Broken Hearts
52 Vida em família
Notas iniciais

► “Amigos são a família que nos permitiram escolher”, (William Shakespeare) ◄
♣ Gotham City || Mansão Wayne || Batcaverna ♣
— Não se acanhe com a plateia, princesa. Eu prometo que vou pegar leve com você.
Diana estreitou os olhos para seu oponente. O homem diante dela, em posição de combate, estava descalço, usando calças de treino e uma camiseta de material esportivo que, dada sua abastada condição financeira e seu apreço por alta tecnologia, deve ter custado o mesmo que a versão mais atual do Iphone.
“Pelos deuses, ele é absurdamente lindo”, ela pensou e sorriu. Ela amava quando Bruce se ‘permitia’ pequenos desleixos. Quando estava ocupado demais para cortar o cabelo e eles ficavam um tanto maiores que seu corte impecável de sempre. Algumas mechas acabavam caindo sobre a testa, desconectados, levemente bagunçados e “lindos”, para ela.
Como quando ele simplesmente decidia que estava farto de barbear-se quase diariamente, deixando os pêlos da mandíbula se mostrarem.
Não era uma questão estética em si. Ele era lindo em quaisquer circunstâncias. Ela já o desejava mesmo antes de saber como era sua aparência. Mesmo completamente coberto, em seu traje, para Diana, ele era a imagem da perfeição. Era porque esse ‘desleixo’ momentâneo é a prova de que ele estava relaxado.
— Tem certeza de que está ponto para ouvir a chacota do Dick por meses, quando eu derrotá-lo, mortal?
Os cantos dos lábios de Bruce se curvaram.
— Eles são sempre assim? – Damian, para surpresa de Tim, perguntou sem olhar pra ele.
— Quando estão juntos, sim. – Tim disse – quando a Di não está, ele é insuportável e monossilábico. Mas geralmente ele é sempre mais relaxado durante o Sparring. Ele e Dick só conseguiam conversar sem terminarem como inimigos quando estavam treinando.
— Tente não machucar os meninos, princesa.
— Eu não sou uma adolescente aprendendo a usar a força, Bruce. – Murmurou, analisando a postura de combate dele. Seus braços permaneceram rígidos na frente de seu rosto enquanto ela olhava para seu adversário. Ela flutuou do chão ligeiramente, um lembrete ao seu parceiro que ele disse-lhe para usar tudo que tinha.
— Quando quiser, milady.
Diana viu quando a perna de Batman foi direção à cabeça dela do canto do olho. Ela se abaixou para livrar-se do golpe, sentindo a corrente de vento passar sobre sua cabeça, quando a perna dele voou pelo ar.
Quando ela afastou o punho, o chute dele atingiu o joelho e ela caiu. Ele soltou uma bomba de fumaça e aplicou uma cotovela do queixo dela.
— Ow... Machuquei você, princesa? – Diana queria rasgar o sorriso da cara cínica dele.
— Fui truque sujo... é isso que pretende ensinar aos seus filhos?
— Na verdade, quero ensiná-los a se defenderem com os meios que tem. Especialmente de uma meta poderosa.
— O quão poderosa eu sou aos seus olhos, mortal?
— Qualquer resposta honesta da minha parte sobre isso, princesa, está censurada... Eu posso responder mais tarde, se ainda quiser saber.
— Blergh!! – A interjeição do som de vômito e a língua fora da boca de Damian fez o casal de heróis rir. – eu estou ficando entediado. Você vão lutar ou ficar falando coisas que, eu não entendi, mas deve ter conotação sexual, porque o pai não quer dizer para nós.
— Nós podíamos usar a Katana pra ver seu pai é bom, Damian.
— Meu pai é bom em tudo – Diana sorriu para o menino orgulhoso – ele domina uma centena de artes marciais e técnicas de combate. Mas... – ele hesitou.
— Não se preocupe em dizer o que pensa, Damian – Diana disse, sem medo de expor sua postura de que a verdade é sempre o melhor.
— O Avô diz que meu pai foi o melhor entre todos os seus discípulos. E que, um dia, eu irei superá-lo, porque... o avô diz... eu tenho o sangue do Morcego e do Demônio.
Bruce endureceu a mandíbula. Ele conhecia bem a técnica de manipulação de Ra’s e, à medida que a relação com Damian ia, aos poucos, melhorando, ele se ressentia cada vez mais do fato de seu filho ter sido condenado à uma infância ao lado de seu avô, na Liga dos Assassinos.
Damian percebeu a raiva de seu pai e ficou apreensivo, achando que ele fosse a causa do desconforto.
— Tenho certeza que você vai superá-lo em inúmeras coisas, Damian. E o Tim também... Ele vai ser superar o Bruce como detetive!
— Se você pretende me ofender, princesa, use outra tática. Um pai que se orgulha dos filhos deseja que eles realmente o superem.
— Damian já é muito melhor espadachim.
Damian riu e agradeceu silenciosamente a condução de Diana para o clima amigável de antes.
— Eu sou perito
— Não mais que eu. – ela riu.
— É uma comparação esdrúxula, minha querida. Uma luta contra você e sua espada é como fazer um fusca bater de frente com um trator.
— Isso foi um insulto, Tim? – Tim era seu consultor para esclarecimentos sobre particularidades linguísticas do Mundo do Homem. Ele explicava-lhe o contexto que as expressões ou ironias (como a de Bruce) indicavam. Ela havia entendido muito bem, desta vez. A consulta a Tim era desdém.
Diana voou até a alta estalactite no topo do teto da caverna, para se livrar dos batarangues arremessados e da fumaça que a esfera que ele jogara contra ela expelia.
— Tim, pegue os batarangues com cordas, agora – Bruce ordenou.
— Precisa de ajuda, senhor eu-prefiro-morrer-a-pedir-ajuda?
— Damian, pegue aquele equipamento... o que estamos testando.
Diana riu, com diversão genuína.
Os meninos estavam de volta em poucos segundos.
Bruce olhou para eles, comunicando-se de maneira não verbal, entendida por eles, graças ao treinamento. Ele lhes disse (sem dizer) para esperassem seu comando.
— Damian... Atire em pares... – Bruce disse – Tim, você sabe o que tem que fazer quando eu disser, certo? – Tim assentiu.
(...)
Bruce foi capaz de observar, durante milésimos de segundos, o curso bem sucedido de suas ações. Ele passara a última semana debruçado em suas investigações direcionadas à Ra’s. Pediu a Lucius que assumisse interinamente o comando da empresa, alegando precisar se ausentar para resolver problemas pessoais.
Passava horas na caverna, parando de trabalhar em sua caçada apenas quando Alfred irritantemente o obrigada a fazer uma maldita refeição – provavelmente, a única do dia. Mal vira Diana, já que, após a patrulha, voltava ao computador e só se recolhia, com sol à pino, quase no fim da manhã, quando ela já havia deixado à mansão em direção à Torre.
Na madrugada anterior, ele tentou lutar, em vão, contra a exaustão crescente que sentira – decretando inclusive, retorno prematuro, já que a cidade estava quieta. Ele tentou, sentando-se em frente ao console do computador, prosseguir com o que estava fazendo. Mas acordar três vezes com a testa em cima do teclado, na última meia-hora, provou que ele era inútil.
Então, ele tomou as últimas forças que os músculos dos membros inferiores ainda tinham e subiu para o seu quarto.
Era pouco mais de 3h30 e, diferentemente da experiência de seus últimos oito dias, recolher-se quando ainda é noite era infinitamente mais reconfortante e prazeroso que ser saudado pelo sol.
Ainda se arrastando pelo corredor, um sentimento dolorido nasceu no coração de Bruce, quando a imagem de Diana apareceu em sua mente. Ele sentia falta de quando ela o esperava voltar da patrulha. Não foi preciso dizer-lhe nada. Ela não esperava por ele em duas situações: quando voltava cansada de uma missão ou quando ele estava envolvido em um caso difícil.
Ele ouviu sua resposta para Tim, quando ele perguntou se ela iria esperar por eles na caverna. “Eu prefiro ficar longe, Tim. Pra não correr nenhum risco de tirar o foco de nenhum de vocês ou atrapalhar”. Ele estava distante, silencioso, ausente... Ele era o pior amante que uma mulher poderia desejar – e a consciência de suas limitações era justamente o motivo para negar-lhe um relacionamento com ele. Diana não merecia tão pouco. Ele sabia que seu amor por ela era imensurável, contudo, doía quando a missão exigia dele dedicação exclusiva e ela contentava-se com algumas migalhas do seu amor.
Diana não reclamara nas poucas vezes que acontecera. Tampouco mostrava seu desagrado ou frustrações com o relacionamento através do mau-humor. Ela não o confrontou sobre sua ausência, a falta de carinho, a falta de atenção dele com ela, a falta de sexo... Ela apenas mostrara a ele o quanto se encaixava em sua vida. Que as semelhanças que seus corações, comprometidos com o bem, compartilhavam, deram-lhe um entendimento sobre todos os aspectos e implicações de sua vida, incompreensíveis para outro alguém.
Ele abriu a porta do quarto e foi envolvido pela escuridão. Alguns raios de luz prateada, entravam pelas cortinas da varanda. Ele inalou o perfume delicioso que magicamente dava-lhe uma sensação de conforto.
Era o cheiro que ele amava. O perfume dela... Diana.
O conforto que sentira, ao deitar, cansado ao seu lado, foi o bastante para aquecer-lhe o coração. Ele envolveu seu braço em torno dela e ela, sonolenta, tomou sua mão na dela, entrelaçando os dedos.
Pensar nela, que ela merecia mais de seu amor, o fez pensar em seus meninos, em Alfred. O fez querer, minimamente, ainda que sob o rigor de um limite cronometrado de tempo, dedicar um par de horas a eles.
“Amanhã a tarde... Pense em algo que agrade a todos, Bruce. Assim, você não precisa dividir um pouco de tempo com cada um, mas dedicar todo tempo a todos”, ele sussurrou antes de mergulhar no sono profundo.
(...)
Aquilo era insano para qualquer família minimamente normal – mas eles estavam longe de servirem de exemplo de família de comercial de margarina. E o tipo de diversão que divertiria todos, seguia a mesma lógica incomum.
Ele gostava de desafiar-se e de observar adversários durante a luta; Damian e Diana adoravam lutas; Tim não era um fanático por sparring, mas um bom embate aguçava sua mente, criando estratégias.
Então, lá estavam eles, os quatro, juntos, divertindo-se à sua maneira. Diana pediu que todos usassem roupas comuns, esportivas, só pra não parecer um dia comum de treinamento. A bermuda e camiseta de Tim, as calças de moletom e camiseta de Damian e o short e camiseta de Diana, realmente, fizeram toda diferença. Até pra Bruce, com seu traje casual.
Não era a rotina de responsabilidades.
Era diversão!!
— Agora, Damian – Bruce bradou para o filho que jogou duas esferas metálicas do tamanho de uma moeda de 50 centavos na direção de Diana.
Ela fez um movimento rápido para desviar-se das bolas, mas embora tivesse realmente desviado, ela não estava preparada para o que veio a seguir.
Os novos brinquedos de Bruce eram um projeto piloto de Tim, que Bruce aperfeiçoara e estava usando nas patrulhas, ainda em fase de testes. Elas poderiam ser arremessadas à distância e o efeito, em pares, era a corrente elétrica que elas geravam, formando um campo de força elétrico em formato esférico, com um alcance grande o bastante para englobar três ou mais pessoas, num raio de 100m.
A bola de energia estava muito aquém da potência descomunal exigida para prender um dos meta-humanos mais poderosos que o mundo conhece, mas servia como distração bem-vinda para que Bruce fizesse o que tinha em mente.
O choque dispensado pela corrente de energia em seu corpo, quando ela despejou potência no golpe para desvencilhar-se do engodo, não causara mais do que um desconforto relevante, mas suportável, para Diana. Contudo, o brilho emitido quando a energia foi dispersada, ofuscara-lhe completamente a visão.
Ela não podia ver nada abaixo dela, apenas o som da voz de comando de Bruce.
— Agora, Tim!
Foi quando sentiu o puxão envolvendo seus calcanhares juntos.
Bruce sabia que ela não seria contida por suas cordas. Por mais tecnologia que seus brinquedos de Morcego tivessem, certas coisas, eram inúteis para prendê-la.
Diana sorriu divertindo-se, quando a força de suas panturrilhas não encontrou restrição para partir uma corda desenvolvida pela WayneTech, que suporta uma tonelada de peso sem romper.
Mas o sorriso durou poucos segundo, até ela se dar conta do brilho dourado se movendo através do ar, em sua direção. Seus reflexos ágeis e bem treinados deram a chance de esquivar-se ante de ser enlaçada, mas a sequência de batarangues lançados contra ela pelos traidores, Red-pássaro-Teen e seu irmão, Lego-Bruce, obrigara-lhe a desviar a atenção para defender-se da chuva de ataques e dar a Bruce a chance de pegá-la.
Sejamos honestos, não foi tão fácil levá-la abaixo. Mas quando aconteceu, Bruce estava no ponto de ebulição que ele atinge quando algo dá mais trabalho e leva mais tempo para ser feito que suas previsões. Quando ele finalmente laçou um dos tornozelos, ela a puxou pra baixo com força. Por sorte, ela não é do tipo que se machuca fácil.
Diana caiu em uma crise de riso que fez Damian e Tim seguirem o mestre e Bruce balançar a cabeça, sorrindo.
— Você precisa ver sua cara quando fica frustrado, Bruce. É hilário... – os risos seguem
— Qualquer dissabor é recompensado com a alegria de tê-la derrotado, madame imortal.
— Não vou tomar suas provocações. Não foi justo. – ela olhou pros meninos, deitados, suados, no tatame – Você teve ajuda de dois comparsas.
— Você não consegue levar abaixo um homem mortal e dois garotos, Mulher Maravilha?
Ela olhou pra ele estreitando os olhos.
— Se serve de consolo, Di. Ele havia planejado tudo com a gente antes, só pra te irritar. – Tim disse.
— Tão ridículo... seu .. seu... homem!
— Obrigada por me lembrar do óbvio, princesa.
Diana deu uma tapa no peito dele como se tivesse ofendida (mas a risada mostrava que não).
O clima familiar compartilhado pelos quatro na sala de treinamento – com Tim e Damian estirados no tatame e Bruce abraçando Diana, ambos sentados no chão, Bruce apoiando as costas na parede e Diana no peito de Bruce – não fugira do olhar sensível do homem que, sem dúvidas, era a rocha de sustentação daquela família, desde a morte de Thomas e Martha Wayne: Alfred Thaddeus Crane Pennyworth.
Um sentimento de satisfação desmedido, misturado à alegria de ter vivido o bastante para ver seu filho, Bruce, aprender a administrar suas várias vidas, sem que uma tenha que definhar para que outra exista.
Ele entrou no ambiente conduzindo o carrinho para serviço de copa tomado de bandejas com diversos alimentos apetitosos, além de chá, café e suco.
Tim correu pra pegar um mini-sanduíche e levou um tapa na mão, dado por Alfred.
— Eu me pergunto se o senhor está vivendo com uma família de Chimpanzés, no Congo, mestre Timothy?! – Alfred pontuou, fazendo Damian e Diana rirem – Sua falta de modos só poderia ser explicada com um argumento capaz de justificar um comportamento tão primitivo.
— Desculpa, Al. Eu tô morrendo de fome. Quem tem fome, tem pressa! – Tim tentou brincar, mas ficara meio envergonhado.
— Mestre Timothy, eu desisti de fazer exigências quanto à sua etiqueta ao alimentar-se. Não se poder ir de encontro à natureza: é impossível saciá-lo e ensiná-lo a agir de forma ponderada com a comida. O senhor está sempre morrendo de fome, constantemente faminto. Quando o senhor entra na minha cozinha procurando comida, de forma perturbadoramente voraz, eu tenho a sensação de que o senhor foi possuído pelos espíritos de dez refugiados sírios que faleceram de fome.
Diana deu uma gargalhada contagiante, seguida pela risada desdenhosa de Damian – que já não tinha conotação de vilania, mas o desdém sadio entre irmãos, quando um deles é vexatoriamente repreendido.
— Então por que eu não posso comer? A etiqueta diz que a realeza deve se servir antes? – Tim brincou, olhando pra Diana.
— Ou o dono da casa? – Brincou Bruce.
— Eu acho que o que Alfred quer dizer é que você pode comer à vontade, Tim... Só precisa lavar as mãos antes, ou, se preferir, tomar um banho. – Diana sorriu quando Tim arregalou os olhos para a obviedade da repreensão que Alfred que o escapara.
Tim correu para lavar as mãos. Banho... só depois do lanche!
Damian, ainda deitado, levantou-se lentamente, tirando a camisa suada. Ele não viu os olhos horrorizados de seu pai, deparando-se, pela primeira vez, com os horrores das cicatrizes acumuladas nas costas do menino.
Diana segurou a mão de Bruce, esfregando o polegar na parte de cima e lançou um olhar compassivo que dizia que não era hora de falar nisso. Ela tinha razão. Qualquer conversa dura estragaria a lembrança de um tempo em família tão bem aproveitado.
Damian parou na porta, dizendo que ia tomar um banho antes de comer. Ele estava prestes a ir, quando, retrocedeu para dizer-lhes:
— Isso foi legal, pai... Eu nunca... O treinamento na Liga tinha que ser levado a sério, sempre. – Damian esboçou um sorriso triste – Lutar não era divertido. Nada era divertido. Nunca! – antes de sair, o sorriso mudou de melancólico para esperançoso – Mas meu pai pode fazer coisas que ninguém pode, não é? Ele é o Batman!
♣ Gotham City || Lawrenceville High School ♣
(dois dias depois)
Duas coisas aborreceram o mais jovem Wayne em demasia esta manhã:
A primeira foi ter sido obrigado por seu pai a frequentar uma escola; a segunda, ter se recusado frequentar o mesmo colégio que Tim, quando soube que se tratava de uma instituição pública.
Damian se negou ao que ele considerava “rebaixar-se”. Bruce ignorou a resposta soberba de seu filho. Aos poucos, eles estavam se afinando. Mas, pra ser honesta, em um ritmo lento. Contudo, só o fato das palavras reprováveis ditas por ele não incomodarem mais seu pai, era motivo para comemorar.
Bruce não fazia o tipo sentimental, mas sempre foi um perito em ‘ler’ as pessoas e decodificar o que está implícito no comportamento. Damian era mais agressivo quando algo o desagradava. E Bruce entendia que esse era o único modo que ele conhecia de se ‘defender’. Ele só não queria ir pra escola!
Quando seu pai ameaçou suspendê-lo da patrulha caso recusasse ir, ele cedeu. Com a condição de que a instituição deveria estar ‘à altura de um Al Ghul Wayne’. E esta foi sua ruína. A escola dos ricos era insuportável. Damian percebeu como a escola pública de Tim parecia infinitamente mais divertida – quando seu pai deixou seu irmão, antes de seguir caminho para deixá-lo.
E desde que ‘descobrira’ o quão prazeroso é divertir-se, Damian queria fazê-lo muitas vezes.
Entretanto, para sua felicidade, Diana o ajudou a argumentar com Bruce que não havia necessidade de mantê-lo no regime integral do terceiro colégio mais caro da América.
— Ele pode assistir as aulas teóricas pela manhã e voltar a tarde para mansão. Você poderia organizar uma rotina de exercícios para Damian praticar. Algo direcionado para ações em patrulha... – Diana sugeriu, vendo o menino sorrir pelo canto do olho.
— Pode ser... – Bruce foi se afastando deles, caminhando pelo corredor, até as escadas.
— PAI... – Damian gritou para Bruce – Lembre-se de manter as tardes de segunda e quinta livres. Eu tenho compromisso! – Ele estava alucinando ou Damian realmente usou um tom bem humorado?
— Eu posso saber do que se trata? E o que faz você pensar que “seu compromisso” é relevante o bastante para me fazer dispensá-lo do meu treinamento? – Bruce questionou. O humor foi sutil, mas significativo para seu filho.
Damian olhou rapidamente para Diana, que estava sorrindo para Bruce, estreitando os olhos. Era a primeira vez que ele experimentava esse tipo de interação com seu pai. O relacionamento entre eles ainda estava a quilômetros de distância do minimamente saudável entre pai e filho, mas comparado ao mês de sua chegada, era infinitamente melhor.
— Acho que sua... – Damian quase a chamou de namorada. Mas parou, sentindo-se mal, como se dizer isso fosse algo desleal com sua mãe – a Mulher Maravilha pode responder. São nossos dias divertidos com lâminas – ele esboçou um sorriso e entrou no quarto. Deixando uma amazona feliz por ele fazer questão de manter o treino com ela. E seu pai com um sorriso satisfeito dançando em seus lábios, pelo mesmo motivo.
(...)
– Senhor Wayne – uma senhora vestindo o mesmo tailleur escuro que as outras funcionárias da instituição, elevou os olhos, buscando encontrar o feliz herdeiro da fortuna dos Wayne – Por favor, queira me acompanhar – Damian levantou-se da carteira que ocupava na sala e seguiu a mulher pelo corredor.
— Do que se trata? – ele perguntou
— A diretora me mandou chamá-lo por que o senhor tem uma visita. – Ela respondeu, de modo a deixar claro que não tinha mais informações – a pessoa o aguarda na sala de recepção no fim do corredor, a porta à esquerda.
Ele seguiu curioso, imaginando de Bruce foi até lá para ver se ele estava indo bem. Mas a expressão em seu rosto, diante da figura na sala, era de inegável choque.
— Meu pequeno Morcego – Talia estava surpresa ao vê-lo tão visivelmente chocado por sua aparição. Damian sempre soubera manter uma expressão ilegível e, no entanto, aquele menino diante dela exibia suas emoções de maneira explicita.
— Mãe, como você sabia que eu estava aqui? O pai sabe que você veio me ver? Você vai pra casa do pai comigo? – ele mostrou toda ansiedade de suas expectativas fazendo-lhe muitas perguntas de uma só vez.
— Os olhos da águia-mãe jamais deixam completamente seus filhotes. – ela aproximou-se do menino. Seu olhar era profundo, como se buscasse por algo que ela não sabia o que era. Esperança? Talvez... “Não. Não há esperança”, ela pensou. – Seu pai deixou a amazona? – ela achou que a sugestão de Damian para ela se devia ao fato do término do romance entre Bruce e Diana.
— Não, mãe. Sinto muito – ele realmente sentia por ela. E ele não diria que seu pai estava feliz e que Diana não era tão ruim. Ele não queria trazer mais dor do que a que ele viu agora, drenando o brilho dos olhos dela depois da revelação. – Mas o pai a receberá, mãe. Tenho certeza. Ele é bom.
— Sim, Midrab. Seu pai é um bom homem, de bom coração. Foi isso que me trouxe aqui. – Talia se aproximou dele e ele estremeceu, com medo de seu avô ordená-lo a execução de seu próprio pai – Pessoas perversas se aproveita de tal generosidade. Especialmente, mulheres com más intenções. Eu temo que a amazona queira feri-lo.
— Não, mãe. Ela não vai machucar o pai. – Damian colocou toda sua concentração para manter-se indiferente, para que sua mãe não o acuse de deslealdade, em favor de Diana. – Ela já se feriu muitas vezes por ele.
— Ibn, seu pai corre perigo. Seu avô... eu tentei dissuadi-lo. Implorei para que poupasse o Amado, mas ele se recusou.
— Mãe, vamos, temos que alertar o Pai.
— Não, Ibn. Seu pai e eu temos um histórico conturbado. Ele dificilmente acreditará em mim se eu disse que deixei meu pai por ele, para ajudá-lo.
— É por isso que quero que você me ajude a salvá-lo, pequeno morcego.
— Sim, mãe. Eu vou salvar o meu pai. Eu juro pela minha vida!
— Você o honra com sua coragem, pequeno Midrab. – Talia e Damian sentaram-se no sofá. – Você deve agir sob minha orientação. Se seu pai souber do meu envolvimento para salvar a vida dele, estaremos perdidos. Seu pai acha que eu nunca serei capaz de deixar meu pai, pequeno Morcego. Mas eu vou mostar que ele está errado. Vamos ajudá-lo e talvez ele me receba em seus braços novamente...
Talia contou a ele sobre o plano de seu pai e o que eles fariam para salvar Bruce.
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