Broken Hearts
56 A queda dos deuses ( Parte III )

► "Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória, sofrerá uma derrota. Se não conhece nem o inimigo, nem a si mesmo, perderá todas as batalhas”, (Sun Tzu – A arte da guerra) ◄
• No capítulo anterior...
Superman viu a imagem de Sanders na TV. Embora suas palavras fossem um sussurro inaudível para um ser humano comum, o ruído captado pelos microfones nos helicópteros de TVs era audível para ele. O homem de aço ouviu sem grande dificuldade o que o negociador disse aos paramédicos e policiais na escada de acesso.
“Ele disse que Superman é o único confiável. Porque todos fomos corrompidos pelo Sistema. Ele só vai falar com ele antes de pular (...) Como diabos eu vou achar o Superman?”.
Ninguém na redação do Planeta Diário percebeu quando Clark Kent desapareceu. Ele não se preocupou em ir até o elevador, o banheiro no andar de baixo e, usando a janela para sair, voar em disparada para ser o herói que a cidade precisa.
Ninguém estava olhando na direção dele. Tudo que Jimmy, que estava na baía ao lado da sua viu, foram os papéis da mesa dele voando e caindo no chão. Ele achou que havia sido uma rajada de vento, quando viu a janela aberta.
O Homem de Aço cruzou o céu da cidade para ser o herói que Metrópolis espera que ele seja.
• Agora...
♣ Metrópolis || Lex Corp. Tower ♣
|| 1º de Março ||
A comoção evidente no burburinho da multidão – policiais, jornalistas e curiosos – aglomerada em frente ao prédio corporativo da família Luthor tinha um motivo: a expectativa de que o homem apontando para um pequeno traço, ao longe, no horizonte, estivesse certo quando gritou: “É ele... É o Superman”
Mesmo vendo apenas um rabisco no meio de uma nuvem branca, o entusiasmo das pessoas era contagiante. Elas amavam seu herói. E agora, sendo o Superman o ‘líder’ da Liga da Justiça, o sentimento era bem mais próximo da presunção cheia de orgulho dos cidadãos de Metrópolis que da gratidão altruísta – “seu herói era o líder dos heróis; o maior deles”.
Clark não pensava dessa forma. Honestamente, ele preferia que o Batman assumisse o cargo. Era uma responsabilidade que ele entregaria de bom grado nas mãos de Bruce ou J’onn.
Bruce... Não foram raras as vezes em que ele pensou em seu melhor amigo, quando, vestindo a capa do Superman, foi publicamente homenageado por seus atos heróicos em favor da Cidade. Pensava no quão injusta e ingrata era Gotham com seu protetor. Para ele, Batman era o herói que mais merecia o reconhecimento e a gratidão dos seus protegidos.
O sacrifício de um homem, sem poderes especiais, combatendo um tipo abominável de mal, era infinitamente maior que o de qualquer herói que conhecera.
(...)
Em Metrópolis, todos tinham certeza de que o Superman viria. E vibraram com o vislumbre do azul-marinho denso do seu traje e o vermelho de sua capa dançando no vento. Eles olhavam para o céu, tentando ver o encontro de seu herói com o homem que ameaçava se jogar, mas a torre era alta o bastante para limitar a visão. Tudo que se podia ver, era um borrão azul e vermelho ao longe, pairando no céu, em frente a outra figura também desfocada, no parapeito do prédio.
— Eu ouvi dizer que queria falar comigo, senhor...? – o último filho de Krypton usou um tom tranquilo e pôs-se à uma distância segura e confortável para o suicida, para não assustá-lo, ou intimidá-lo.
— Walsh... Gregory Walsh. Mas todo mundo me chama de Greg – ele estava nervoso e o Superman ouvia o ritmo frenético de seu coração – Vo-vo-você é o Superman, certo?
— Sim... e eu vim para ajudar você, Greg. – Kal se aproximava lentamente.
— NÃO! – O grito irritado desequilibrou Greg e Clark viu o corpo do homem balançar e quase cair, antes de conseguir apoiar-se novamente na borda da janela aberta, da sala do último andar, que usou para chegar onde queria. – Eu não preciso de ajuda. Eu não vou mudar de ideia.
— Greg, não faça isso. Me deixe ajudá-lo. O que quer que você esteja passando... Sempre há esperança. – Clark olhou pra ele com simpatia genuína. Claro que ele podia salvá-lo e acabar com o ‘circo’, mas ele só retardaria a morte de Greg por um tempo. Ele queria apoiar e convencer o homem a desistir daquilo e buscar ajuda profissional.
Greg vestia um conjunto de agasalho e calças de moletom. Ele tirou uma caixa retangular do bolso lateral fundo da calça, de tamanho extra-grande, adequado à forma excessivamente robusta de seu corpo, reagindo à aproximação do Homem de Aço.
Clark viu o objeto, mas não conseguiu ver o conteúdo.
“Uma caixa de chumbo... Porque? Como ele poderia saber que o chumbo bloqueia a visão de raio-x? Esta era uma fraqueza praticamente desconhecida, mesmo entre alguns fundadores, quiçá do público. Diferente da Kryptonita”, sua mente questionou enquanto ele se aproximava, enviando-lhe um alerta de que havia algo errado.
Tarde demais!
Ele já estava perto o bastante de Greg, que apontou a arma que retirou da caixa para seu peito.
Uma onda de alívio o varreu quando viu a arma. Afinal, era apenas um revolver. E todo o mundo sabia que balas eram inúteis contra um alvo indestrutível. Contudo, Greg fora esperto demais para esconder que tinha uma arma dentro da caixa de chumbo. Aquilo não fazia sentido.
Um helicóptero da CNN estava transmitindo a cena ao vivo para o mundo.
Então... Quando o Superman ouviu o disparo, transmitido via satélite, ao vivo, para o mundo, ele não esboçou qualquer preocupação... Até ver o sorriso cínico de Greg.
Clark sentiu o peito arder como se uma brasa tivesse sido despejada sob sua pele. Queimava cada vez mais profundamente, de dentro pra fora, minando suas forças.
Ele olhou para o símbolo da Esperança em forma de S no peito. O símbolo da família El, lembrete de sua origem e herança Kryptoniana.
Havia uma perfuração. Um buraco de bala de onde começou a jorrar um líquido viscoso.
Foi assim que Kal-El viu, pela primeira vez, que seu sangue era tão vermelho quanto o sangue dos humanos que jurou proteger.
***
• No capítulo anterior...
Diana estava absorta, admirando as pessoas dançando na rua. Era a primeira vez que ela se deparava com um flashmob e aquela animação despertou nela sentimentos maravilhosos.
Ate alguém esbarrar nela com força. O que chamou sua atenção: um humano normal teria se machucado se batesse nela sem querer. Ela havia apenas sentido um leve encontrão, mas foi o suficiente pra saber que era um meta-humano. E ele ou ela estava com pressa, se escondendo na multidão, usando um conjunto de moletom com capuz escondendo o rosto.
Era a cidade de Bruce e ela iria ouvir um sermão sobre as regras de ‘não se meter em seus negócios’. Mas ela o amava o bastante para não deixar que nada de ruim acontecesse aos cidadãos de Gotham. Ela poderia lidar com Bruce e suas admoestações depois.
Então, seguiu o encapuzado até um beco: Em Crime Alley.
• Agora...
♣ Gotham City || Beco da Park Row || Crime Alley ♣
|| 1º de Março ||
Diana seguiu o ser encapuzado até o local. A pessoa era notadamente rápida e ardilosa, por isso, Diana calculou que havia sido descoberta quando seu alvo parou, de repente. Ela virou-se lentamente na direção da amazona, enquanto abaixava o capuz, a fim de revelar-se.
A Mulher Maravilha viu nos olhos da Mulher Leopardo um brilho de excitação muito diferente do que ela costumava expressar nos inúmeros confrontos que já tiveram. Cheetah sempre mostrou-se entusiasmada nos confrontos com ela, mas desta vez havia algo mais. Era um olhar de satisfação sádica. Era como se ela estivesse em vantagem, certa de que sairia vitoriosa.
O primeiro golpe de Cheetah foi acrobático. Um salto de causar inveja aos atletas olímpicos de salto em distância. As garras afiadas rasgando as roupas que a cobriam, mostrando seu corpo felino esguio e coberto por pêlos. Ela saltou em direção à Diana, com as pernas semi-flexionadas para ampliar o alcance e as garras dos membros superiores (ou patas dianteiras) expostas no movimento de ataque.
Uma série de Jabs em sequência, alternando chutes, obrigaram Diana a sair do beco. O impacto dos golpes desferidos por ambas eram intensos o bastante para ampliar o raio de projeção do combate consideravelmente. Em poucos minutos, a luta já se estendia por avenidas até chegar à um parque nas proximidades.
Havia muitos civis no local e a briga chamou a atenção do público, atraindo ainda mais expectadores. Sua peruca já estava longe de ser vista e a mulher de longos cabelos negros, braceletes reluzentes nos antebraços e flutuando diante de todos poderia ser facilmente reconhecida.
“Saiam todos, agora... Saiam, por favor”, ela gritou para os civis, mas a verdade é que praticamente ninguém deu ouvidos ao seu pedido. As pessoas estavam tão interessadas em usarem os celulares para filmar o confronto entre uma heroína da Liga e uma criatura estranha (uma espécie de híbrido de uma mulher humana e leopardo-fêmea), que não pareciam se importar com o fato de que corriam risco de vida por isso.
Infelizmente, para Diana, essa atitude irresponsável teve um alto custo.
A preocupação com o bem-estar dos civis, que se recusavam a sair, mesmo diante do perigo, foi amplamente aproveitado por sua adversária, em seu favor. Mulher Leopardo avançava sobre ela e desferia golpes que não foram dirigidos apenas à ela, mas contra os presentes, forçando Diana a defendê-los e, consequentemente, acabar sujeita à distrações que tiravam o foco de sua inimiga, para impedir que as pessoas se machucassem.
A forma animalesca de Cheetah poderia indicar um cérebro igualmente primitivo, mas estava longe disso. Ela era uma inimiga intelectualmente notável, tendo em vista sua origem humana. Bárbara Ann Minerva já fora uma bióloga conceituada e, portanto, estava mais do que apta a avaliar quais seriam os melhores caminhos para ferir a Mulher Maravilha.
A ex-Doutora Minerva alternava seus golpes contra a princesa amazona com tentativas de ferir quem se atrevia a permanecer no local. À medida que essas ações tornaram-se cada vez mais perigosas e as pessoas começaram a perceber que suas vidas estavam por um triz, elas foram indo embora, assustadas, deixando apenas policiais que chegaram ao local após chamados via 911.
Contudo, para Diana, já era tarde demais para dedicar-se apenas à sua adversária e derrotá-la. Nos momentos em que a amazona fora obrigada a proteger os civis, tirando os olhos de sua adversária, Bárbara aproveitara-se para infringir alguns golpes certeiros em seu alvo.
Havia cortes superficiais na bochecha esquerda, na parte dos antebraços descoberta pelos braceletes e nas coxas e braços. As duas últimas áreas foram atingidas com mais precisão. Havia um corte profundo na coxa direita e em cada braço, vertendo uma quantidade de sangue considerável. Mas Diana não se importava. Ela estava acostumada à dor e sabia que, mesmo as feridas mais profundas, iriam curar-se sem grandes dificuldades.
A luta não havia terminado, mas a Mulher Leopardo parecia diminuir pouco a pouco a intensidade dos ataques, até parar completamente, poucos metros à sua frente, sorrindo desdenhosamente.
Ela queria atacar, mas sentiu-se estranhamente vacilante e um tanto confusa. Diana suava muito mais que o normal, sentia-se cansada e sua visão estava desfocada.
“Hera, dai-me forças!”, foi sua súplica para manter-se de pé e sã.
Algo estava drenando suas forças e nublando sua mente.
***
• No capítulo anterior...
— O assunto merece sua atenção, senhor. É urgente! – Algo no tom de Alfred mostrou a Bruce um sinal de apreensão. Ele girou a cadeira para encarar o homem que o criou como um filho.
— Diga, Alfred. Você tem minha atenção!
Alfred hesitou e engoliu saliva. Alfred NUNCA faz isso. NUNCA!
O coração de Bruce parou.
— Senhor, são seus pais... É sobre mestre Thomas e a senhora Martha... Eles foram levados.
• Agora...
♣ Gotham City || Arredores da Mansão Wayne ♣
|| 1º de Março ||
A notícia da violação do túmulo de seus pais feriu como brasa a alma imensamente danificada de Bruce Wayne. Mas a dor que ele experimentara há pouco estava longe do dano causado pela dor que ele estava sofrendo agora, observando a imagem diante dele.
Por baixo do capuz, seus olhos se arregalaram. Escondendo o quão chocado o homem – não o herói – estava. Mas a respiração ofegante era impossível de controlar ou camuflar sob o traje de Morcego. Nem se os anos de treinamento, dedicados às diversas práticas para garantir total controle de si mesmo, de sua mente, de seu corpo e de suas emoções, fossem triplicados. “Nem seu eu tivesse atingido o Nirvana, como Buda”, ele rosnou em sua mente.
Aquilo era abominável!
Seu peito subia e descia regido pela respiração pesarosa e acelerada. Mas não era descontrole emocional. Era ódio – Em essência. Puro. Sem outros sentimentos somados a ele. Apenas seus derivados: fúria, raiva, ira.
Os batimentos cardíacos aceleraram por causa do frenesi de sua fúria, despertada pela imagem de destruição diante de seus olhos.
O mausoléu estava completamente destruído.
A obra, construída há mais de um século, fora erguida por um dos ancestrais de Bruce que, inconformado com a morte prematura de sua esposa durante o parto, mandou construí-lo nos arredores da Mansão Wayne. Onde sua esposa poderia ‘descansar’ ao seu lado.
Todos os Waynes, a partir de então, foram também ‘acomodados’ no pequeno cemitério da família. O lote ficava em uma área gramada e discreta da vasta propriedade. Havia túmulos tradicionais onde os falecidos eram enterrados e a capela, uma espécie de cripta, onde após anos, os corpos eram cremados e colocados em urnas dispostas elegantemente no interior.
Bruce via os túmulos de seus pais escavados e a cripta, em ruínas. Podia-se ver vasos no chão, danificados, derramando as cinzas de seus ancestrais, que se espalhavam ao vento.
— Batman!!! – A voz do homem que caminhava lentamente em sua direção era um rosnado feroz e agressivo. Não importava quão tranquilo fosse o tom. – Eu custei a acreditar que algo tão irrelevante pudesse chamar sua atenção. Afinal, por que o Batman deixaria sua preciosa Gotham desprotegida por causa de um bando de milionários mortos?
A imensa massa de músculos havia saído dos escombros. Coberto de poeira cinzenta e escura (por causa do concreto e do pó das cinzas das urnas funerárias – o que confirmava que ele era responsável por aquilo.
— Bane!! – O nome saiu como um rosnado irascível. A fúria evidenciada na saliva que saltou por entre os dentes cerrados. Como se fosse um cão raivoso (raiva: patologia, não emoção).
— Então, é verdade? – A máscara escondia o sorriso de Bane, mas seus olhos brilhavam de satisfação – O Cavaleiro das Trevas é o tolo Príncipe de Gotham?
— Quem o contratou, Bane? Quem o enviou aqui? Quem deu a ordem para violar os túmulos? – Batman se aproximou sem medo – Quando eu acabar com você, eu vou encontrar o mandante... E eu juro... – ele disse com pesar, mas com brutal honestidade – Não haverá mais regras sobre não matar!
Antes que Bane e Batman se aproximassem o bastante um do outro para começar um embate corpo a corpo, uma voz ecoou, vindo por trás do vilão, um pouco mais distante.
— Amado... – Aquela voz. Aquele chamado... Bruce conhecia bem: Talia.
— Como você pode, Talia? Como pode ser conivente com isso? Você passou dos limites quando escondeu Damian de mim e agora, quando eu acreditava que nada poderia superar isso, você prova o contrário.
— Você selou seu destino quando recusou a oferta de meu pai, Amado – A expressão de Talia parecia de mágoa honesta – Tudo poderia ser diferente para nós. Mas você é incapaz de superar esta obsessão por esta cidade imunda.
— Oferta? – Ele riu com zombaria e Talia estremeceu de raiva – Me juntar a seu pai para dividir com ele a responsabilidade sobre as mortes de milhões?
— Nós poderíamos ser uma família, Amado. – Ela olhou pra ele como se ainda restasse esperança de poupá-lo. Como se tivesse esperança de que ele se juntasse ao seu pai, por amor a ela.
— Eu nunca iria concordar com um devaneio insano de Ra's. Me casar com você para agradá-lo? Deixar meu filho ser treinado para ser um assassino? Compartilhar Diana com ele, como amante? –Os olhos de Talia mostraram a surpresa com a última frase. – Eu me recuso a manchar as mãos de sangue inocente, Talia – Bruce tentou chegar ao coração dela – Você não se importa com a morte de inocentes? A mulher que eu amava se importava.
— Amava? A mulher que você A-MA-VA? – Bruce contraiu o punho por baixo da capa. Irritado por Talia descartar a parte importante e só ouvir o que a interessava.
Ela sentira-se ofendida e magoada com a sentença de Bruce: o amor por ela ficou no passado.
— Você não merece o meu amor. Morra com sua amazona.
Ela virou-se para Bane:
— Quebre-o, mais uma vez!
Foi a ordem fria que Talia Al Guhl deu a Bane, retirando-se do local, sem olhar para trás.
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