Broken Hearts

33 Autossabotagem


Notas iniciais
Meus queridos leitores, Eis que é chegada a hora: Bruce faz sua jogada mais previsível – Estragar a própria vida. Uma arte que ele domina com maestria. Beijos, Wonderbaties! ♥

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“Sabotar-se

Tornar sonho em pesadelo

Seguir tristonho, enxugar gelo

desprezar a destreza contida”

(Hermes Fernandes)

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*** Duas semanas depois / Whatchtower / tarde de sábado ***

O suor fino que escorria pelo pescoço da princesa das amazonas reunia-se no topo de seu busto. Ela odiava ter que desperdiçar tanto tempo com um oponente. O breve descanso para um respiro um tanto mais longo a expôs a outro golpe duro. E ela mal conseguiu proteger o rosto com os pulsos elevados em guarda.

— Cretino, desgraçado! – Ela murmurou em voz alta, com um grito enervado e feroz, rosnando. A fúria em seus olhos, a raiva nos lábios, a frustração na ponta da espada.

— Princesa... Você não passa de um adversário medíocre! – o robô, assumindo a forma do Cavaleiro das trevas bradou, ironizando sua baixa guarda. Enfurecendo-a ainda mais.

Havia uma pilha de drones já abatidos no canto da sala de luta: Lordes da justiça já derrubados, e inúmeros outros vilões-robôs em consonância. Era um prejuízo considerável ao bolso do financiador da Liga, coincidentemente um certo Bruce Wayne, playboy, filantropo, mulherengo, etc... E infelizmente, intimamente ligado à ela. Mas ao contrário de injuriar-se com o prejuízo, ela estava feliz de dar-lhe ao menos um tanto de aborrecimento.

Com algumas manipulações mecânicas hábeis feitas com tecnologia marciana, os clones estavam agora disponíveis para qualquer um na Liga da Justiça que quisesse melhorar seu treinamento. Enquanto eles não abrigavam qualquer pensamento independente, como uma inteligência artificial, J'onn decidiu torná-los dignos de dar uma boa sessão de sparring os leaguers, mantendo alguns dos movimentos originais e personalidades de seus clonados.

O robô do Batman tinha todo maneirismo irritante de seu homólogo humano, no que diz respeito à crueldade no traquejo de suas técnicas, à ataques e provocações irritantes projetadas para desestabilizar seu oponente até que ele cometa erros estúpidos.

Diana manteve-se firme para evitar uma série de golpes do especialista em artes marciais. Ela tinha lutado com todos os clones do robô antes e ainda achava que as versões do Batman eram as mais difíceis de derrotar, até mesmo que as do Superman, que eram as que batiam mais forte.

Eles eram mais difíceis de prever os movimentos e, embora Diana soubesse que isso era devido ao foto de que Bruce fez em seu drone alguns ajustes extras, ela acreditava que sua imprevisibilidade era um mero reflexo do que era o verdadeiro Batman.

Mas era o que ela queria. Lutar até a exaustão. Lutar com ele. Dar-lhe uma boa surra.

Diana tinha vindo para a sala de treinamento para liberar as tensões. Mas sua mente estava em outro lugar.

Pegando o chute frontal do robô dolorosamente contra seu quadril, ela agarrou firmemente a perna mecânica e desferiu um chute certeiro nas partes íntimas do drone. Quando o robô caiu no chão, desprovido de sua perna esquerda, Diana agarrou sua cabeça e torceu viciosamente, arrancando-a, sem piedade, decapitando o Batman figurado.

— Hum... alguém está zangada. Isso foi, no mínimo, impressionante. – Uma voz feminina aplaudiu.

Diana balançou a cabeça para jogar os pensamentos ruins para longe e caminhou em direção à Dinah. A loira estendeu uma toalha e uma garrafa de água que a amazona aceitou com gratidão.

Ela engoliu metade da garrafa antes de dizer obrigada.

— Foi uma ótima exibição. Mas, à propósito, você sabe que o impulso do joelho foi inútil, não é? Não é como se o robô fosse um homem de verdade e pudesse sentir a dor que você queria causar lá embaixo.

Ambas riram para o comentário sarcástico. Era uma dádiva que Dinah tinha senso de humor.

— O que ele fez dessa vez? – Dinah seguiu com o comentário. Era absolutamente previsível que em algum momento Bruce ‘meteria os pés pelas mãos’ e faria algo que sabotasse os planos de felicidade de ambos.

— Bom... Você tem quanto tempo disponível? Porque, se eu contar tudo, vai demorar um tempo considerável! – Diana sorriu melancólica.

FLASHBACK ON

*** Gotham City / Cemitério / Manhã de sábado ***

Bruce Thomas Wayne simplesmente odiava funerais e este não era exceção. Mas ele tinha que estar lá, naquela manhã fria. Naquele lugar que abominava. Não apenas pela morte de seus pais, como outrora, mas um dano agora agravado aos seus sentidos após ser obrigado a retirar Diana de dentro de uma sepultura. A sepultura de seus pais.

Ele observou as pessoas de longe. Especialmente Andrea, chorosa, em frente ao caixão que lentamente fazia seu traçado ao solo. Ela estava bonita, mesmo em meio à dor.

Andrea estava ao lado do padre, observando o caixão ser lentamente rebaixado à seis metros do chão.

Dizem que nenhum outro sentimento vindouro é capaz de se sobrepor ao primeiro amor, mas Bruce não pensou que tal viés viria à influenciá-lo de qualquer maneira.

Mas ele fora incapaz de reavaliar a situação deles, recapitulando os motivos pelos quais não havia dado certo o relacionamento deles. Tudo que pode dizer a si mesmo, no fim, é que mesmo se ela não tivesse ido embora, uma hora ou outra ele assumiria seu lado negro. E a lógica o levou a crer que amava essa escuridão mais que a ela. Ou será que não? Ele não queria pensar nisso agora.

Neste momento, tudo que ele sabia é que o marido dela, Peter Grant, havia sido assassinado em circunstâncias misteriosas na noite da sexta-feira e ele deveria estar lá, no funeral, mesmo de longe, para prestar solidariedade e seus pêsames a uma amiga tão queria que precisava de seu apoio.

Perdido em seus pensamentos, Bruce não notou a chegada da mulher alta e esguia ao seu lado, até que sua voz inconfundível e melodiosa atingira seus ouvidos.

— Você se importa se eu me juntar a você, senhor Wayne? Assim como você, eu também não pretendo chamar atenção.

— Princesa?! – Ele estava surpreso com a presença dela no local.

A decisão que tomara para o tom que Bruce usou em sequência pretendia afugentar seu nervosismo, por estar em um ambiente que o desequilibrava, mas soou como uma grosseria irônica desnecessária.

– Eu não sabia que Themyscira tinha quaisquer interesses nos assuntos dos políticos e na promotoria de Gotham. – Ele queria punir-se imediatamente após proferir um tom tão desdenhoso e mal escolhido para lidar com ela. Mas já era tarde. Ele já havia desferido seu golpe inconsequente.

— Bom, eu também não sabia que um notório playboy, mulherengo, inconsequente e indiferente se importava com tais assuntos. Normalmente Bruce Wayne só se preocupa com festas, bebidas e mulheres... – Ela respondeu na mesma medida – Mas, já que o assunto são mulheres... Talvez haja um interesse genuíno dele na viúva... Isso não me surpreende.

— Cuidado, alteza... Se você prosseguir com sua ironia, eu posso ter a impressão errada. Eu poderia pensar que você está com ciúmes.

Ela não respondeu, mas ele sentiu a energia contida e insatisfeita que ela emanou. Era quase palpável.

Paralisados, olhando para o horizonte à sua frente, os dois ficaram lado a lado em silêncio. Uma chuva fina começou a cair e ele pôs o sobretudo sobre ela, para protegê-la da chuva.

Ele queria desculpar-se. É certo que inúmeras vezes ele parecia insensível e grosseiro. Mas esta era uma tentativa de pedir-lhe desculpas. De mostrar que se importa com ela. De um jeito ridículo, mas honesto.

Ela não entendeu dessa forma... Achou que era pura etiqueta. Fruto da criação elegante e irretocável com que Alfred o educara. Ele deveria ser um cavalheiro. Sempre! Não importava com quem ou o quê. Não era porque ele se importava ou coisa do gênero.

E isso a faz sentir frio. Um frio que vinha de dentro pra fora. Um frio do qual o sobretudo não poderia proteger.

A chuva estava chegando ao fim e Bruce notou com gratidão que o funeral também. Uma fila se formou em frente à Andrea enquanto as pessoas caminhavam para oferecer-lhe suas condolências.

— Sinto muito, senhor Wayne... Eu sei o quanto você odeia funerais... – Diana disse, em um tom tão baixo, que teve medo de não ser ouvida – Eu só queria estar aqui por você, pra que não passasse por isso sozinho. – Ela completou suavemente, os olhos ainda virados para frente e não olhando para seu companheiro.

Bruce amaldiçoou a si mesmo em silêncio por ser um imbecil completo. A sensação de que não a merecia só mostrou-se ainda maior neste momento. Ele não disse nada que a fizesse reconhecer que ele havia ouvido-a, mas pegou sua mão, delicadamente, colocando-a em volta do braço, como se a reclamasse para si. Como se tivesse medo de perdê-la.

— Bruce, você veio. – A voz calorosa o cumprimentou.

— Andrea, meus pêsames – Ele disse francamente. Ele conhecia a dor de perder um ente querido.

Andrea inclinou-se para a frente, seus braços estendidos para abraçar Bruce, sem se intimidar com a presença de Diana. Obrigando-o, por decoro e etiqueta, soltar-se de Diana para abraçá-la.

— Olá, querida – De repente, depois de roubar o abraço de Bruce para si por quase um minuto, Andrea “lembrou-se” da presença de Diana.

— Senhora Grant, meus sentimentos – Diana olhou para a mulher que se aproximara de Bruce e agora se inclinava um pouco contra ele. Ela também era alta, apenas uns centímetros a menos que Diana.

De repente, ela achou aquela mulher tão feminina e se sentiu tão rude, tão guerreira, tão aquém dos afetos dele. Ela não conseguia evitar o sentimento.

Aquela mulher tinha um história com o homem que ela amava. Ela conhecia um lado de Bruce que Diana não sabia se poderia um dia conheceria. No entanto, apesar de seu ciúme muito doloroso, Diana não podia deixar de sentir uma compaixão sincera por aquela mulher que acabara de perder o homem que amava, cujo rosto estava cheio de lágrimas.

— Por favor, aceite minhas condolências por sua perda, senhora Grant. – Diana finalizou.

— Obrigada, querida – Andrea respondeu – Ela olhou para Diana com um sorriso doloroso. – Eu não reconheci você quando fui à mansão, mas Peter soube na hora em que a viu ao lado de Bruce. Você é a Mulher Maravilha. Eu disse que ele era louco – Ela sorriu com tristeza – Mas ele disse que podia reconhecer seu rosto em qualquer lugar. Ele era um grande fã seu, sabia? Para ele, você é a mulher mais corajosa e bonita do mundo. _ Diana ficou surpresa e Bruce se manteve impassível, apenas rangendo a mandíbula levemente – Eu não nego que isso me deixava brava e ciumenta. Que bobagem, não? – Andrea olhou para o chão, chorando.

Diana sorriu para ela, com gentileza.

— Bruce, querido. Você acha que podemos jantar estar noite? No meu apartamento? – Ela disse, chorando – Eu não quero ficar sozinha. Estou com medo – Quando ela viu Bruce hesitar em aceitar, Andrea colocou a mão em seu peito, em súplica enervante – Por favor, Bruce. Não me negue isso. Não hoje... Eu preciso falar com o Batman. Eu preciso de ajuda.

— Tudo bem – Bruce respondeu – Que horas você quer que eu vá até lá?

— Às 19h está bom pra você?

— Claro!

Eles se afastaram para deixar a próxima pessoa prestar os pêsames à Andrea e, quando saíram do cemitério em direção ao estacionamento, Bruce se encontrou mais uma vez agradecido por Diana estar lá com ele e por ele. Ele estava angustiado e não sabia o motivo. Algo o estava rasgando por dentro. Um incômodo premonitório.

A chuva começou a ficar mais forte e as gotas estavam caindo violentas. Mesmo com seus passos rápidos, eles ainda estavam ligeiramente úmidos quando entraram na limusine de Bruce. Alfred, proficiente como sempre, deu-lhes duas toalhas de mãos para enxugarem-se minimamente.

— Bom... Então, vocês vão jantar juntos hoje? – Diana disse, sem olhar pra ele.

— Diana, não tire conclusões precipitadas. Ela é só uma amiga precisando de apoio, princesa. – Ele respondeu, meio sem graça.

Diana não disse nada. Apenas emitiu um ruído que pareceu um deboche e isso o irritou, mas não por causa dela e sim porque ele não sabia como lidar com a situação e estava perdendo o controle de suas emoções.

— Sabe o que eu realmente odeio, Diana? Você e Alfred... Esse tipo de reação que me irrita em vocês dois. Um hábito completamente dispensável que você aprendeu com ele. Me repreendendo sem realmente dizer o que pensam. É algum tipo de deboche? Basta dizer o que pensa, está bem? Simples assim! — Bruce praguejou e ela não se deu ao trabalho de responder. Como se ele não existisse.

— Pelo menos olhe nos meus olhos, Diana! – Ele elevou a voz.

Ela sequer deu-lhe um movimento para indicar que estava ouvindo. E continuou olhando a chuva cair, mas agora, com a janela aberta, com a mão pra fora do carro, deixando que os pingos grossos a molhassem.

Ele tentou tocar sua mão e ela se afastou. Era um sinal claro que ela não queria que ele a tocasse. Mas isso não foi o pior. Bruce não estava preparado para o que veio a seguir, quando Diana voltou-se para o motorista:

— Alfred, você poderia por gentileza fazer-me um favor?

— Certamente, alteza. O que deseja? – Alfred respondeu, um tanto atônito, prevendo que a discussão deles não terminaria bem.

— Pode parar o carro e destravar as portas. Eu gostaria de sair. Eu quero andar. Não quero ficar nem mais um segundo aqui. – Diana disse, já abrindo a porta.

— Diana, volte aqui. Você não pode sair assim. Dianaaaaa... Dianaa... Por favor... Diana... – Bruce viu que era tarde. Ela havia alçado vôo, tentando deter a chuva com as mãos à frente dos olhos.

Alfred, vendo que o trânsito o impedira de seguir em frente, decidiu que era hora de fazer seu arremate, preciso como sempre, como um bom inglês:

— Mestre Bruce, eu acredito que o senhor tenha muito a agradecer a vossa alteza por seu comportamento elegante. Se eu bem conheço as senhoritas com as quais o senhor costumava se relacionar, uma bofetada seria um acontecimento esperado dada a gravidade do problema que o senhor acaba de causar.

— Alfred, pelo amor de Deus, é só um maldito jantar. Eu a amo. Eu só aceitei esse jantar para dar apoio a uma amiga. Nada mais. – Ele disse.

— Senhor, o senhor esqueceu que dia é hoje?

— Que dia é hoje?

— Hoje é o dia em que o senhor tem um jantar marcado com...

Antes que Alfred completasse, Bruce se adiantou

— Merdaaaaaaaaaaa... O jantar com Diana. Merda. Merda. Merda!! – Bruce esmurrava sem parar o braço de couro do banco do veículo.

— Mestre Bruce, eu diria para o senhor moderar seus palavreado, mas diante das circunstâncias, vejo que a palavra é mais que apropriada. Afinal hoje...

— É o aniversário dela... Merda Alfred. O que eu fiz? O que porcaria eu fiz, Alfred?

Ele entrelaçou os dedos entre as mãos e pousou o rosto sobre elas, em desespero visível. Uma dor percorreu todo o corpo. Um sentimento de culpa e angústia.

Fora seu movimento mais estúpido. Sua jogada mais reprovável. Ele estragou tudo com a mulher que amava. Ele sabia que em algum momento faria um movimento desastroso e a magoaria. Mas isso foi muito mais estúpido do que ele esperava de si mesmo. Tão estúpido que ele não sabia sequer o que fazer.

FLASHBACK OFF