Broken Hearts
44 O confronto - Parte II (Escolhas)

“Dizem que a vida é feita de escolhas, eu prefiro dizer que é feita de consequências”. (Ângelo dos Santos) ◄
♣ Gotham City || Docas ♣
Batman havia solicitado o teletransporte para Torre de Vigilância alguns minutos depois de deixar as Docas. Antes disso, dentro do Batmóvel, Bruce fez contato mental com J’onn, a fim de obter informações sobre o estado de saúde de Diana.
Sua mente logo reagiu com a frieza racional de sempre, alegando a estupidez de perder tempo pedindo informações, ao invés de se transportar imediatamente à Sentinela.
Sem capuz, dentro do carro, Bruce (coração) gritou para sua verão Batman (razão) calar a boca. A tentativa do Morcego de disfarçar sua aflição para ir imediatamente à Torre usando lógica era tão ridícula quanto perder tempo fazendo perguntas a J’onn.
Bruce não era estúpido. Ele sabia que estava lutando contra o tempo, mas ele não podia ir até lá antes de ter certeza que Diana estava viva. E só de pensar na hipótese dela não estar, ficou nauseado. Ele precisava saber se não era tarde demais, se havia alguma chance de salvá-la.
Do contrário, ele não iria até lá – provavelmente, nunca mais. Ele não poderia... Ele não podia perder mais ninguém sem enlouquecer!
♣ Watchtower || Órbita da Terra ♣
O homem que chegou à Torre já não era Bruce Wayne. Este, provavelmente fora empurrado para longe, para não atrapalhar o Morcego. Seus sentimentos em relação à Diana sempre foram fortes, a ponto de interferir algumas vezes no comportamento do Batman com ela. O relacionamento deles, como Batman previa, só acrescentou gasolina às chamas incontroláveis que ardiam dentro dele – Manter total controle sobre si mesmo, sem desviar-se do foco, da Missão, exigia um esforço hercúleo.
Por causa de Diana, Batman desperdiçava muita energia para não sorrir de volta sempre que ela dirigia-lhe aquele sorriso estonteante – que mesmo antes de se apaixonar por ela, ele já havia percebido seu poder de tornar as reuniões da Liga menos insuportáveis.
O mesmo esforço para não correr até ela durante as batalhas, protegê-la, evitar que alguém pudesse machucá-la. Ele odiava vê-la na enfermaria. Odiava ter que admitir que desde que ela chegou, sua participação na equipe passou a ser efetiva demais para alguém que se declarava um membro parcial.
Já era difícil fazer com que o símbolo do Cavaleiro das Trevas mantivesse sua aura sombria quando a relação entre eles tão somente de amizade e companheirismo, agora, a intimidade com ela ampliara todas as sensações que ele lutou bravamente para esconder.
A chama dos sentimentos de Bruce por ela, que ele tentou empurrar para baixo do tapete, eram intensas, mesmo quando estar com ela era apenas um desejo utópico. Depois de experimentar o impossível, de estar com ela, de ser amado por ela, o que era chama, desde então, tornou-se um incêndio, se alastrando dia após dia, ardendo de desejo dentro dele, queimando de necessidade de estar com ela.
(...)
As comunicações telepáticas com o Batman nunca foram um problema para J’onn. Na verdade, desde que ele descobriu que J’onn tinha o poder de ler mentes, ele tomou medidas para impedir que o marciano possa sondar seus pensamentos. Os contatos mentais entre eles só aconteciam quando a iniciativa partia do Morcego.
Desta vez, as portas de acesso aos pensamentos e emoções dele estavam escancaradas e J’onn quase sufocou quando sentiu que essas sensações e esmagavam de dentro pra fora. Era incapacitante e ele sentiu a onda de tristeza o invadir, ao mesmo tempo que uma sensação ainda maior de respeito e admiração dirigido ao Batman.
“Quão admirável é um homem capaz de carregar, todos os dias, essa dor que, de tão intensa, nos incapacita, nos imobiliza?”, ele disse a si mesmo.
O Caçador de Marte conhecia os motivos que resultaram no raríssimo momento em que o formidável Cavaleiro das Trevas vacilou em manter seus escudos erguidos e suas defesas protegidas. Batman não conseguia afastar as emoções desequilibradas de dor e angústia – nem se importava em fazer isso.
Tudo que realmente era importante para ele estava sobre a cama da enfermaria. A ironia cruel sempre presente em sua vida, o fez soltar um breve riso cheio de melancolia:
“Quando eu finalmente parei de me questionar se o que estamos fazendo é um erro, princesa... Quando eu parei de mentir pra mim mesmo, tentando achar algum motivo estúpido que eu pudesse usar como desculpa válida para terminar esse relacionamento... Quando eu digo às outras partes de mim que basta dizer-me que não a amam para que eu consiga te deixar e Nem o Batman, nem o playboy, dizem nada além de silêncio... Quando eu tenho certeza que eu amo você, Diana... A morte quer tirá-la de mim”, ele sussurrou, baixinho, inaudível, para a morena com a tez incrivelmente pálida.
Bruce estava segurando a mão de Diana. Apesar da aparência debilitada, a princesa Diana de Themyscira, ainda tinha o inexplicável dom de parecer a coisa mais bonita que um mortal teria o divino privilégio de pôr os olhos.
“Eu preciso ir agora, princesa. Mas eu prometo que estarei aqui quando você acordar. Não importa quanto tempo durar”, ele disse, beijando a têmpora dela com ternura.
Os passos firmes do Cavaleiro negro eram um sinal inquestionável de sua determinação. Ele foi para o laboratório, onde Elétron estava trabalhando para achar a cura.
♣ Watchtower || Laboratório ♣
Dr. Ray Palmer estava trabalhando com as amostras do sangue de Diana há horas. E cada vez que suas tentativas de analisar os padrões de comportamento da mutação viral falhavam, um sentimento crescente de frustração se instalava dentro dele, fazendo-o questionar-se sobre sua competência, se ele seria realmente o cientista mais habilitado para tarefa.
Mas, apesar da frustração, a única vez que ele disse isso em voz alta, uma absurdamente linda ruiva, de olhos verdes, com asas incríveis coladas às costas, o fez engasgar quando disse-lhe, em resposta:
— O Batman mandou trazer você. Se o Batman acha que você pode fazer essa droga de remédio, então você pode. Agora pare de ser um bebê chorão e volte ao trabalho. – Shayera soltou – Mais algum comentário?
— Não, madame.
— Ótimo!
Ray só notou que a Mulher Gavião havia deixado a sala quando se deu conta da entrada do Batman, mesmo assim, quando o Cavaleiro das Trevas estava a poucos passos de distância.
— Dr. Palmer, quero que seja realista e objetivo. – O tom frio e preciso do Batman deu-lhe calafrios — Você pode replicar o antídoto a partir de uma amostra mínima, do rescaldo do recipiente onde ele estava acondicionado?
— Bom, eu acho que se...
— Eu não quero uma aula de Bio-nanotecnologia, Ray. Diga SIM, ou Não?
— Sim... Mas...
— Mas o quê?
— Vamos trabalhar enquanto eu falo... Assim ganhamos tempo.
(...)
— Eu analisei o sangue da Mulher Maravilha. Bem, as análises me mostraram que Diana tem vetores de cura incrivelmente fortes, agindo com uma velocidade que eu nunca vi na vida, nem em meta-humanos. Qualquer doença ou veneno letal para o homem não seria um problema relevante, tendo em vista o quão extraordinárias são a regeneração celular e seus organismos de defesa (similar aos nossos anticorpos, porém muito mais especializados) – Ray sentenciou.
— O nosso problema não é o vírus. Eu acho que o organismo dela pode combatê-lo, mesmo que leve mais tempo que o normal. São os nanobts impedindo as defesas dela de funcionarem. – Ray disse – Eu vou trabalhar no antídoto, coletar uma amostra do frasco e isolar o vírus. E em seguida, vamos achar um modo de desabilitar os nanobots.
— Mas... Batman, há um porém. – Ele continuou.
— O quê?
— Eu preciso de outro hospedeiro para aplicar os testes. Mas se eu falhar, serão duas mortes, ao invés de uma!
— Não se preocupe. Eu tenho um voluntário.
— Quem?
— Eu! – O Morcego respondeu!
♣ Gotham City || Mansão Wayne || 2 meses depois ♣
Alfred acabou de colocar o terno de Bruce na cama e um par de sapatos pretos brilhava com o polimento recém-executado. O seu uniforme de mordomo pendurado em seu armário já pronto lhe daria alguns minutos para vestir suas roupas de forma adequada antes dos convidados chegarem.
Ele não gostava particularmente desse tipo de reunião, mas era um mal necessário para manter a imagem de Bruce entre a elite de Gotham. A Mansão Wayne foi palco para ocasionais jantares com socialites locais ou parceiros de negócios influentes que manteriam sua reputação intacta.
Se Bruce pudesse escolher, ele seria um eremita recluso traçando sua próxima estratégia para proteger sua cidade. No entanto, por alguma razão, eles continuaram incomodando Bruce para sediar as reuniões de sua casa. Ele cedia, mas limitava seus convidados a poucos. Alfred faria verificações de antecedentes em todos eles, reduzindo essa lista ainda mais. O mordomo fez questão de manter esta festa para negócios.
Alfred desceu as escadas e entrou na cozinha. Lá ele encontrou Bruce passeando pela área enquanto lia um bloco de dados, descalço e vestia roupas esportivas de treino (camiseta preta e calças de corrida). Ele mal reconheceu a presença de Alfred enquanto pegava um canapé e comia.
— Mestre Bruce, isto é para os convidados. Se o senhor estiver com fome, posso fazer algo para o senhor comer para que o senhor possa esperar o jantar.
— Não precisa, Alfred!
— Muito bem, senhor. Por que o senhor não vai tomar um banho? A festa começa em algumas horas.
— Preciso verificar umas coisas primeiro – Bruce continuou a andar em volta da cozinha e roubou outro canapé, com um tablet na mão.
Alfred franziu o cenho para ele e moveu a bandeja para o outro lado do balcão. Alfred se perguntou se ele deveria exilar o homem da cozinha para que ele pudesse fazer algo.
Ele sufocou sua própria irritação e suportou a presença de Bruce. Era raro que tivessem tempo pacífico juntos, mesmo que estivessem em silêncio. Como ele tinha feito ao longo dos anos, Alfred simplesmente tomou Bruce pelos ombros, guiou-o até um banquinho e o fez sentar. Ele colocou alguns canapés em um prato e colocou-os na frente dele. Bruce ainda não tinha levantado os olhos do tablet.
— O que você está lendo, que o deixou tão fascinado?
— Oh não é nada!
— Algum memorando para a próxima reunião da Liga da Justiça?
— Não. Já fiz isso ontem.
— Uma proposta para o próximo empreendimento da Wayne Enterprises?
— Na verdade, isso eu também já fiz. É outra coisa. – Bruce apoiou a cabeça no balcão, distraidamente comendo outro canapé. Alfred se aproximou e olhou por cima do ombro.
— Yumeji ni wa / ashi mo yasumezu / kayoedomo / utsutsu ni hitome / mishigoto wa arazu (A pronúncia de Alfred era quase perfeita. Bruce abruptamente desligou o aparelho).
— Seu próximo investidor é uma menina japonesa de olhos sonhadores, mestre Bruce?
— Por quê, Alfred?
— Eu conheço esse poema em particular, mestre Bruce: “Em meus sonhos / ao longo dos caminhos dos sonhos / sem descansar as pernas / Eu vou muitas vezes para você / no mundo real, um único vislumbre / é diferente".
— Eu acho que é uma maneira que você pode traduzi-lo, meu caro Alfred!
— O senhor pretende retomar a infiltração da Yakuza, mestre Bruce – Alfred brincou.
— Não, eu abandonei essa investigação, eles perderam o interesse em Gotham depois que eu cuidei da outra gangue Eles transferiram sua operação para Blüdhaven, mas Dick já está cuidando disso.
— Então por que você está lendo poemas de amor japoneses, senhor?
— Isto foi baixado recentemente na Torre de Vigilância, durante um dos turnos de monitoramento, não é um material de leitura aprovado para as operações da estação, por isso estou investigando sua fonte.
— Entendo. Fui eu quem o mandou para senhorita Diana, senhor. Não perca seu tempo procurando a fonte.
Alfred esperava que Diana compreendesse o que estava nas entrelinhas do poema e Bruce também. Ele não queria que Bruce se afastasse da amazona após os acontecimentos trágicos de dois meses atrás.
— Tudo bem, Alfred. Meu terno está pronto?
— Não, senhor. Eu pretendia que o senhor andasse pela casa nu.
— Não poderia, Alfred. Os convidados homens teriam inveja dos meus dotes e as mulheres voariam sobre mim – Bruce rebateu. – O que temos para o jantar?
— Sobras... Já que o senhor está comendo tudo que eu estou fazendo.
— Desculpe, Alfred. Está muito bom!! – E mais um canapé foi levado à boca.
— Então, que vinho o senhor recomendaria para esta noite? – Alfred perguntou.
A boca ainda cheia, os ombros caídos de Bruce e o gemido gutural transmitiam sua frustração. Ele não sabia por que o mordomo fazia aquela pergunta antes de cada festa. Ele não se importava. Bruce apontou para a despensa com um gesto impaciente.
Bruce deu um tapinha no ombro de Alfred, depois saiu correndo da cozinha. Vendo a bandeja vazia, o mordomo caminhou para a geladeira, tirou mais três formas com canapés e as colocou no forno para cozimento. Ele já estava preparado.
Alfred sentiu-se bem que Bruce estava levando a sério este jantar. Ele sabia que o vigilante estava tentando se distanciar da reputação de Playboy que ele cultivara ao longo dos anos. Bruce estava ficando mais velho e Alfred sabia onde o coração de Bruce residia.
Alfred suspirou, como se sentisse a esperança preenchendo-lhe. Esta era sua casa e sua família, ainda que agisse como servo, significava muito mais. Seu coração estava aqui.
Yumeji ni wa
ashi mo yasumezu
kayoedomo
utsutsu ni hitome
mishigoto wa arazu.
Alfred sussurrou o poema para si mesmo. Na superfície, era um relato melancólico de amantes tomados por um amor que só se realiza nos sonhos, que negam seus sentimentos na vida real.
Em meus sonhos
ao longo dos caminhos dos sonhos
sem descansar as pernas
eu vou muitas vezes para você
Alfred fechou os olhos e colocou a mão no peito, sobre o coração. Imaginou seu sonho. O que ele queria para si e sua família. Para todas as famílias que precisavam de esperança.
No mundo real, um único vislumbre
é diferente.
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