Broken Hearts
35 Arrependimentos

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“Uma mente nobre tem vergonha de não se arrepender.” (Alexander Pope)
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*** Gotham City / Apartamento dos Grant ***
A noite caía em Gotham e a iluminação à meia luz no apartamento dos Grant deixava o ambiente com um ar de aconchego um tanto convidativo demais, por assim dizer. Não era um jantar à luz de velas, mas a iluminação fazia seu caminho para tal referência. Era um clima bem ambientado, como se preparado com esmero para ser convidativo e lúdico.
A mulher ruiva vestida de forma sedutora seria o complemento para que não houvesse dúvidas de que a intenção tinha um viés romântico demais para um encontro de amigos. Uma inadequação de mal tom para quem acabara de perder o marido, diga-se de passagem.
Mas Andrea Beaumont Grant não se importava. Essa era sua chance de consertar as coisas com seu amor de toda vida. De retomar o comando de seu destino, de sua vida e de realizar seus sonhos de onde ela parou. E Bruce deixou claro – ao menos para ela – que estava disposto a deixar sua namorada por ela, quando aceitou seu convite prontamente.
Arrumando pela terceira vez o vestido, para alisar pregas imaginárias na saia, ela olhou-se no espelho que decorava a sala de jantar e gritou, quando viu a figura amedrontadora do Morcego em um canto escuro.
— Jesus, Batman. Você me assustou – Ela disse assustada, mas com um tom decepcionado incapaz de esconder, ao vê-lo com o traje de Morcego.
— Senhora Grant, soube que quer falar comigo – Ele foi sucinto, deixando claro que não era uma visita social.
— Meu Deus, Bruce, você precisava me assustar desse jeito? – Ela levou a mão ao coração, tentando seu acalmar e esconder o desapontamento – Por que você está vestido assim? Pensei que iríamos jantar, desfrutar de uma boa conversa, lembrar os velhos tempos?!
— Você queria falar com o Batman, Andrea. O Batman está aqui. – Ele se aproximou e ela sentiu seu olhar gélido – Agora, que tal você começar me dizendo por que seu marido recebeu quantias indecorosas de dinheiro de uma fundação usada por Ra’s Al Ghul para lavagem de dinheiro?
Andrea ficou lívida por um tempo que parecia uma eternidade. Tudo que ela não queria era que ele fizesse o “dever de casa” antes de falar com ela sobre seu marido. Ela queria desfrutar de uma noite tranquila e tentar resgatar o que lhe fora tomado pelo destino, mas Bruce veio disposto a ser o Batman e não seu amado Bruce, para sua decepção completa.
— Você não mudou nada, não é querido? Não podia esperar que eu lhe contasse tudo? Que me abrisse com você? Como um bom amigo – Ela disse a última palavra dolorosamente. E ele não parecia se importar, para seu desgosto.
Ela tentou tocar o rosto dele – a parte de sua mandíbula exposta – mas ele segurou sua mão, com força, impedindo-a. Andrea raramente havia lamentado seu casamento com Peter, mas as mãos fortes de Bruce, ainda que enluvadas a faziam lembrar todo o amor que sentira e ainda sentia por aquele jovem universitário.
Só que a pessoa diante dela não era mais um jovem. Ele era um homem completo, amadurecido e calejado, cuja força e carisma exsudavam uma aura sexual que superava qualquer amante que ela já tivera em sua vida.
Por alguma razão, o poder dele sobre ela a fez sentir-se ainda mais vulnerável e de repente, dominada pelo estresse dos acontecimentos recentes, ela foi incapaz de parar as lágrimas.
— Bruce, por favor, me ajude! – Ela chorou – As coisas evoluíram a um ponto que eu não tenho mais controle. – Ela completou.
Batman permaneceu em silêncio e ela estremeceu por não sentir o calor de seu corpo a tentar solidarizar-se com ela.
— Eles me obrigaram a matar Chill.
— Quem? Quem a obrigou?
— Eu não sei. Foi Peter quem me trouxe a ordem. Ele estava desesperado. Ele não queria, mas ele teve que me obrigar a fazer. Disseram a ele que era um presente para você e que você saberia tudo quando chegasse a hora. – Andrea tentou recompor-se – Por favor, você precisa acreditar em mim. Eu não sabia sobre a ligação de Peter com Ra's Al Ghul até recentemente, quando ele me disse que o Fantasma precisava executar alguém.
Batman proferiu um punhado de maldições em silêncio. O Cavaleiro das Trevas odiava lágrimas porque era uma arma para a qual ele tinha pouca proteção. Especialmente lágrimas de mulheres bonitas. Mulheres que ele já havia amado. Por quem sentia-se responsável.
Ele ficou com pena dela e, desajeitadamente, abraçou-a. Consolar não era uma habilidade que ele praticava com frequência e se sentia ainda mais ridículo oferecendo seu abraço enquanto usava um traje de morcego.
— Por que você não me conta tudo, Andrea? Desde o começo.
*** Star City / Gilt Bar Night Club ***
Nenhum dos dois viu o tempo passar, enquanto conversavam, sentados na espreguiçadeira do solar. A cada sorriso que Diana lhe dedicava, acrescentava mais peso em sua função. Então, quando ele a chamou pra dançar e ela aceitou alegremente, ele se convenceu de que seria um adeus – mas que pelo menos ele saberia qual a sensação de tê-la em seus braços.
Ao fim da música, ao seu comando, um garçom trouxe champanhe e duas taças.
— Vamos fazer um brinde? – ele disse.
— A quê vamos brindar? – Ela sorriu
— À nós... A esta noite especial.
— À amizade... mas você não me disse seu nome.
— Wilson, Slade Wilson, princesa.
Diana aceitou a taça servida por Slade e sorriu. De algum modo, ele foi o único a chamar-lhe de princesa de um modo especial, como Bruce sempre fazia.
Ela sorveu delicadamente líquido borbulhante. E ficou positivamente surpresa com o sabor. Ela nunca tomara champanhe antes. Normalmente, em Themyscira, a bebida predominante era o vinho. E ela nunca teve grandes inclinações para bebida, como Shayera. Mas também não era uma abstêmia, como Bruce. Ela bebia ocasionalmente, quando tinha vontade de celebrar.
Mas até chegar ao Mundo do Homem, ela sequer supunha que havia uma variedade tão grande de bebidas. E apesar de ter apreciado o champanhe, dois minutos depois, sentindo uma forte dor de cabeça, ela disse a si mesma que não deveria beber novamente.
Sua visão ficou turva em seguida e Slade a amparou, com cuidado e sutileza, tomando-a em seus braços, com galhardia. Ele podia sentir o calor de seu corpo aumentar ao contato com a pele macia de Diana e não se conteve, beijando-a, mesmo em uma condição nada ideal.
“Por favor, não faça isso. Não... Por favor... Eu não posso... Não está certo!”, ela disse, com a voz fraca. Ela não queria que ele se aproveitasse dela. Mas ele não fora rude ou aproveitador. Era um beijo que dizia mais...
Era um pedido de desculpas. Era um adeus, ou não. Desde que as coisas saíssem como combinado.
— Fique tranquila, princesa. Eu não vou fazer mal ou me aproveitar de você. Vou levá-la para suas amigas. Então, descanse... Você vai precisar de todas as suas forças. – Ele a tomou delicadamente nos braços e caminhou em direção às escadas.
*** Gotham City / Apartamento dos Grant ***
— Acho que nunca superei o fato de que tivemos que nos separar, Bruce. Eu tinha esperanças de recomeçar de onde paramos e... – Andrea sorriu tristemente – Peter sabia disso, eu acho. Então um dia tivemos uma discussão muito séria e quase nos separamos. Ele se perguntava como poderia competir com Bruce Wayne?! – Ela continuou – Ele então quis vir pra Gotham para ser o promotor. Ele queria provar pra mim que podia ser melhor que você.
— Bastava você dizer que acabou há muito tempo, Andrea – A voz profunda do barítono a fez triste novamente. Bruce parecia resoluto.
— É isso mesmo Bruce? Acabou?
— Que eu me lembre, você foi embora, não foi? – O olhar dele era gelado como o de um iceberg.
— Sim, querido. Mas eu fui obrigada a partir. – Ela baixou o olhar. – Então, quando o Peter começou a gritar comigo que eu ainda te amava, eu cansei disso e disse a ele que nunca poderíamos ficar juntos por causa de quem você é, por causa da sua outra vida.
— VOCÊ O QUÊ? – Ele congelou. Um calafrio percorreu sua espinha. Seu coração parou. – O que você fez, Andrea? O Que diabos você fez? – o tom era mais baixo, mas muito mais ameaçador.
*** Star City / Gilt Bar Night Club ***
Um homem grande e forte trazia uma princesa um tanto em desequilíbrio em seus braços. Ela parecia balbuciar algo, mas era incompreensível. E Dinah ficou preocupada.
— Por favor, ela desmaiou em meus braços. Vocês precisam levá-la agora. – O homem disse, visivelmente preocupado.
O homem as ajudou a levá-la até o carro em que as três vieram. Diana estava rindo, um tanto grogue, mas a aparência era semelhante aos sintomas de embriaguez.
Sem que as amigas dela percebessem, Slade olhava para Diana com uma certa preocupação. Mas o cuidado e zelo com que ele a carregava, fez o coração de Dinah e Vixen menos preocupado. Vendo-o tão empenhado em guardá-la e protegê-la, como se gostasse dela. Então não tiveram dúvidas de que era um cavalheiro que apenas acudiu sua amiga um tanto inebriada pelo álcool.
Diana proferia frases desconexas para todos como “Não me beije, por favor. É errado. Eu ainda o amo. Eu... o odeio, mas eu ainda o amo” e fez suas amigas rirem, achando que ela estava em busca justamente do contrário: beijar os lábios do homem devastadoramente sedutor que a trouxe amavelmente em seus braços.
Antes dele colocá-la no Uber, Slade deu-lhe um beijo casto, na testa e sussurrou para Diana em som inaudível para outrem. “Não se preocupe, princesa. Se o idiota do seu namorado fizer tudo certo, você ficará bem. Eu prometo”, ele olhou para ela uma última vez, enquanto a colocava delicadamente no banco de trás. “Se ele não fizer, eu terei muito prazer em matá-lo. E isso é uma promessa”, ele frisou resoluto.
Vixen e Dinah riam para Diana, que bradava, tonta, melancólica e debilitada que sua mãe não criara “uma filha estúpida, apaixonada por um Morcego burro. Que o ama e não consegue sequer beijar outro homem”. O que elas não sabiam é que a princesa de Themyscira estava delirando e não embriagada.
— Bem, sua alteza embriagada, é melhor irmos pra casa. – Dinah sorriu.
(...)
Elas estavam indo ao apartamento de Dinah, em Star City e Diana estava deitada sobre todo prolongamento do banco traseiro espaçoso. Enquanto Vixen e Dinah estavam sentadas amparando-a, em cada um dos lados, ambas com copos de bebidas nas mãos.
— Mari, ela não parece nada bem – a loira proferiu. – Di, você está bem? – Dinah perguntou.
Diana balançou a cabeça negativamente, mas descobriu rapidamente que o movimento só fez a sensação latejante de dor de cabeça piorar em demasia. Ela nunca teve uma dor de cabeça tão debilitante assim e agora prometera a si mesma nunca mais beber champanhe novamente.
Ela fechou os olhos para organizar seus pensamentos e disse fracamente:
— Minha mãe sempre disse-me o quanto odeia Lorde Hades, mas eu vejo nos olhos dela que ela talvez ainda o ame, de alguma maneira. É verdade que nada pode se sobrepor ao primeiro amor?
Dinah ficou em silêncio. A pergunta feriu muito seu coração. Mas nada comparado à dor de sua amiga Mari.
— Não me venha com essa conversa. Eu já tenho problemas demais com o fato do meu ex-namorado terminar comigo para voltar para seu amor do passado. – Vixen desabafou.
— Quando vai parar de doer, Mari? Eu não quero ser como minha mãe. Eu quero libertar meu coração. Ele é o primeiro homem que amei na vida. E eu o amo com toda força do meu coração. Mas, acho que ele deve voltar para ela, para seu amor do passado. – Diana lamentou profundamente – Isso nunca vai passar? Nunca vai parar de doer desse jeito? Diga-me, Dinah! Por favor!
— Eu... eu não sei o que dizer, Diana. – A mulher loira bebeu o resto da bebida quase chorando também. Era a dor de sua amiga somada à dela. Um misto de esperanças que não são mais as mesmas de quando seu coração era ingênuo. Agora, ela era calejada pela vida e Ollie tinha grande parte nisso – Falando por experiência, eu acho que é difícil esquecer o nosso primeiro amante, porque nós somos tão inocentes e idealistas quando amamos pela primeira vez. Não foram feridos ainda. É tudo tão puro e tão bonito. Agora não. Agora tudo tem um gosto amargo de cinismo – Dinah disse, olhando para Diana e fazendo um carinho em seus cabelos – Mas eu sei de uma coisa, Di... Ele ama você. Bruce não é de demonstrar qualquer tipo de afeto, mas ao seu redor, ele nunca consegue esconder isso. A Liga inteira sabe... Até o tempo que ele passa na Estação. Para um membro parcial, ele dedica tempo demais à Liga, você não acha?
— Diana, o que está errado? – Mari pediu para o motorista parar o carro de súbito, preocupada.
Dinah se inclinou para frente e agarrou as mãos de sua amiga. A Princesa Guerreira estava segurando seu peito arfante, quase como se faltasse o ar. A tez pálida, as mãos geladas, um suor frio escorrendo pelo rosto. Diana tremia como as folhas de outono sob a ação do vento forte pré-invernal.
Os olhos congelados, petrificados e uma espuma branca saindo dos lábios. Ela estava convulsionando e, de repente, começou a cuspir sangue.
— TORRE DE VIGILÂNCIA – Vixen gritou – ENFERMARIA AGORA. TELETRANSPORTE PARA TRÊS. É URGENTE. AGORAAAAAAA!!
*** Gotham City / Apartamento dos Grant ***
Andrea recuou, de súbito, incapaz de encontrar os olhos acusadores do homem que amava. A fúria que ele exibia era dilacerante para ela.
— Eu não planejei isso, Bruce. Eu juro! – Ela lamentou – Eu implorei ao Peter pra guardar segredo. As palavras simplesmente saíram, sem querer. Ele estava me pressionando por uma prova do meu amor. Eu estava cansada das acusações dele.
— Pro inferno com seu cansaço. Você tem idéia do que fez? – Ele se segurou para não esbofeteá-la com força, torcendo um objeto de metal, com a raiva que se apoderou dele, em uma reação catártica, para liberar sua frustração em algo que não fosse a mulher à sua frente.
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“Sentinela para Batman. Batman, responda, é urgente. Sentinela para Batman”, uma voz frenética e angustiada soou no comunicador auricular, cortando o silêncio mortal no recinto.
Sem desviar o olhar frio de ódio da mulher diante dele, Bruce respondeu imediatamente “Estou ocupado”, rugindo com raiva, desligando o aparelho sem ouvir qualquer mensagem que fosse proferida. Ele não podia lidar com uma emergência qualquer da Liga. Não agora. O que quer que fosse, poderia esperar!
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— As coisas ficaram bem entre mim e o Peter depois disso e ele prometeu não dizer nada. – Andrea tentou justificar-se em vão. – Eu só descobri o envolvimento dele com essa fundação há um mês, quando veio a ordem para que eu matasse Joe Chill. Eu o confrontei sobre isso e ele me disse que se eu fizesse o que mandaram, iria ficar tudo bem. Ele me disse que Ra’s iria financiar sua campanha para prefeito de Gotham. Bruce... Por favor... Entenda!
— Cala boca! – Bruce gritou – Primeiro você me trai para ficar bem com seu querido marido e agora você piora tudo com uma ligação entre ele e Ra’s Al Ghul. Você nem sabe para quem ele passou os detalhes sobre minha identidade, Andrea – Batman estava praticamente pairando sobre ela, com ódio evidente em seus olhos.
— Bruce, eu pensei que se eu... – Andrea tentou tocá-lo para conter sua raiva.
— O problema é que você não pensou nada, Andrea. Você não pensou. Eu ainda não deduzi se você é burra ou mal intencionada – Ele disse, arrependendo-se por ser tão cruel. – ou melhor, você pensou em si mesma.
— Como você pode dizer isso, quem é você? – Ela ofegou – O Bruce Wayne que eu conheço nunca seria tão cruel comigo. Ele é um bom homem.
— Tenho certeza que você não pensou neste bom homem e na segurança daqueles que este bom homem ama. Apenas em como daria uma prova de amor para ganhar a confiança do ambicioso Peter Grant – Ele disse em tom ainda mais frio – Agora, adivinhe: ele já foi eliminado e você deve ser a próxima da lista. Foi a coisa mais estúpida que você fez.
— Não importa se você acredita em mim, Batman. Eu jamais faria intencionalmente qualquer coisa para machucar o homem que eu amei e que sempre vou amar. – Ela disse, erguendo o queixo – E o Peter pode não ser o fantástico Cavaleiro das Trevas, mas eu sei que ele sempre foi um homem honrado. Ele deve ter morrido tentando proteger sua identidade.
Batman soltou uma lufada de ar com todo sarcasmo que pode reunir. Enquanto Andrea continuou mantendo sua postura régia, como se quisesse mostrar que estava convicta de sua crença de que não fez nada errado.
— Pense, senhora Grant. Eu sei que é difícil, mas tente – Ele bradou – Por que matar alguém que tem informações que você precisa? Você não mataria alguém que tem o que você quer!
— Não. Não mesmo. Você tem razão. – Ela admitiu.
— Então, por que o mataram, senhora Grant. Pense bem e me responda.
Andrea ficou lívida de medo e um suor frio desceu por seu rosto pálido:
— Só se não precisassem mais da informação. Só se tivessem a informação!
— Touché, senhora Grant!
— Oh, Deus, o que eu fiz? O que eu fiz? – O Batman havia desaparecido e Andrea cobriu o rosto com as mãos, desolada, com medo do que estava por vir.
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