Broken Hearts
38 Instinto Selvagem - Parte I
Notas iniciais

► “O amor sempre muda as regras que é para a gente nunca aprender a jogar”.(Fabrício Carpinejar) ◄
♣ Watchtower || Cela 22 || Bloco DOIS ♣
A intermitente luz vermelha piscando no monitor servira de alerta para que o Senhor Incrível fosse informado de que alguém estava sendo tele-transportado para o Sentinela. Verificando as imagens das câmeras de segurança da plataforma de teleporte, Michael Holt viu a figura imponente de um Cavaleiro negro projetar-se na tela.
Desde que assumira as funções outrora do Marciano, antes da expansão da Liga, o Senhor Incrível ficava a maior parte do dia responsável por gerenciar o serviço de monitoramento da equipe.
Durante o dia, um par de heróis se revezava para auxiliá-lo e à noite, outro par assumia a função – como uma espécie de ‘plantão’.
Estar próximo aos heróis que ele aprendera a admirar era fascinante. Mas apesar do início tímido das interações com eles, ganhar sua confiança e o posto de J’onn significava muito. Era como se ele tivesse ganhado uma medalha de honra.
Ainda sim, observar a imagem do Batman na tela o fez lembrar que, mesmo habituado a lidar com heróis – que são seus companheiros e amigos, e outros que são seus ídolos – ele nunca conseguiu ficar à vontade com o Morcego. O Cavaleiro das Trevas ainda lhe dava arrepios.
Bem como à uma gama imensa de heróis outros, especialmente os que não o conheciam. Ter medo do Batman não era nada incomum na Torre de Vigilância. E Bruce adorava isso. Na verdade, o livrava de interações sociais desnecessárias.
Contudo, hoje fora um dia incomum. Os olhares das pessoas sobre ele não foram nenhum pouco receptivos. Não era preciso ser um detetive genial para deduzir o motivo. Eles deveriam saber que a Mulher Maravilha estava correndo risco de vida e que a negativa do Batman em atender o chamado da Liga só poderia significar que ele estava ocupado com os problemas em Gotham.
E embora não desse a mínima para esse tipo de coisa. As reações negativas serviram de termômetro para dar-lhe uma noção do quão furioso com ele estaria o Superman.
Sua voz no comunicador do Batmóvel já havia dado ao Batman uma boa medida de que seu amigo não tinha qualquer traço da postura amigável de sempre.
(...)
Bruce anunciara sua chegada através do contato mental com o Marciano. E fechou os punhos com raiva, por debaixo da capa, quando soube que Diana não estava na ala médica e sim em uma das celas a bordo do Sentinela.
Uma onda de sensações ruins foram se acumulando dentro dele. Sua mente analítica trabalhava com inúmeras possibilidades, mas seu coração não admitia nada que justificasse aprisioná-la.
E, a cada passo que dava em direção à ela, atravessando os imensos corredores da Torre de Vigilância, Bruce podia sentir o peso das emoções enervantes que iam acumulando-se: Raiva, frustração, impotência, descrença, angústia... Elas tinham um gosto amargo e um peso debilitante.
Mas nenhum sentimento, por pior que seja, comparava-se à culpa que ele carregava. Era o tipo de dor à qual estava familiarizado. Responsável pelas cicatrizes emocionais mais profundas que acumulara na vida. Uma dor que nunca o deixara.
O que ele não previu foi a onda de ciúme que o abatera com a força de uma parede de tijolos. Clark parecia mais ferido e revoltado com ele, por culpá-lo por Diana estar assim, que um simples amigo, aflito e tomado de preocupações fraternas.
Sempre furtivo, o Batman entrou no Bloco sem que Clark pudesse vê-lo e por alguns instantes, parou para observar o modo carinhoso com que falava com Diana através das grades. Apoiado em seus calcanhares, rebaixando-se à mesma altura que ela, recolhida no canto da cela, abraçando os joelhos.
Bruce sentiu o impacto da onda possessiva do ciúme. O som da voz atenciosa e a bondade honesta das palavras de seu melhor amigo ditas à ela, só aumentavam a força do impacto. Clark estava lá para ela, e ele não. Aquilo doeu.
Primeiro, a raiva. Uma fúria em estado bruto, primitivo, animalesco. Ele poderia surrá-lo facilmente agora. Era como se a oxigenação no cérebro tivesse sido interrompida e ele não fosse capaz de pensar.
Mas a raiva desvaneceu-se para dar passagem à uma espécie de medo, forte o bastante para envenená-lo. O homem que desafia o medo dia após dia, agora estava sentindo medo... de perdê-la. Se não para morte, para seu melhor amigo.
Clark era tudo que ele não era – e jamais poderia ser. Ele e Diana tinham tantas semelhanças entre si que era irritante para ele admitir que poderia existir alguém como ela – ainda mais sendo Clark. Ele sempre se convenceu que ninguém a merecia. Mas agora, ali, vendo o kryptoniano, ele percebeu que ele sim a merece.
Mas não era hora de lamentar. Isso ele resolveria depois. Ele finalmente tomou coragem e se dirigiu até a cela. Diana precisava dele.
(...)
Bruce achou que tinha perdido a capacidade de chorar. Havia tantos anos que ele não sentia-se tão impotente. E ele não era mais aquele pequeno garoto desamparado assistindo seus pais assassinados bem diante dele.
No entanto, enquanto Diana olhou para ele através das grades, com um medo visível em seus olhos injetados, Bruce lembrou cada pedaço dessa impotência e percebeu que chorar era como andar de bicicleta. Ele pode não ter feito isso por algum tempo, mas a capacidade nunca poderia ser esquecida. Para seu benefício: seus amigos não viram as lágrimas, já que o capuz escondia o lacrimejar.
— Afastem-se, eu vou entrar – foi tudo que o Cavaleiro das Trevas disso.
Mesmo à contragosto, Kal e J’onn saíram e ficaram um pouco mais afastados.
Dentro da cela, ela observou com olhos cautelosos e desconfiados as criaturas estranhas olhando para ela. Os pensamentos estavam dispersos: Fugir. Correr. Atacar.
Não havia nada que pudesse fornecer conforto. Nada que indicasse que ela estava segura. Talvez, se ela ficasse encolhida, aquelas criaturas não a ferissem.
Batman viu seus braços machucados. Imaginou o trabalho que tiveram para detê-la. Uma criatura aterrorizada e super-forte não é uma combinação das melhores.
— Abram a cela – Batman ordenou novamente. – Aumentem o ar-condicionado e desliguem as câmeras agora.
— Bruce, ela vai rasgá-lo em pedaços. Ela quase quebrou meu pescoço. – Superman ficou preocupado. A conversa dele com seu amigo viria depois. Não era hora agora.
— Eu não sou você. Abra. AGORA! – Batman latiu. – Computador, desligar câmeras do bloco de celas II. Usuário 001, membro fundador.
“Usuário confere: Batman – Membro fundador 001”, a voz robótica do computador respondeu.
J’onn e Clark se olharam, como se dissessem que estariam a postos para ajudar, caso algo desse errado.
Bruce se aproxima da cela lentamente. Ainda completamente coberto pelo traje sombrio do Morcego de Gotham. Ele sabia que qualquer movimento brusco poderia ser erradamente interpretado como uma ação de ataque e ela assumiria uma postura irascível para se defender.
Em frente às grades outrora energizadas, ele iniciou uma espécie de ritual de “boas-vindas” para ela. Semelhante à forma, narrada pela História, de como os colonizadores se aproximaram de nativos selvagens em suas primeiras interações sociais.
Ele removeu o capuz bem devagar, até que o rosto cansado, mas ainda bonito de Bruce Wayne estivesse à vista. Depois, em velocidade semelhante, foi se desfazendo de algumas peças do traje: luvas, botas e capa.
Considerando a aproximação tímida que ela fazia em direção a ele, a cada etapa, ele considerou desfazer-se de mais, mas chegou a conclusão que, em caso de um ataque de fúria, seu traje poderia servir minimamente de proteção.
— Você está indo muito bem, Batman. – J’onn o assegurou – Desde que ela chegou à Torre, é a primeira vez que não sinto raiva e medo na mente dela.
Diana movera-se lentamente em direção à Bruce. Ainda que dominado por uma sensação inebriante de satisfação, ao vê-la agindo como se o reconhecesse, como se confiasse nele, sua formidável mente analítica começou a trabalhar: observou o modo como ela se movera – arrastando-se, mantendo os membros próximos ao chão, ao invés de levantar-se e caminhar até ele.
Ela usou sentidos pouco usados pelo homem, como olfato e tato. Diana concentrava-se no cheiro dele, no contato com sua pele, através das grades. E a medida que sua memória confirmava que ela conhecia a sensação de tocar a pele de Bruce, que conhecia os odores do seu corpo, ela demonstrava total confiança nele.
Ele decidiu que seria seguro entrar, aproximando-se ainda mais dela. Havia um sentimento de urgência e proteção que o exigia uma aproximação até o máximo do limite possível. Mas, tão forte quanto seu lado passional, seu lado racional sabia que quanto mais perto dela ele estivesse e quanto mais confiança ela tivesse nele, mais fácil seria estudar as causas do problema.
Bruce entrou lentamente, posicionando-se no centro da cela. Ele sentou-se imediatamente sobre as pernas, pousando as duas mãos em cada uma das coxas. Ele queria ficar na mesma altura que ela, para que Diana pudesse ver seus olhos.
Diana parecia confortável na presença de Bruce. Ela ainda estava longe de estar bem. Assim como eles estavam longe de descobrir a causa de tudo que a acometera – bem como de uma medida reversiva do seu quadro clínico.
Diana estava até sorrindo. Um sorriso largo o bastante para exibir os lindos dentes. Contudo, não durou muito...
O sorriso de repente mudou para outro semblante que Bruce parecia reconhecer, mas descartou rapidamente a hipótese. Ele achava que toda aquela situação, especialmente a imagem da mulher diante dele, acabara por nublar um pouco sua mente.
“Ela está mudando a postura, Batman. Você deveria sair agora!”, J’onn sugeriu em sua mente.
"Não, ela não vai atacar.", Batman respondeu firmemente.
Clark e J’onn não entendiam o que ela estava fazendo ou o que queria. Mas Bruce, estranhamente, parecia entendê-la.
Ela recuava e se aproximava dele repetidas vezes. Uma espécie de provocação. Como se o estivesse avaliando, através de suas reações. Mas ele não se movia.
Bruce percebeu que ela queria intimidá-lo. Queria saber se ele a atacaria caso ela chegasse mais perto. Eram instintos muito selvagens, muito primitivos. E ela sorriu quando percebeu que ele não lhe faria mal, independente do que ela fizesse.
O que nenhum deles esperava era que o objetivo dela fosse tão, digamos, perturbador.
Ela começou a andar em torno dele, cada vez mais perto, estendendo a mão para tocá-lo. Timidamente no princípio e cada vez mais demoradamente à medida que se sentia segura na companhia dele.
Bruce ainda estava de costas pra ela quando sentiu o puxão. Ela estava rasgando a parte de cima do traje... Sabiamente, ele permaneceu quieto.
De repente, ela estava sentada diante dele. Tão perto que ele podia sentir o calor de sua respiração. Passando as mãos por toda extensão do seu torso perfeitamente esculpido.
As unhas bonitas conservavam a cobertura em carmesim. E embora seus movimentos não tivessem a delicadeza carinhosa e sedutora com que ela costumava tocá-lo. Bruce estaria mentindo se dissesse que mesmo a rudeza com que os dedos dela exploravam seu corpo não era excitante.
Para bem da verdade, seu primeiro obstáculo após sua entrada, foi lutar contra seus próprios instintos. Tão humanos, demasiado humanos. Mas era torturante vê-la tão explicitamente sexy e selvagem.
As partes rasgadas do vestido não chegavam a causar vergonha, mas expunham mais pele. Mais pele e mais corpo. O corpo esculpido por deuses. A perfeição!
Eventualmente, ela se cansou dessa intrusão no seu território, e começou a empurrar as fronteiras novamente.
Ela continuou a explorá-lo, com curiosidade: rosto; olhos, nariz, queixo, lábios... Permanecendo muito tempo a tocar seus lábios. E Bruce precisou de toda força de vontade que tinha para não beijá-la sem sentido.
Eles estavam se olhando nos olhos, enquanto as mãos dela deslizavam por todo corpo: rosto, pescoço, peito, abdominais, e... foram descendo.
— Diana... – Bruce murmurou.
Ela não se incomodou em nada com a advertência. E começou um processo deliciosamente perigoso, lambendo o pescoço de sua “presa”.
— ô-ou – Clark disse, envergonhado.
— Bom, pelo menos ela não está mais com medo – J’onn tentou ser sutil.
Bruce tentou afastá-la, mas ela sorriu predatoriamente. Ele acariciou seu rosto e seu cabelo, mas era evidente que ela queria mais. E ele não iria segurá-la.
Se ele fosse honesto. Ele não queria nenhum pouco fazer isso.
—Bruce, vou entrar pra segurá-la – Clark falou.
— Não. Eu posso lidar com isso, Kent.
— Isso é estar lidando com a situação?
— Sim. É! Vocês dois, saiam agora. – O Morcego deu a ordem.
— Nós não vamos deixá-la, Batman. Você não estava aqui quando ela precisou.
— Kent, ouça bem, porque você não tem muito tempo. Responda para si mesmo: Você está pronto pra ver o que você vai ver se ficar? Você está pronto para ver seus amigos...
— Pare! Eu vou sair – Clark e J’onn tomaram o caminho da saída, quando Bruce deu a ordem ao computador central que bloqueasse a entrada ao Bloco de Celas II.
Bruce se obrigou a não demonstrar que sua respiração estava afiada. Ele queria mostrar aos amigos que estava no controle. Mas ele amava aquela mulher e, pelo amor de Deus, ele estava mais excitado do que jamais estivera na vida.
Diana estava alheia a quaisquer implicações morais de seu ato deliberado. E, literalmente, subiu em seu colo, pressionando os lábios nos dele, com força, rasgando o resto do traje.
Ela sorriu pra ele de maneira predatória e Bruce sabia exatamente o que ela queria. E, disse a si mesmo, se fosse para deixá-la satisfeita e calma, ele faria isso por ela. Ele faria isso por ele. Ele a amava... ele a queria... e ela o teria, da forma como quisesse. Do jeito que desejasse. Porque ele era dela de uma forma que nem ele mesmo poderia negar.
Ela iria tomá-lo. Ela é que iria, contraditoriamente, domá-lo. E ele estava feliz com isso.
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