Broken Girl
30 Capítulo trinta: Lar, doce lar.
Notas iniciais
Tessa só queria ir para algum lugar seguro, ficar longe daquelas pessoas e esquecer tudo. Mas sabia que seria impossível. Em cada dor em seu corpo ela via flashes do terror que fora os últimos dias. Estava muito fraca, sentada no trilho do trem e pensando em como aquilo poderia ser real.
Seu mundo fora virado de cabeça para baixo e o que restou dele era uma massa confusa e insana que não fazia o menor sentido. Agora ela observava o rapaz loiro avançar em cima do outro com o cabelo cumprido.
Estava perdida demais para entender o que acontecia, mas sabia que tinha alguma coisa haver com deixar Isabel ir. O outro rapaz mais alto segurava-o assim como o de sobretudo, que antes estava preso como ela.
Era muito barulho. Muitas vozes e ela não conseguia mais controlar os soluços presos na garganta. Então enfiou as palmas das mãos nos ouvidos para bloquear o ruído, enfiou a cabeça entre os joelhos e chorou. Chorou ignorando tudo e qualquer coisa, por que aquilo era a única coisa que conseguia fazer.
Ela mal percebeu quando as vozes alteradas cessaram e seus soluços era a única coisa que se ouvia. Ela sentiu alguém pegar em seus pulsos e ela cedeu devagar deixando que o estranho falasse com ela. O mais alto, o que tentou ajudá-la antes, dizia que ia ficar tudo, mas que eles precisavam sair dali, e antes um deles iria fazer algo com ela.
O de sobretudo pousou a mão em sua cabeça, ela recuou como um filhote assustado, mas ele garantiu que não ia machucá-la que só queria ajudar. Então ela deixou mais uma vez que a tocassem. Logo sentiu uma sensação morna varrendo todo seu corpo, era bom e tranquilizador. Em segundos tudo terminou e ela se sentiu realmente melhor.
Toda dor e ardência física tinha sumido. Os arranhões, os hematomas, tudo. Ela estava curada. Mais um milagre ou fenômeno que não podia entender como ocorrera. Ela ia agradecer ao homem, mas o viu conversar baixo com os dois rapazes.
Tessa tirou um momento para olhar em volta. A cidade ainda brilhava em chamas, mas estava longe o suficiente para não alcança-los, para que ouvissem claramente os gritos de dor e morte. Ela não sabia o que acontecia lá e nem queria saber. Gostava daquele silêncio e de sentir o ar frio em sua pele.
Então sua visão fora bloqueada pelo rapaz de sobretudo, ele se aproximou dela novamente e se agachou. Disse que precisava fazer mais uma coisa e que quando terminasse tudo iria ficar bem. Então ele tocou sua testa de novo e ela se sentiu tonta de repente.
Ela sentiu como se partes de sua mente fosse fisgada por alguma coisa, uma a uma.
E logo Tessa se viu cair num sono profundo.
... — ...
Até o Impala parecia furioso. Ruía e pulsava em baixo deles. Estavam em silêncio e Dean agradecia por isso. Sua cabeça não sabia bem em que linha de pensamento ou atitude seguir. Ao mesmo tempo em que ele sentia que gostaria de capotar com aquele Impala na estrada, ele queria voltar lá e matar Steve, ou então, o pensamento mais embaraçoso, ele queria chegar logo a casa de Bobby se trancar no quarto e poder chorar, se é que conseguiria.
Castiel estava muito calado no banco de trás. Eles tinham acabado de deixar uma Tessa desmaiada e sem memórias num hospital próximo. Todos concordaram que era melhor assim.
Dean olhou pelo espelho, e logo conseguiu distinguir alguma emoção no rosto do anjo. E não era uma boa, Cass parecia perturbado com alguma coisa. Olhava para cima através da janela. Dean olhou para Sam, e este tinha o rosto voltado para janela. Voltou-se para Cass.
_Cass...
_Não. Não pode ser... – mal Dean começou a frase Cass o interrompeu. Parecia que o anjo falava mais para si do que para ele. Cass se mexeu no banco e quase colocou o rosto contra janela. Então parou e olhou para Dean através do espelho. Seus olhos estavam arregalados e isso o preocupou.
_Cass, o que houve? O que não pode ser? – perguntou Dean alarmado. Sam agora se virava para olhar para Cass. O anjo abriu a boca e logo depois a fechou, olhou para baixo com o rosto assombrado e depois desapareceu.
Deu fechou o punho e bateu com força no volante do carro chamando a atenção de Sam. Ele até aquele momento tentava se manter calmo. Tinha concordado com Sam e Cass em deixar Steve ir, tinha parado de tentar matá-lo com as próprias mãos quando ouviu os soluços da menina, tinha tentando se controlar e não perder a cabeça. Mas se sentia no limite agora.
_Dean, o que acha...
_Agora não, Sam. – ele não queria lidar com Sam naquele momento.
Ele estava cansado de pensar em como tudo ocorreu. Sem ele. Ele a deixou naquele quarto de hotel trancada por achar que fosse seguro, e mais uma vez estava errado. Nunca aprendia, aquela história se repetia e não podia fazer nada para impedir. Nunca se sentirá tão impotente.
Sua função era proteger as pessoas do mal que as cercam. Salvar pessoas. Mas nem mesmo ele conseguia salvar a garota que amava. E começava a acreditar nessa afirmação, a de que nunca conseguiria proteger Isabel. Alguma coisa sempre viria, e mais uma vez ele estaria longe demais.
Chegou a se arrepiar quando lembrou do sonho em que Isabel afundava na água e morria e ele nem sequer conseguiu pegar sua mão. Dean evitava naquele momento a todo custo não pensar.
_O que quer dizer com 'Agora não'? Dean, temos que fazer alguma coisa! Temos que pensar em algo, não podemos voltar para casa do Bobby sem nada. E agora o Cass sumiu e não sei para você, mas para mim parece que ele sentiu alguma coisa, ou seja lá como isso funciona para os anjos, e não parecia algo bom. Pode ser que tenha sido alguma coisa com... – Isabel. Dean sentiu a hesitação dolorosa em Sam quando estava preste a pronunciar o nome dela. Sam fez uma pausa, esperava por Dean, mas este manteve o olhar fixo na estrada.
Sam olhava para ele, e Dean não precisou retribuir para reconhecer aquele olhar. Aquela ansiedade que ele lembrava bem de quando eram mais novos. Sammy com aquele olhar atento em Dean esperando as respostas a suas perguntas, ou que o irmão mais velho lhe contasse a lenda que era real, ou apenas lhe ensinasse um truque novo. Ele queria algo de Dean, que o irmão lhe desse uma resposta, uma solução ou lhe ensinasse como fazer seja lá o que fosse.
Mas Dean não tinha nada.
_Dean, por favor, eu preciso de você aqui. – Dean se sentia transbordar, o carro acelerava gradativamente e seus dedos apertavam com força desnecessária o volante. _ Dean, diz alguma coisa, eu...
_O que quer de mim?! O quer que eu diga?! Eu não tenho nada! Entende? Eu não faço a menor ideia do que fazer agora? Quer que eu chame o Crowley, nosso grande amigo muito confiável? Ou talvez o Castiel? Oh, espera um pouco, um deles é um demônio que só pensa em si mesmo e o outro acabou de sumir da porra do banco de trás do meu carro sem me dar uma resposta! Mas talvez o Bobby tire algum plano genial do fundo de uma garrafa de Jim. – sua voz estava alterada num misto de raiva, medo e frustração. E era como uma tosse incontrolável, ele não conseguiria parar agora. _Mas eu tenho certeza de que você Sammy deve ter pensado em algo! Vamos, me diz seu grande plano! Ah, eles devem ter ensinado na faculdade como trazer a mulher amada de volta do céu antes que ela seja torturada e morta por anjos psicopatas!
Sam de imediato não disse nada, só olhava para o irmão, e Dean não queria ver em seu rosto aquela mistura de preocupação e frustração. Ele sabia que Sam não estava bravo com ele por ter gritado. Era raiva e um certo pânico que comprimia seu peito. Pânico esse que vinha lutando para manter controlado.
Ainda tentava se manter são por Sam. Sabia que precisava dele. E pelo menos o irmão ele não podia desapontar. Dean manobrou o Impala em uma curva e quase fez o carro derrapar, ainda estava nervoso e trêmulo pelo acesso que teve. Mas precisava da sua baby, não pararia de dirigir, mas diminuiu a velocidade.
_Talvez seja melhor eu dirigir. – disse Sam cauteloso.
_Estou bem. – respondeu mais ríspido do que pretendia. Ele podia sentir os olhos de seu irmão sobre ele quase como um desafio. Aquela coisa que Sam sempre fazia, aquele convite de "Venha, sente aqui perto e me conte seus problemas, e eu vou ouvir tudo com minha melhor expressão complacente mas sem sentir pena" Dean odiava quando aquilo era para ele.
_Dean, eu sei que tudo isso é...
_Sam, não... E não me olhe assim. E pode por favor calar a boca por pelo menos uma hora? – ele viu Sam abrir a boca com o canto de olho e ia começar a falar, mas Dean se adiantou: _Ou eu juro por seja lá o que for que largo você no meio dessa estrada. – Dean se virou para olhar pro irmão, ele tinha consciência dos olhos ardendo e o quanto ele parecia fraco. _Sammy, estou falando sério.
Sam entendendo assentiu e Dean soube que não ouviria mais sua voz durante aquela hora.
Antes.
"Parecia que aquele mundo ia me engolir.
Poderia desaparecer para sempre.
Talvez já estivesse morta.
Mas não estava. Só desejava que já estivesse.
Encarava o céu mais lindo. Estrelas de diamantes, nuvens de algodão doce e uma lua brilhante do tamanho de um planeta. Respirava o ar mais puro. O silêncio tinha sensações; Paz e solidão.
Queria continuar deitada, mesmo no chão de terra, mesmo no frio. Ali eu tinha a companhia das árvores. E elas farfalhavam como se estivessem sussurrando segredos para mim.
Meus ossos eram feitos de ferro pois estavam pesados. A dor era como um manto cobrindo-me. Talvez já estivesse a ponto de delirar, talvez meu sangue perdido pelo caminho me fizesse ver coisas enquanto suas últimas gotas deixavam meu corpo, mas poderia jurar ter visto um anjo cruzar o céu.
Asas tão brilhantes que poderiam ser cometas.
Uma chuva de luz caiu sobre mim enquanto ele descia. Suas asas batiam leves às suas costas. Estava começando a perder a consciência. Indo para muito longe...
Suas asas tinham penas feita de ouro e ele brilhava como uma estrela da manhã."
Agora.
Era estranho como estava. Tinha consciência de que estava em outro lugar. E minha mente estava calma. Não sentia meu corpo. Só a vaga noção de que por enquanto ficaria bem.
Me sentia mais como uma leitora em uma biblioteca, andando entre sessões de memórias em que estava muito tentada a puxá-las e me adentrar em sua história. E na maioria, na lombada, vinha o nome dele...
Há algum tempo.
Richmond — Virgínia
Parecia estar presa em uma fantasia ou algum tipo de mundo paralelo, se é que aquilo não existisse mesmo, já que tudo era real. Os monstros eram reais e cruéis. Ainda tinha gravada na mente a figura retalhada do meu pai amarrado á uma cadeira. Fazia um pouco mais de 24 horas desde que deixei minha casa em chamas e minha cidade para sempre.
Era nossa primeira parada, minha e de Dean, nossa primeira noite juntos, dormindo no mesmo teto, um quarto como qualquer outro quarto de hotel, duas camas, claro. Era estranho e desconcertante. Não trocamos muitas palavras durante a viajem. Não fiz muitas perguntas e ele também não. Só seguimos a estrada.
Estrada essa que parecia infinita. Tinha a sensação que iria segui-la para sempre, que aquele era o único modo de eu me ver livre do horror que fora a noite anterior. Ir, e ir mais um pouco. Era quase um mantra. Não tinha mais literalmente nada que me prendesse a lugar algum. Quando tudo terminasse poderia ser qualquer pessoa, em qualquer lugar.
Sentada no parapeito da janela, de calça de pijama e uma camiseta fina, observava através do vidro as pessoas se deslocando lá em baixo. Um caminhão descarregando em um restaurante, uma mulher conduzindo um carrinho de bebê e um casal dando risadas de mãos dadas. Tudo isso parecia uma afronta. Tinha vontade de gritar lá do alto tudo o que a sombra escondia. Gritar para eles que pareciam tão felizes e despreocupados, que meu pai fora morto por demônios. Demônios, reais e andando sobre a terra com rostos humanos.
A maçaneta girou e me virei para a porta tensa. Mas era só Dean entrando com um pacote de uma lanchonete na esquina e uma sacola com bebidas. Ele deixou tudo na mesinha no canto e parou no meio do quarto. Ambos ainda estávamos desconfortáveis com a presença um do outro. Por isso desviei o rosto, pousei a cabeça nos joelhos e voltei a olhar para as atividades lá em baixo.
_Hã, eu... trouxe comida. Não sei o que você gosta, então trouxe rosquinhas, sanduíche e algumas barras de cereais. – dizia Dean num modo cauteloso. _E tem também refrigerante e cerveja. – falou como se aquilo resolvesse tudo.
_Obrigada, mas não estou com fome . – respondi sem olhá-lo.
_Ah, bom, sobra mais para mim. – Dean tentou soar divertido. _Podemos assistir alguma coisa se não está com sono, ou, eu não sei, jogar dominó... – tentou, mas minha total falta de reação o fez parar. Observei pelo reflexo do vidro que ele parecia tão infeliz com aquilo quanto eu. Por fim foi se sentar na cama com o controle.
O silêncio foi preenchido apenas pelo ruídos da tv. Dean pulava de um canal a outro, parando um pouco aqui e depois ali. Estava entediado e desconfortável. Até sem eu perceber ou me mover passou uma hora. A rua agora estava deserta e entregue aos cães e gatos de rua.
_Okay, vou sair por um instante, volto logo. – anunciou Dean se levantando da cama e indo para a porta, catou as chaves do carro na mesinha e saiu.
Desdobrei as pernas as sentindo estalar e desci do parapeito da janela me espreguiçando, aproveitando aquele momento sozinha para ter mais liberdade de movimento. Não demorou muito e a porta se abriu novamente. Dean dessa vez entrou carregando uma bolsa verde. Colocou ela na mesa e o barulho pesado na madeira me fez questionar oque era aquilo.
Olhei para Dean interrogativa, ele então puxou o zíper da bolsa e eu cheguei mais perto para ver o que era. Armas, umas cinco, era familiarizada com algumas, como um rifle e a uma espingarda.
_É agora que você diz ser na verdade um ex militar psicopata? Ou você quer que nós saímos por aí como Batman e Robin? – um breve sorriso atravessou o rosto de Dean, o que me deixou um pouco preocupada. Ali eu me dei conta de que não sabia absolutamente nada sobre ele.
_Psicopata? Hum, já me chamaram de coisa pior. E quanto ao Batman e Robin, foi minha primeira ideia, mas acho que ainda é cedo para revelar minha identidade secreta. Então podemos fazer algo um pouco mais divertido. – levantei uma sobrancelha. Dean fechou a bolsa a colocou no ombro e se dirigiu para a porta, no caminho apanhou o engradado de cerveja, parou quando eu não o seguir. _Você vem?
_Mas... –pensei e ponderei a proposta. Estava curiosa demais. _Eu vou trocar de roupa...
_Não precisa. Só me acompanhe.
_E você não vai me dizer para onde vamos?
_Você vai ver. – cruzei os braços decidida a conseguir respostas.
_Quer mesmo que eu siga você carregando uma bolsa com armas e munição de pijamas para algum lugar misterioso?
_É, isso mesmo. – respondeu como se fosse uma pergunta muito simples.
_Dean...
_Isabel. Só coloque os sapatos e venha. – apesar de não ter gostado do seu tom um tanto autoritário fiz o que pediu.
Balancei a cabeça, coloquei os coturnos e não pensei muito antes de sair do quarto com ele. Andamos pelos cantos dos corredores torcendo para que não fossemos vistos. Tinha que admitir que aquilo começava a ser divertido. Como espiões carregando uma carga preciosa.
Subimos lances de escadas, eu já estava morrendo quando chegamos no último andar. Ainda não fazia ideia do que estávamos fazendo. Dean se recusava a responder minhas incessantes perguntas.
Dean examinou os corredores, estava tudo muito silencioso. Rumamos para um corredor a direita e encontramos uma porta que dava à cobertura do hotel.
_Segure. – ele me entregou as cervejas. _Vigie o corredor. – antes que dissesse qualquer coisa ele saiu apressado para o fim do corredor me deixando sozinha e confusa com um engradado de cerveja em mãos.
Observei enquanto ele deixava a bolsa no chão e tirava do bolso da calça alguma coisa pequena e fina, não dava para enxergar o que era. Então ele começou a mexer na fechadura da porta. Dean estava tentando invadir o terraço do hotel. Comecei a ficar nervosa naquele corredor, ouvia os estalidos metálicos ecoar e depois de um clique alto ele se virou para mim e sorriu vitorioso. Dean empurrou a porta e me chamou.
Fui até ele tentando ao máximo não fazer com que as solas do meu sapato não fizesse barulho e as cervejas na minha mão não escorregasse. Não deveríamos estar ali, era proibido, um aviso ao lado da porta dizia isso.
Quando saí para terraço uma brisa fresca corria por ali, o céu noturno estava apinhado de estrelas com uma lua cheia nos coroando. Dean tomou o cuidado de não deixar a porta se fechar, se isso acontecesse ficaríamos presos ali.
Andei um pouco mais para a beirada observando a vista da cidadezinha. E aquela sensação de plenitude e de estar no alto sem barreiras me dava uma impressão de paz. Coloquei uma mecha de cabelo que voava solta para trás da orelha e olhei para Dean que também observava a paisagem noturna.
Vez ou outra no caminho até ali pensei em voltar atrás. Era forte a vontade de voltar para minha cidade, ir até a policia e tentar explicar tudo. Voltar para Adam e juntos passaríamos por isso, como fizemos antes. Ainda estava tento muita dificuldade em administrar tudo aquilo.
Parecia que estava presa num sonho de outra pessoa ou estava de volta ao hospital psiquiátrico. Não ouvia mais vozes ou enxergava coisas estranhas, mas aquela loucura parecia ter atingido a um novo nível. Era todo muito real e não estava na minha redoma. Meu Deus, o que seria da minha vida? Minha carreira? Como conseguiria passar por aquilo? Não sabia nada e estava com muito medo de descobrir...
_Ei, tudo bem? – nem percebi que Dean se moveu, e agora estava do meu lado com uma mão no meu ombro. Me virei para ele afastando sua mão com o gesto.
_Tudo, só estou tentando não ter outro ataque de pânico. – respondi forçando um sorriso que não durou muito.
_Isso vai passar. – disse Dean, pude perceber que ele estava incerto no que acabara de dizer.
_Como consegue fazer isso? Quero dizer, viver assim. Você não tem emprego, nem casa, certo? – ele fez que sim uma vez. _E monstros são reais e você caça eles para matá-los e isso não é exatamente um trabalho, eu entendo que o que você faz é para proteger as pessoas e entendo a importância disso. Mas nunca quis largar tudo, ou simplesmente deixar de acreditar nessas coisas e seguir uma vida normal como todo o mundo?
_Não, esse é meu trabalho, e sempre foi. É o que nasci para fazer. – disse com uma certeza admirável. _Teve algumas vezes, quando era mais jovem, em que que pensei assim como você, mas acho que algumas pessoas não foram feitas para essa vida normal que você diz. Um emprego, rotina e um teto confortável para dormir. Não sou assim e não quero ser, por mais que ninguém possa saber oque eu faço ou não reconheça eu acho que é um trabalho importante e que alguém precisa fazer.
Me desviei do seu olhar pensando naquilo. Era muita loucura. E pensar que ele era a única pessoa que poderia contar naquele momento era um tanto desesperador.
_Eu não sei se consigo fazer isso. – disse baixinho e logo mordi o lábio, um gesto nervoso e inconsciente, enlacei os braços na cintura para me proteger do frio inexistente, pelo menos era isso que achava. _Não é a vida que quero ter.
_Ninguém quer até que se é colocado nela. – levantei o olhar para ele. Seus olhos brilhavam mesmo ali no escuro, eram de um verde bonito. Verde, a cor da esperança. _Isabel, não vai estar sozinha. Vou protegê-la e vamos ter ajuda, nada de ruim vai acontecer a você. Eu só preciso que aguente firme, consegue fazer isso?
Assenti e ele sorriu me encorajando. Pegou da bolsa ao seus pés uma pistola, sem dizer nada me entregou. Peguei a arma hesitante.
_Afinal, o que vamos fazer aqui? – ele passou por mim e foi para a mais perto da beira do terraço. Apontou para o prédio da frente.
_Esse prédio está abandonado – realmente. As paredes estavam praticamente nuas de tinta e as janelas sujas e quebradas, tinha também um outdoor em cima que parecia está desafiando as leias da gravidade. Na imagem imprimida nele uma propaganda de uma ótica. _O jogo é o seguinte, quero que acerte aquele outdoor, vamos definir alvos, se você consegui acertar eu tomo um gole e vise versa, se você quiser trocar de arma, você toma dois goles. E se errar você também toma um gole.
Sorri achando aquilo muito diferente e poderia ser sim divertido. Tiro ao alvo a base de álcool. Verifiquei minha arma e vi que estava carregada com balas de festim, mas travada.
_Tá vendo o óculos da mulher com o sorriso falso no outdoor? – fiz que sim. _Quero que acerte uma das lentes, é seu primeiro alvo.
Me preparei para atirar, afastei um pouco os pés e levantei a arma. Dean se aproximou por trás, pude sentir seu corpo se sobrepondo ao meu e sua respiração quente na minha bochecha. Inconscientemente me lembrei de Michael encostado no seu carro, seu hálito cheirando a bebida do bar e eu preste a beijá-lo.
_Aqui vamos precisar de um... – eu sabia o que precisava saber. Então alinhei a mira da arma e atirei antes que ele terminasse de falar. Dean se sobressaltou do meu lado, o barulho ecoando no silêncio da madrugada era estrondoso. Sorri satisfeita por ter acertado, talvez um pouco mais para esquerda do que eu queria, mas acertei. Olhei para Dean esperando sua aprovação.
Mas logo vi que olhava para baixo, a janela no andar de baixo. Uma luz vazou dela e ouvimos vozes.
"O que foi isso? Joana, pegue as criança, são tiros!"
"Deixa de ser cismado homem. Vai dormir!"
"Eu tenha certeza que ouvi um tiro. Estive na guerra, reconheço o som de um tiro. Tem alguém atirando em cima do prédio."
Ouvimos o som do trinco da janela abrindo e antes que pudesse fazer qualquer coisa Dean pegou meu braço e me puxou para baixo. Para o parapeito do terraço. Encostamos as costas na pilastra e Dean pediu silêncio com o dedo na boca e tirou do bolso da jaqueta um silenciador e me mostrou enfático.
"Mostre sua cara, seu desgraçado, eu vou chamar a polícia! Ralhou o velho lá de baixo."
"Vem dormir! Está ficando paranoico! "
Alguma coisa em mim despertou uma gargalhada incontrolável, e daquelas sem sentido que vem do nada. Colocava a mão na boca para abafar o som, mas não estava conseguindo. A esse ponto estava me curvando de tanto rir. Dean colocou a sua mão sobre a minha e outra atrás da minha cabeça e sussurrou para eu fazer silêncio. Mas ele também ria baixinho.
Depois de um tempo minha crise foi cessando, mas Dean permaneceu com a mão sobre a minha, ouvimos o velho bufar e resmungar, logo o trinco da janela batendo e se fechando. Dean tirou sua mão da minha, mas manteve a outra mão atrás da minha cabeça.
Quando paramos totalmente olhamos um para o outro, ele abriu um sorriso largo, assim como eu. Seu rosto estava um pouco vermelho e com um brilho saudável, e me peguei reparando pela primeira vez nas sardas em seu rosto. Tinha que confessar que eram charmosas. Devagar sua mão deslizou para meu pescoço e senti quando ele pegou um de meus cachos o deixou passar entre os dedos.
Seu sorriso foi sumindo assim como o meu e só restou nossos olhos se encontrando e soube naquele momento que tudo bem confiar em Dean Winchester.
Dean se virou um pouco mais para mim e ao mesmo tempo eu fiz o movimento contrario, sua mão largou o meu cabelo quando me inclinei para alcançar uma das garrafas de cerveja ali perto. Peguei uma delas e entreguei a Dean.
_Eu acertei o alvo. – ele sorriu para a cerveja.
_Certo. – ele a abriu usando a mão mesmo. _É justo eu ficar com uma, já que as outras vão ser todas suas, estou vendo que vou ter que carrega-la para fora desse terraço.
Empurrei seu ombro com o meu fazendo ele se desequilibrar e derramar um pouco da cerveja no queixo e na jaqueta. Mesmo assim ele riu.
_Vai sonhando.
_Acho que podemos ser amigos.
_Sabe que eu também acho – me levantei tirando a sujeira da calça de pijamas e estiquei a mão para ajudá-lo, mesmo que não precisasse. _Dean Winchester
Dean Winchester...
Dean Win...
Dean!
Tentava me agarrar aquela lembrança como alguém agarra uma bote salva vidas. Não queria voltar a dor. Aquela era uma lembrança boa. Uma lembrança de casa. De mim e Dean quando éramos tolos por pensar que conseguiríamos resolver tudo e estar seguros. Poderia ficar ali para sempre. mas algo me puxava para fora...
Acordei abruptamente, como se tivesse sido empurrada da minha própria mente para o mundo lá fora, seja lá qual fosse ele. Estava de noite. E frio. O céu era uma massa cinzenta e pesada, a forma da lua da baixa quase sumia entre as nuvens carregadas. E estava nevando. Os flocos brancos e delicados caiam como um carinho gelado em meu rosto.
Me virei e logo notei que estava deitada na terra. Não em terra fofa e molhada, esta era fria, estava áspera e negra. Levantei o corpo, tirei o cabelo do rosto e olhei em volta. Estava sentada no meio de um círculo perfeito de grama e terra chamuscada. No peito meu coração golpeava-me como um assustador tambor.
Em volta via-se estender um tapete de grama alta e cercas e o que parecia casas abandonadas engolidas pelas sombras. A luz que tinha vinha da noite e de um poste solitário á alguns metros de mim.
Não reconhecia nada daquele lugar, se estava no plano superior ou na terra não sabia. Foi então que os momentos anteriores explodiram na minha cabeça em milhões de cacos desconexos. Pela primeira vez comecei a olhar para mim.
Toquei hesitante minha barriga, não sentia dor, mas devagar levantei o trapo sujo que era minha camisa. Não havia ferimento algum. Mas estava suja. Meus braços estavam manchados de sangue seco e o preto das cinzas. Não tinha certeza se era da terra chamuscada ou... Não gostaria de pensar naquilo.
Nada estava nítido na minha cabeça, tudo era um borrão preto, cinza e vermelho. Tentei esfregar os braços para me limpar com a neve, mas o que consegui foi só espalhar tudo e quase me machucar com a força mal medida que apliquei. Parei de tentar e engoli a seco as pedrinhas de gelo alojada na garganta. Tinha que sair dali. Fugir.
Esse ainda era o meu instinto primário. lembrava-me de correr e sangrar sem qualquer rumo, depois tropeçar e cair. E tinha certeza do anjo dourado no céu. Suas asas enormes que quase emitiam faíscas, e se me concentra-se podia sentir seu toque na minha pele. Um toque quase conhecido.
Agora estava ali. Não sangrava, mas ainda sentia. Ainda ecoando nas minhas veias a energia do meu poder se acalmando. A essência e o sangue do demônio trabalhando juntos e se aquietando dentro do peito. Não tremia de frio por que antes queimava em algo muito poderoso que não vinha apenas de mim.
Me levantei testando meu peso e a gravidade do lugar. Dei dois passos vacilantes e tentei ao máximo não deixar que a constatação de que estava sozinha num lugar assustador e não fazia a menor ideia de para onde ir me fizesse chorar ou surtar no meio daquele lugar nenhum.
Andei um pouco para leste saindo do círculo estranho onde estava e pisando na grama alta e fofa. Começava a ficar com frio e molhada por conta da neve. Aos poucos fui apertando o passo, me assustando ocasionalmente com o barulho dos insetos escondidos no mato e o rastejo deles. Passei pelo poste de luz velho e torto e logo fui encontrando traços na grama salpicada de neve de uma estrada de terrar. Ia seguindo-a.
Tinha andado bastante e o único som que ouvia era dos meus passos e dos insetos. O desespero começava a me abrir o peito novamente. Pensava em Sam e Dean, na última vez que os virá. Caídos e inconscientes. Depois desaparecerem na poeira. Só queria que as últimas 72 horas tivessem sido um pesadelo e estava preste a acordar.
Ia chegando no que parecia uma esquina, tinha um poste como o outro, mas este piscava ocasionalmente. Se não tivesse tão cansada teria rido da ideia de ter fantasmas por perto, mas quando cheguei mais perto me vi em uma encruzilhada. Que ótimo. Parei para recuperar o fôlego. Estava decidindo para que lado tomar quando alguma coisa soou alto ali perto. Soltei um grito me afastando do poste. Olhei em volta e não vi ninguém. Meu coração ia a boca.
Até que o som veio de novo, e depois mais uma vez, alto e estridente porém abafado. Demorou alguns segundos para eu perceber que o barulho soava como um telefone. Comecei a olhar mais atentamente para as sombras, primeiro para o chão caso fosse um celular, mas lá estava; uma cabine telefônica praticamente tomada pelo tempo e a natureza.
O telefone ainda tocava lá dentro. Cheguei mais perto e arranquei com as mãos raízes e plantas que prendiam o puxador da portinha de vidro amarelado. Peguei no puxador, de tão enferrujado parecia que ia esfarelar na minha mão, e puxei. Nada, as dobradiças estavam muito enferrujadas, enquanto tentava de novo o telefone parou.
_Não! – lamentei batendo com a mão no vidro sujo. Encostei a testa na cabine fechando os olhos frustrada demais e de repente muito exausta. Dei um pulo quando o telefone recomeçou a tocar novamente. Dessa vez apliquei toda minha força restante naquele puxador e a portinha abriu com tudo. Algum animal rasteiro saiu para fora correndo entre minhas pernas, e meus sapatos escorregaram na neve e acabei caindo no chão desajeitadamente. Entrei na cabine meio que engatinhando e levantando, praticamente me joguei em cima do telefone.
_Alô. – esperei ansiosamente para ouvir uma voz do outro lado. Silêncio. _Alô? Por favor, eu... sofri um acidente e...
_Isabel. – meu sangue parecia ter ido abaixo de zero. _Isabel? Querida, vamos, eu sei que está aí.
Torcia para que aquilo fosse um truque da minha mente ficando insana. Não disse nada, minha cabeça latejava e os segundos corriam como se fossem minutos, mas não conseguia afastar o fone do ouvido, ele estava pressionado em meu rosto e meus dedos o apertavam com força desnecessária.
_Isabel? Preciso que ouça...
_O que você fez comigo? – minha voz saiu estrangulada e baixa.
_Venha me encontrar e conversaremos. – sua voz estava calma e controlada como sempre. A voz que me acalmava quando achava que ia surtar. _Um carro irá buscá-la, fique onde está.
Olhei através de um dos vidros quebrados, lá fora o tempo estava mais branco que antes. Ainda estava deserto e eu sentia o medo de ficar naquele lugar abandonado.
_Estará nele?
_Não, vou esperar aqui.
_Não vou entrar em carro nenhum. – falei. Minha voz soava tão baixa e era quase uma recusa infantil. Fechei os olhos, encostei a testa no telefone e me forcei a não chorar. Só ouvi atentamente sua voz do outro lado.
_Pense bem, está muito frio, a neve está aumentando. Não vai encontrar nada se continuar andando, provavelmente irá desmaiar no meio do caminho. Venha, quero vê-la, além do mais tenho uma surpresa para você.
Já estava chorando. De raiva, exaustão, medo e frustração comigo mesmo por me sentir confortada pela oferta e por ouvir uma voz conhecida naquele mundo que parecia vazio.
_Não chore, nos veremos em breve. – engoli um soluço, e me forcei a encontrar alguma coisa sólida em mim mesma.
_Não vou. Pode mandar seu motorista voltar, prefiro morrer aqui. – falei com uma certeza vacilante. Quase podia visualizar seu sorriso.
_Sei que entrará no carro. Sei que está pensando em entrar apenas para poder matar meu motorista e fugir, mas não vai fazer isso. – incrível como ele conseguia antecipar meus pensamentos.
_Se fosse você não teria tanta certeza disso. – agora podia ouvi-lo rir.
_Estou esperando. – e desligou.
Fiquei um tempo parada olhando para o telefone sem saber exatamente o que fazer. Toda ideia daquilo parecia demais para mim. Um carro vindo me buscar, uma surpresa e até mesmo aquele telefone funcionando no meio do nada. Assim que acordei do torpor tentei algo, mesmo que no fundo sabia que não iria dar certo. Tentei discar o número de Dean, mas nem chamar o telefone chamava. Estava completamente mudo.
Saí da cabine e avaliei minhas opções. Na verdade não tinha nenhuma. Seja lá para onde tentasse escapar ele iria me encontrar. Meus olhos ardiam e eu tremia de frio na nevasca que começava.
Não demorou realmente até que ouvisse o som de motor. No fim da estrada da direita um carro vinha, os faróis iam ficando mais perto, iluminando os flocos de neve de forma lúdica e logo um carro inteiramente preto parou suavemente ao meu lado.
Olhei pela janela do motorista, mas o vidro fumê não deixava nem um contorno de um perfil. A porta traseira se abriu como se fosse mágica.
Pensei uma última vez. Queria respostas e sabia que Lúcifer as tinha. Então respirei fundo e entrei no carro.
... — ...
As batatas de Sam já estavam frias, ele nem tocará nelas, na verdade estava sem fome. Lá fora a neve caía fina e começava a pintar a cidade de branco. A lanchonete onde estavam já estava decorada para o natal. Pisca piscas nas janelas e portas, guirlandas, papai noies e renas enfeitando os cardápios. Tudo aquilo o atingiu como um choque, não tinha até então percebido que estavam próximos do natal. Ele também viu a indiferença ao tema no rosto do irmão.
Sam cumprirá o que Dean pediu, não falou durante todo o caminho até ali, para falar a verdade nem tinha muito o que dizer. Estava tão perdido, a única coisa que queria era fazer algo. Ficar sentado ali comendo batatas não traria Isabel de volta. Mas o quê poderia fazer? Ele também estava tentando, assim como Dean, ele estava tentando ser forte e racional, mas escolhera deixar a raiva aflorar no peito do que a tristeza e desespero.
Ele sentia que estava de novo naquele caminho que os levou até ali, aquela raiva que tinha comprimida no peito, o desejo de vingança. Estava fulminando por dentro, mas o que podia fazer era sentar ali com o irmão, calar a boca e esperar que algo o ocorresse. Tinha que pensar.
_Sei que disse para calar a boca, mas era só por uma hora, pode desfazer essa cara de quem comeu limão e falar o que está pensando. – disse Dean pegando as batatas de Sam.
Dean parecia melhor agora. Sam viu a emoção nos olhos dele no Impala, o enquanto estava arrasado. Ele só tinha visto isso poucas vezes, quando o pai morreu, depois Ellen e Jo e quando Isabel não acordava. Sam sabia que se perdesse a cabeça preocuparia a Dean, então se manteve calado e se controlou.
_Não tenho mais o que dizer. – respondeu Sam encarando sua cerveja.
_Você sempre tem o que dizer, diga. – encorajou Dean de boca cheia. Sam suspirou, queria deixar isso para quando estivessem com Bobby, mas...
_Acho que deveríamos chamar o Crowley. Ele pode saber de alguma coisa, ou pode nos ajudar a achar alguma coisa. Ele disse que está do nosso lado, mas até agora eu não vi ele fazer nada por nós. Ele também depende dela. – depois acrescentou baixinho. _Todos nós na verdade.
_Sam, escuta...
_Não, eu já escutei você, agora você escuta. Eu sei, ele é um demônio, não podemos confiar nele, mas é tudo que nos resta. Você mesmo disse que não temos opções. Ele vai nos ajudar, nem que obrigamos ele a ajudar. – os dois se encararam. Dean sabia que Sam tinha razão, e Sam sabia que era arriscado, trabalhar com demônios sempre era.
_Eu não gosto disso Sam, tem demônios demais para meu gosto. E olha no que isso deu. – respondeu Dean de uma forma geral. _Se não fosse por um demônio, talvez ela... – Dean deixou de falar e olhou para baixo.
_Acha mesmo que ela iria ficar quieta naquele quarto trancada? E provavelmente foi ela que nos salvou. Ela pularia a janela se fosse preciso, ou arrombaria a porta com os punhos. Nada poderia segurá-la. – disse com carinho.
_Está bem. – disse Dean a contra gosto. _Mas acho que deveríamos tentar chamar o Cass, de novo.
Sam concordou. Estava preocupado com aquilo. A forma como Cass desapareceu e o quanto estava calado durante o caminho. Mais uma vez direcionou sua prece para o anjo. Cass, por favor, apareça, precisamos de você aqui. Estamos no Biggerson's na rodovia 13...
Sam levou um susto quando Cass apareceu ao seu lado. Olhou em volta, mas ninguém pareceu notar uma pessoa brotando do nada na mesa deles.
_Cass, onde você...
_Por que está sujo? – Sam franziu a testa para o irmão, mas se voltou para Cass reparando em suas roupas. De fato o anjo parecia sujo, como se tivesse rolado em cinzas. Seu sobretudo estava manchado em preto, seu cabelo bagunçado e seu rosto parecia manchado com a mesma poeira.
_É, o que aconteceu com você?
_Estive no céu. – Cass olhou para as próprias mãos sujas. _Tudo está destruído. A guarnição está destruída.
Sam olhou do anjo para o irmão. Pela expressão, Dean também não sabia oque pensar sobre aquilo.
_O que isso quer dizer? Quem destruiu a guarnição? – perguntou.
_Quem você acha, Sam? Eu... não entendo. – confessou Cass balançando a cabeça confuso. Sam se sentiu ficar frio e os estômago revirava de tensão.
_O que não entende? – perguntou Dean.
_Tudo isso. É preciso muito poder, mais do que ela poderia suportar, é como se... – Castiel parecia mais assombrado que antes. Sam engoliu a seco o nervosismo e Dean perdeu a paciência.
_Fala logo Cass, não lemos pensamentos aqui, conta tudo de uma vez por todas. – esbravejou Dean numa impaciência controlada.
_Dean, Isabel escapou da prisão e aparentemente matou toda a guarnição. Está uma confusão lá em cima, por isso conseguir entrar. Logo depois ela desapareceu. E não há sinal em lugar nenhum dela. Os anjos... eles estão com medo. Estão fracos e sem defesas.
_Como isso é possível? Com os Arcanjos, e no céu, como os anjos não conseguiu pará-la? – Perguntou Sam. Castiel balançava cabeça como se estivesse resolvendo uma equação.
_O tanto que ela fez, parecia trabalho de dois ou algo muito poderoso. Não entendo como ela conseguiu escapar. E também não faço ideia de onde ela possa estar, e se está viva. Com certeza Lúcifer tem alguma coisa a ver com isso...
_Espera. Você disse Lúcifer? O que tem ele? – interrompeu Sam. Se antes estava nervoso, agora seu coração disparava desconcertantemente.
_Ele apareceu para mim, estava lá, curou vocês e disse que algo iria acontecer no céu, não disse o quê. Mas agora entendo que de alguma forma ele manipulou Isabel, isso tudo, os anjos e modo como ela se entregou a um deles. Estava tudo muito bem planejado, ele a usou para invadir o céu.
Sam lembrava-se de Isabel lhe dizendo algo assim.. "Eu sei que parece loucura, mas não é. Ele tem tentado falar comigo. A mensagem na janela do Bobby me pedindo para ter cuidado, depois no meu sonho. Era como se ele quisesse me alertar de alguma coisa. Eu... eu o sinto dentro de mim, eu só precisava alcançar..."
Sam percebia o quanto ele não sabia sobre essa ligação de Isabel com Lúcifer. Essas mensagens que ela recebia e procurava. Era mais grave do que pensava. Sendo a casca e tendo o sangue de demônio nas veias ele tinha certa ligação com Lúcifer. Mas não era nada como aquilo.
Não era tão presencial ou intuitivo. Não vinha da alma ou da sua força vital. Ele não sabia como era ter parte de Lúcifer dentro de si. Muito menos o que isso poderia causar.
Talvez Isabel fosse a vítima. Talvez fosse o monstro criado por Ele. Isabel era um campo minado em um quebra cabeça. Sam queria ajudar, oferecer conforto tendo em vista sua experiência com esse lado sombrio. Mas quanto mais aprendia parecia que Isabel era um caso isolado.
Nem ele, nem Dean ou Castiel poderiam pará-la se quisesse, ou controla-la, ou simplesmente esperar que ela fizesse o que eles queriam ou pensariam. Ela era um espirito livre e a parte que pertencia a alguma coisa, não era a eles.
E Sam a amava, isso era insuperável. Ia tentar até não poder mais. Só tinha que continuar acreditando nela.
_Está dizendo que Lúcifer a usou como cavalo de Tróia para destruir a guarnição? – tentou Dean.
_Se está se referindo metaforicamente, sim. – respondeu Cass.
_Existe alguma chance de ela ter sobrevivido? – perguntou Sam. Dean olhou para ele com se Sam tivesse pronunciado o que não era para se falar. Mas Sam precisava daquilo.
Os meninos esperaram Castiel. O anjo não disse nada de imediato, parecia um tanto acuado com os olhares deles sobre ele.
Castiel se livrou de dar uma resposta quando garçonete apareceu. Olhou para Castiel e depois para os meninos. Parecia aflita, por um tempo não disse nada, só olhou por cima do ombro uma vez e depois se voltou para eles.
_Algum problema, querida? – perguntou Dean.
_Todos, idiota. – Dean ia responder, mas ela levantou um dedo e continuou. _Vocês tem cinco minutos até que esse lugar esteja fedendo a graça angelical. – os meninos e o anjo levantaram imediatamente. A garçonete revirou os olhos negros para os olhares hostis que recebeu. De mal vontade arrancou do bloco de pedidos uma nota. _Aqui, Crowley vai está esperando por vocês.
A garçonete entregou a Sam a folha, nela rabiscada estava um endereço. Ele entregou a nota para Dean e os três saíram, sem pagar a conta.
No estacionamento Dean olhou para Castiel e lhe entregou o papel. Sam se aproximou dos dois e Cass pousou suas mãos no ombro de cada um e no segundo seguinte eles já estavam em outro lugar.
... — ...
De fato não matei o motorista. Na verdade falhei miseravelmente em conseguir qualquer pista de onde poderia estar e de onde estaria. Nem meia hora dentro daquele carro naquele banco fofo e confortável eu peguei no sono. Só fui acorda quando entramos em uma estradinha de terra. E já estávamos ali.
Era possível de fato eu está ficando louca. Estava parada no meio daquela sala completamente sozinha e não tinha vontade de correr ou coisa do tipo. Na verdade não esperava aquilo.
Era uma espécie de chalé, grande e com paredes de vidros que davam para o quintal florestado e branco pela neve. Dava até para ver o cinza do céu clareando. Era uma bela vista.
Os móveis eram simples, mas de uma madeira boa, assim como o chão. Tinha um piano de caudas num canto, uma estante repleta de livros no outro e aos lados um corredor e do outro a entrada da cozinha. E uma lareira crepitava convidativa. Tudo tinha um ar rústico, sofisticado, mas simples e acolhedor. E estava tudo muito silencioso.
Continuei parada onde o motorista havia me deixado. Esperando. Algo tinha que acontecer, ele havia de surgir de algum canto. Mas sabia que Lúcifer não estava ali. Não o sentia. Minhas entranhas estavam geladas. Não era tarde demais para fugir.
_Ele não estar. – me virei rapidamente com o coração em pulos. Estava tão distraída que não a ouvi chegando. Uma mulher, cabelos meio grisalhos puxados num coque baixo, vestindo roupas simples me encarava com o cenho franzido. Uma mulher, não demônio.
Como não disse nada ela se adiantou mais para perto, dava para ver que temia alguma coisa. Não alguma coisa, á mim.
_Ele pediu se caso não estivesse aqui quando chegasse que lhe entregasse isso. – ela tirou do bolso um pedaço de papel e me entregou.
Desculpe não estar aí para recebê-la. Mas houve problemas, afinal demônios são demônios. Parece que você causou muitos danos no meu inferno mocinha, conversaremos sobre isso mais tarde.
Aproveite o banho e a comida. A casa é sua.
L.
Ele pelo menos tinha uma letra bonita. Irrelevante, Isabel. A senhora continuava a me olhar, parecia esperar algo de mim, mas foi ela quem recomeçou a falar.
_Ele pediu que lhe preparasse um banho e mostrasse seu quarto. – meu quarto? _Venha. E eu me chamo Vanda.
A segui pelo corredor á esquerda. Passamos por duas portas e paramos na última no fim. Ela tirou uma chave do bolso e abriu a porta. Não entrou, apenas esticou a mão para acender a luz e segurou a porta para mim. Então passei por ela e entrei no cômodo ainda muito nervosa e alerta, mas quando adentrei levei um susto diferente.
Era um quarto simples, uma cama, um closet grande e uma cômoda com um abajur aceso. Prateleiras com objetos de decoração e uma penteadeira no canto. Mas oque me assustou foi ver minhas fotos cobrindo um parede inteira. Vários portas retratos de diferentes tamanhos com diferentes fotos.
Fotos de Greeley, fotos de pessoas, diversos momentos e ângulos que para mim eram só meus, tinha até uma de Adam. Na verdade eram fotos que havia deixado para trás, com Adam. Meu coração doía e tinha vontade de chorar.
Toquei o vidro do porta retrato querendo que o toque fosse real, querendo poder sentir sua pele e ouvir o som do riso que estava congelado naquela imagem. Me lembrava daquele dia, tínhamos 17 anos e a foto foi tirada num passeio de turma para o Central Park. A foto saiu um pouco tremida por que eu estava rindo, e estava clara demais por conta do sol. E Adam não queria tirar a foto, aquele sorriso espontâneo e brincalhão era por que ele tentava tirar a câmera da minha mão.
Estava preste a chorar quando ouvi Vanda á porta. Me virei para ela tentando afastar aquela lembrança.
_O que é isso? – perguntei com voz rouca com emoção demais. Nem sabia ao que me referia exatamente.
_Seu quarto, senhora. – respondeu Vanda prontamente. _E seu banho está pronto.
Ela adentrou ao quarto e abriu a porta nos fundos mostrando o banheiro.
_Estamos sozinhas aqui?
_Não. – respondeu Vanda já se dirigindo a porta. Ela parecia ansiosa para sair de perto de mim. _As roupas estão no armário, tem tudo oque pode precisar no banheiro e na penteadeira.Vou preparar algo para a senhora comer, com licença.
Antes que dissesse qualquer outra coisa ela já saia do quarto fechando a porta atrás de si. Não virei de novo para a parede de fotos. Ao invés disso fui para o armário e empurrei a porta de correr. Lá dentro estava apinhado de roupas, desde vestidos simples á vestidos mais sofisticados, tinha também blusas e casacos. Saias, shorts e calças perfeitamente arrumados nas gavetas. E havia toalhas, pijamas e peças íntimas. E nos fundos sapatos. Chinelos, coturnos, botas e sapatilhas.
Verifiquei que as peças tinham meu tamanho certinho e as modelagens pareciam caber sem problemas. Mesmo aquilo me parecendo muito surreal e esquisito, peguei uma calça jeans, e uma blusa de moletom cinza. Calcinha e sutiã confortáveis e segui para o banheiro.
...
A água da banheira estava ótima, quente, e os sais me relaxaram os músculos tensos. Era um alívio poder tirar as roupas rasgadas e sujas, entrar no chuveiro e poder lavar o cabelo da poeira e limpar a pele de toda sujeira. E logo depois entrar naquela banheira maravilhosa.
Meu quarto. Fora o que Lúcifer e Vanda disseram. Aquilo me preocupava. As roupas, o quarto decorado com fotos minhas, aquele chalé no meio do que parecia o nada. Era um cativeiro de luxo. E entrei pela porta da frente por livre espontânea vontade.
Estava ansiosa para encontrar Lúcifer. Queria respostas e iria consegui-las, depois arranjaria um jeito de sair dali e voltar para Sam e Dean, que tentava acreditar que estariam bem e seguros. E claro, estava morrendo de saudades de Jamie.
Sentia tanta falta dos meninos que meu peito parecia se encolher. Relembrei com carinho da lembrança que mais parecia um sonho daquela primeira noite com Dean. O quanto aquilo fora divertido e inocente, o quanto naquela época eu nunca imaginaria está numa banheira no covil do diabo. Queria voltar aquela lembrança e á outras como aquela. Queria Dean, estar em seus braços novamente. Queria tomar café amargo de madrugada em frente a lareira e sussurrar com Sam. E queria contar histórias de bruxos para Jamie e vê-lo dormir. E sentia falta de Bobby. E de um jeito estranho até do Cass.
Minha família. Pensei, não Lúcifer ou qualquer outro demônio, Jamie, os meninos, Bobby e Cass eram minha família, com quem poderia contar. Voltaria para eles. Mas não naquela noite, não naquele momento.
Outra coisa que me preocupava era a outra pessoa ou demônio que estava ali. Vanda afirmou que não estávamos sozinhas, apesar do silêncio. Não tinha plano traçado, e minhas perguntas na cabeça ainda estavam embaralhadas. E o medo era um bichinho que passeava por mim pelas beiradas, roendo aos poucos.
...
A escova ficou parada no meio da mecha do meu cabelo quando ouvi algo romper o silêncio. Música para ser exata. Notas suaves e bonitas de piano. Larguei a escova em cima da pia e atravessei o quarto colocando meu ouvido na porta.
A música vinha dali de dentro, do piano na sala, então tinha mesmo alguém ali. Meu estômago gelou, mas ainda assim não era Lúcifer. Respirei fundo e abri a porta recebendo a música e saindo no corredor cheio de suas notas calmas.
Saí descalça e me arrependia quando meus pés tocaram a madeira fria. Meus passos estavam silenciosos então não precisava ser furtiva. Saí para sala com o coração palpitando. E me lembrei inutilmente que não tinha arma nenhuma.
E lá estava meu pianista. Concentrado nos seus dedos passeando pelo teclado. O cabelo loiro estava com metade preso para trás com um elástico, os primeiros raios de sol iluminavam seu rosto dando-lhe um aspecto quase angelical em flashes platinados. Seus olhos dourados se levantaram para me olhar.
A música continuava, agora num ritmo mais dramático. Soava como um tragédia. Ela encontrou seu ápice e desceu lentamente até que as últimas notas soassem como uma cação de ninar. E então ele parou.
_Olá, princesa. – sem sorriso dessa vez. Alguma coisa se rachou dentro de mim.
_Steve?
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