Broken Hearts

34 Garotas só querem se divertir


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“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”. (Pablo Neruda)

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*** Noite de sábado / Star City / Gilt Bar Night Club ***

Ele estava lá há uma hora. Observar o local, planejar o curso das ações e prever outros caminhos possíveis – caso o plano original não seguisse o curso previsto. Não é uma questão de paranóia, ou preciosismo obsessivo. Era simplesmente parte do trabalho. E, se houvesse um ranking para os melhores neste trabalho, certamente, ele estaria ocupando o pódio, se não, o primeiro lugar.

Não à toa ele estava justamente neste lugar, esta noite. Para executar a missão para qual fora muitíssimo bem pago.

Ele lembrou-se das palavras exatas:

— Três milhões de Euros já estão na sua conta, como parte do contrato. Se a sua missão for bem sucedida, você receberá mais sete milhões.

— Dez milhões de euros é muito para algo tão simples – Ele sondou o contratante – Não ache que está lidando com um idiota. Ninguém pagaria tanto se não houvesse um risco relevante. Quem é o alvo?

O contratante deu-lhe um olhar frio, incomodado com o tom do contratado. Como se a insubordinação dele fosse um insulto:

— Quando eu enviar-lhe os dados para informar-lhe sobre seu alvo, você entenderá porque a quantia é justa. – o contratante deu de ombros – Mas não se preocupe. Eu farei boa parte do trabalho. Eu direi quando for o melhor momento para agir. Aguarde minhas instruções.

Ele deu um sorriso fingido para a loira que se aproximara dele, apoiando o cotovelo na bancada elegante do balcão do bar. Ela era bonita, sem dúvida, mas nada fora do padrão de beleza de hoje, tão comum: loira, alta, magra, olhos amendoados, boca perfeita, muita maquiagem, vestido curto, colado ao corpo, decote exagerado, deixando pouco para imaginação.

Uma cópia das seis outras que se aproximaram dele desde que ele chegou. Bonita sim. Interessante, não.

“O que há com essas mulheres? Elas são todas iguais. Os mesmos cabelos, o mesmo corpo, a mesma personalidade fabricada, a mesma carência – oferecendo-se com urgência, matando o interesse de qualquer um, porque tudo é tão fácil que não há desafio na conquista, não há sedução ou troca de olhares. Tão patéticas”, ele pensou.

Quando seu olhar varreu novamente o ambiente, ele não conteve o primeiro sorriso sincero da noite. Três mulheres faziam sua entrada triunfal. “Valeu a pena esperar”, foi tudo que seu cérebro foi capaz de formular. Elas concentraram toda atenção dos presentes.

Mas não por se tratar de heroínas da Liga – já que vestiam trajes civis. O mérito era todo delas, de sua beleza, seu brilho natural.

A loira, voluptuosa, cheia de curvas, usava um vestido preto curto, mas elegante, de couro sintético, mais justo que Deus e botas de cano alto. Ela tinha um olhar poderoso, dominador e um homem ficaria feliz em obedecer seus desejos, como um escravo. “Canário Negro”, ele identificou.

A outra, completamente seu oposto: alta e magra, como as modelos de passarela. A pele tinha cor de canela e sua perfeição atraia qualquer um a experimentar de seu sabor. Os cabelos tinham um corte muito curto e moderno, e ela usava um conjunto que gritava ter sido desenhado por um grande estilista de grife sofisticada: uma calça com cintura alta e top exibindo as curvas perfeitas da cintura e a barriga chapada. “Vixen”, foi fácil deduzir.

Por fim, quem ele estava esperando: A mulher de cabelos escuros, longos e soltos, descendo lisos em cascata por sobre seus ombros e costas, formando lindos cachos nas pontas, como as ondas do mar.

Ele a observou com uma curiosidade genuína, que o surpreendera. Suas amigas pareciam à vontade, familiarizadas com o ambiente e com esse tipo de diversão. Ela não... E qualquer um com um olhar atento sobre ela perceberia seu olhar curioso sobre tudo: as pessoas, a música, as luzes, tudo. E ele mal percebeu o quanto isso a fez parecer, aos seus olhos, especial.

Mas ele também percebeu que não era o único que fora arrebatado. Não era de admirar os olhares sobre ela. Diana usava um vestido nude de cetim, pálido, feito sob medida, ajustando-se à cada curva de seu corpo – não deixando dúvida de que tal perfeição só poderia ser um capricho divino. O cumprimento até o meio da coxa mostrava as pernas longas, sem vulgaridade. O em forma de coração não mostrava muito – apenas o suficiente para que fosse impossível não desejar visualizar todo o resto, ao natural. Ela estava sexy, mesmo vestindo-se sem a intenção de sê-lo.

Naquele momento, seguindo-a com o olhar atento, ele sentiu-se naturalmente atraído por aquela mulher. Por esta criatura curiosa e tão diferente das mulheres que conhecera. Mas para alguém como ele, tão racional, convencido de que as relações não passam de uma troca de interesse, isso era raro.

De repente, ele queria ir até ela. Queria experimentar novamente a adrenalina da conquista. Queria conhecê-la. Descobrir o sabor de seus lábios. Orgulhar-se de ganhar suas afeições. “Hum... quem diria que seria tão divertido? E eu ainda seria pago pra isso?”, ele sorriu para si mesmo, tomando o último gole do scotch.

(...)

Para surpresa de Diana, ela estava se divertindo, mesmo quando achava que não poderia. Seu dia, desde que voltara do enterro de Peter Grant, em Gotham, tinha sido miserável. E, depois de ter o coração partido pelo homem a quem ela o entregou – contrariando sua cultura e suas crenças – Diana não achava que nada poderia ajudá-la a atenuar o gosto amargo que sua primeira desilusão amorosa tinha deixado em sua boca.

Um mês antes, se isso acontecesse, ela teria ficado zangada com Bruce, mas só porque estaria com ciúme. Nada mais... Ela não tinha noção alguma sobre datas especiais no Mundo do Homem, mas depois de ver Alfred, Tim, Kal, Wally, Shayera e, até mesmo, o próprio Bruce empenhados em fazer do seu aniversário um dia especial, que ela guardaria na memória, ela não podia conter a expectativa e a excitação de finalmente comemorar seu aniversário.

Por isso, quando Dinah e Vixen sugeriram que elas deveriam sair juntas para se divertir, ainda que seu coração machucado pedisse para que ela se isolasse em seu dormitório, ela aceitou. Afinal, ela era uma guerreira, a princesa das amazonas, a campeã dos deuses. E não envergonharia seu povo, suas tradições e sua cultura, chorando por causa de um homem.

Ela estava frustrada, com raiva e magoada. Mas estaria mentindo se dissesse que aquilo não estava fazendo-a sentir-se um pouco melhor. De certa forma, mesmo longe de desejar estar com qualquer outro homem que não fosse Bruce, era bom saber que era desejada.

Suas acompanhantes estavam em situação semelhante a dela, embora, seus motivos fossem diferentes.

John havia terminado com Vixen para voltar para Shayera e Dinah simplesmente estava cansada dos flertes de Oliver com outras mulheres – mesmo sabendo que fazia parte de seu ato. Como Batman, quando encarna Bruce Wayne.

Bruce havia ligado algumas vezes, tentando falar com ela, depois das tentativas frustradas de contatá-la pelo comunicador da Liga. Ela deixou uma mensagem MUITO clara para J’onn e Senhor Incrível, responsáveis pelo monitoramento, o que não estaria disponível para comunicação com o Batman.

E sorriu quando lembrou-se dos rostos de seus amigos. “Se algum de vocês transferir para o meu comunicador qualquer mensagem ou comunicação do Batman, vai conhecer de perto o quão dolorosamente letal é a fúria de uma amazona”.

Muitos homens ‘tentaram a sorte’ com Diana – e até algumas mulheres. Alguns lhe ofereceram bebidas; outros debulharam-se em elogios e galanteios; Os ricos ofereceram-lhe um lugar especial em seus camarotes exclusivos, prometendo dar-lhe tudo que ela quisesse; e algumas celebridades, vendo toda atenção que ela atraíra, queriam conquistá-la para garantir publicidade por, pelo menos, duas semanas nos tablóides.

Contudo, depois de um tempo considerável, os flertes antes divertidos tornaram-se entediantes na maioria. Embora alguns, bêbados, insistentes, passaram a assediá-la de maneira sufocante e Diana teve que reunir toda paciência que lhe restava para não dar-lhes uma lição bem ao estilo amazônico.

Para não estragar a diversão de suas amigas, muito bem acompanhadas por sinal, ela decidiu procurar um lugar mais tranquilo, longe do burburinho e das cantadas insistentes.

Subindo dois andares acima do andar da boate, a princesa encontrou uma área ampla, parcialmente descoberta. O local fora decorado com algumas plantas e flores naturais, algumas charmosas mesas de vime, espreguiçadeiras sofisticadas e uma imensa varanda, semelhante a um solar.

O espaço devia ter a mesma área da boate, mas contraditoriamente, não havia tanta gente, apenas alguns casais – obviamente procurando um lugar mais tranquilo para namorar. Além disso, não havia música eletrônica ensurdecedora, e sim um som ambiente, suave, que ela reconhecera de imediato. Ela amava a voz aveludada de Madeleine Peyroux, ainda mais cantando essa canção de Eliot Smith, ‘between the bars’. Era difícil não sorrir para isso. A música era melancólica e comovente, traduzindo seu momento.

*** Gotham City / BatCaverna ***

— Os arquivos que você solicitou, senhor.

— Obrigado, Alfred.

— Mestre Bruce, eu estou um tanto velho para opinar sobre a etiqueta contemporânea adequada, mas no meu tempo, o traje para um jantar não incluía uma armadura.

— Eu não vou jantar com Andrea, Alfred. Ela quer falar com o Batman... Então ela vai falar com o Batman. Só isso. Nada mais. Eu não quero que ela tenha a impressão errada. – Bruce disse enquanto observava todas as informações que Alfred tinha trazido no computador sobre Grant e a morte dele.

Ele imediatamente concentrou sua atenção nas finanças do promotor. “Siga o dinheiro. É sempre uma máxima que não falha, certo Alfred?”

— Lamento que senhorita Diana não esteja conosco hoje, mestre Bruce. Fiz o jantar com esmero. Esperava a companhia de seus amigos também, como combinado, senhor – Alfred suspirou.

Bruce continuou a percorrer as planilhas que detalhavam cada despesa de Grant. Sem levantar os olhos da tela do computador, ele disse com a mesma indiferença que podia:

— Na verdade... eu vou voltar logo. E vou trazer Diana, Alfred. Ela não quer me atender, mas eu vou convencê-la a vir. – Ele percebeu com o canto do olho Alfred sorrir – Você fez o bolo que ela gosta?

— Obviamente, senhor.

— Ótimo. Eu estarei de volta antes das 21h. Eu sei que você odeia quando prepara a comida e ninguém está aqui para apreciar.

— Oh, mestre Bruce, obrigada. Eu realmente fico comovido com o fato do senhor estar pensando em mim neste momento. Eu jamais imaginaria que o senhor está desolado por magoar senhorita Diana.

Ouvindo os passos desaparecerem atrás dele, Bruce fez uma careta. Alfred e sua insolência... Ele já devia estar acostumado. Mas ele estava fora de prática. O que era compreensível já que ele não namorava ninguém seriamente há um LONGO tempo.

Bruce balançou a cabeça para limpar seus pensamentos de Diana por instantes, já que quase a todo momento ela os invadia, sem pedir licença e jurou para si mesmo que iria consertar as coisas. Voltando o olhar para as conta bancária dos Grant, ele se inclinou, incapaz de acreditar no que estava vendo: “Andrea, no que diabos você se meteu?”

*** Star City / Gilt Bar Night Club ***

A princesa de Themyscira respirou fundo e percebeu um homem aproximar-se. Ele parou de mover-se quando chegou à borda da varanda, ao lado dela, perto o bastante para que ela o visse e longe o suficiente para não invadir o espaço dela.

Ela não conteve um suspiro cansado, pensando que seu momento de paz seria arruinado assim que ele se aproximasse para flertar com ela. Por isso, foi surpreendente o fato de que ele ficara em silêncio, imóvel, inabalável, por um longo tempo – sem importuná-la.

Não é como se ela fosse o tipo de mulher pretensiosa, cuja beleza é tão grande quanto sua arrogância, que sabe exatamente como usar seu poder de sedução e está entediada em lidar com bajuladores. Ela sequer entendia tais conceitos de sedução da sociedade ocidental. Diana era naturalmente sexy. Ela nunca fez qualquer esforço para seduzir.

A questão é que ele era o primeiro homem que se aproximara dela naquela noite e não “deu em cima dela”. A grande ironia é que, justamente por isso, ele foi o único que atraíra sua atenção.

Virando minimamente o rosto na direção dele, ela usou a visão periférica para observá-lo. Ela não queria encará-lo.

Ele era um homem alto. Um pouco mais alto que Bruce. O que era impressionante, já que Wayne era um homem bem mais alto que a média. Mesmo sob a jaqueta de couro, ela podia ver os ombros incrivelmente largos, braços fortes agarrando-se às mangas largas da roupa, o peitoral proeminente, abrindo espaço no meio da jaqueta, exibindo sua ampla perfeição.

A barba cheia, bem aparada; os cabelos negros, bem cuidados, corte masculino básico, e alguns fios brancos em lugares estratégicos, diziam-lhe muito sobre ele:

Era um homem, não um garoto. A aparência bem cuidada e as roupas sofisticadas – embora seu estilo fosse despojado – indicavam uma condição financeira muito confortável. Uma musculatura tão bem esculpida indicava que seu corpo fazia parte de suas atividades. Ele poderia ser um militar, um agente do FBI, ou do Governo, algo do tipo... E Diana sorriu, satisfeita consigo mesma, por suas deduções.

O que a fez lembrar-se imediatamente de Bruce. De tudo que ele lhe ensinara sobre Ciência Forense. De tudo que aprendera ao observá-lo durante suas investigações. De todos os livros de Sherlock Holmes que ele a fizera ler antes de instruir-lhe sobre a arte da dedução.

E lembrar-se dele a fez sentir-se triste...

— Eu espero não ser o motivo da sua tristeza. – o homem falou suavemente, voltando-se para Diana – Eu seria um homem miserável se minha presença aqui a aborrecesse.

— Não... Por favor... Não é você... – Diana tentou não mostrar sua mágoa. Pela primeira vez ao longo do dia, ela baixou a guarda. Ela não podia mais fugir da dor. Ela tentou não pensar em Bruce, mas não deu certo.

— Sempre que alguém termina um relacionamento, usa essa desculpa: não é você... sou eu. – ele exibiu um sorriso sedutor – Mas, sabe, pela minha experiência, essa é a maior de todas as mentiras. Se alguém diz que “não é você, sou eu”... pode acreditar que é você sim!! Então, sou eu que estou incomodando, certo?

Ele viu Diana tentar oferecer-lhe um sorriso fraco, mas seus olhos eram incapazes de negar sua tristeza. “Agora eu entendo porque dizem que ela é a ‘deusa’ da verdade. Eu posso ver através dela”, ele disse a si mesmo, surpreso com as emoções que essa missão, em particular, estavam despertando-lhe. Ele sempre considerou honestidade brutal como uma fraqueza. Mas vendo-a, tão verdadeira e honesta, sentia-se encantado, ao invés de decepcionado.

Ela o viu se aproximar lentamente e, em seguida, tocar-lhe delicadamente o queixo, levantando-o, para que ela olhasse em seus olhos. Era estranho para ela deixar um desconhecido chegar tão perto e tocá-la, como se fossem grandes amigos. Mas inexplicavelmente, Diana não se importava.

— Você já deve ter ouvido um milhão de vezes, mas eu não posso deixar de dizer que você é a mulher mais bonita que já vi em toda minha vida. – Ele parecia empenhado em fazê-la sorrir, dando-lhe um sorriso matador. Digno de Bruce Wayne, em seus momentos mais célebres.

Diana não pode deixar de sorrir em retribuição, enquanto rezava para que o rubor da sensação que sentira quando ele olhou pra ela tão perto, não se mostrasse em suas bochechas.

“Oh! Afrodite, ele é terrivelmente bonito vendo-o tão de perto”, ela pensou.

Nenhum dos dois viu o tempo passar, enquanto conversavam, sentados nas espreguiçadeiras do solar. A cada sorriso que Diana dedicava ao homem, acrescentava mais peso à sua função esta noite.

Então, quando ele a chamou pra dançar e ela aceitou alegremente, ele se convenceu de que seria um adeus – mas ao menos, como um triste fim, ele saberia qual a sensação de tê-la em seus braços.