Broken Hearts
48 O peso das mentiras
Notas iniciais

► "É uma verdade básica da condição humana: todo mundo mente. A única variável é sobre o quê”, (Gregory House) ◄
FLASHBACK ON
♣ Gotham City || Hilton Hotel || Launge Bar ♣
(Há 10 anos)
O bar, à esquerda do imenso hall de entrada do hotel, fora projetado para ser aconchegante e confortável. O detalhe estava na decoração, que era, sem dúvida, de muito bom gosto, porém um tanto descontraída para a decoração padrão de todo resto do lugar, que era conservadora e clássica.
Eles estavam sentados em uma mesa de canto, de dois lugares apenas. Ela havia pedido um suco de alguma fruta que ele não se dispusera a prestar atenção e ele, uma dose de Bourbon, cawboy (puro e sem gelo). Batman era um abstêmio, mas Bruce definitivamente precisava de uma bebida agora.
Desde que sentaram, há 26 minutos, ele conferiu o relógio – Não podia perder a patrulha – eles tinham trocado cumprimentos quando chegaram e depois, só silêncio, há quase meia hora.
Ela esta olhando fixamente para o suco, sobre a mesa, sem tomar um só gole. O cabelo liso caía sobre um dos lados do rosto, uma característica marcante.
Depois de mais cinco minutos, ele disse:
— Eu vou tomar um pouco de ar!
Bruce se dirigiu para as portas abertas da varanda. A expressão em seu rosto ficou cada vez mais escura até ser engolida pela noite lá fora. A brisa fresca o encontrou e ele, sem cerimônias, despejou o conteúdo do copo sobre a grade antes de descansar seus antebraços sobre ele. O som de passos suaves veio atrás dele, mas ele não se virou, não até que um toque suave cair em seu ombro.
— Obrigada por vir, amado.
Levou toda a sua disciplina para não sacudir com o contato e o título afetuoso que ele amava ouvir de seus lábios. Mas no momento, ele estava muito zangado para deixar tudo para trás.
— Eu realmente me pergunto por que estou aqui! Por que você voltou, Talia? O que você ainda quer de mim?
— Amado, não há nada mais que eu deseje de você que não o seu amor.
— E você quer que eu acredite nisso?
Ela não respondeu e o silêncio voltou a reinar entre eles.
— Por quê? – Bruce não tinha certeza do que queria ouvir. Parte dele estava feliz ao vê-la. Queria abraçá-la, beijá-la, dizer que ainda a ama, apesar de tudo. Parte dele queria ser racional e manda-la sair de sua vida de uma vez por todas: “ela vai te deixar pelo pai... de novo”, o Batman latia em sua mente!
— Eu nunca o teria deixado por vontade própria, amado. Eu o amo. Não duvide do meu amor. Por favor – ela estava com os olhos baixos. Talia não poderia encará-lo. Doía ver a dor que ela causa em seus olhos. – Meu pai precisava de mim. Eu não tive escolha.
— Sim, Talia. Você teve... Você poderia ter ficado. – Ele também não pretendia encará-la, inseguro de seus sentimentos. Sua raiva e sua mágoa eram ferozes, mas sua paixão era maior, e ele certamente cederia.
Ela se aproximou e virou as costas para a grade, de modo que ficaram frente a frente. Ele ainda não conseguia olhar para ela.
— Eu sinto sua falta, amado. Falta dos dias felizes que passamos juntos, em sua casa. Não nos faltava nada. Tínhamos o amor um do outro.
— Até que você me deixou... – ele deu um sorriso irônico e ela sentiu como se ele tivesse-na esbofeteado.
— Eu estou aqui agora...
Ele finalmente virou a cabeça, e ela pareceu endurecer. Havia pouca luz na varanda, mas ele poderia jurar que ela parecia pálida.
— E como será agora, Talia? O que é diferente das outras vezes? (...) Não... não responda. Eu já sei: Você volta para o idiota aqui, dizendo que o ama. O tolo, claro, acredita em você e... mais uma vez, decide enterrar os erros do passado e perdoar você (...) então, você faz dele o homem mais feliz do mundo, você o faz pensar que pode finalmente, amar, ser amado, ser feliz, e não tão quebrado... Mas, como sempre, o sonho tem prazo de validade e você o deixa pelo seu pai, se ele tiver sorte... se ele não tiver, você o trai por seu pai... Deixei alguma parte de lado, Talia?
Talia inclinou a cabeça para o lado, como se estivesse considerando como responder a ele, mas ela não pode e o silêncio reina por longos dez minutos.
— Meu coração me diz para tomá-la em meus braços mais uma vez. Mas eu não sei se posso, Talia. As feridas da nossa última separação ainda estão abertas.
Ela voltou o olhar para as estrelas. Mas era impossível conter as lágrimas.
— Você está bem? – ele perguntou.
— O corpo... talvez sim – Ela finalmente admitiu. – Mas na alma, há tantos cortes que eu tenho medo de nunca se curar.
Ele a olhou. Ela ainda era a mulher mais linda que ele já tinha visto, mas não havia como negar a tristeza e o cansaço que ele via em seus olhos. Antes disso, Bruce não conseguia imaginar que alguma coisa pudesse arruinar seu espírito, mas ela havia perdido o bebê... O seu filho... O filho deles.
Bruce tinha que admitir, o que ela fizera para concebê-lo, para que Bruce a engravidasse, fora abominável, mas ela ainda era a mulher que ele amava e estava esperando um filho seu. A notícia o levou a perdoá-la imediatamente pelo que tinha feito a ele. Mas quando, meses depois... Ele ficara arrasado quando ela disse que sofreu um aborto espontâneo, que resultou na perda do feto. Ele não queria vê-la tão em pedaços.
— Sinto muito, Talia. – Foi tudo o que conseguiu dizer.
— Eu não vim aqui pedia sua piedade, Bruce.
"Bruce? Agora eu sou Bruce? Não mais ‘amado’?”, ele pensou, magoado, sem expressar o incômodo.
— Eu vim porque... – ela fez uma pausa longa – Eu... Eu vim porque... Queria vê-lo. Eu queria consertar as coisas ruins que ficaram do nosso último encontro, amado. Pensei que conversar poderia nos dar um pouco de paz.
Ele não podia negar-lhe isso, não depois de tudo que ela passou com a perda do filho. Mas de alguma forma o pedido doía nele, fazendo se sentir culpado, por ser tão insensível. Bruce tinha certeza que ela não estava mentindo sobre sua intenção, e isso parecia tão final... Como se fosse um adeus.
— Quanto tempo você vai ficar em Gotham?
Ela movimentou os ombros, os encolhendo e ele olhou para o colar que ela usava. Era bonito, mas não era o que ele tinha dado a ela. Ele queria que Talia o estivesse usando, para ele. Algo que, subconscientemente, ele esperava ver.
— Uma semana... Talvez duas.
— Bem. – Ele poderia lidar com a presença dela por duas semanas. Ele era o Batman, afinal. – Então, tome o café da manhã comigo amanhã. Lembra-se daquele bistrô francês que nós encontramos no Centro, quando fugimos da chuva? Os crepes de chocolate que você adora? – ele sorriu pra ela.
E Talia sorriu amplamente e com honestidade, acenando positivamente com a cabeça, vendo as paredes de Bruce cedendo de novo, por amor a ela.
— Eu adoro aquele bistrô. Podemos almoçar amanhã, ao invés do café? Eu ainda estou cansada do vôo, e você terá uma noite de patrulha hoje. A cidade chama por você. Ela é quer afastá-lo de seu único amor verdadeiro, amado! – Ela sorriu, tomando a mão dele, com carinho.
“Droga. É assustador o quão facilmente ela me faz esquecer tudo... Droga... eu ainda a amo. Quando ela se for novamente, será dolorosamente torturante”, ele pensou.
FLASHBACK OFF
♣ Watchtower || Refeitório ♣
Pouco menos de uma semana. Foi quando Bruce revelou à imprensa que eles estavam namorando. Como sempre, ele sabia jogar com a mídia. Quando a mesma pergunta foi lançada pela bilionésima vez por um repórter: “Se eles estavam ou não namorando”.
Ele deu um sorriso satisfeito para as câmeras, como um menino que ganhou um presente desejado, mas impossível, de Natal. A imprensa estava em polvorosa. “Espero que as coisas, pouco a pouco, voltem ao normal”, Diana disse a si mesma.
A pressão da mídia era intensa quando o romance era especulação. Agora, era pior. Diana evitava lidar com a mídia e deixava as declarações para Bruce. Fotos dos dois apareceram nas capas de jornais do mundo inteiro. Não era sempre que um membro da Liga da Justiça se envolvia com uma celebridade do Mundo do Homem.
Ela começou a entender o que Bruce quis dizer quando disse que ela precisaria aprender a ignorar uma parcela da imprensa que provavelmente diria coisas ruins sobre eles.
Diana se sentiria muito bem se pudesse quebrar alguns narizes de jornalistas maldosos. Seu dia estaria ganho, mas ela tinha que se manter quieta. Era o preço a pagar.
Ela olhou as manchetes... Certa classe de jornalistas parecia ter uma capacidade nata para tecer comentários e críticas venenosas. Eram alguns (a minoria) de fofoqueiros, blogueiros de sites sobre famosos e caçadores de notícias escandalosas.
Eles costumavam colocar títulos embaraçosos nas manchetes: "Os prós e contras de namorar uma mulher com super força”; “Segredos de sedução: Dicas da MM de como fisgar um homem”; “Técnicas de Afrodite para usar na hora do sexo: Nem Bruce Wayne conseguiu resistir”.
A notícia do seu envolvimento oficial com o milionário, definitivamente, nada heróico, também surpreendeu os membros da Liga da Justiça. Mas ninguém se atreveu a fazer comentários. Ela só percebeu o espanto pelos olhares dos colegas leaguers que não sabiam a identidade do Batman.
Batman também andava um pouco fora do radar, ocupado com Gotham e Diana agradeceu por isso. Não sabia se seria capaz de lidar de modo adequado com ele – Ela namorava Bruce e não o Morcego.
Superman foi o primeiro a cumprimentá-la. Ele a puxou para um abraço apertado e deu um beijo na sua bochecha, na frente de todos, no refeitório lotado. E ela ficou rubra de vergonha.
— Finalmente, as coisas estão dando certo, não é Di? – Ele seguiu seu caminho para fora do lugar, como se não a tivesse tratado como um bebezinho. Ela olhou pra ele juntando as sobrancelhas, mas seu amigo Kal apenas riu de sua birra real.
Já Wally foi muito mais enfático nos comentários.
— Opa, opa, opa, aonde é que você está indo, princesa? – Indagou, em alto e bom som, enquanto ela tentava passar despercebida pela porta do refeitório. Em um segundo o ruivo estava ao seu lado, rodeando seus ombros com um braço, num aperto suave. – Estou sabendo das novidades – Piscou, malicioso. – A quem nós devemos dar crédito por essa mudança?
— Bruce – Ela confessou, com um meio sorriso.
— Eu sabia que aquele Morcegão safado ia acabar caindo na real, uma hora ou outra. Desgraçado sortudo! – Flash sacudiu a cabeça, divertido, cumprimentando Vigilante, que passou por eles naquele momento, mas não ouviu o comentário.
— E aí, meu camaradinha? Tudo certinho? Vamos combinar um treino de tiro? Ainda estou esperando pelas aulas, hein! – Wally disse ao Cowboy.
— É só marcar, Flash. – Disse Vigilante, distraído, com um meio sorriso, tocando na aba do chapéu e baixando a cabeça para cumprimentar Diana. Um costume tipicamente “caipira” que o herói ostenta – Madame... É sempre um prazer vê-la por aqui, Mulher Maravilha!
Ela sorriu em resposta e esperou que ela e o ruivo estivessem a sós outra vez para continuar a conversa.
— Só tenha cuidado com seus comentários, Flash. – Pediu, suavemente. –Ninguém deve suspeitar que eu e o Batman estamos juntos. Para todos os efeitos, não é com ele que estou envolvida. É com Bruce Wayne.
— Tudo certo, Wondy. Pode deixar... Minha boca é um túmulo. – Garantiu Flash, erguendo o dedão num sinal positivo e Diana riu. – Agora, eu vou nessa. Fogo está retornando de uma missão e nós combinamos de pegar um cineminha. Espero que você aproveite pra curtir a vida com seu namorado rico, princesa. – Piscou outra vez, divertido, desaparecendo como um borrão vermelho e uma lufada de ar.
Diana sorriu sozinha, sacudindo a cabeça. Todo mundo sabia que Wally era péssimo para guardar segredos. Mas em se tratando do Batman, o pavor que ele tinha do companheiro fundador o manteria de boca fechada.
A despeito de todas as discussões acaloradas, piadas desnecessárias, sarcasmos e alfinetadas em reuniões oficiais dos membros fundadores, já não podia imaginar sua via sem seus amigos: J'onn, Shayera, John, Wally, Bruce e Clark. Eles eram, junto com Alfred e Tim, como uma extensão da sua família. Da família que ela perdera após o exílio.
Ela agradeceu silenciosamente aos deuses a bênção por ter tantas pessoas incríveis à sua volta, por ser digna de sua amizade. Nem todos possuíam a mesma sorte.
Ela suspirou e andou em direção ao seu quarto na Torre. Bruce queria que ela ficasse na mansão, mas Diana achou que até sua apresentação devida à Damian, o mais adequado seria ficar na Sentinela.
Ela e Bruce desenvolveram uma rotina saudável desde que assumiram o namoro publicamente. Eles evitavam sair em público para não gerar falatório desnecessário, mas sua reclusão total só servia para alimentar comentários picantes da imprensa, como: “suposta gravidez”, “paixão arrebatadora”, “não saem da cama” ou “estão copulando como coelhos”.
“Se eles soubessem...”, ela sorriu. A verdade é que a vida de herói quase não lhes deixava tempo para si mesmos. Mas eles estavam felizes. E isso era tudo que importava!
♣ Mansão Wayne || Batcaverna ♣
Damian olhou para o jovem à sua frente. Ele estava ficando frustrado. Estava morando com seu pai há duas semanas e, além de não ter a oportunidade de ter uma conversa com ele – à sós – ainda amargava o fato de que o Batman não o levara, nem permitia, que ele o acompanhasse em patrulha – preterindo seu herdeiro legítimo em favor do bastardo que ele acolhera: Tim Drake.
Ele estava treinando com Dick no dojô da caverna. Para ele, Grayson era um idiota, mas não era tão insuportável como Tim. “Além disso, pelo menos Grayson serve para dar-me algum divertimento numa luta. Já que ele é um lutador razoável”, o menino pensou.
Dick estava sorrindo para Damian e o menino revirou os olhos. O mais velho observou o mais jovem Wayne de longe e refletiu sobre o que o perturbava. Toda vez que ele olhava para a única criança legítima de Bruce, havia um quê de preocupação crescente nele.
Sua educação pelas mãos de sua mãe e seu avô, sua propensão para a violência, agindo como um adulto quando ele era só um garoto, tudo era motivo para empatia de Dick por ele, especialmente porque Bruce não gostava do comportamento do menino com Alfred e Tim e não estava lidando bem com a presença dele na casa – sendo indiferente e pouco sensível para situação. “Uma especialidade que Bruce domina e quem o conhece bem sabe disso. Eu sou testemunha”, Dick mentalizou.
Damian o lembrava um pouco Jason. Isso o fez pensar que Damian poderia cair (ainda mais) no caminho errado se ele não fosse devidamente orientado. O filho mais velho de Bruce desejou que ele pudesse ter estado lá para Jason quando seu irmão precisara. Mas ele não estava e agora, poderia se redimir ajudando o pequeno morcego.
— Ei, garoto. Você está com fome? Aposto que Al tem coisas deliciosas lá em cima! – Dick falou. – Vamos lá?
— Estou bem.
— Você devia comer!
— Cale a boca, Grayson. Você não pode me dar ordens!
— Carinha, eu sei o que você está sentindo, acredite. Eu já fiquei ansioso pra sair com o velho, mas tive que esperar muito. Ele vai te levar quando você estiver pronto.
— Eu já estou pronto. Eu deveria estar lá fora com o pai. Não aquele bastardo idiota. Ele é magro demais e não tem habilidades de combate eficazes. Ele não é nem como você.
— Uau... isso foi um elogio? – Dick riu e Damian olhou pra ele como se ele fosse um tolo – O Tim é bom na luta, mas é um detetive incrível, muito melhor que eu. Ele compensa assim... ele é muito esperto!
— Eu não me importo com o Drake. Ele é um peso morto. O pai deve levá-lo com ele por piedade.
— Eu acho que você precisa de um pedaço da torta de morango do Alfie, pra ficar menos azedo.
— Pare de falar, Grayson. Você parece um adolescente estúpido. Você é um homem – o menino fez uma pausa antes de perguntar – Por que o pai não jantou conosco hoje?
— Negócios... da Liga – Dick parecia desconversar.
— Negócios da Liga? Ele tem negócios da liga quase todas as noites, há duas semanas? Duvido... Explique agora, Grayson – Damian cruzou os braços e continuou pressionando Dick sobre o assunto, franzindo o cenho.
— Olha garoto, o seu pai... Um homem precisa de um tempo pra ele.
— Ele é o Batman!
— Até o Batman precisa, garoto. Vai por mim!
— Isso é patético, Grayson. Pare de me distrair e responda minha pergunta agora. Eu exijo!
Dick cruzou os braços e contemplou se devia ou não dizer a verdade a ele. Ele era uma criança (mesmo que ele não gostasse do título), e tinha esperanças de ver os pais juntos.
Se ele soubesse de todas as circunstâncias da vida complicada de Bruce e das tragédias pessoais que seu pai vivera, ele teria a mesma reação fã-boy de Dick.
Dick não podia acreditar, mas ele viu os sinais: Bruce estava apaixonado. Mas diferente de antes, ele parecia mais leve, com uma atitude otimista sobre esta relação, como ele nunca vira. Ele estava feliz por Bruce estar apaixonado, mas explicar isso pra Damian poderia confundir o garoto.
Colocando um braço sobre os ombros de Damian, Dick alegremente disse: – Acabou o treino. Vamos ver TV. Que tal ‘o demolidor’?
Damian franziu o cenho quando foi puxado para mansão, para sala de TV, e sentou-se no sofá. O menino murmurou algo em árabe quando Dick deu uma cotovelada no irmão mais novo para apreciar a série. Ele estava tentando não assistir, mas estava ficando interessado. Na Liga dos Assassinos não se assistia TV. Nightwing sorriu vendo seu irmão mais novo apreciar o programa. Não importa o quanto ele resistisse, seu irmão ainda era um garoto.
(...)
Depois do fim da primeira temporada, o menino bradou: – Grayson, diga de uma vez!
Richard exalou: – Bem, Bruce não tem muito tempo livre, mas quando sobre um tempinho, ele tem saído com alguém.
— Eu sabia... Meu pai sai com as vagabundas para exibir-se às câmeras. Isso é vergonhoso... Mas minha mãe me falou, mas é só um ato!
— Na verdade... É... eu acho que ele realmente gosta dessa mulher, Damian. Seu pai está feliz como eu não vejo há anos. Acho que nunca o vi assim antes. Ele não é um cara sorridente e tal... Ele continua com aquela cara feia, mas quem o conhece pode ver por baixo... Ele não parece mais ter uma vida miserável e triste. Ele está feliz do jeito dele... Ele não está esperando a hora em que as coisas dão errado, entende?
Damien franziu o cenho. Ele teria que lidar com uma mulher que poderia se envolver com seu pai em um sentido romântico... de verdade? Ela iria tomar o lugar de sua mãe? Ela era adequada? Ou era uma dessas mulheres que sua mãe havia lhe contado? Era só mais uma prostituta interesseira? Ela sabia que Bruce Wayne era Batman?
— Você já fez uma verificação de antecedentes criminais dessa mulher? O pai fez? Ele é um tolo quando se trata de mulheres. A mãe me contou. Disse-me que ele poderia estar com a ladra. Mas que eu não me preocupasse. A mãe sabia que era temporário.
Dick ficou surpreso com essa pergunta: – Não há necessidade desta vez, Damian!
Damian suspirou ante a ingenuidade de seu irmão. Como Dick e o Batman podem ser tão ingênuos?
— O que você sabe desta mulher? Qual é o nome dela? Eu vou investigar.
— Opa... é... eu... não... sei – Dick não conseguia mentir. Ele se afastou de Damien com um sorriso torto. Parte dele queria expor seu entusiasmo para seu irmão, em modo fã-boy delirante, falando do quão sortudo Bruce era, mas Damian iria odiá-lo.
— Por que você não me diz quem é ela? É... É... a mãe? É por isso que você mão me diz? – Os olhos do menino brilharam, mas Dick não sabia se era dor ou amor.
Dick olhou com os olhos arregalados para Damian, que não esperava essa pergunta. Sua reação, no entanto, enviou a mensagem errada a Damian. O menino correu para procurar o pai. Ele achava que ele estava com Talia.
— Damian, espere!
— Se a mãe está com o pai, eu tenho que ir. Eu tenho que salvá-lo. Eu ainda não convenci o pai. Eu preciso de tempo... Eu não sei o que o avô mandou a mãe fazer com ele.
— Não é Talia, Damian, calma... É a Wondy – Dick ficou mudo depois disso.
— Wondy? Quem é Wondy?
— Mulher Maravilha!
Damian não acreditou no que ele estava dizendo no início. Ele olhou para o homem em descrença no início até que ele viu como Richard estava sério. Confuso, sentou-se no sofá tentando absorver a informação que tinha recolhido. “Ela é uma meta. O Pai não confia metas”, ele estava muito hesitante em estar em um grupo com nada além de metas e alienígenas, e ainda assim, ele estava se tornando íntimo com um. Isso não fazia sentido.
— Eu não entendo... O que ele viu nessa mulher? Ela é uma meta e aposto que ela não é tão bonita quanto minha mãe. Ela não está à altura do pai.
Dick franziu o cenho diante da ignorância de seu irmão.
— Eu ia me casar com uma meta, Damian. A gente se apaixona por pessoas. Não importa se elas são metas ou não... E a Mulher Maravilha e o Superman são os melhores amigos do seu pai.
— O pai só os mantém perto porque são uma ameaça e ele precisa vigiá-los.
— Sério, Damian, isso é muito paranóico. Não pegue isso do seu pai, ok?!
— Paranóico? Eles devem ser monitorados. É por isso que o pai está na Liga. Ele não têm amigos lá. Ele não gosta dessa... dessa meta.
Dick se aproximou e se sentou no sofá.
— Olha, Bruce teve alguns... problemas com metas e alienígenas no passado, mas eu gosto de pensar que isso vem sendo suavizando ao longo do tempo desde que ele entrou na Liga. Há pessoas ali com quem ele se importa de verdade, garoto. Pessoas por quem ele daria a vida e que ele sabe, dariam a vida por ele também. E bom... ele gosta da princesa amazona.
— princesa? Amazona?
— Mulher Maravilha... Ela é filha da rainha das amazonas. De qualquer forma, namorar Diana tem feito bem pro Bruce, Damian. Você não o viu antes... Acredite. Ela faz bem pra ele.
— Diana? – Ele lembrou dela – Você a conheceu? – Damian olhou para Dick com ceticismo.
— Sim... Ela é o tipo da garota que você... Nossa... Ela é tão bonita e legal. E ela é forte, mas é delicada. Ela sorri pra você e você quer que ela sorria o tempo todo, sabe? Porque o sorriso dela faz você se sentir bem – Ele riu, coçando a nuca, meio sem jeito, parecendo um garoto descrevendo um ídolo – Além disso, você precisa vê-la de perto. Ela é maravilhosa... ele é linda... Ela é a Mulher Maravilha, garoto! Quem não ama a Mulher maravilha? Ela é a maior ‘Badass’ de todos os tempos! – Dick assobiou ao pensar, esquecendo seu irmão na sala.
A única criança legítima do Batman estava enojada com a incompetência de seu irmão e a ingenuidade de seu pai.
— Bem, até que as intenções dessa mulher sejam claras, eu me recuso a baixar a guarda, e você também não deveria, Grayson. Muito menos o pai – “Ela quase me enganou”, ele disse a última frase baixinho, lembrando do encontro na biblioteca com Diana.
Richard franziu a testa ao ouvir isso enquanto segurava a mão no ombro do irmão.
— Damian, você realmente precisa dar uma chance a ela. Seu pai ama Diana. E vocês dois têm mais em comum do que você pensa. Só porque eles estão juntos não significa que ele vai esquecer você ou te amar menos.
— Ele não me ama. Nem ama mais minha mãe e a culpa é da prostituta amazona.
— Não repita isso, Damian. NUNCA. Se o Bruce te ouvir, ele vai ficar furioso.
Quando Richard fechou a porta, Damian deitou-se no sofá e refletiu nas suas palavras, mas no fundo de sua mente ele continuou a acreditar que aquela mulher era um problema e que quanto mais ela estivesse com seu pai, mais provável ele seria esquecido. Esta mulher faria seu pai desconectar todos os laços possíveis com sua mãe, incluindo ele.
Ele queria ficar com o pai, ele não queria ser descartado como lixo (ao contrário de algumas outras pessoas na família que ele acreditava que mereciam, como Tim Drake, “aquele inútil”). Foi uma das poucas vezes em sua vida que ele estava com medo. A mudança estava chegando, e ele não estava pronto para isso.
FLASHBACK ON
♣ Mediterrâneo || Bacia do Levante || Ilha de Chipre ♣
(Um dos muitos esconderijos de Ra’s – Três anos atrás)
O menino de 9 anos assistia os vídeos do Batman repetidamente. Foram gravados contra inúmeros inimigos – tanto da Liga, quanto sua lista particular de vilões em Gotham. As imagens mostravam diferentes locais e condições atmosféricas, além dos mais variados recursos que ele dispunha.
As incontáveis horas de observação o levaram a memorizar todo tipo de golpes e reações que o Morcego dispunha. As sutis mudanças de equilíbrio e a postura de apoio que acompanhavam cada rotina de ataque e defesa.
— Ibn, você vê? Parece impecável, não? – Lady Shiva percebeu o semblante orgulhoso do menino e prosseguiu – Concentre-se e me diga, onde está a falha?
— Eu não vejo nenhuma – o menino respondeu, após quase 10 minutos tentando achar um deslize mínimo do Batman, sem sucesso.
— Olhe para o apoio no pé esquerdo e me diga!
Ele olhava para a tela e ainda sim, não percebeu nada.
"Bun Dan” (idiota), ela proferiu, esbofeteando seu rosto com força. Mais uma resposta errada e ele estaria gemendo de dor. O punho de Shiva era capaz de quebrar concreto. Doía como uma queimadura, mas ele tinha aprendido há muito tempo a sofrer em silêncio.
— Seu pé esquerdo – Shiva o orientou em um tom quase entediado – O movimento vai do calcanhar para o dedo do pé antes do chute.
A imagem repetida mil vezes o levou finalmente a reconhecer aquela mudança sutil de equilíbrio. Se Ibn visse tal movimento, poderia prever que ele iria golpeá-lo com um chute com a perna direita.
A mudança era minúscula, reconhecível por talvez uma dúzia de pessoas no mundo. E agora, por ele, seu filho.
FLASHBACK OFF
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