Broken Hearts

13 O Morcego e o Pinguim


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“A vida é infinitamente mais estranha que qualquer coisa que a mente humana possa inventar”. (Arthur Conan Doyle)

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*** Gotham City / Docas / Lange indústrias alimentícias ***

A cena do crime era inusitada. Estendido em meio às carnes penduradas na câmara de refrigeração, o corpo de um homem de bruços, na mesma posição dos corpos da mulher, na Joalheria e do banqueiro, em seu quarto.

O fato de estar congelado, no compartimento de refrigeração das carnes, no frigorífico da indústria, dificultava o trabalho da perícia em identificar a hora da morte.

Montoya deu a Batman as primeiras informações, antes que ele periciasse o corpo, colhesse as impressões ou avaliasse a cena do crime.

Suas primeiras avaliações indicavam que o corpo havia sido espancado, como nas outras vítimas. Também havia mutilações, desta vez, nas mãos, na barriga e na garganta. A posição do cadáver e os locais – bem como a similaridade dos golpes – indicava que era um ‘trabalho’ do mesmo assassino que havia descartado os corpos de Vanessa Zimerman e de Bob Forbes.

Colhido o material, mas impressões e feita a varredura do local – através da câmera embutida no capuz, o Oráculo faz uma captação das imagens e transfere imediatamente para o computador Central da Batcaverna – era hora de ir e se concentrar nas investigações.

*** BatCaverna / noite do crime ***

Todas as noites, há anos, desde que vestira o manto do Morcego, o Batman obedece uma rotina diária: ele volta de sua patrulha ao fim da madrugada e é recebido por seu fiel mordomo. Alfred, como todo bom inglês, não costuma falhar na precisão de seus hábitos. Ele está sempre a postos à espera de seu ‘mestre Bruce’.

Os hábitos do mordomo, que acorda cedo para cuidar da casa – bem como de tudo mais que envolve essa tarefa – e ainda da vida e da missão de seu patrão, tem uma dose diária de sono mínima, que até hoje Bruce nunca conseguira explicar como ele consegue sobreviver – além de ser tão eficiente em tudo que faz. No começo, Bruce sempre ordenara-lhe que não o esperasse, que se recolhesse cedo, que não havia necessidade de Alfred permanecer acordado até horas tão tardias, mas ele nunca obedecera e Bruce parou de replicá-lo sobre sua insubordinação.

À postos, esperando sua volta, o condecorado ex-agente da Scotland Yard, faz seu caminho até o batmóvel onde aguarda o Batman. O que talvez escape à Bruce é que, ao contrário de teimosia, a espera obstinada de Alfred se resume às preocupações de um pai para com seu filho. Ele aguarda a volta do Batman porque quer estar seguro de que ele voltou para casa, como nossos pais fazem conosco quando saímos à noite, onde estamos mais expostos aos perigos do mundo.

Ele espera para cuidar de suas feridas, servir seu jantar – embora frio e quase nunca apreciado – para certificar-se de que, mais um dia, seu filho substituto sobrevivera à crueldade de Gotham.

De pé, agradecendo silenciosamente o fato de que o traje está intacto – hoje ele não terá que remover balas ou costurar a carne do homem que sempre será ‘seu menino’ – ele oferece seus préstimos, informando que o jantar está servido sobre um mezanino, ao lado do computador Central.

Após a morte de Jason, o mordomo notara, com tristeza, o definhar das emoções de Bruce – que sempre negara-se a receber ajuda, especialmente em se tratando de conforto, por parte daqueles que o amam e se importam com ele. Ele viu seu menino cada vez mais frio, distante, cruel e descrente na vida e no amor. Observara, em silêncio, o acúmulo das feridas no coração de Bruce, após os romances amorosos frustrados.

Ele não havia perdido a esperança, mas é justo dizer que não tinha tanto ânimo quanto antes, ao ver Bruce cada vez mais recluso emocionalmente – dedicando-se apenas ao seu ato como playboy e sua missão como Batman. Contudo, há algum tempo, desde sua entrada na Liga, Alfred notara uma diferença que foi se tornando cada vez mais significativa.

À priori, era muito sutil. Ele apenas notava o envolvimento cada vez maior de Batman com a Liga – muito embora ele insistisse em afirmar que era um envolvimento temporário e puramente necessário – e depois, as pequenas mudanças em seu humor e a diminuição de seu distanciamento.

E logo descobriu o ‘motivo’ da mudança na figura de uma bela mulher morena, saída diretamente dos contos mitológicos sobre as lendárias guerreiras amazonas imortais. O que, desde sempre, provocara sorrisos no mordomo, já que finalmente, era a resposta cabível para felicidade de seu filho: uma princesa para um príncipe; uma guerreira para um guerreiro; uma mulher de coração bom e generoso, do “lado certo da Lei”, para um homem que combate o crime; uma mulher tão teimosa quanto ele, a ponto de não deixar que ele a afaste.

Mandando os sentimentos para longe, mantendo a aura indiferente, Alfred acompanha Batman até o computador. Ele observa, nas pequenas telas adjacentes, várias imagens da Torre de Vigilância, como a sala de monitoramento, refeitório e sala de reuniões. Uma em especial, chama a atenção do mordomo, após notar que os olhos de Bruce correm imediatamente para ela: na imagem, alguém dorme, serenamente. Um olhar mais atento mostra que é Diana e Bruce imediatamente relaxa, voltando às suas investigações.

Alfred se despede do pupilo com um sorriso no rosto que provavelmente Bruce não notara, já que o mordomo é perito em esconder as emoções, mesmo que de satisfação.

Batman volta-se para o computador, sentado em sua poltrona. Na tela central, várias imagens da cena do crime e a resposta do banco de dados após o envio das impressões digitais para identificação da vítima.

Nome: Jacob Lange

Ocupação: Empresário do ramo alimentício: Carnes e laticínios

Estado civil: Divorciado

Filiação: Filha única morta acidentalmente

Observações: Fora dos círculos sociais há dois anos, após a morte da menina.

— O que você tem pra mim, Bárbara? – Ele se dirige à imagem da bela ruiva que aparece no canto da tela.

— Olá pra você também, Bruce. Eu estou ótima. Obrigada por perguntar! – Ela brinca e ele não ri, quebrando completamente a tentativa de humor. – Bom, vamos lá: Jacob estava sumido há dois anos. Você deve ter visto o motivo: ele estava pesado demais para se mover. Não me admira que ele não aparecesse em público.

— Sim eu vi. Não é incomum que pessoas de luto manifestem distúrbios alimentares. Anorexia, bulimia, ou obesidade mórbida.

— Bom, a mulher o deixou meses após a morte da menina. Ela alegou diferenças irreconciliáveis na ação de divórcio. De acordo com o computador, ele devia ter mais de 200 kg e não podia teria muita dificuldade de ter chegado à docas sozinho.

— Alguém pode tê-lo matado em outro lugar e o movido para o frigorífico. – Batman pontuou – Eu notei o padrão de espancamento similar. Mas as mutilações, são em outras áreas, diferentes do banqueiro e da socialite. Há um tipo de assinatura nos crimes e eu ainda não desvendei.

— Bom, você me perguntou sobre a relação com Bruce – Oráculo completou – Não há uma ligação direta, mas indiretamente, sim. A empresa tem negócios com a fundação Wayne. Há anos a empresa dele tem contrato com a Fundação. É o menor preço oferecido no mercado, a qualidade é boa e muitas vezes ele até fez doações.

— E quanto aos negócios com o Pinguim?

— Bom, eu não achei nada demais. – Barbara disse – Ele parece ‘limpo’. A empresa fica na área do Oswald, ele paga a propina, não há sinal de superfaturamento, desvio de dinheiro, nada. Só a boa e velha prática de Gotham que obriga os empresários a “dançar conforme a música”. Você sabe que quem não paga, sofre as consequências.

— Sim, eu sei... mas ainda sim, eu não estou completamente satisfeito em tirar o Pinguim da lista de suspeitos. – Batman esboçou um breve sorriso sarcástico antes de continuar – Acho que nosso amigo Cobblepot ficará feliz com a minha visita.

*** Iceberg Lounge / Duas noites após o crime ***

A figura sombria salta por sobre o telhado da casa noturna. Ainda que o elemento não fosse furtivo o bastante para não emitir qualquer som audível e sua queda, a chuva seria capaz de encobrir qualquer barulho.

Esgueirando-se habilmente por tubos de ventilação, ele vai abrindo caminho rumo ao seu destino final: o escritório geral do prédio, comandado pelo homem que ele procura.

O Iceberg Lounge é um imóvel muito frequentado e conhecido em Gotham para quem busca entretenimento. É um ambiente luxuoso que congrega uma boate, um bar e um cassino. Tudo isso sob o comando de uma das figuras criminosas mais tradicionais da cidade: Oswald Chesterfield Cobblepot, apelidado de Pinguim, por causa de um peculiar defeito de locomoção, que limita o movimento completo das passadas, semelhante aos pinguins do Ártico.

A figura é hábil o bastante para não ser capturada ou surpreendida pelo sistema eletrônico de segurança da casa noturna, nem pelos seguranças do Pinguim. Ele entra com facilidade no escritório, esboçando nada além da expressão soturna em seu rosto, causando um arrepio bem escondido pelo homem que ocupa o centro da sala.

A presença repentina do Batman na entrada da sala de negócios de Coblepot causou estremecimento imediato dos capangas no interior. Os homens fizeram menção de pegar as armas, no coldre de apoio no interior do paletó, mas o batarang na mão do Morcego e o comando de “eu não faria nenhum movimento se fosse vocês”, foi o sinal de alerta de que deveriam permanecer imóveis, entregues ao sentimento de medo crescente que lhes dominara.

Seu chefe não parecia tão assustado quanto eles, mas era apenas impressão. O Morcego causava medo em quem quer que fosse – por mais experiência com ele que um criminoso tivesse. Especialmente agora, que suas patrulhas tinham ganhado um acréscimo significativo de violência como punição para com os criminosos.

Pinguim se limitou a forçar um sorriso, quebrando o silêncio: – Ora, ora! O que o traz aqui, Batman. Você deve saber que eu estou em um negócio limpo há um bom tempo?! – Ele olhou para o morcego, esperando a réplica. – Não o vejo a um bom tempo. Visitando velhos amigos?

— O que você sabe sobre o crime no Frigorífico Lange? – O Caped Crusader foi direto e preciso, como sempre.

— Nada, grande detetive. – Cobblepot respondeu – Por que eu iria destruir uma fonte de renda? Especialmente uma fonte que paga tão bem e sem maiores problemas? Eu não sou burro, meu caro Morcego, e você sabe muito bem disso!

— Eu acho bom você não estar mentindo pra mim, Cobblepot. Eu não costumo ser compassivo – O tom de ameaça fez o Pinguim engolir seco.

— Não me ameace, Morcego. – Oswald mostrou que não havia medo em sua voz. Ele não queria parecer fraco diante de seus homens.

— Basta não mentir, Pinguim. Eu vou descobrir se você estiver envolvido. Você sabe disso! – O Morcego de Gotham preparou-se para sair, com a capa farfalhando e a postura régia e intimidante.

Cobblepot esperou o Batman sair e fez uma ligação:

— Ele acabou de sair daqui! – A pessoa do outro lado da linha sorriu.

Notas finais
*Alfred Thaddeus Crane Pennyworth é o mordomo e tutor do bilionário Bruce Wayne. Surgiu no gibi Batman #16 (Maio de 1943). Alfred é chamado carinhosamente de “O Batman do Batman." Na maioria das estórias, sobretudo, nos primeiros anos, Alfred era retratado como um sujeito misterioso, avesso a muitas falas e sempre dedicado em ajudar Bruce Wayne em suas missões. Ao longo dos anos, descobriu-se que ele tinha um passado na Scotland Yard, a famosa polícia britânica, assim como uma carreira nos palcos, como ator. Ele também possui um passado como médico, o que é de grande valia quando precisa ajudar seu patrão a cuidar dos inúmeros ferimentos adquiridos em suas batalhas, sem chamar a atenção das outras pessoas para a identidade secreta de Bruce Wayne. Médico, agente de campo, ator, enfim, são atributos de Alfred Pennyworth que para os mais atentos remetem a um outro conhecido personagem, bastante importante na literatura de suspense e mistério. Ora, Batman sempre foi chamado de o maior detetive do mundo, numa alusão ao investigador inglês Sherlock Holmes, criado por Sir. Arthur Conan Doyle, portanto, não há como não fazer alusão à Alfred, seu companheiro de aventuras e confidente, ao doutor John Watson, o inseparável amigo de Holmes. Ambos representam em muitas histórias a parte sensata e racional de seus protagonistas. *O Pinguim (em inglês: Penguin) ou Oswald Chesterfield Cobblepot, é um adversário frequente do Batman. Criado pelo artista gráfico Bob Kane e pelo escritor Bill Finger, a sua primeira aparição na revista Detective Comics #58 (Dezembro de 1941). O Pinguim é um dos inimigos mais duradouros de Batman, pertencente ao coletivo de adversários que compõem a galeria de vilões do herói. O Pinguim é descrito como sendo baixo e corpulento, conhecido por ser um amante de aves e nos seus chapéus de chuva especializados com alta tecnologia. Ladrão e mafioso, refere-se a si próprio como "cavalheiro do crime"; O seu negócio de discotecas noturnas dão-lhe a cobertura necessária para as suas atividades criminosas, nas quais Batman usa por vezes para obter informações como fonte do mundo do crime.