Broken Hearts

28 O passado volta a assombrar


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“Há uma luz nos olhos das mulheres que fala mais alto que as palavras”. (Arthur Conan Doyle)

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*** Mansão Wayne ***

As mãos de Bruce ainda tremiam quando ele empurrou a porta de acesso à mansão, através do relógio do avô e entrou na biblioteca. Ele não tinha sequer tirado o traje, ou atualizado os registros do computador, tomado um banho na ducha do vestiário da caverna, ou feito qualquer coisa que faz habitualmente quanto volta da patrulha.

Ele tinha acabado de voltar para casa, ofegante, confuso, cansado – mas não por fadiga e sim emocionalmente. Ele precisava ver Diana. Isso o faria sentir-se bem novamente. Ela era seu talismã. Vê-la ia trazê-lo de volta à realidade. Vê-la o faria sentir-se equilibrado e seguro. Porque, neste momento, Bruce Wayne estava completamente fora de si.

Ela estava dormindo quando ele entrou no quarto, a lâmpada do abajur mal iluminava o canto. Ele fechou a porta atrás dele, sentou-se na beira da cama. Ela se moveu, sentindo o movimento, dando-lhe um sorriso caloroso para recebê-lo.

— Como foi a patrulha? – O bocejo que acompanhou a pergunta mostrou-lhe que ela estava sonolenta.

Ele não respondera de imediato. Apenas estendeu a mão e acendeu a lâmpada do outro abajur, que estava no criado mudo ‘do seu lado da cama’ – como todo casal, cada um tinha seu lado preferido. Ela sentou-se, piscando rapidamente, tentando ajustar a visão à luz.

— Bruce?! – Ela disse seu nome quando viu que ele ainda estava de uniforme, mas sem o capuz. Não era um questionamento direto. Era apenas uma forma de mostrar-se presente para ele, dando-lhe o tempo necessário para falar.

Ele amava isso nela. Diana era uma guerreira. Criada entre guerreiras. Ela não fora criada em meio à futilidades, fofocas, bobagens. Então, ele estava grato que ela não tinha um comportamento bem feminino de enchê-lo com perguntas, exigir respostas, e coisas do tipo. Como disse o Lanterna Verde, apesar dela ser uma das poucas pessoas capazes de manter uma boa conversa com ele, o silêncio entre os dois não era desconfortável de todo.

A morena engatinhou até ele. Sentou-se, apoiando as costas na cabeceira da cama e depois trouxe, suavemente, a cabeça do homem para seu colo. Ainda em silêncio, ela iniciou o terno ritual de carinho para com o seu companheiro e amante, dedilhando caminhos por entre seus cabelos negros. O cafuné o permitiu um pouco de relaxamento, e ele suspirou, tomando fôlego para falar.

— Eles vão soltá-lo, princesa – A voz sempre poderosa de Bruce estava falhando. Um indício mais que claro da gravidade da situação – Eles vão deixá-lo sair livremente, como se fosse um cidadão comum, um homem de bem.

— Quem vai ser solto, Bruce? Eles quem?

— Chill, Diana. Eles vão deixar que Joe Chill, o assassino dos meus pais, sair da prisão. – Diana sentiu o estremecimento imediato do corpo do homem em seu colo, retirando-se de seu afago, para ficar de pé, em frente à varanda, olhando para o nada.

— Mas como? Ele tem duas condenações perpétuas por assassinato, Bruce. Ele não pode sequer solicitar condicional. A justiça não vai permitir isso.

— Não, Diana. A justiça já permitiu. Gordon me informou sobre a resolução da corte. – Os punhos se contraiam de ódio – O novo promotor, um tal de Peter não sei de quê, assumiu a promotoria e ele tem ligações importantes com o prefeito, políticos em Washington e a corte de juízes de Gotham. Ele quer desmontar um cartel formado pela máfia de Gotham e Chill será seu informante. Testemunha chave para colocar muitos na prisão. E o acordo garante a liberdade condicional de Chill.

— Por Zeus, Bruce. Isso é absolutamente condenável. Esse tipo de negociação não deveria ser permitida. Não com esse tipo de criminoso.

— Ele vai viver tranquilamente como um cidadão de Gotham, enquanto meus pais estão mortos, Diana. Enterrados... impedidos de ter uma vida plena por causa desse lixo.

Diana sabia que argumentar não iria adiantar. Este era um momento dele, com ele mesmo. Ela só poderia dar o seu apoio e mostrar-se presente, sempre que ele precisasse. O problema é que Bruce não seguia os padrões normais de comportamento em situações atribuladas.

Ele ficou cada vez mais fechado em si mesmo... Ainda mais que o habitual.

*** Sentinela / Refeitório / três dias depois ***

Shayera esticou o braço para roubar uma colherada significativa do pudim sobre a bandeja de inox à sua frente. Ela, Diana e Wally partilhavam uma adoração por sobremesas, chocolates e doces em geral, mas o motivo do furto estava longe de ser pela compulsão. Ela queria chamar a atenção da mulher imóvel à sua frente.

OK. Shayera sabia que a relação com Diana sofreu abalos – para não dizer que estava em frangalhos – após a invasão thanagariana. Foi difícil para ela perdoar-se – se é que ela o fez completamente – e para a Liga, como um todo, ela ainda era vista com desconfiança, mesmo após sua reintegração. À exceção de Wally, J’onn e Clark, que de prontidão a perdoaram e concederam-lhe uma chance, sem reservas, Batman e Mulher Maravilha não foram nem amigáveis, nem compreensíveis.

Mas elas haviam chegado de uma missão juntas. Algo que não fora programado, mas que o destino se encarregou de realizar para reatar os laços de amizade de outrora. Shyera fora fundamental para o sucesso da missão de Diana em Themyscira.

Elas passaram praticamente um dia inteiro na Ilha Paraíso após a batalha, à pedido da mãe de Diana, a Rainha Hipólita, que insistira em recompensar as heroínas com presentes, louvores entoados sobre seus feitos de bravura, além de um banquete.

Foi o suficiente para ambas trabalharem suas diferenças, conversarem amigavelmente e restabelecerem o vínculo de outrora.

Por isso, agora, de volta à torre da Liga, vendo Diana silenciosa, Shay resolveu que era hora de empurrar alguns botões para tirar a amazona da inércia.

— Problemas com o príncipe, princesa? – A ruiva manteve o tom provocativo para obrigá-la a reagir e não para ofender. Diana sempre fora normalmente alegre. Uma figura naturalmente radiante. Era parte de sua personalidade iluminada, sorridente. – Essa “coisa” entre você e o Batman está te afetando. Normalmente ele é que é o Senhor “eu não vou perder meu tempo falando com vocês”.

— Desculpe... o quê? – Diana perguntou e Shayera repetiu. – Como você sabe... sobre mim e o Bruce? – Eles não tinham tornado as coisas oficiais para Liga, embora acreditassem que J’onn sabia sobre o relacionamento e Clark desconfiava, já que Diana disse a ele que passava seu tempo livre na mansão.

— Eu era uma espécie de detetive em Thanagar, Diana. Foi fácil juntar as peças – A Mulher Gavião tinha um leve tom de vaidade na voz – Batman tem passado mais tempo aqui do que costumava (nós tínhamos que o obrigar a vir às reuniões antes de você integrar a Liga). Você fica mais feliz em torno dele. Vocês dois não flertam mais um com o outro (para não correrem o risco de alguém perceber que estão juntos).

Diana sorriu, timidamente, colocando uma mecha do cabelo por trás da orelha.

— Além disso, nos últimos três meses, Bruce Wayne parece um menino casto – Shayera riu para carranca recém-formada de Diana.

— Para seu governo, ele continua indo a esses eventos sociais com essas mulheres que costumam acompanhá-lo. – Ela bufou, sem esconder um tanto de ciúme mais infantil que possessivo. Afinal, ela entendia os motivos dele e os aceitava de bom grado se fosse o preço a pagar para estar com ele.

— Querida, eu conheço como ninguém a porcaria da sensação de ver seu homem nos braços de outra mulher, mas acredite – comparado ao show que ele costumava dar com essas mulheres a tira colo – ele tem sido um santo. Nada de beijos roubados dessas modelos ou comportamentos lascivos. Ele ama você, você sabe!

— Tem razão – Diana sorriu para amiga – Mas não é isso que me preocupa. – ela fez uma pausa, ponderando se era correto revelar suas preocupações, tendo em vista que revelavam particularidades de outra pessoa – O Batman é um guerreiro formidável e inabalável para toda Liga, mas eu tenho visto além do capuz. As vezes, ele está na borda da sanidade, Shy. Eu tenho medo que ele faça algo que ele jurou jamais fazer.

Os olhos de Shayera se arregalaram. Ela entendia. Ela já esteve neste precipício milhares de vezes. A chance de pular é mais forte que a de ficar e dar meia volta.

*** Wayne enterprises / Dia seguinte ***

A carranca e o mau-humor costumeiros de Bruce, dados os últimos acontecimentos, elevaram-se à enésima potência – em um nível insuportável para todos os habitantes da mansão, que não ousavam chegar perto ou falar o que quer que fosse, à exceção de Diana e Alfred (em quem ele descarregara a raiva algumas vezes, através de grosserias ou silêncios e olhares mortais).

Na empresa, ele tentou manter o mesmo padrão frívolo do playboy desinteressado, mas sem o sorriso sedutor e os comentários indesejados sobre a beleza das mulheres e seus atributos. Ele estava mais silencioso que o habitual e todos que sabiam de sua história de vida entendiam o motivo.

Diana estava vestida como civil, no Hall de entrada da Wayne enterprises e não queria chamar a atenção. Então, nem pediu pra falar com ele. Ficou lá, apenas esperando a hora certa. Depois de ver as notícias na TV, toda imprensa fez a mesma coisa. E haviam milhões de repórteres, câmeras, e tudo mais na entrada da empresa, esperando por um comentário do homem mais rico da América sobre a soltura do assassino de seus pais.

— Senhor Wayne, o senhor vai matá-lo com as próprias mãos, como o senhor declarou na época em que ele pediu condicional, há dez anos? – um repórter da CBS perguntou.

Ele não deu atenção. Mas a proliferação de perguntas impertinentes como estas se fizeram ouvir em larga escala.

Diana ficou esperando ter a oportunidade de mostrar-se para ele. Apenas isso. Para que ele soubesse que tinha eu apoio. Ela sabia que tentar argumentar com a lógica neste momento não ia ser de grande ajuda. Bruce estava longe de se dar ao luxo de ouvir ela ou Alfred ultimamente.

Ela caminhou até ele, obrigando-o a parar. Ele olhou-a nos olhos e viu a compaixão tão natural que as safiras oculares dela exibem. Eles estavam juntos, em comum acordo, mas sem que o mundo soubesse ou até a Liga. Embora alguns, como Shayera, J’onn e John já desconfiassem.

E agora, Diana estava com medo de perder o coração que ela lutou para alcançar porque a justiça estava libertando Joe Chill.

Ela saiu furtivamente até a garagem da empresa e ele acompanhou com o olhar. Lá, no subsolo, já não haviam repórteres e ela poderia falar com ele livremente.

— Bruce, por favor. Eu estou aqui por você. Eu não quero te perder.

— Ele os matou, princesa – Bruce disse, em um sussurro, desolado.

— Sim, querido. Eu sei – Ela pôs a mão em seu rosto. – Mas deixe a justiça lidar com isso, Bruce. Por favor. – Ela viu os lábios dele formarem uma carranca.

Ela sabia como ele se sentia. Ela entendia como ninguém a necessidade da revanche em nome de seus pais. Se alguém matasse sua mãe, ela o trucidaria sem piedade, empalando o assassino. Ela fora criada para guerra. Mas ela também era o símbolo da paz.

— O promotor pediu que ele fosse colocado sob custódia, Bruce. Em algum lugar secreto, sob proteção. Ele precisa ser mantido protegido para testemunhar contra mafiosos. Mafiosos que mataram os pais do Dick. Pense nele, Bruce. Faça isso por ele. Por seu filho.

Diana observou-o. Ela o conhecia bem agora. Ela viu o interior de seus olhos lacrimejando, em uma mistura de fúria e dor. Desolação... Dentro dele, aquele garotinho de oito anos queria ferir o bandido que levou seus pais.

Ela tocou inclinou-se para que tocassem as testas, em um momento de cumplicidade e afeto. "Bruce, por favor ... Não faça isso. Não busque vingança”, foi mais que um pedido, foi uma oração.

Ele fechou os olhos e soltou um suspiro. Diana pode senti-lo relaxar brevemente. Ela podia ouvir sua respiração lenta e ele olhou pra ela com os olhos carinhosos, um tanto equilibrado mentalmente.

— Eu prometo não fazer nada, princesa – Ele respondeu – “por enquanto”, foi sua resposta mental.

Era pelo menos um começo e Diana entrou no Bugatti Chiron de dois lugares, que Bruce fez questão de dirigir hoje. Ele precisava de potência e velocidade e quer a se livrar da tradicional condução de Alfred porque não queria amolações e conselhos.

*** Mansão Wayne / Sala de jantar ***

Bruce olha para o prato, sem tocar na comida, ostentando a tradicional carranca. Tim e Diana se entreolham, tentando dizer a si mesmos que tudo ficaria bem.

A TV está ligada no canal de notícias, que Bruce gosta de assistir para manter-se informado sobre crimes e noticiários políticos. Quando a repórter da Gotham TV anunciou a tragédia, um sorriso formou-se no rosto de bilionário playboy. Ao passos que os rostos de Diana e Tim se horrorizaram e a bandeja com o lombo caiu das mãos de Alfred.

“Joe Chill, o assassino do Casal Wayne, foi brutalmente assassinado”