Broken Hearts
55 A queda dos deuses (Parte II)
Notas iniciais

► "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas”, (Sun Tzu – A Arte da Guerra) ◄
♣ Nova York || Distrito do Brooklyn ♣
|| 1º de Março ||
Enquanto caminhava por Coney Islandle, observando o quanto ‘seu lugar’ havia mudado, ele agradeceu o fato de não ter pedido ao Senhor Incrível teletransporte imediato ao seu destino. Uma boa caminhada pelas ruas do Brooklyn estava fazendo-lhe bem em uma intensidade inesperada.
John Stewart Diggle estava à paisana: a roupa casual coberta pelo longo sobretudo clássico, à lá Humphrey Bogart em Casablanca e óculos escuros. “O Batman deve ter um desses. Todo detetive que se preze, tem um”, John riu de suas divagações.
Ele parou em frente a velha escola, na Avenida Bedfor, deixando-se tomar por lembranças, enquanto olhava os alunos na entrada. Observou de longe um jovem encrenqueiro, incomodando os outros por onde passava. Era um jovem negro que o lembrava a si mesmo, em aparência e comportamento agressivo.
Se não fosse o Senhor Bale, o velho professor de Geometria, dedicando-lhe uma atenção que ele nunca recebera na escola, percebendo seu talento nato com as formas geométricas e incentivando-o a dedicar-se aos estudos, ele provavelmente estaria cometendo delitos, morto ou na prisão.
Seu querido mestre Bale se parecia com o professor Mark, do clássico ‘Ao mestre com carinho’* não só fisicamente. Ele tinha o mesmo compromisso com os alunos, especialmente os mais rebeldes. Ele não desistira de John nem mesmo quando o próprio John já tinha desistido.
O professor o ajudou a chegar à Faculdade. As notas altas proporcionaram uma meia-bolsa de estudo concedida pela Universidade de Nova York, onde se formou em Arquitetura, pagando o resto das mensalidades com o dinheiro que recebia das Forças Armadas Americanas, onde havia se alistado.
Ele serviu à Marinha Americana e foi dispensado com honras. O ex-garoto problema, veterano da corporação mais aclamada entre militares – os Fuzileiros Navais – agora é um dos guardiões do Universo. ‘Soldado’ da Tropa dos Lanternas Verdes. Escolhido pelos Guardiões como substituto de Hal Jordan (o Lanterna mais famoso), depois que Guy Gardner ficou gravemente ferido num desastre.
John estava feliz por ter uma folga. Por estar de volta ao lugar onde nasceu e viveu a maior parte de sua vida. Poder rever sua família – especialmente sua ‘mavó’. Era como ele chamava carinhosamente a extraordinária senhora que deu-lhe todo afeto do mundo, quando sua mãe o abandonou aos três anos.
E todos os primos, tios e netos passaram a chamar Nora Stewart da mesma forma. Sem dúvida, foram essas pessoas e o carinho que elas lhe deram que fizeram o abandono de sua mãe infinitamente menos doloroso. Ele os amava e estava feliz por poder revê-los. Mas ainda sim, faltava alguma coisa... Faltava ela... Shayera Hall.
Ele a convidou pra vir com ele, mas ela recusou. Eles tinham decidido, desde que voltaram, um tempo depois de seu término com Mari, que não iriam se apressar. Que a melhor estratégia era levar o relacionamento devagar e ver se daria certo, se eles poderiam superar o rancor que ainda restava do rompimento traumático, durante a Invasão Thanagariana.
Na esquina de sua casa, uma avenida com pequenos comércios locais e casas residenciais, preenchidas por vozes e gritos de comerciantes, transeuntes e vizinhos que ainda colocam cadeiras na rua para conversar e ver “o movimento”, ele ouviu o estrondo.
Era uma explosão… e o anel, imediatamente, emitiu a aurora esverdeada luminosa que o envolveu completamente e retornou à fonte, depois de cumprida a tarefa de transformá-lo no Lanterna Verde.
♣ New Orleans || House of Blues ♣
|| 1º de Março ||
Para um cliente desavisado, visitando pela primeira vez a tradicional ‘Casa do Blues’, a ruiva sentada no banco alto, no balcão do bar, bebendo uma bebida obviamente forte – o copo com dimensões largas e baixas que ela estava segurando de largo e baixo sempre serve as bebidas mais quentes – era a prova cabal da existência dos anjos.
Os brilhantes olhos verde-esmeralda e os traços incrivelmente delicados do rosto, o faria supor que a dona de um rosto tão angelical só poderia ser uma mulher de personalidade igualmente doce e angélica.
Os desafortunados atrevidos, que tentaram uma aproximação, experimentaram o choque: Hipnotizados pelos olhos verdes dela, pelo desejo ardente e desenfreado, quando tiveram uma boa visão daquele corpo incrível – a mulher com cabelos cor de fogo: o rosto desenhado por Deus e o corpo esculpido pelo Diabo – tinha outra coisa dada pelo demônio: o temperamento.
Os frequentadores assíduos conheciam bem Shayera Hall, mas os irritantes ‘novatos’, sempre que a aborreciam com cantadas estúpidas – algumas, nem tanto – acabavam, literalmente, sendo jogados para fora do bar.
— Agora você vai pedir outra dose do velho Jonny só porque o ‘branquelo’ te incomodou, certo ruiva? – Disse o homem por trás do balcão, com uma pitada inquestionável de ironia. O velho senhor negro tinha uma barba branca cheia, os cabelos cacheados quase prateados e rugas que denunciavam sua chegada à velhice, mas muito longe de mostrar o quanto.
Robert Joelson, ou simplesmente Bob Joe, parecia bem perto dos 60. Um número bem melhor que os 75 anos que ele realmente somava. Apesar de magro, Joe ainda conservara muito de sua estrutura forte. As expressões alegres de seu rosto indicavam que ele foi alguém que soube como viver a vida do ‘jeito certo’ para si mesmo, de um modo que o fez chegar à velhice sem arrependimentos.
Ele parecia conhecê-la, quando ela sorriu, olhando em seus lindos olhos castanho-esverdeados, que a faziam lembrar John.
— Às vezes, eu tenho a impressão que você adora escorraçá-los, só pra vê-los encolhidos de medo de você. – Joe viu a confirmação no sorriso dela. Era uma questão retórica. – Santo Deus, você deve ser um dos anos caídos, ruiva. – Joe riu.
— Você me conhece, Joe. Eu poderia fingir que estou arrependida, ou lamentar o fato de ser grosseira, mas eu não vou... Eu não me importo em me divertir às custas desses engomadinhos babacas de Wall Street. – Ela ouviu Billie Joe gargalhar e o acompanhou com uma risada generosa, divertindo-se, logo depois de jogar na garganta, em um só gole, a dose dupla de Jonny Walker que ela gostava.
Depois de bater o copo emborcado no balcão, Shayera bradou:
— Agora, você vai ser um maldito anfitrião decente me trazendo a garrafa ou eu vou ter que reclamar com a gerência?
Joe pegou a garrafa na prateleira de whisky e bateu com força o bastante para chamar a atenção dela, arqueando a sobrancelha e sorrindo com um canto da boca.
— Ruiva, você é um furacão mais devastador que o Katrina. – Joe a deixou na companhia do ‘outro jonny que ela amava’ para tomar seu lugar no palco, e dar ao público mais uma mostra de seu talento como jazzista.
A condecorada oficial da Brigada de Elite do Exército Thanagariano, Shayera Hall, amava aquele lugar. Ela adorava voar até Nova Orleans. Se hospedar no modesto, mas aconchegante, Hostel de seu amigo Peter. E beber ouvindo o extraordinário blues que a banda tocava todas as noites na ‘Casa do Blues’.
Desde que esteve lá pela primeira vez, em missão com a Liga, ajudando a resgatar vítimas do Katrina, ela se sentiu ‘conectada’ com o lugar e as pessoas. Ela e Diana lideraram o grupo que se voluntariou para ajudar na reconstrução da Região quando o trabalho de resgate acabou. Vixen, Besouro Azul, Fogo, Gelo e Nuclear também solicitaram licença da Liga para servirem como voluntários, junto às heroínas fundadoras.
Shayera Hall era bem versada em tragédias. Sua vida era uma sucessão delas. Sentir-se ligada aquelas pessoas que perderam tudo era natural. Após a invasão, ela encontrou um lugar para ir quando não estava à bordo do Sentinela. Em todo lugar fora dalí, as pessoas eram hostis e a ofendiam. Por isso ela recusou ir com John à NY. Ela tinha medo da reação de sua família ao vê-lo com ela. Para o mundo, ela ainda era uma traidora.
Quando o trabalho terminou, ela continuou “voltando para eles... sua gente”. Ela se conteve para não chorar lembrando as palavras da senhora Brown – uma espécie de sábia para comunidade.
Foi assim que ela fez grandes amigos por lá. E Bob Joe era um dos preferidos. Lenda local do blues, que tocou por anos ao lado de BB King, a lenda das lendas. Ela amava ouvi-lo tocar.
A thanagariana estava distraída quando um homem sentou ao seu lado, voltando o perfil em sua direção e buscando seus olhos. O olhar era direto, forte, decidido. Quando sua língua afiada já preparava o gatilho para fazê-lo sair, ela voltou-se para ele e, quando o viu, as palavras sumiram.
— Feliz em me ver, Shayera Hall?
♣ República Popular da China || Tianjin ♣
|| 1º de março ||
J’onn entrou no Supermercado há dois quarteirões de casa. Sua transmutação morfológica era semelhante a de um homem humano comum de meia-idade, que passaria despercebido pelo público, não fosse o fato de ser o único caucasiano cuja aparência denunciava-lhe uma origem ocidental, em meio ao mar de chineses ao seu redor.
Tianjin tinha estrangeiros vivendo e fazendo negócios por lá, mas eles se concentravam no Centro comercial ou nos bairros com vida noturna mais agitada. Era raro encontrá-los em um mercado de bairro residencial.
Quando Diana deu-lhe o conselho de descer à Terra para conviver com as pessoas e conhecê-las, ele resolveu tirar um ano sabático com essa finalidade. Após viajar por lugares em todos os continentes, achou um novo amor na China e se casou com ela.
Ele volta a atenção para o telefone vibrando no bolso de sua jaqueta. Era Jin, sua esposa. Mas ele já sabia antes mesmo de ler seu nome na tela. Era improvável surpreender um telepata, ainda mais um telepata classe A, como o Caçador de Marte – Batman classificou J’onn no nível mais alto da escala de meta-poderes que ele desenvolvera. O marciano era – até agora – o mais poderoso telepata, dentre todos os pesquisados.
— Alô? J’onn? – Ele ouviu a voz vindo do aparelho. – Querido, você poderia passar no mercado para trazer alguns ingredientes para o Mapo Tofu*? Na Li virá nos visitar amanhã. Sei que você e ela adoram... Além disso, você precisa reabastecer nosso suprimento de Oreos, querido. – J’onn amava o som do sorriso tímido sutil de sua esposa.
— Claro, querida. Já estou na fila para pagamento. Tenho tudo que você precisa no carrinho de compras – J’onn não podia evitar o sorriso em seu rosto.
O amor crescente em seu coração, preenchendo-o, aliviava consideravelmente a dor da perda de sua esposa marciana e de seus filhos.
Jin era uma mulher maravilhosa, que o aceitara como era – mesmo quando ele revelou-lhe sua aparência real. Ela o amava sob quaisquer aspectos e o compreendia a ponto de nunca exigir dele que se desfizesse de seu amor e de suas lembranças. Ele havia encontrado uma alma que se igualava a ele em serenidade, bondade e generosidade.
— Você tem? – Ela disse risonha – Querido, se você continuar prevendo meus pedidos eu vou pensar que você é um adivinho ou pior, um leitor de mentes – Jin tinha um tipo de humor muito doce que J’onn adorava.
Ele gostava de caminhar pelas ruas e olhar as pessoas, a vida cotidiana, tecendo bloqueios que evitavam-no de ter acesso ao turbilhão de pensamentos de todas elas de uma vez. Centenas de mentes ressoando em sua cabeça de uma só vez era o tipo de tortura que ele não desejaria a ninguém.
Mas por causa dessa barreira protegendo sua mente, J’onn não foi capaz de prever o acidente à sua frente:
Um jovem mandava mensagens de texto frenéticas pelo celular, usando fones de ouvido. Ele ria das mensagens que recebia, provavelmente. Completamente alheio ao que acontecia ao seu redor.
O rapaz chinês viu quando um grupo de pedestres atravessava o semáforo na faixa, com sinal livre para travessia a pé. Mas estava distraído o bastante para notar que não teria tempo de atravessar antes da liberação de passagem de veículos.
Ele sequer viu a van que o atingiu em cheio.
J’onn não previra isso e sentiu-se culpado, de alguma forma, por não conseguir impedir a tragédia. Ele correu para prestar socorro à vítima, pedindo para as pessoas aglomeradas no local se afastarem. Uma observação rápida mostrou que o moço estava vivo, com a pulsação enfraquecida, apesar da violência mortal do impacto.
Ele não conseguiu esconder a surpresa quando o jovem moveu o corpo para encará-lo. O rapaz exibiu um sorriso cínico antes de seus olhos começarem a cintilar um brilho alaranjado. O mesmo brilho que ele exibe quando se conecta com profundidade à uma mente.
“Olá, Caçador!”, vibrou a voz no fundo da mente do marciano.
♣ Gotham City || Mansão Wayne || Batcaverna ♣
|| 1º de Março ||
Desde que saiu da ala médica da Torre, há dois dias, desobedecendo às recomendações de J’onn de que deveria refazer alguns exames para ter certeza de que ele estava física e mentalmente bem, Bruce se recusara a dormir ou comer.
Os argumentos de Diana, dizendo-lhe que, três ou quatro horas de descanso ajudariam sua mente a trabalhar mais rápido e as súplicas de Alfred para que ele comesse alguma coisa, pareciam direcionados a ouvidos surdos.
Uma única vez, ele se dignou pelo menos a dizer-lhes um ‘não’, porque comer e dormir não eram prioridades. Tudo que ele exigiu foi ter sempre à mão uma garrafa de “café forte e sem açúcar”.
Diana sabia que, cedo ou tarde, ela teria que lidar com as fases obcessivo-paranóicas dele. Quando o Batman assumia o controle total sobre todas as partes e se isolava o tempo todo na caverna. Ela podia lidar com esse aspecto da personalidade dele. Ela não estava zangada ou frustrada com o isolamento de Bruce.
Mas Diana estaria mentindo se dissesse que não sentia falta dele e que essa ‘distância’ não doía. Ela queria poder ter algum tempo com ele. Abraçá-lo, sentir seus braços fortes enlaçando sua cintura, enquanto ela descansava o rosto em seu peitoral poderoso e sentia seu queixo apoiar-se no topo da cabeça dela, ouvindo o som da inalação profunda dele, sentindo o perfume dos cabelos dela.
Ela só queria conversar com ele, falar sobre as emoções novas que havia experimentado, despertadas pelas crianças que ela viu em sua mente... seus filhos. Ela não conseguia tirar a imagem deles da cabeça.
Se tivessem filhos, ela pediria aos deuses que fossem como aquelas crianças. Ela os queria novamente em seus braços.
Diana queria desesperadamente conversar. Sondar se Bruce lembrava-se dos pequenos. Se queria ter filhos? Se queria ter filhos... com ela? Com uma meta?
Pensar nisso fez seu coração doer, como se ele estivesse encolhendo, ficando miúdo, sendo esmagado. “Não, Diana. Ele odeia metas. Ele pode até aceitar você, porque te ama. Mas nunca se arriscaria a ter filhos com esses ‘defeitos’. Esqueça!”, ela tentou se convencer.
(...)
Bruce não tirou os olhos do computador, mas ele sabia que ela estava descendo as escadas. Ele não precisava de um meta-gene que aprimorasse o olfato para reconhecer quando era ela que se aproximava.
O perfume era seu cartão de visitas, chegando bem antes dela, anunciando sua presença. Ele amava aquele cheiro. Antes era doce e inocente como ela, agora, o mesmo aroma, era devastadoramente sexy. Uma ameaça real ao seu autocontrole.
Jasmim... Rosas... Um toque leve de sândalo... Seus sentidos se aguçam... seus olhos se fecham, como se assim ele pudesse inalar aquele aroma mais profundamente.
Diana vai até a estação do computador central e lhe diz que vai dar um passeio. Ele vê a obra de Alfred em disfarçá-la pelo canto do olho e admite para si mesmo que o velho é um ás no que faz.
Ela despede-se dele, despejando um beijo carinhoso na bochecha e ele sente o calor de seus lábios macios.
— Diana... – ele vira a cadeira para vê-la saindo.
— Sim, Bruce...
— Eu só quero que você saiba que eu... eu tenho que detê-lo. Enquanto Ra’s estiver livre, você, Alfred, meus filhos, todos correm perigo... eu não posso perder mais ninguém, Diana. Não posso...
— Eu entendo, Bruce... Só prometa que vai chamar a Liga para ajudarmos a pegá-lo. Nos seus termos... Somos seus amigos! – Ela sorriu e ele sentiu-se tão menos pesado.
Ele amava aquela mulher!!
(...)
— Mestre Bruce – tossiu Alfred, chamando-lhe a atenção. Cerca de uma hora após a saída de Diana.
Bruce nem sequer virou a cabeça, apenas continuou digitando no Batcomputador.
— Estou ocupado, Alfred!
— O assunto merece sua atenção, senhor. É urgente! – Algo no tom de Alfred mostrou a Bruce um sinal de apreensão. Ele girou a cadeira para encarar o homem que o criou como um filho.
— Diga, Alfred. Você tem minha atenção!
Alfred hesitou e engoliu saliva. Alfred NUNCA faz isso. NUNCA!
O coração de Bruce parou.
— Senhor, são seus pais... É sobre mestre Thomas e a senhora Martha... Eles foram levados. Não há mais nada além das covas vazias escavadas.
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