Broken Hearts

50 Infância Roubada


► "Justiça é consciência. Não a consciência pessoal, mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas consciências, reconhecem também a voz da justiça. (Alexander Solzhenitsyn) ◄

FLASHBACK ON

♣ Trípoli || Território Líbio || Esconderijo mais recente de Ra’s ♣

(Há dois meses – 1 dia após Talia deixar Gotham)

O rosto impassível de seu pai, sem emoções espelhadas, poderia dar a impressão de que ele estava tranquilo. Mas Talia sabia que a postura imutável dele era ilegível. Poderia significar tudo... Ou simplesmente, nada.

O homem que somava séculos e séculos de existência fora surpreendido, quando fora informado do retorno de sua filha à casamata de estrutura palaciana que lhe servia de esconderijo, mantendo-se incógnito dos olhos de seus inimigos.

Ra’s Al Ghul ordenara à criada pessoal de sua filha que a trouxesse à sua presença. Ele estava intrigado sobre os motivos que a trouxeram tão rapidamente de volta. Sempre que ia ao encontro do detetive, quando ele permitia-lhe, ela só retornava sob suas ordens expressas.

— Pensei que você havia dito que acompanharia sua cria, como hóspede do Morcego em sua casa, mulher – Ra’s a sondou.

— O amado ainda está ferido por minhas ações passadas, pai – Ela disse, tentando esconder sua tristeza – Levar nosso filho para ele, contando-lhe que menti, só inflamou seu desgosto. Nosso herdeiro é uma lembrança de minha traição para com ele. O amado precisa de tempo para curar seu coração... Tempo até sentir-se pronto para retornar meus afetos.

Ra’s olhou para ela com descrédito evidente antes de bradar: – Isso invalida nosso acordo, Talia. O menino dificilmente conseguirá demover o detetive de sua teimosia em proteger aquela cidade abominável. Nós teríamos alguma chance de tê-lo conosco se você estivesse lá, para alcançar seu coração. Se você queria dar-lhe uma chance, deveria tê-lo convencido a aceitar sua presença, como sempre.

— Eu teria falhado se insistisse em ficar, meu pai – ela disse, envergonhada – Acredito que meu maior ganho foi ter conseguido que ele aceitasse o nosso fruto em sua casa. Por um momento, eu pensei que ele não o receberia.

O Demônio estreitou o olhar, esperando mais...

— O amado está... Diferente. Eu sempre fui capaz de lidar com sua raiva e sua mágoa. Eu sempre o fiz, com resignação e amor. Ele sabe que meu coração é paciente e que meu amor aceita as condições que ele me impõe antes de me perdoar. Se fosse apenas isso... Eu teria esperanças – Talia olhou para a janela à esquerda do trono, onde o sol se punha, imperioso – Mas... Ele mudou, meu pai. Seu coração não estava lá para me receber desta vez!

— Os eventos não obedeceram a previsão de sua lógica, mulher. Eu não vejo motivos para esperar, se a única razão para isso foi sua garantia de que conseguiria mudar a mente do detetive – Ra’s escovou o cavanhaque com os dedos –Serei obrigado a seguir com o plano, visto que você perdeu sua influência sobre o Morcego. Você era um ponto fraco dele, sua fraqueza, um vício do qual ele nunca foi capaz de se desintoxicar... Contudo, se ele não se dobra mais em seu favor, a espera é inútil.

— Pai, por favor, dê ao menino mais tempo. Ele pode conseguir. – Talia implorou, tentando livrar seu amado do que estava por vir – Só mais um mês.

— Tua criança não tem o que o detetive aprecia. O menino é meu guerreiro, minha máquina, trabalhada à perfeição – Ra’s estava impassível – Ele era apenas seu trunfo para reaproximar-se do Batman. Sozinho, ele é tão inútil para mim quanto você é agora, que não me serve para ganhar a confiança do meu inimigo.

— 60 dias, meu pai. Ainda podemos realizar vossa vontade sem minha presença. – Ra’s olhou para filha – Damian pode fazer isso. Eu garanto. Meu filho não irá me decepcionar!

FLASHBACK OFF

♣ Gotham City || Mansão Wayne ♣

Damian estava morando com seu pai há cerca 40 dias. Exibindo o mesmo comportamento de quando chegara à mansão: Era desrespeitoso com Alfred, grosseiro com Diana e, especialmente, cruel com Tim – que era, de longe, a maior vítima de Damian por um simples motivo: Era ele que vestia o traje do Robin, quando Damian chegou.

Tim era a maior vítima da frustração agressiva do menino mau criado. Seu ódio estava basicamente concentrado no doce menino tutelado por seu pai. O modo como Alfred e Diana eram tratados por ele era inegavelmente reprovável, mas com Tim, era revoltante.

Para Damian, o terceiro filho adotivo de Bruce Wayne (sendo Richard Grayson o primeiro e Jason Todd o segundo), não apenas roubava dele a atenção de seu pai (como Diana fazia). Não roubava a admiração e o respeito de Bruce (Como o criado Alfred). Tim usurpava-lhe muito mais. A presença dele ocupou um lugar que era seu, por direito, roubando-lhe TUDO.

“Por causa do bastardo Drake, não havia espaço para mim no coração de meu pai. Meu pai não me ama por causa dele”, a mágoa no coração do menino foi se enraizando à medida que ele se convencia disso.

Timothy Drake era o atual Robin e por causa de Tim, ele não poderia vestir o traje do menino prodígio, com que sonhara. Desde que encontrou o traje rasgado de Morcego no baú de sua mãe. Desde que ela contou sobre seu pai, o Batman. Sobre suas aventuras, sua coragem e sua bravura. Desde que sua mãe – quando ele tentou fugir dos castigos de seu avô – o convencera de que se ele completasse o treinamento, poderia lutar ao lado do pai, como Robin, como herói.

Esse era seu sonho, seu único sonho, que o manteve firme. Que o deu motivos para ser o melhor. Nada mais. Ele nem sabia que poderia sonhar com muito mais... Ele não teve direito a infância lúdica e plena. Ele foi criado para lutar e treinar. Não para imaginar, sonhar, querer. O desejo de um dia estar ao lado do pai, ouvindo de sua mãe como viver com ele era maravilhoso, era a única coisa que fazia seu coração se preencher com alegria. O amor que ele via nos olhos de sua mãe, ao falar da vida com ele, eram sua única esperança.

Damian achava que, se ele não fosse Robin, ele não teria utilidade para seu pai e seria mandado de volta para Ra’s. Por isso, ele odiava Timothy Drake com todas as forças. Em seu favor, apenas a justificativa de que, mesmo letal, ele era só um menino, que só tinha o pobre Tim para culpar.

(...)

Damian estava lendo, na biblioteca, quando a amazona veio da caverna e fez sua entrada através da passagem do relógio. Ela o dirigiu um cumprimento silencioso, movendo apenas a cabeça e seguiu para o interior da mansão.

Ele não respondeu.

Ela não parecia se importar com isso.

O menino lembrou quando seu pai os apresentou, muito secamente, durante o jantar.

“Este é Damian, Diana”, seu pai disse, entre uma garfada e outra.

“Damian, esta é Diana”.

“Damian, Tim, Alfred... Espero que não tenhamos nenhum problema com a presença dela nesta casa. Ela é minha convidada, por isso, acostumem-se. Ela vai ficar por muito tempo”, foi tudo que Bruce disse.

O neto de Ra’s jamais admitiria, mas ele apreciava o fato da mulher com quem seu pai se deitava não o importunar. Ela não estava fingindo gostar dele, nem queria ser “sua nova mãe”.

Bom, a verdade é que Damian só a odiava por usurpar o lugar de sua mãe e roubar-lhe a atenção de seu pai. “Mas é só isso”, ele pensou, como se fosse desimportante.

Damian queria odiá-la, para ser honesto. Mas a tarefa mostrou-se mais difícil do que ele supunha. Ele tentava se convencer que ela destruiu sua chance de ter uma família, com sua mãe e seu pai juntos... Não fez efeito. Ele não conseguiu odiá-la tanto assim

Ele leu tudo sobre sua história para aprender como poderia irritá-la, ofendê-la, fazê-la ir embora. Mas ela só o ignorava, mesmo quando ele ofendia sua cultura, suas “irmãs” ou sua mãe.

Depois de um tempo, ele parou... Era inútil.

Drake era um alvo melhor.

Ele não aprovava o romance de Diana com seu pai, mas já não se incomodava.

Damian era um garoto, mas ele não era cego, tampouco burro. Ele era plenamente capaz de entender o que levou seu pai a se apaixonar pela amazona. Ela era bonita, claro. Sua mãe também era. Mas não era só isso... Ele entendeu quando passou a viver naquele lugar.

Ele via como seu pai se iluminava ao redor dela. Ninguém perceberia se não o conhecesse bem. Ele continuava fechado, sério, falava pouco, mas Damian fora treinado exaustivamente para enxergar até os movimentos imperceptíveis de Bruce e ele podia ver as pequenas mudanças em seu pai. Ele era capaz de saber quando seu pai estava sorrindo, ainda que os lábios não tivessem nenhuma expressão que indicasse isso.

Estava tudo gravado em seus olhos. Eles revelavam tudo. Ele via, em seus olhos, o afeto que ele tinha por ela. Ele queria ver a mesma coisa nos olhos de Bruce em seu um dia, mas por ele.

FLASHBACK ON

♣ Mediterrâneo || Bacia do Levante || Ilha de Chipre ♣

(Treinamento de Damian – 10 anos)

— Mate-o, Ibn – O tom de voz equilibrado do homem era um sinal inegavelmente cruel de sua indiferença pela vida de outrem – Execute a sentença... Agora! – Uma ordem direta do grande Ra’s é inquestionável É a Lei! A desobediência é passível de morte. Todos sabiam disso!

O filho do Morcego fez o melhor para dirigir seu olhar mais frio para a figura ajoelhada diante dele, cercado por alguns dos assassinos da Liga. O ‘escravo’ (como seu avô o tinha chamado) estava vendado, vestido apenas da cintura para baixo, descalço e suas mãos foram fortemente amarradas atrás das costas. Além dos sinais claros de espancamento.

Ele obviamente ouvira as palavras do líder da Liga das Sombras, ao passo que começou a tremer e chorar, murmurando um tipo de oração em voz baixa.

— A morte não tem poder sobre um verdadeiro Al Ghul. Prove que meu sangue corre em suas veias, Ibn. Não tema a morte. Exerça seu domínio sobre ela. Al Ghul, Ra’s, a quem meus inimigos chamam de Cabeça do Demônio, atravessou séculos intocável por ela. Você é meu herdeiro...

Ra’s desceu do púlpito em que estava sentado. Ele ocupava uma espécie de trono, ornado com a exuberância de detalhes clássicos e designe semelhante aos usados pelas monarquias contemporâneas. Em cada extremidade, um nível abaixo, para mostrar uma hierarquia menos importante que a dele, as duas filhas – Nyssa e Talia – também sentadas em assentos que pareciam tronos, porém um pouco menos impressionantes.

— Um Al Ghul comanda e a morte o obedece. Você deve negar as ofertas dela para si. Mas jamais deverá negar-se a executar sua sentença. – Ra’s apontou para a adaga sobre um mesanino – Mate-o, Filho do Morcego. MATE-O!

Ele não se mexeu.

Estava paralisado... Mas não era medo. Ele não tinha medo da morte: de matar (mesmo nunca tendo matado) ou de morrer. Foi sua primeira experiência com a sensação. Ele estava imóvel porque algo dentro dele não queria fazer aquilo. Algo o fez – inconscientemente – questionar seu avô. O fez hesitar.

Damian estava pronto para combater. Para eventualmente matar um adversário que ameaçasse sua vida. Mas tirar uma vida por nada provocou um curto circuito dentro dele. Ele queria cumprir a ordem de seu avô imediatamente. Queria deixá-lo, bem como à sua mãe e sua tia, orgulhosos. Entretanto, o sentimento que surgiu dentro dele foi tão forte que barrou dez anos de alienação que ele sofreu.

O pequeno Morcego, no íntimo, era um bom menino, apesar dos esforços de seu avô de suprimir a virtude de seu caráter. O sentimento, que ele não reconhecia, era consciência, compaixão. E, infelizmente, o menino não fazia ideia que era justamente isso que seu avô queria aniquilar, obrigando-o a realizar tarefas que arrancariam dele qualquer vestígio de compaixão e consciência herdado de seu pai.

— Ibn – a voz do avô assumiu um tom perigoso – Tu me obedecerás, ou tomarás o lugar do escravo para ser executado. Meu legado não ficará nas mãos de um covarde!

Sua boca ficou seca e a mão tremeu quando ele pegou a adaga. Na bainha da arma, foi esculpida uma serpente maligna, com olhos de fogo frio, exibindo dois rubis.

— Agora, mergulhe a faca em seu coração. – A voz de Ra’s era fria e a vítima chorou em voz alta.

— Silêncio! – Ra’s ordenara.

Ubu, servo de confiança do Demônio, chutou o homem ajoelhado no peito. O escravo deu um grito estrangulado de dor.

A adaga escorregou dos dedos pequenos e trêmulos do menino e caiu no chão. Damian congelou, ouviu o início de um grunhido por trás dele.

– Enterrem-no de novo!

— NÃO! – ele gritou, agarrando a adaga.

Damian lembra do som do aço furando a carne.

Do sangue quente jorrando em seu rosto

Do som horrível daquele homem engasgando no próprio sangue.

Suas mãos tremiam ao perceber que o calor que ensopava seu corpo era sangue.

— Controle-se! – Ra’s estalou.

Damian percebeu que ainda estava gritando, em choque. Lenta e dolorosamente, ofegando e vomitando, conseguiu parar de gritar. Suas mãos ainda estavam manchadas de vermelho. Por mais que ele lavasse, o sangue das mãos nunca sairia delas.

(...)

Ele levantou-se e dirigiu-se ao banheiro. Curvou-se sobre a pia e espirrou água em seu rosto, respirando profundamente.

A imagem de Damian no espelho mostrava um rosto jovem e bonito em um corpo musculoso, cheio de cicatrizes, como seu pai, mas em menor número, claro. O espelho não mostrava as profundezas em que sua mente estava mergulhada.

Ficou lá por dez minutos, quando sentiu uma presença.

— O que fazes? – Perguntou.

— Nada.

— Não minta, Morcego. – A voz dela era tranquila.

— Pesadelos – ele admitiu.

Uma mão tocou seu peito. Eram mãos gentis, em contraste à força habitual de sua mãe.

— Pesadelos são de pouca importância, Ibn. Volte para a cama.

Ele não conseguia se mover.

— Não são sonhos ruins. São memórias. Não posso fingir que não importam.

Ela fez um ruído desdenhoso em sua garganta, como se fosse desimportante.

— As memórias vêm do passado. O que importa é o agora, o presente e o futuro. O passado não pode prejudicá-lo. Você é forte demais para sofrer por uma tolice.

Ele balançou sua cabeça.

— Não estou pronto.

Suas mãos amassaram seus ombros, trabalhando para destravar os músculos de Damian, rígidos como pedra.

— Você está pronto para qualquer coisa, Morcego. Fui eu quem o treinou. Você pode questionar suas habilidades, mas nunca questionará as minhas.

Ele admitiu para si mesmo que era verdade.

— Agora, volte para a cama. – Ela se virou e saiu.

Ele suspirou e voltou pra cama.

Mais uma noite, ele não iria mais dormir.

FLASHBACK OFF

♣ Gotham City || Mansão Wayne || Batcaverna ♣

Diana realmente gostava de Damian. Ela via tanto de Bruce no menino – não só na aparência inegável e nas expressões idênticas, havia muito da personalidade do pai nele. Se amar seu pai foi inevitável, não a surpreendeu gostar da versão de ‘Bruce Thomas Wayne pocket edition’.

Ela passou a observá-lo cuidadosamente, antes de tentar se aproximar. Diana sabia que, assim como seu pai, ele só permitiria sua aproximação, se ela ganhasse seu respeito, em primeiro lugar.

Damian estava treinando em uma das salas de treinamento da caverna quando ela passou, vestindo uma armadura diferente da tradicional e o cabelo preso em um rabo de cavalo alto.

Ela foi em direção ao Dojô, no fundo do corredor, e ele supôs que seria para treinar. Isso o deixara curioso para ver o estilo de luta das amazonas.

Ele a seguiu sorrateiramente, mas o brilho do objeto reluzente na mão direita dela capturou sua atenção. E acabou sendo apanhado espiando.

— Olá, Damian?! – Diana disse.

Ele não respondeu, olhando para o que ela segurava.

— Dick me disse que você é um ótimo espadachim. Você é realmente bom? – Ela olhou pra ele com a seriedade, de um guerreiro para outro, e o menino lutou para esconder a satisfação por ela não tratá-lo como uma criança.

— Bom? – ele deu um dos sorrisos de Bruce Wayne que transbordava presunção – Eu não poderia dizer que sou apenas bom. Eu sou o melhor. Meu avô e minha mãe pessoalmente me treinaram. O avô me disse que estou em vantagem sobre o pai nesta habilidade.

— Temos algo em comum, afinal. De todas as habilidades de combate em que fui treinada, espadas também são minha especialidade.

– Que espada é essa?

— Você gostou?

— Não é das piores!

— O nome dela é Xiphidion.

Damian arqueou a sobrancelha. Uma mistura de estranheza e curiosidade.

— Por que deu a ela um nome tão estranho?

— Não fui eu... Ela pertencera a dois bravos guerreiros antes de mim. Xiphidion é muito especial.

— Quem eram eles?

— Você gosta de História? Já ouviu falar de Esparta?

— Sim!! – Ele arregalou os olhos, prevendo o que viria.

— Na batalha que ficou conhecida como Batalha das Termópilas, 300 soldados espartanos, liderados pelo seu rei, Leônidas I, impediram os avanços dos exércitos de Xerxes. Eles derrotaram 7 mil homens – Diana estendeu o cabo da espada para Damian – Esta espada pertencia a Leônidas e séculos após sua morte, foi enviada como um presente a outro guerreiro que a honraria: a rainha das amazonas, Hipólita de Themyscira.

— Você usurpou dela?

— Eu jamais faria isso... Foi um presente. A rainha me deu quando eu cumpri todas as etapas do treinamento para me tornar uma guerreira amazona. Foram quase cem anos.

— Você vai treinar com ela? Ela é muito valiosa. Use uma katana comum. O pai tem algumas lá em cima. – Diana sorriu por suas intenções de chegar ao menino estarem dando certo.

— Você tem razão. Tesouros devem ser guardados... De qualquer forma, ainda que eu quisesse, eu não poderia usá-la. Eu não tenho um parceiro habilidoso o bastante para um treinamento.

— Hum... – Ele estava alguns passos da saída, quando retornou. – Bem, eu estou curioso sobre suas habilidades com espadas... talvez, eu possa perder um pouco do meu tempo com você, amazona.

— Eu ficaria honrada. – ela assentiu com uma leve inclinação, como cumprimento antes da luta.

Após escolherem suas espadas, na sala de armas. Damian e Diana posicionaram-se um diante do outro. A postura regia de ambos, os joelhos semi-flexionados, a coluna perfeitamente alinhada, a leve inclinação do tórax para frente, as mãos seguramente enroscadas no cabo das espadas. Era lindo de se ver.

Durante a luta, Diana viu o quanto o garoto era realmente formidável e, pensou, com tristeza o quanto ele fora submetido à prática para chegar a esse nível, numa idade tão tenra.

No fundo, mesmo tendo vivido algo semelhante, criada por guerreiras e submetida aos treinamentos ainda criança, ao contrário de Damian, ela tinha seus momentos de lazer e recebera muito amor de sua mãe e irmãs.

Ele era ótimo, mas Diana tinha pouco menos de 1.500 anos de prática. Não dá pra superar isso. Nem mesmo o melhor espadachim.

A familiaridade que ambos experimentaram durante as lutas que se seguiram – uma, duas, cinco vezes – os trouxe à tona memórias do passado.

Eles estavam em casa novamente... E Diana estava feliz por isso, lembrando-se de sua Ilha Paraíso. Mas Damian preferia guardar a lembrança do presente, desta luta. Imagens de seu passado deveriam ser esquecidas. Não relembradas. Elas doíam. Elas o aterrorizavam.

Ele pegou a squeeze com água que Diana lhe oferecera.

— Você é boa!

— O que você disse? – Ela perguntou, fingindo ter se assustado. – Você pode repetir?

— Não. Você ouviu – ele disse, tentando voltar ao comportamento rude, mas ele havia já baixado a guarda durante as lutas. Se ele fingir odiá-la novamente, ela acharia que ele é um menino estúpido e fingido.

— Eu fico feliz de estar à altura de suas habilidades extraordinárias como espadachim!

— Não fui tão bom... Você levou 4, das 5.

— E você ganhou uma. Eu não estou acostumada a ser batida, vez alguma. Acredite. Um é formidável.

Ele devolve a garrafa e acenou, indicando que iria sair.

Ela sorriu de volta e acenou com a cabeça também.

Diana estava satisfeita porque as coisas fluíram bem e o resultado foi muito melhor que o esperado. Ela não esperava nada dele no primeiro dia. E, no entanto, eles não só conversaram um pouco durante as lutas, como ele ao invés de ofensas, fez-lhe um elogio e ainda a cumprimentou antes de sair.

Ela correu até ele, para dizer algo antes dele subir. O melhor era ver o sorriso satisfeito no rosto dele, que Damian não conseguiu esconder, despedindo-se dela. Porém, nada comparado ao êxtase que ela viu em seus olhos, quando ela disse:

— Damian?!

— Sim!

— O que você acha de eu falar com seu pai sobre o que vi aqui hoje? Sobre suas habilidades? Você seria um excelente Robin.

— Por quê? O que você ganha com isso? Eu não vou ficar do seu lado, contra minha mãe, amazona!

— Quando você descobrir o significado de amizade, Damian, você vai entender.

A única vez que ela o vira esboçar um sorriso foi há 40 segundos. Agora, ela ficou chocada vendo-o exibir um sorriso inteiro.

(Sala de jantar — um tempo depois)

Bruce estava silencioso, como de costume, durante o jantar. E Damian era a cópia exata de seu pai. Diana e Tim, ao contrário, sempre conversavam em meio à refeição. Ela perguntava sobre seu dia, sobre a escola, ou sobre os Titãs. E Tim “parecia um idiota”, pensava Damian, quando ela contava-lhe sobre suas missões na Liga ou aventuras incríveis de outros membros.

Bruce e Damian pareciam ignorá-los – mantendo os ouvidos atentos e as expressões de completa indiferença. A única mudança sutil no rosto e na postura de seu pai – que ninguém poderia ver – era quando o Superman era mencionado de forma elogiosa.

Esta noite foi um tanto diferente, Bruce quebrou o silêncio, iniciando uma conversa.

— Damian – ele não olhou para o filho diretamente, sentado à sua esquerda, mas percebeu que o menino tinha um olhar fixo nele – Diana me disse que vocês têm treinado juntos há algum tempo.

— Sim, pai... Há duas semanas, duas horas por dia. Ela me mostrou algumas técnicas de combate das amazonas e eu a ensinei a usar a katana para cortes mais limpos.

— Definitivamente, eu não gostei de saber que o treinamento dos dois pode resultar em mutilação e esfaqueamento, caso um de vocês cometa um erro qualquer durante o treino. – Bruce soltou o ar, como se sua respiração estivesse presa, em sinal de insatisfação – Mas Diana me convenceu que eu não deveria proibir. Ela garantiu que tem experiência o bastante para evitar que ambos se machuquem.

— Sim, pai. Eu também não cometerei erros. Não somos amadores – Diana riu, olhando para Bruce. Um elogio (mesmo que velado) de Damian era um sinal que ela estava começando a ganhar a confiança dele.

Bruce levantou o olhar para o menino, olhando diretamente ara ele.

— Ela me disse que você deseja sair em patrulha comigo.

— Eu sonho com isso desde que a mãe me contou sobre o Batman, pai. Eu trenei muito pra isso. Eu estou pronto. – Damian não conseguia esconder a expectativa de patrulhar com ele.

— Não...

— Mas pai...

— NÃO – Bruce disse autoritariamente. – não agora. Sou eu quem vai dizer quando você estiver pronto. – ele suavizou o tom.

— Eu vou mostrar-lhe que estou, pai.

— Você vai seguir as mesmas regras que o Tim teve que seguir: Treinar com Dick, depois Alfred e eu serei o último, para avaliar você. Siga as regras e seja obediente. Se você me derrubar em três tentativas, eu o levo comigo... por um tempo, como experiência.

Damian não poderia deixar de sorrir. Assim como Diana, Tim e Alfred. O menino, a partir desta noite, começou a mudar.

Salvar

Notas finais
*Gente, estou fazendo os capítulos enormes porque quero começar logo com os planos de Ra's. *Este é o último flashback do Damian. Acho que vocês já conseguem visualizar que é tão vítima das ações de seu avô e das escolhas de sua mãe quanto Bruce. *Dojo ou Dojô (em japonês: Dōjō, lit. “Local do caminho”) é o local onde se treinam artes marciais japonesas.