Broken Hearts
78 Um exorcista, um justiceiro e dois canos fumegantes
Notas iniciais

♣ ♣ ♣
“Assim como existem dois lados de cada história,
existem dois lados de toda pessoa.
Um lado que revelamos ao mundo
e outro que mantemos escondido”
(Emily Thorne, Revenge)
♣ ♣ ♣
♣ Gotham City || Huston Hotel ♣
>— Um mês depois
Ele observou a silhueta feminina nua tomar o caminho do banheiro. E lambeu os lábios, apreciando a vista.
Uma mulher poderosamente escultural com plena consciência de seu poder de sedução. Caminhando devagar, para dar-lhe a apreciação de correr os olhos pelas longas pernas, o derrière perfeitamente arredondado, pequeno e arrebitado, as costas lisas e todo resto esculpido à perfeição.
“Definitivamente, o maldito Morcego tinha um gosto apurado para a beleza feminina”, a memória latiu e ele logo a jogou fora – como todas as lembranças não associadas à raiva e mágoa do Batman.
Desde que deixaram Catmandú e chegaram à Gotham, o relacionamento entre eles foi tomando rapidamente um caráter sexual – mas não romântico. O que é compreensível entre duas pessoas no limite de suas frustrações e problemas emocionais, que acabam usando o sexo para aliviar as tensões.
Ainda mais compreensível era o fato de que o sexo era fisicamente intenso, ora agressivo e sempre despudorado. Contudo, estava longe de qualquer laço afetivo.
Jason Todd sorriu lascivamente para Talia Al Ghul antes que ela desaparecesse de sua visão.
(...)
A filha de Ra’s deixou a Ilha Paraíso decidida a ‘compensar seu amado Bruce pelos erros para com ele’. Tendo aprendido com ‘o melhor’ a não deixar rastros, ela assumira uma nova identidade (Miranda Tate), um novo visual (ruivo) e um emprego na Luthor Corporation – trabalhando diretamente para Lex, ocupando um alto cargo de confiança.
Ela estava certa de que se desse a Bruce aquilo que ele mais desejava no mundo, teria seu perdão e, quem sabe, outra chance de recuperar seu coração.
“E o maior desejo do amado é ter o filho de volta”, ela pensou.
Mas desde que trouxera Jason Todd à vida, as coisas saíram de controle e, diante dessa mudança, ela ponderou que precisaria alterar também seus planos.
Ao ouvir o que Jason desejava executar em Gotham, Miranda quase imediatamente abandonara seu plano para aliar-se a ele. A herdeira do Cabeça de Demônio dispunha de acesso à uma parte da fortuna de seu pai e se dispôs a ser uma espécie de provedora para ele – oferecendo ajuda financeira e providenciando tudo que ele precisasse no mercado negro, longe do radar do Batman.
Ela tinha os contatos de Ra’s e, agora, também os de Lex Luthor.
Miranda não conteve a excitação ao ouvir o jovem bonito esbravejar, cheio de fúria, que “limparia a imundície de Gotham de uma vez por todas” e “livraria a cidade dos criminosos: corruptos, estupradores, ladrões”... O que lembrava seu pai. Mas Jason tinha uma paixão que seu pai, frio, não tinha. E isso a arrebatara.
Por isso, ela deu a idéia de que ele se hospedasse em hotéis de luxo e Flats caríssimos. Batman não procuraria um justiceiro mal apanhado, vestindo Jeans e agasalho, cobrindo o rosto com o capuz e uma bandana vermelha, em uma suíte máster de um dos hotéis mais requintados do mundo, cuja diária em média custava U$ 30.000,00/dia.
(...)
— Seu "amado” – ele usou um tom de desdém, lendo portais de notícias online no tablet – e sua linda esposa estão quase todos os dias nos jornais. Querem saber tudo sobre eles e os pirralhos... Eu confesso que fiquei curioso para conhecer a mulher que colocou uma coleira no Batman.
Talia negara-lhe uma resposta. Contudo, sua expressão deixava explícito que não tolerava esse tipo de provocação dele.
— Me admira que você não tenha considerado nada para desfazer esse casamento até agora... Você se cansou dele ou desistiu por que descobriu alguém muito melhor que o velho? – Jason prosseguiu com o tema usando um tom menos desdenhoso e um tanto sério.
— Eu jamais desistiria do amado – Ela respondera sem nenhum traço de emoção na voz, mas os olhos brilhantes denunciavam que ela ainda o amava – Há uma enorme diferença entre um homem e um menino. Ele é um homem e você um menino.
Talia não se importara com a expressão irritada de Jason:
— Quanto à esta união entre ele e a amazona, eu só preciso ser paciente. Isto está tão fadado ao fracasso como todas as outras. Ela acha que pode lidar com todas as partes do amado... E admito que, de todas as amantes, ela foi a que se saiu melhor – Miranda soltou uma risada melancólica – Mas ela não pode. Nem aquele animal felino sem pedigree, acostumada à lidar com o pior das ruas dessa cidade imunda conseguiu. Ela também não vai.
Miranda prosseguiu:
— Eu e o amado pertencemos um ao outro... Deixe-o viver um pouco dessa ilusão infantil de herói e heroína, cavaleiro e princesa... Cedo ou tarde, ele vai acordar. E eu estarei lá, ao lado dele, como sempre!
— Se você diz... A questão é: foda-se o velho. Não estou nem aí. E meu equipamento? – Jason resmungou.
— Em breve você terá seu equipamento e seu traje para começar a limpar Gotham, meu querido justiceiro. Eu prometo!
Ela despedira-se com um aceno.
Saindo em direção à Metropolis.
♣ Egito || Cairo ♣
>— Dois meses depois
O homem franzino estava seguindo o gringo, que andava em zig-zag, como se estivesse perdido e bêbado, há pelo menos 1h, pelo Mercado Khan Al Khalil. O gringo ébrio entrou, cambaleante, em um beco estreito, como se quisesse urinar.
O homem desviara o olhar de seu alvo, evitando o constrangimento de ver uma genitália, que parecia uma víbora albina, por acidente... Quando sentiu o corpo ser suspenso e a dor do estalo de suas costas contra a parede tijolos.
O gringo não estava bêbado, andando em círculos. Ele estava o atraindo para um lugar onde o confrontaria. Agarrando-o pelo pescoço e o atirando contra a superfície de pedra.
— Quem mandou você me seguir, demon? – O homem vestindo uma bermuda ao estilo dos arqueólogos locais e uma camisa florida de botão e mangas curtas, estava com a mão direita apertando o pescoço de seu adversário e apontando um anel com símbolos estranhos na direção de seus olhos. – Achei que tínhamos um acordo... Eu... estou... de férias!!
— Eu não sou de-de-demônio, sen-senhor... Foi o professor... – O pobre homenzinho aterrorizado mal podia falar de medo e por causa da pressão do aperto na traquéia — O professor me mandou... Ele precisa vê-lo.
— Se isso é verdade, por que ele simplesmente não me envia um convite? – O tom parecia cínico – Por que enviar alguém pra me seguir, como se armasse uma emboscada?
— Perdão, senhor. O professor exige a máxima discrição.
— E você, quem é?
— Meu nome é Nassor... Sou aluno do Mestrado em Arqueologia da Universidade do Cairo. O professor Siriso é mais que um mestre para toda Universidade, ele é uma lenda.
O gringo deixou o pobre homem sem dizer uma palavra.
(...)
O tal gringo era um homem alto e magro. Não fosse a aparência cansada e um tanto junkie, o cabelo com um tom de loiro-desbotado, curto e espetado – como se não fosse penteado – e a postura desleixada de quem ‘não dá a mínima’, um olhar generoso diria que ele tinha um certo charme.
Ele entrou na biblioteca da casa fumando um cigarro. Mas ao encontrar o olhar de reprovação do velho, resolveu apagá-lo – não antes de um último e generoso trago, além da evidente provocação de fazê-lo, sem cerimônia, sobre a madeira nua da escrivaninha, de valor histórico inestimável.
— Eu pensei que ingleses eram mais educados – disse o velho senhor, levantando-se da poltrona para cumprimentar seu convidado.
— Se você está com problemas novamente, não conte comigo, Osíris... Minha última experiência não foi nada agradável. Eu prefiro lidar com Lúcifer!
— Antes fosse um problema tão somente meu, John... Todavia, as proporções são infinitamente maiores.
— Estamos falando da infinidade de que mundo? Material, dos mortais? O mundo das almas perdidas? Ou o seu, Osíris, do além-vida dos egípcios?
— Você não entendeu, meu caro Hellblazer – John se esforçou para manter-se inexpressivo diante do olhar aterrador exibido, por ninguém menos, que o deus mais emblemático dos egípcios – Eu me refiro ao próprio infinito... Todos os mundos, deuses, mortais; todas as dimensões e mundos; Set planeja a destruição completa!
— Como todos os deuses, Set é um megalomaníaco sádico idiota tentando dar um passo maior que a perna – O loiro parecia relaxar com a informação – Mas dessa vez, ele se superou. Seu irmão não consegue destruir sequer o mundo da sua dimensão, Osíris.
John acendeu outro cigarro, para relaxar.
— Se fosse apenas mais uma tramóia de Set, John, não teríamos esta conversa... Preciso da sua ajuda e você, vai precisar de toda ajuda do mundo.
(...)
Quando Osíris terminara de relatar tudo que sabia, John mal sentiu os lábios se afastarem, deixando o cigarro pendurado, prestes a cair. Ele estava boquiaberto e apreensivo.
Lidar com o sobrenatural, demônios e afins era uma coisa... Isso, era diferente. Era uma batalha praticamente perdida!
♣ Gotham City || Mansão Wayne ♣
>— 6 meses depois
“BRUCEEEEEEE... ALFREEEEEEEEDD... MENINOOOOOOOOOSS”
Os gritos de Diana ecoaram pelos corredores da mansão, deixando aturdidos todos os que foram alcançados pelo som. Para sermos justos, todos que a ouviram, sem exceção, dispararam em velocidade vertiginosa na direção dos chamados estrondosos da senhora Wayne.
Bruce, que estava avaliando investimentos na biblioteca, saltou por sobre a mesa de escritório e correu; Tim e Damian estavam na sala de jogos, no primeiro andar e usaram o corrimão da escada como esgorregador, para chegar mais rápido até Diana; Alfred jogou a travessa de porcelana chinesa que estava lavando na pia e disparou como um velocista.
Eles a encontraram na sala ambientada para os bebês: o piso sintético emborrachado (para que pudessem engatinhar sem machucar os joelhos); a decoração e brinquedos que estimulam o desenvolvimento motor, audiovisual e mental deles; e tudo mais que houvesse de melhor em benefício dos filhos do segundo homem mais rico da América.
A aflição de Bruce se transfigurou em raiva, quando ele a viu de Joelhos, sorrindo, sem qualquer preocupação. Mas antes que pudesse proferir qualquer reclamação rabugenta habitual, ele a ouviu sussurrar ‘olhem isso...’ e apontar o indicador para a extremidade oposta... Foi quando, pela segunda vez em uma semana, ele era todo coração – não havia sinal do Batman, do playboy, do menino de 8 anos... Ele foi completamente preenchido de amor e todos os sentimentos derivados dele. Há quatro dias, Sarah estava falando e agora... O pequeno Tommy estava de pé.
Mas ao invés de apoiar-se, como vinha fazendo no último mês, ele começou a caminhar em direção à mãe – tal qual os lentos e vacilantes primeiros passinhos dos bebês. “Vem, Titi... Vem pra gente. Você consegue, grandão!!”, Tim sentou-se ao lado de Diana e estendeu os braços para o menino, como ela. E o incentivo extra teve como resposta um riso-grito de satisfação do bebê.
Foram passos caminhando de pé, sem apoio, que o pequeno Thomas deu em pouco menos de 2,5m. Mas significava muito para aquela família incomum e as expressões nos rostos, bem como as reações de cada um deixavam isso claro.
O orgulho da mãe se via no abraço apertado quando ele chegou aos braços dela; o xodó do irmão do meio, na série de beijos que faziam cóssegas e arrancavam um monte de risadas gostosas do pequeno; a satisfação do avô, no sorriso que ele dedicava apenas aos seus netos, quando os colocava no braço; a força do amor de um pai que finalmente descobrira qual a sensação de felicidade.
Damian olhou aquilo meio triste.
Que lugar ele teria gora, no coração de seu pai?
(...)
Com apenas 8 meses de vida, os bebês Wayne já apresentavam sinais de sua herança genética singular – O meta-gene materno de uma meta espetacular e o DNA paterno do mais extraordinário não-meta humano vivo.
Thomas Thaddeus Wayne era uma cópia fiel da aparência do pai – porém, suavizada. Não como Damian, que tinha uma expressão igualmente sisuda como a de Bruce – e da personalidade de sua mãe. Ele era uma criança sorridente, muito sociável e amigável – daqueles que fica confortável com qualquer um que lhe dê atenção e seja gentil com ele.
Titi, como Tim o apelidara, ganhou o dobro de peso e mais da metade da altura de sua irmã em poucos meses – mamando também em dobro. No oitavo mês, o pequeno Tommy era o pequeno grandão de seu irmão, com o peso e altura de um saudável bebê de 3 anos. Que J’onn garantira aos pais gozar de plena saúde e estrutura física, apesar de avantajada, dentro da média esperada da combinação de 102kg de puro músculo e 1m93 de altura do pai, com uma deusa de 1m88, da mãe.
Ele nunca chorava ao se machucar e os machucados se curavam bem mais rápido que o período comum; era bem mais forte que crianças da sua idade e extremamente hiperativo durante o dia, especialmente nos horários de sol à pino. Contudo, tudo em uma medida, digamos, proporcional à pouca idade – infinitamente menor que a de sua mãe.
Ele apenas não se importava quando caía ou se feria e em um ou dois dias, não se via sinal de lesão. Tommy não tinha força para machucar alguém, mas aos 8 meses, era tão forte quanto um garoto de 8. Bruce, Tim e Alfred planejavam uma série de atividades diárias para mantê-lo entretido durante toda manhã e parte da tarde. E nos horários de sol forte, das 11h às 14h, Diana o levava para fora da casa – para piscina, jardim, arboreto... Qualquer lugar que o permitisse ser diretamente ‘banhado’ pelo sol.
Uma ação que para todos nós seria irresponsável – desaconselhável porque põe em risco a saúde – é um bônus para o menino que ganhara as graças de Apolo. Thomas, assim como seu padrinho Kal-El, era um ‘filho do sol’.
Sua irmã, Sarah era completamente diferente. Contudo, não menos prodigiosa. Seus traços eram uma mistura linda das avós – lábios, nariz e maçãs de Martha; olhos e formato do rosto, herdados de Hipólita. E, quando os poucos fios foram se multiplicando, tinham um tom entre o castanho claro da mãe de Bruce e o loiro real da rainha amazona. E, pela primeira vez na vida, seu pai – que não negava sua preferência por morenas – estava perdidamente apaixonado pelos fios cor de mel de sua princesinha.
Contudo, se fossem honestos, Bruce, Diana ou mesmo Alfred e Hipólita não negariam a ponta de apreensão à medida que os traços da personalidade da pequena senhorita Wayne iam se mostrando no comportamento dela.
Assim como a de Tommy era como a de Diana, a de Sarah era inegavelmente derivada de Bruce. Porém, sua avó alimentava uma preocupação sobressalente a dos demais. Ela era a única que conhecia Hades intimamente e, por isso, a única que vira as semelhanças nos pequenos detalhes, que gritavam o nome do deus do Submundo para ela.
A pequena Wayne não demorou a mostrar-se um prodígio genial como o pai. Começou a balbuciar sons (que não eram palavras, mas prática vocal pra ‘afinar’ as cordas vocais) aos 4 meses; os clássicos ‘mamã’, ‘papá’ e ‘vavovô’, aos 5 e aos 6, conseguia dizer as mesmas palavras sem esforço, e mais ‘Timy’, ‘Damy’ e ‘Kaka’.
Sarah se recusava a reagir de forma amigável com qualquer um que não fossem seus irmãos, seus pais ou avós, com exceção de seu padrinho Kal-El e de seu tio Clark (que Bruce apresentou aos filhos como pessoas diferentes, para evitar que as crianças sem querer revelassem a identidade do Superman). A quem ela chamava de Kaká, como se soubesse que eram a mesma pessoa.
♣ Gotham City || Região das Docas ♣
Incógnito, graças ao breu da noite de lua minguante, no alto de uma estrutura formada por 3 contêineres empilhados, ele observa a movimentação suspeita nas Docas e aguarda pacientemente o momento certo de agir.
Quando todo carregamento é finalizado, ele corre silenciosamente na direção de seus alvos, saltando sobre os contêineres.
O trio de seguranças de Falconi e os 4 capangas do seu novo cliente, um negociador de armas russo, mafioso velho conhecido dos Federais, não viram o que os atingira. Tudo que um deles viu, antes de desmaiar, foi uma sombra cinzenta passar pela porta que eles vigiavam.
Os dois negociadores foram obrigados a se manterem imóveis, com as mãos elevadas na altura da cabeça, em posição de rendição, sob a ameaça de dois canos de Magnuns 45 apontada para suas cabeças. Eles estavam sentados frente a frente, negociando a compra e venda de armas de uso exclusivo do Exército americano e israelense, quando um louco mascarado, de pé entre eles, pôs uma arma em cada uma das têmporas.
Pelo canto do olho, Falconi deu uma boa olhada no intruso, que com exceção da máscara vermelha cobrindo completamente o rosto, usava o traje mais digno de respeito que jamais vira em qualquer categoria de loucos de Gotham – os heróis insanos e os loucos vilões psicóticos. Uma coisa que ambos tinham em comum era o fato de que suas indumentárias eram um sinal óbvio de insanidade.
O traje tinha uma cor acinzentada escura – opaca nas áreas das articulações e platinada na região dos órgãos vitais (cobertas com kevlar) e o rosto coberto por uma máscara vermelha.
— Filho, você deve ser novo na cidade e não deve saber como funcionam as coisas por aqui. Você não sabe com quem está lidando.
O encapuzado não disse nada e o único som era o das semi-automáticas sendo destravadas para efetuar o disparo.
— Eu li sua longa lista criminal, Belikov. Abuso e estupro de menores; tráfico de armas, drogas e humano; agressão, homicídio... Perfeito pra começar – o sangue espirrou em Falconi quando Jason atirou em Belikov. Foram alguns tiros incapacitantes.
— Eu não vou matar os dois... por enquanto. Falconi, avise aos criminosos dessa cidade que estou fazendo uma limpeza. Um sistema corrompido não garante a prisão de um miserável como Belikov por muito tempo. E eu vou garantir que outros como ele fiquem livres para continuar cometendo crimes.
— Quem é você?
— Diga ao lixo criminoso que eles devem temer o Capuz... Capuz Vermelho.
— Por que devemos te obedecer? – Falconi perguntou
— Por que eu sou a vingança!!
>— Perspectiva de Jason
Eu conheci a história de Lázaro através de Alfred: o milagre da ressurreição, ele me disse. Mas o despertar dos mortos não tem nada de milagroso. Na verdade, é uma tortura.
Você acorda com uma memória fragmentada, com partes da sua vida que não fazem sentido, soltas e sem contexto, o que provoca a sensação nauseante de que colocaram o cérebro de outra pessoa no lugar do seu.
A única lembrança viva, repetida a exaustão em sua mente, durante semanas, é a do momento da sua morte – que no meu caso, é um filme de terror, com um palhaço sádico me espancando até a morte, com um pé de cabra.
Mas quando lembro um dos raros momentos em que minha vida não era um estágio para o Inferno; quando lembro alguém que se importava de verdade comigo, esqueço a dor e a raiva por alguns instantes.
E ao contrário do que esperava, cruzar a linha não me trouxe qualquer tipo de alívio ou satisfação, como o Batman me garantiu que seria. Mas como ele poderia saber, se ele nunca matou?
(...)
De repente, me sinto voltar à realidade, como se minha mente tivesse desligado por um longo tempo. Apoio as mãos na parede e deixo o jato forte da ducha massagear os músculos retesados dos ombros. Ver a água limpa escorrer pelo ralo deveria fazê-lo se sentir tão bem quanto sentia-se, olhando a sujeira e o sangue escoarem durante o banho, na voltar de um dia difícil de patrulha.
Quando eu fecho os olhos, eu vejo um nino, no alto de um ganho de Oliveira. Há três pássaros abandonados dentro dele. Três pequenos Robins amparados por um Morcego ferido, com uma asa quebrada, que releva a dor e estende ambas, para protegê-los da noite fria. E, por mais que desejasse, o morcego jamais poderia ser o pai-pássaro que eles desejam que o morcego seja.
Como ele poderia?
Eu sinto as lágrimas desenhando um caminho estreito no meu rosto quando vejo a imagem solitária do morcego pendurado em um canto escuro da árvore. Martirizando-se por sua ‘incapacidade’ de ser o pai que seus pequenos Robins merecem. Ignorando a obviedade de que não tem culpa.
A imagem das asas do Morcego envolvendo os filhotes no ninho me seguem até a cama. É como se minha consciência construísse uma parábola para me fazer enxergar que o Batman fez tudo que pode por mim. Um vigilante da cidade mais violenta e corrupta da América, órfão desde a infância, jamais poderia ser o pai que eu precisava e desejava.
Mas, ao contrário do que eu e Dick pensávamos, não era frieza, ou porque ele não nos amava, tampouco por não nos considerar seus filhos, já que não tínhamos o mesmo sangue que ele. Ele nos amava da forma que ele podia.
“Meu pai me amava. Ele me amava... Do jeito dele, mas amava”
Eu repeti como um mantra até o sono me tomar.
Era como respirar pela primeira vez.
Era como finalmente estar realmente vivo!!
♣ Gotham City || Batcaverna ♣
Bruce era sabidamente um homem pragmático. Logo, não era de se espantar que ele não teve qualquer dificuldade de se adaptar à sua mais nova rotina, repetida rigorosamente nos últimos 3 meses.
Por volta das 4h da madrugada, após o retorno da patrulha e, se houver tempo, o preenchimento das planilhas do relatório, ele coloca sua pequena princesa notívaga nos braços e ambos cumprem religiosamente a parte que lhes cabe.
O relógio biológico de sua filha tinha os mesmos ajustes que o dele e era praticamente impossível que ela dormisse a noite inteira. Normalmente, após um cochilo das 17h às 20h, ela ficava acordada a noite toda, até às 5h. Mas nos últimos 3 meses, seu sono passou de obediente ao horário à condicionado a rotina com o pai – independente do indicado pelo relógio.
Na primeira semana, ele tirou o traje e tomou um banho, até ela passar a se negar a ficar com ele se não estivesse vestido de Morcego, sem o capuz. “Deus tenha piedade de todos nós, se esta inocente criança herdar do mestre Bruce essa obscessão por roupas de morcego”, Alfred ironizou, com a acidez do humor inglês.
Eles repetiam uma sequência que começava com uma caminhada de 20 minutos pela caverna ou pelo jardim. O lugar não era importante... O que importava era a conversa – em que bruce nunca se repetia, falando algo intrigante de seu dia, narrando missões da Liga ou histórias de Alfred e seu pai. Talvez fosse tolice de pai, mas o olhar focado dela nele lhe garantia que ela, à seu modo, entendia tudo.
Depois, sentada em seu colo, eles assistiam videos infantis que estimulavam o desenvolvimento intelectual, audiovisual e motor dela por 10 minutos.
E por fim, ele colocava uma playlist de canções de ninar para tocar e, de pé, apoiada sobre o peito, em seus braços, ele balançava o corpo e ela dormia em menos de 5 minutos.
(...)
Esta noite, enquanto caminhava com a filha nos braços pelo corredor de entrada da caverna, Bruce decidira contar-lhe um conto baseado em uma história real:
“Era uma vez, um Morcego que vivia solitário e triste em sua caverna. Até conhecer 3... não 4, pequenos pássaros...”
Ele parou em frente a vitrine exibindo a armadura do segundo Robin, Jason Todd, morto violentamente pelo Coringa. No peito, o contraste do amarelo das gargalhadas, pichadas com tinta spray, com o vermelho do traje, provocava o destaque infeliz da zombaria maquiavélica do Joker – alheio às suas abominações sádicas.
— Assim como o Morcego, o Batman tinha 4 meninos-pássaros. Dick, Jason, Tim e Damian. Mas um deles vôou para longe…!! Seu irmão, Jason era muito corajoso, filha.
— Je.. Je.. – Sarah tentou imitar o som do nome
— Ja-son. Ja-son... – Bruce repetiu devagar.
— Jay-Jay... jay-jay... Jay-jay
— Isso. Jay... Você iria gostar dele, Sarah. Mas ele não está mais aqui.
— Nã... Nã.. Nã... – Ela balançou a cabecinha negativamente. De forma um tanto desalinhada pelo pouco controle motor, mas definitivamente, ela estava negando alguma coisa.
— Não? Não? Não iria gostar dele?
— Sim – ela respondera. – jay jay.
— Você queria que Jay estivesse aqui? – Sua filha sorriu como se afirmasse e ele explicou-lhe novamente – jay jay voou para o céu, meu amor. Ele não pode vir. Porque não está aqui. Ele não está aqui.
— Aqui... Jay jay – Bruce encerrou o passeio e foi para o computador. Era doce sua filha desejar que ele estivesse aqui para vê-la, mas triste saber que ele jamais poderia estar.
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