenéticos. – Se você não quiser é só dizer. – Ele completou, mostrando pelo sorriso torto que estava completamente desconfortável com meu silêncio.

– Ah, não! Eu quero sim. Tenho certeza que não vai ser difícil pra você me convencer que essa é uma cidade adorável. – Proferi junto a um sorriso recheado de animação.

Por fim, me convenci de que Soul entenderia a minha posição de querer me aproximar de sua família também. Então, aceitei o convite de Wes, e em questão de alguns minutos já estávamos atravessando os limites dos portões da mansão, rumando ao centro de Los Angeles.

Notas finais
Estou sem notas finais, então, é só isso mesmo. Qualquer coisa que não tiver agradado vocês, podem me xingar. Preciso saber o que está ruim para melhorar, viu gente? u-u
Obrigada a quem leu, até a próxima.