Broken Hearts
2 O príncipe de Gotham

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"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite". ( Clarice Lispector )
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O mundo do Batman é completamente diferente dos outros heróis da Liga. É um ambiente complicado, sombrio e soturno, bem como ele também o é. É um mundo onde a balança da justiça é executada através da vingança. Tudo nesse mundo tende à missão. Sua promessa, no túmulo de Thomas e Marta Wayne, de que nenhuma outra criança em Gotham presenciaria a morte sumária dos pais como ele experimentou, aos oito anos.
Mas, não é só isso e quase ninguém entende!
Os especialistas dizem que as crianças podem reagir à morte de um ente querido de várias formas. Pode haver negação, ansiedade, pânico, insônia, hostilidade e culpa. É um processo muito mais difícil para as crianças cujos entes queridos morrem repentinamente, em circunstâncias traumáticas. Reviver o evento traumático várias vezes, tornar-se deliberado, como uma tentativa de encontrar a absolvição.
Absolvição!
Essa é sua busca. Sua missão:
Ele é a noite. Ele é a Vingança. Ele é o Batman!
*** Gotham/ perspectiva de Bruce ***
Molier, o dramaturgo francês, diz que se você suprimir demais a dor, ela pode redobrar. Eu vivo isso todos os dias. Mas é a minha vida. Foi a minha escolha. Trata-se de vingança e justiça. Trata-se da missão. É sobre prevenção de outras crianças de perderem seus pais, como eu.
A noite está calma, mas o tempo está nublado em Gotham City. As lâmpadas na rua piscam lentamente, anunciando o início da noite. A transição da vida toma conta da cidade corrompida pelo pecado, como a Sin City dos quadrinhos.
A janela de tempo entre o fim da tarde e o início da noite ainda guardava o clima sereno e tranquilo. Era como um período de carência. O cidadão de Gotham parece desfrutar de um momento de quietude antes da explosão de violência cair, com o pico supremo da noite, quando a escuridão a engole.
Era essa serenidade que me sempre me levou a lutar com tanta força. A sensação do que minha cidade poderia vir a ser, se estivesse livre da podridão do crime que a transforma em algo maléfico. Por enquanto, ainda é uma utopia. Um sonho a ser alcançado.
O silêncio é interrompido pelo som dos motores do Batwing riscando o céu noturno, me levando para fora da atmosfera terrestre, em direção à estação espacial da Liga, apelidada de Sentinela.
As instalações, que antes eram em um prédio do Governo, agora estão no espaço, orbitando a Terra. Essa readequação permite que nós observemos melhor o que ocorre no mundo, além de acelerar o tempo de resposta. Na verdade, a Watchtower tinha provado seu valor como uma Central extremamente auto-suficiente.
Eu projetei a estação espacial mim, e eu sei que ela praticamente é autoexecutável, com a energia gerada através do uso de painéis solares. Eu faço todas as atualizações necessárias nos softwares de segurança porque não confio em ninguém da Liga para isso.
Estou aqui para uma reunião entre os fundadores. Mais uma... Tão maçante! Mas tendo em vista que todos os principais criminosos ‘Classe A” em Gotham estão trancafiados em Arkhan ou na penitenciária de Belle Reve, não há problema em afastar-me da cidade e forçar o Superman a ser mais objetivo na maldita reunião.
A porta da sala de conferências foi aberta. Manter o ritmo e os olhares ameaçadores sobre este bando é praticamente uma necessidade. Estamos juntos há cerca de um ano e já há uma certa dissensão nas fileiras. Era uma missão de tolos para acreditar que qualquer um dos grandes e poderosos seres meta-humanos ouviria a voz da razão. Eles acham que estão acima de todos. É irritante e estúpido. A confiança é algo que precisa ser conquistado e não dado de bandeja. Eu sobrevivi como vigilante por causa dessa premissa.
Essa foi uma das principais razões pelas quais aceitei ser adicionado inicialmente como um membro não permanente da Liga da Justiça, quando foi sugerido que os heróis deveriam se unir. Isso me ajudou a ganhar alguma margem de manobra, aliado a minha missão de proteger Gotham. Eles precisam ser vigiados e observados.
Proteger Gotham leva tanto do meu tempo que eu sinceramente não consigo entender porque assumi um papel dentro da Liga. Quando eu digo que sou um membro provisório, eu estou mentindo para mim mesmo. Claro que eu sei porque continuou envolvido. Ameças contra o mundo precisam ser sanadas, inclusive a própria Liga. Isso me leva ao meu próximo ponto, o ‘Protocolo Rogue’, que eu criei para usar contra eles, caso seja necessário, listando suas fraquezas.
Mas nem tudo é tão ruim. Desde a minha adição à Liga, Gotham PD parece ter menos problema em trabalhar comigo. Estamos estabelecendo um tipo de ‘relação de trabalho’ e não apenas Gordon, mas Montoya e Bullock também entraram para lista de colaboradores do Morcego. Quem diria?! Não foi por acaso que as coisas estão em uma curva ligeiramente inclinada para melhor na cidade.
É realmente incrível que eu encontre algum tempo para dormir. Há tanta coisa acontecendo nas vidas do Batman e de Bruce Wayne que estou surpreso por não estar desfrutando de uma estadia no Asilo Arkham para criminosos insanos.
Acabo de adotar mais um filho: Timothy Drake. O menino é brilhante!
Asa Noturna, meu primeiro filho adotivo – o primeiro a vestir o manto do Robin, que vem a ser a figura que me acompanha em minhas patrulhas noturnas – me levou até ele há algumas semanas. Ele se mostrou muito astuto desde o início e eu o venho treinando desde que ele passou a viver na Mansão Wayne.
Não havia intenção alguma de permitir outro Robin ao meu lado, ou qualquer outro membro ser adicionado ao Batclã, para vigiar a Cidade e seus becos escuros imersos no crime. Não depois do que o Coringa fez a Jason.
A morte dele trouxe-me cada vez mais perto de cruzar a linha que, todas as noites, eu luto para não ultrapassar. Eu estive tão perto disso tantas vezes recentemente, que estou realmente com medo de mim e do que eu seria capaz de fazer.
Ossos quebrados agora não tem sido mais suficientes para satisfazer a minha raiva. Os elementos criminosos parecem tornar-se mais violentos, corruptos e imundos, mesmo sob a ameaça do Morcego Vingador à espreitá-los e puni-los severamente.
(...)
O segundo na linha de ação: o infame playboy!
Eu realmente tenho verdadeira ojeriza à personalidade de Bruce Wayne. É uma luta árdua agir como se eu fosse tão ignorante o tempo todo. As mulheres as quais eu me obrigo a estar são uma decepção completa: verdadeiras alpinistas sociais que, quando não são estúpidas, são espertas o suficiente apenas para agirem como mercadorias fúteis. Estar com elas e interpretar um idiota insuportável muitas vezes me deprime mais que lidar com alguns criminosos.
Pelo menos a Wayne Enterprises não exige muito de minha atenção. Lucius Fox é um homem competente e honesto que tive o privilégio de conhecer e empregar. O negócio está bem encaminhado com ele me ajudando a tocá-lo. No entanto, prefiro manter um olhar mais atento sobre a WayneTech, para usar qualquer nova tecnologia que ajude o Batman.
*** Sala de reuniões/ Sentinela ***
Batman saltou para fora da cabine do Batwing e caminhou até a sala de reuniões. Sua mente fervilhava e tudo que ele queria era voltar à Gotham. Ele não tinha tempo para mais uma reunião entendiante sobre trivialidades dispensáveis. ‘No limite’ era um eufemismo para o que ele estava sentindo no momento.
Ele deslizou em sua sombra favorita pelos corredores. Quando ele construiu a Torre de Vigilância, certificou-se de manter um design que permitisse a sombra para formação de cantos escuros que o favorecessem, como seus lugares privados.
As portas se abriram e tudo que ele viu foi uma maravilha de olhos azuis também entediada, mas sentada regiamente em sua cadeira. Ela era a única presente e isso lhe causara uma certa estranheza abrupta. Ela era sempre pontual, ele sabia – tendo em vista o fato de que Diana vivia na Torre. Mas não ter a presença de nenhum outro membro, exceto o Flash, era uma novidade para ele.
— Princesa! – Ele a cumprimentou, enquanto se arrastava para o assento ao lado dela.
Diana lhe dera um olhar furioso como resposta. Era o primeiro dos seus ataques a ela e ele sabia que a incomodava em demasia. Não era uma questão de cordialidade. Batman a chamava de princesa por puro desdém e ela sabia exatamente disso. Na verdade, ele gostava de ver os olhos furiosos dela em sua direção. Era um tanto de divertimento cabível para ele, mesmo que a postura imóvel e irretocável lhe conferisse um ar de indiferença. Contudo, provocar Diana era, sem dúvida, um momento de satisfação velada, que lhe arrancava o praticamente invisível meio sorriso no canto do lábio esquerdo, fruto da contração milimétrica no músculo da face.
— Batman – Ela respondeu em um tom levemente áspero, mas ainda sim tranquilo na voz.
Diana recostou-se na cadeira, buscando uma posição mais relaxada, cruzou as pernas antes de continuar, usando um tom menos hostil. E tentou estabelecer um diálogo com o Caped Crusader.
— Você chegou cedo esta noite. Normalmente apostamos quem chegará mais tarde: você ou Flash.
— É sempre bom manter o mistério, Princesa. – Batman respondeu. – Eu não quero que ninguém ache que eu obedeço algum tipo de padrão.
Ela riu com a resposta mal criada. Não era para ser um comentário engraçado, mas para ela, acabou sendo e ele expressou um meio sorriso sincero, em resposta ao sorriso de Diana. O que surpreendera a ambos: o Batman não ri!
Mas antes mesmo que as coisas começassem a tomar um clima mais leve, J'onn entrou na sala, seguido do Super-Homem. Então vieram Shayera, John e Wally.
Batman gemeu internamente, ainda mantendo um olho no relógio à medida que o tempo passava. Todos olharam para ele com olhares questionadores, mas Diana foi quem lhe dirigiu um olhar de desprezo. ‘Ele se acha melhor que nós. Não pode perder seu precioso tempo longe de Gotham. Mortal presunçoso”, foi o devaneio irritado da princesa amazona.
Ele não queria estar aqui. Tudo que ele queria era voltar à Gotham!
Ainda não passava das 2h da madrugada. Era cedo para voltar à patrulha. As reuniões obrigatórias. Ouvir o Superman, o sempre otimista Clark Kent, era parcialmente nauseante. Ele fez uma nota mental para adicionar o dom de ministrar discursos entediantes à lista de poderes do Homem de Aço. ‘Ele poderia colocar Lex Luthor para dormir’, Bruce disse a si mesmo.
Os olhos do morcego estavam dirigidos aos monitores da sala. A cadeira dele estava no local perfeito para isso. E o benefício do capuz de visores opacos lhe conferia a incrível dádiva de não ser descoberto. Seus olhos realizaram sua varredura habitual da sala. Primeiro para a janela, nada que ele pudesse ver. Monitores: tudo na mais perfeita ordem; Seus amigos, inquietos, mas prestando atenção no Superman – ainda falando!
Seus olhos finalmente mudaram-se para Diana. Para bem da verdade, ele se controlava para omitir a onda elétrica que perpassou o trajeto da espinha e o traje fez o incrível trabalho de esconder os pêlos arrepiados. Observá-la era um deleite: Acima da clavícula, a pele perfeita, a dobra do pescoço longo, o cheiro de essência de rosas e jasmim, o queixo delicado, a boca novamente umedecida pela língua que teimava em refazer seu movimento, lento, sedutor, lascivo...
‘Maldita mulher! Poderia estar um tanto mais coberta, não poderia?’, ele pensou e logo desfez-se do pensamento. Não importava se uma burca a cobrisse, ela ainda seria capaz de levar a atenção de seus olhos.
Fim do falatório desnecessário. Hora de ir!
‘Estou ocupado’ foi seu adeus de costume aos outros, para evitar interações. Ele não se importava. Ele não era sociável.
*** De volta à Gotham/ perspectiva de Bruce ***
Eu fico olhando para o céu de Gotham. E só contemplo a vida abaixo de mim. Ninguém nunca pergunta sobre a vida. Ela apenas acontece. Você não tem uma escolha. Em um segundo você não é nada e tudo que mais importa para você é amassado como papel, como se não importasse.
Não há escolha na vida!
Não... há poucas escolhas na vida!
Correção, há muito poucas escolhas IMPORTANTES na vida.
Mas a morte, que é a escolha mais importante, não é feita por você!
No final do dia, quando você pensa sobre a morte, tudo se resume a força de vontade. Para mim, a única questão importante na minha vida é: você tem vontade de viver? Eu não. Mas eu não tenho uma escolha. Aposto que sou a única pessoa que quer morrer, mas não pode. Eu tenho uma missão: Impedir que as famílias se desestruturem com a morte.
Família. Essa é a chave de tudo!
Eu me pergunto se eu posso fazer diferença. Eu tento. Mas será que eu faço?
As minhas perguntas se desfazem quase no fim da noite.
Um tiro no beco... eu energizo a capa com eletricidade. Ela endurece... Eu plano até o chão.
É hora de lutar.
Está na hora de fazer justiça.
A noite chama pelo Morcego de Gotham!
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