Broken Hearts

14 O jogo do amor


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"Porque amor é justamente isso, é ficar inseguro, é ter aquele medo de perder a pessoa todo dia, é ter medo de se perder todo dia. É você se ver mergulhado, enredado, em algo que você não tem mais controle." (Fabrício Carpinejar)

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*** Gotham City / Mansão Wayne ***

No quarto de hóspedes da Mansão Wayne, deitada na confortável e imensa cama de macios lençóis egípcios, a princesa de Themyscira contemplava fixamente o dossel da cama. A porta aberta da varanda garantia acesso à luz inebriante da lua, que fazia seu caminho por entre o farfalhar das cortinas de seda semitransparentes. O reflexo da luz se projetava no teto, por entre seus dedos, por todo quarto, como diamantes, por causa do padrão cheio de arestas da cortina.

Graças à audição meta-alimentada, ela ouviu quando o relógio do avô, dois andares abaixo, tilintou duas vezes, anunciando o início das 2h da madrugada. Depois disso, tudo que ecoava pela casa era o som do ruído do vento a preenchê-la.

Ela desviou os olhos do teto para as cortinas, levantando-se, em direção à varanda, como se quisesse sentir o abraço do tempo e o toque suave do vento da noite. Seu pensamento correu, mais uma vez para ele, perguntando-se se Bruce já havia voltado da patrulha. Se estava, como ela, repassando na mente tudo que a noite lhes trouxera.

Ela ainda trazia o sabor dele em sua boca e lambeu os lábios, fechando nervosamente os olhos, que – afetando as lembranças e resgatando a memória – a fez repensar sua noite na mansão.

FLASHBACK ON

Diana deparou-se com a imensa caixa preta, com uma fita dourada a envolvê-la. O nível de sofisticação do embrulho só poderia indicar uma coisa: pertencia a uma butique refinada. A caixa fora deixada em cima de sua cama, em seu dormitório, juntamente com uma rosa vermelha, delicada e perfumada, além de um cartão, sem assinatura externa.

A mente dela correra imediatamente com as possibilidades, mas seu coração sabia de quem era o presente. Ela sabia... No fundo, não precisava realmente de qualquer constatação – Afinal, quem mais poderia dar-lhe algo tão extravagantemente caro e ainda conseguir colocar o presente em seu quarto (já que os presentes que ela ganhava de admiradores espalhados pelo mundo chegavam amontoados, em um dos javelins de carga, com o abastecimento e outros matérias enviados semanalmente ao Sentinela)?

Ela abriu o cartão com urgência, com medo de rasgá-lo em pedaços.

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Mansão Wayne

Sexta-feira

20h

Jantar beneficente oferecido pela Fundação Wayne

Traje à rigor: Gala completo

Obs.: Alfred deixou claro que não aceitaria o declínio do convite

Ass.: B.

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Ela abriu a caixa com a mesma urgência, mas ainda mais cuidado. A caixa era imensa o bastante para caber um vestido em uma dobra única, não mais, já que a peça era fina e delicada. Diana não estava familiarizada com valores do mundo do homem, mas ainda sim, não seria difícil perceber que se tratava de algo inacessível para o bolso de um pobre mortal da classe trabalhadora.

Diana sorriu para o bom gosto da peça, enquanto dançava com ela colada ao corpo, de frente ao espelho de corpo inteiro do guarda-roupa metálico. Apoiando-o delicadamente por cima do uniforme, segurando-o com uma das mãos sobre o busto e a outra, na parte da cintura, apenas para observar seu tamanho e caimento, sem experimentá-lo – o que, dada a perfeição de medidas, a fez admirar ainda mais a competência dedutiva de “seu amigo escuro”, que lhe comprara algo com medidas absolutamente adequadas.

Havia um brilho em seu olhar carregado de carinho. Era um misto de felicidade e frenesi difícil de explicar, de narrar ou definir. A experiência primeira de alguns sentimentos é tão rica e complexa, que talvez, nem o mais experiente dos poetas tenha conseguido descrevê-la sem perder algo no caminho das letras.

Ela foi dormir naquela noite abraçada ao seu vestido, sapatos finos sobre o lençol e a rosa sobre o travesseiro. Nada poderia ser mais significativo e emocionante. Seu coração jamais batera tão intensamente!

(...)

Diana imaginou que talvez todas as suas irmãs (ou quase todas) iriam condená-la neste momento, se pudessem sondar seu coração. Ela era uma guerreira treinada por séculos, incansavelmente, para ser a grande campeã dos deuses, uma representante digna de seu povo e de seus valores, incorruptível, forte e determinada.

Mas como ela poderia mentir para si mesma? Logo ela, a quem consideravam – corretamente – como a epítome da Verdade. A princesa de Themyscira atravessara o imenso hall de entrada da mansão com o coração acelerado, fruto do nervosismo adolescente de suas emoções.

Alfred a conduzia pelo caminho, acompanhando-a a passos régios – nem tão lentos, nem tão rápidos – de braços dados, como uma leve cortesia amigável para com ela – um tipo de iniciativa extremamente íntima para o mordomo inglês, que não é afeito à quebra de etiqueta ou protocolo. Mas ela merecia sua suavidade, já que ele percebera seu nervosismo.

Diana agradeceu aos deuses ser recebida por Alfred na entrada. O nervosismo crescente a fez perder um tanto de sua postura naturalmente elegante, deixando-a levemente tímida, como se não soubesse onde colocar as mãos ou como deixar a coluna reta sem parecer um boneco de cera do museu Madame Tussaud de Londres.

Ela usava o vestido azul Royal que Bruce lhe comprara. A peça, de caimento perfeito, não tinha alças, deixando o colo completamente à mostra. Contudo, todo o resto estava coberto, até o cumprimento dos pés. Não havia fendas ou outros cortes que exibissem mais pele. O vestido longo ajustava-se perfeitamente ao corpo, em formato sereia*, afinado-se ao redor da cintura, mantendo um ajuste ‘sêco’ em toda linha que ia dos quadris aos tornozelos, para se ‘abrir’ levemente ao chegar até eles – como o rabo das sereias, daí o nome da peça.

Antes que ela perguntasse por Bruce ou pelos convidados, Alfred educadamente lhe dissera que boa parte dos convidados do evento já estavam presentes, no salão principal, desfrutando da hospitalidade da família Wayne, enquanto esperavam que o jantar fosse servido. Disse-lhe ainda que ela poderia ficar na Biblioteca, à espera de Bruce.

Aceitando prontamente a oferta do mordomo, que parecia ler sua mente, antecipando-se aos seus pedidos, Diana sentiu-se à vontade quando Alfred fechou a porta do cômodo, deixando-a sozinha com seus pensamentos.

Ela observou o céu de Gotham especialmente estrelado esta noite e sorriu para si mesma, passando os dedos levemente sobre o topo da cadeira de couro marrom que formava um conjunto com os outros sofás de quatros e três lugares, também de couro clássico, dispostos pela imensa biblioteca.

A deusa de olhos azuis perdia-se na contemplação das constelações e mal se deu conta da entrada dos dois novos ocupantes do cômodo. Não que houvesse demora para percebê-los, mas levara segundos a mais para que ela se voltasse para ver quem entrou. Ela parecia surpresa ao olhar para eles, quando sua audição deveria ter previsto sua entrada há muito mais tempo – mesmo porque eles não estavam sendo nada silenciosos.

Ela sorriu imediatamente quando se voltara para eles. O mais alto, aparentemente mais velho, sorriu de volta com uma desenvoltura que agradou Diana – normalmente os homens (especialmente os mais novos) não costumam ser tão extrovertidos em sua presença. O mais novo, ao contrário, manteve-se imóvel assim que pôs os olhos nela, como se uma onda de choque lhe impedisse os movimentos.

A entrada abrupta dos jovens a levou a deduzir que poderiam ser os filhos adotivos de quem Bruce lhe falara. Ambos tinham cabelos escuros como Bruce, mas em tons diferentes e um pouco mais claros. O mais novo tinha cerca de 1,70m de altura, a pele era muito clara – como a de seu pai adotivo – e era uma tanto franzino. O mais velho era completamente diferente, indicando que não havia parentesco algum entre eles – ao menos, não biológico.

Ele tinha certamente mais de 1,80m – talvez a mesma altura de Diana, ou quase. Mesmo sob o smoking, podia-se perceber a excelência física do moço de cabelos castanhos, olhos acinzentados e sorriso arrebatador.

— Oi, eu sou Dick – Ele avançou em direção à Diana e estendeu amigavelmente a mão – Você deve ser a convidada do Bruce, certo? – Ele sorriu, como se soubesse quem ela era.

— Eu sou Diana. Prazer em conhecê-lo, Dick. – Ela respondeu, surpresa pela forma como Dick tomou-lhe a mão e beijou-a, delicadamente, os nós dos dedos. Um cumprimento muito formal para um jovem na idade dele. – E seu acompanhante, quem é? – Diana tentou agir com bom humor para deixar o outro jovem mais à vontade em sua presença.

— Aquele? É o Tim. – Dick apontou para o irmão – Há um minuto atrás eu podia garantir que ele sabia falar.

Diana riu com o comentário. Aquele jovem definitivamente era muito diferente de Bruce. Ele tinha ‘herdado’ obviamente o charme e o encantamento natural da personalidade sedutora de seu pai – na pele do playboy – mas parecia completamente avesso ao comportamento antissocial e indiferente de Bruce.

— Olá, Tim! – Ela acenou para ele, dando-lhe um de seus mais estonteantes sorrisos.

O pobre menino mal fora capaz de mover-se, em retribuição. Tudo que conseguia fazer era sorrir tolamente, com os olhos arregalados e um crescente rubor nas bochechas. Dick explicara a Diana que Alfred lhes dissera que ela estaria na Biblioteca e eles teriam ido lá para vê-la, visto que Tim estava incrédulo sobre a presença da Mulher Maravilha no evento.

Quando Bruce fez sua entrada para conduzi-los à mesa, para que o jantar fosse servido, Tim sentiu-se um tanto mais relaxado. Diana havia escovado levemente seu cabelo, dizendo-lhe que estava feliz de conhecê-lo. O que o fez sentir-se estranhamente animado.

Para sua sorte, ele não ouvira quando Bruce cochichou para Diana que ele estava nervoso porque estava ansioso para conhecê-la pessoalmente. Ele tinha posters dela espalhados pelos quarto. O primeiro amor platônico do menino de 14 anos era a heroína da Liga.

(...)

Bruce detestava festas – ainda mais detestável era a realização delas na mansão. Mas o jantar beneficente, realizado sempre um mês antes do Natal, era uma tradição que sua mãe executava muito antes dele nascer. Martha oferecia um jantar para aqueles que, como ela, estivessem interessados em angariar fundos para assegurar um fim de ano digno para aqueles que precisam de assistência.

Por isso, desde a criação da Fundação Martha Wayne, Bruce obrigava-se a manter a tradição, realizando o evento na mansão, ignorando o inconveniente de receber pessoas em sua casa.

Contudo este ano, como há muito não acontecia, ele não se sentia tão irritado, nem tão miserável como de costume – revestido da máscara de playboy que tanto abominava. Estranhamente, esta noite, ele não estava saturado com o teor fútil das conversas de seus convidados ou zangado por perder seu tempo confraternizando com aquelas pessoas.

Bruce estava verdadeiramente aproveitando seu jantar e a companhia de seus filhos e de sua convidada – de modo tão espontâneo que surpreendera Dick e Tim e agradara Alfred, que notaram o fato de que a maior parte dos sorrisos de satisfação que ele exibiu durante a festa não eram falsos.

O anfitrião sorriu para si mesmo em dado momento, analisando o quão naturalmente ele estava agindo na pele de Bruce Wayne na presença de Diana – sem precisar desempenhar ostensivamente seu papel ridículo de playboy. Ele não fez comentários tolos para parecer estúpido; não flertou com nenhuma das beldades presentes; não conversou sobre sua vida sexual abertamente; ou qualquer outra coisa que normalmente fazia para reforçar a frivolidade de seu personagem.

Alfred estava certo quando o incentivara a convidar Diana para o jantar deste ano. A presença dela suavizara o sacrifício dele de muitas formas, para seu espanto. Não bastasse o fato de que ele gostava em demasia de estar com ela, haviam implicações positivas pelo fato dela estar lá que ele não poderia negar: Os ricos estavam admirados com sua presença e ao invés de falar sobre futilidades, concentravam-se em ouvir sobre as aventuras heróicas da Liga; ao invés de perguntarem a ele sobre sua vida sexual, queria saber sobre ela e os heróis; A presença dela intimidava as mulheres e o livraram de ter que manter o perfil sedutor sobre elas.

Ele não podia negar: ela iluminara sua noite!

(...)

Eles estavam absortos em uma conversa trivial quando Dick os observara, ao longe. Sozinhos, no grande salão de piso emadeirado, tinham as silhuetas iluminadas pela lareira. O jovem rapaz teve a brilhante idéia de acionar o sistema de som.

Tudo que Bruce conseguia lembrar é de tomar as mãos dela e abraçar a cintura, como impulsionado por uma força estranha e forte, que o obrigava à execução do ato.

♫

the world was on fire and

No one could save me but you

It's strange what desire make foolish people do

I never dreamed that I'd meet somebody like you

O mundo estava em chamas e

ninguém podia me salvar, a não ser você

É estranho o que o desejo faz as pessoas tolas fazerem

Eu nunca sonhei que conheceria alguém como você

♫

As mãos macias agarradas à mão dele trouxeram-lhe um calor bem-vindo. A sensação de suas curvas em seus braços eram tão familiares que ele se perguntara se em alguma outra vida ela já fora sua. O vermelho carmesim dos lábios dela, as bochechas projetadas e coradas, os olhos brilhantes, ansiando por ele... Tudo nela o levara a crer na existência dos deuses. Ela era a coisa mais linda que ele já vira na vida.

♫

No, I don't want to fall in love…

(This love is only gonna break your heart)

… With you

Não, eu não quero me apaixonar...

(Esse amor vai quebrar seu coração)

… Por você

♫

Apesar de saber que tudo aquilo fora manipulado por Alfred e seus filhos para fazê-lo ainda mais próximo da deusa morena em seus braços, esta noite, ele não se importara nenhum pouco. Era como se estivesse tomado por um sentimento inebriante de satisfação difícil de negar ou reprimir. Um sentimento que ele queria desfrutar, ao invés de afastar.

♫

What a wicked game to play

To make me feel this way

What a wicked thing to do

To let me dream of you

Que jogo perverso de se jogar

que me faz sentir desta forma

Que coisa malvada de se fazer

deixar-me sonhar com você

♫

E por esta noite, ele resolveu enganar seu coração. Mentir para si mesmo. Que poderia ser dela e que ela poderia ser dele. Não havia nada que seu coração pudesse fazer, a não ser deixar-se apaixonar.

Amanhã, quem sabe, seria hora de despedir-se das ilusões, da idéia de que ele poderia ser feliz. Não! Ele não podia. Ele estava condenado à dor, mas não hoje… Hoje, ele seria dela! Hoje ele poderia sentir o sabor de seus lábios macios. Hoje ele poderia desfrutar do prazer de ter o calor de seu corpo colado ao dele, enquanto inebriava-se com o perfume delicioso que o pescoço dela exalava.

Eles não viram quando Dick, Tim e Alfred os deixara sozinhos, aproveitando a escuridão nos cantos do cômodo para fazerem a saída furtiva e silenciosa. E também não viram quando, ao longe, da janela de uma varanda, um dos convidados deixava escorrer o veneno invisível de seus lábios, contraídos de ciúme, raiva e inveja: Tommy Elliot jurava para si mesmo que iria tirá-la de seu “amigo”. Ele não a merecia. Mas Tommy sim. Foi o que anunciara sua menste perversa.

Elliot sorriu lascivamente para si mesmo, tomando o rumo da saída. Sua mente fervia. Era hora de tirar de Bruce aquilo que seu coração mais desejava. Era hora de tomar-lhe o prêmio mor que um homem poderia almejar: a mulher que era dona de seu coração!

FLASHBACK OFF

Notas finais
Para quem quiser acompanhar a trilha sonora do capítulo: Wicked Game (Chris Issak) https://www.youtube.com/watch?v=cO80or3luyA Obs.: Legendas em português no vídeo **************************** *Richard John "Dick" Grayson foi o primeiro ajudante do Batman, quando criado, em 1940, sob a identidade de Robin. Mais tarde, em 1984, tornou-se um vigilante independente da cidade de Bludhaven, como Nightwing (Asa Noturna). Dick Grayson era o integrante mais jovem de uma família de acrobatas de circo chamada "Os Graysons Voadores", que foram assassinados a mando do gangster Anthony Zucco. Batman adotou o menino após presenciar o dia da morte de seus pais. Mais tarde, após anos de treinamento com o Cavaleiro das Trevas, Dick assume o manto do Menino Prodígio. *Timothy "Tim" Drake foi o terceiro Robin na linha de sucessão, aparecendo em 1989 nos quadrinhos do Batman. Atualmente atua com o codinome de Robin Vermelho. Desde cedo, o jovem Tim Drake mostrou-se um fã da “dupla dinâmica” e após a morte de Jason Todd, tentara encontrar uma forma de assumir o manto do Wonder Boy. Após a morte dos pais, ele foi adotado por Bruce Wayne, à pedido de seu filho Dick e, dono de uma inteligência brilhante, o menino logo descobrira a identidade do Batman. *Referência do Vestido: https://encrypted-tbn1.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcR-8RTcX9l4vizBNHukrXy-TQBPa4xwn0AnNKTwGvVIHd30xoON0A