Broken Girl

31 Capítulo trinta e um: Amigo.


Notas iniciais
Aeeeeewwwwwwww Eu não morri o/ Se ainda existe algum ser humano aqui, eu gostaria de pedir milhares de desculpas pelo sumiço. Eu sei que é muita cara de pau minha voltar aqui depois de meses sem nada e nem uma justificativa, e realmente gostaria de ter uma boa desculpa, mas não tenho. O que posso dizer é que as coisas ficaram realmente loucas na minha vida pessoal, na faculdade e na minha criatividade também. Eu simplesmente tive um bloqueio, não conseguia mais escrever como antes ( e nem se ainda vou conseguir continuar ) e como já disse antes, se eu acho que o que escrevo está muito ruim eu prefiro não postar nada. E eu realmente me importo com essa história e me dedico/dediquei muito a ela para que fique legal para mim e para vocês. Então me desculpem a demora, eu espero que ainda tenha restado alguns de vocês por aí haha e conto muito com isso para eu superar esse bloqueio e conseguir produzir alguma coisa boa nessas férias! ( Torçam por mim genthee ) Sobre o capítulo eu realmente não tenho muito o que dizer ( como sempre ) só que foi escrito com o maior amor do mundo e sacrifício também, eu já refiz ele mil vezes e finalmente decide parar e postar logo, por que se ficasse mais tempo parado no meu word eu encontraria mais defeito e nunca postaria. Então por isso peço que revelem qualquer erro de português ou que for, ele vai ser postado meio que na afobação mesmo por que acho que devo isso a vocês. E ah, eu queria desejar um feliz ano novo a todos ( atrasado rs) E espero que o 2016 de vocês sejam maravilhosos e cheio de fics boas para lerem. Espero muito que gostem e tenham uma boa leitura !!!!! Enjoy ^^ off: Senti falta disso haha



Não dissemos nada um para outro. Fiquei suspensa naquela balança. Steve se levantou e caminhou até mim. Vestia preto, a jaqueta preta, blusa preta e calças jeans escuras e sapatos também pretos. Estava lindo, esculpido em uma beleza mórbida.

Ele parou bem diante de mim, seus olhos me olhavam com uma expressão estranha, que não tinha visto ali ainda. Me peguei procurando em seu rosto sinal do seu sorriso usual. Não encontrei nada. Dei um passo para trás confusa e um pouco a deriva.

_Não sabia que tocava piano. – comentei lhe dando as costas e parando no meio de um passo. Aquilo era sensato? Balancei a cabeça e continuei, andei até a porta, devagar e tentando parecer casual. Meu corpo parecia enferrujado e meus gestos forçados. Aquela pequena caminhada me custou.

Me virei para Steve, ele agora sorria, e de um jeito estranho a corda que enlaçava meu peito afrouxou um pouco.

_Tem muitas coisas sobre mim que você ainda não sabe. – seu sorriso escondia certa malícia. Ele girou os pés e rumou para as prateleiras na parede. E depois se voltou para mim de novo e riu. _Na verdade nem eu sabia. Achei que esqueceria, mas parece que fiquei só um pouco enferrujado.

Quando Steve se voltou de novo para os livros. Andei os passos restante até a porta e toquei a maçaneta, o metal frio parecia penetrar minha pele e viajar ao meu corpo quando testei a maçaneta e descobrir que estava trancada.

Saí de perto da porta e voltei ao meio da sala, o lugar onde estive quando entrei.

_Steve?

_Sim. – respondeu detraindo enquanto lia alguns títulos, os lábios se mexendo silenciosamente.

_Como me achou, e como entrou ? – ele agora pegou um dos livros. A Tempestade, de Shakespeare. Seus olhos passaram pela capa minuciosamente.

Não sabia o quanto estava apreensiva até que tive que resistir ao impulso de ir até ele, arrancar o livro de sua mão e exigi saber o que ele fazia ali. Todo o calor do meu corpo me abandonara. Estava fria, a garganta seca e parecia ter gelo no ar.

Finalmente seus olhos encontraram os meus. Ele sorriu mais uma vez e caminhou até o centro da sala, desceu o único degrau saltitando e se jogou de costas no sofá. Abriu o livro apoiado no peito e recitou:

_"O inferno está vazio e todos os demônios então aqui." – franziu os lábios e virou a página. _Isso não é totalmente verdade.

_Steve! – adverti impaciente. Ele se virou para mim devagar. _Responda, por favor. – Steve soltou um suspiro teatral e se sentou. Me fitou de um jeito desconfortável, estava inteiramente coberta mas me sentia despida com seu olhar intenso. Então ele sorriu torto.

_A casa é minha, portanto eu tenho a chave. O resto você pode deduzir sozinha.

Abri a boca para, mas a fechei de novo. Olhei bem para Steve, encarei seus olhos desejando ver através deles e via. Era vazio, um abismo do qual me sentia cair. Eu via tudo agora. "Faça de você intocável." ele me disse num vagão de trem, a mesma frase

que Lúcifer me dirá um pouco antes.

Seu jeito estranha no carro, e como ele me deixou ir até o anjo, me ajoelhar e ser levada para o céu. Ele já sabia, sempre soube. Não era William ou Steve, era só um demônio. Um bode expiatório de Lúcifer.

Doía a cada descoberta, a cada sorriso que ele me ofereceu, as vezes que me salvou, suas história sobre quando era humano, se é que eram verdadeiras. Eu as sentia como alguma coisa se quebrando dentro de mim. Era vergonhoso o quanto em fazia mal.

_Você... a quanto tempo? – minha voz era tão fina como um fio de cabelo. Steve se levantou e se moveu na minha direção, me afastei instintivamente. Ele pareceu desapontado.

_Isabel, precisa entender...

_Não! Eu já entendo, esse tempo todo você vem me manipulando e eu... – estava difícil respirar e me manter calma. _Eu fui idiota. Como pude ser tão burra? – perguntei a mim mesma. Steve balançava a cabeça discordando.

_Não, não, é claro que não. – ele pegou meus pulsos antes que pudesse afastá-lo. E então ele aproximou o roto do meu e me olhou com olhos que pareciam chamas douradas contra a geleira dos meus. E me sentir balançar com a energia vinda dele até mim, em como nosso sangue se correspondia. _Eu ainda estou ao seu lado, e agora você está do meu. Ainda vamos estar juntos, princesa.

_Vai me deixar sair? – perguntei com a voz fanhosa de choro. Era uma traição aquelas lágrimas mornas. Steve sorriu lentamente.

_Minha função não é deixar você sair, é garantir que não saia.

_Então não está do meu lado. – puxei meus pulsos mas ele se recusou a soltar.

_Isabel, essa é a nossa única chance. – dessa vez foi a minha vez de sorrir.

_Na verdade somos dois idiotas. Acredita mesmo que ele vai deixar você sair? Logo você que se dizia tão esperto. Ele não se importa, Steve, a partir do momento em que você deixar de ser útil, ele vai matá-lo. – tentava com urgência arrastar Steve para mim puxar de novo. Me recusava a acreditar que todo aquele tempo estava sendo enganada. Tinha visto alguma coisa.

Mas desesperadamente precisava dele. Ele era a chave. Fechei os olhos com força tentando romper o fluxo de lágrimas, procurei me recompor. Ele soltou meus pulsos mas continuou no mesmo lugar, se sobrepondo sobre mim. Não dissemos nada um para o outro, ele se afastou lentamente e voltou devagar as prateleiras.

_Acho que deveria redecorar o local. Estão tudo muito.... clean, não acha? – ele falou alto de costas para mim.

Dessa vez foi a minha vez de me aproximar. Na minha mente a resposta mais lógica soava como um alarme abafado por sentimentos. Eram balas disparadas da minha cabeça ao coração, e tentava desesperada me agarrar aquela certeza que vinha afirmando desde de que conheci Steve. Podia mata-lo se quisesse. Faria isso se ele me traísse. Mas me importava com a ideia quando não deveria. A tempestade dentro de mim me dizia isso. O suor frio, o coração machucado batendo tão forte que parecia me deixar surda.

Cheguei bem perto dele, pensei em tocar seu ombro, mas não fiz isso. Olhei para seu perfil e tentei formular alguma coisa coerente na cabeça.

_Steve... Não pode fazer isso, não pode deixar eu ele acabe com o mundo. Nós ainda podemos...

_Nós ainda podemos o quê? – ele riu com escárnio. _Por favor, você e nem seus mascotes fazem ideia do que fazer. Lúcifer já sabia do anéis antes mesmo de eu contar. E mesmo se conseguissem juntar os quatro, e depois, oque fariam? Enviariam um convite para Lúcifer gentilmente pular nele? Isabel, admite, vocês não tem nada.

Engoli á seco me forçando a não entrar na dele.

_Podemos dar um jeito. Eu posso dar um jeito... – agora sua risada tomou todo o cômodo me ferindo de um jeito que não sabia que podia.

_Você? – disse curvado pelo riso. Depois de mais umas risadinhas ele se endireitou e se virou para mim, o rosto alegre e corado. _Sei que o que você fez no céu foi coisa grande, também sei que não foi sozinha e não foi por sua própria vontade. Como espera vencer se não consegue controlar nem a si mesma?

Ele tinha razão. Não lembrava direito das horas anteriores e como tudo se desenrolou no céu, mas sabia que não era eu. E a prova era a minha mente anuviada, meu corpo e meu poder foi usado e mal me dei conta. E sabia que morreria naquele chão de terra se não fosse pelo anjo de asas douradas.

Talvez o ato mais tolo meu foi confiar tanto em mim mesma.

Mais suavemente Steve acrescentou:

_Você é a arma mais poderosa do mundo, mas só Ele sabe como usar. – disse calmamente. O fitei tentando pensar em alguma coisa, alguma resposta ou se precisava mesmo atacá-lo. Sentia minhas mãos tremendo.

Antes que ele falasse de novo, antes que eu pensasse em algo para falar, eu sentia aquela presença forte antes de qualquer coisa. Steve levantou a cabeça olhando um ponto atrás de mim, pude perceber a mudança mínima em seus olhos. Seu corpo enrijecendo e qualquer humor de seu rosto desaparecendo. Apertei as mãos em punhos e me virei devagar já sabendo o que ia encontrar.

Tentei controlar a incontrolável agitação no meu corpo. Ele formigava. Apertei mais as mãos em punhos até sentir as unhas cravando nas palmas. Lúcifer estava sorrindo para nós, e se aquela ligação física psíquica entre nós não fosse tão forte eu poderia reagir mas a surpresa com o quão bem ele parecia.

Seu rosto estava limpo de feridas, as roupas eram simples e limpas, ele usava Jeans e uma camisa social preta com as mangas dobradas até o cotovelo. Eu nunca até então tinha percebido o quanto seus olhos eram bonitos. De um azul celeste, adoráveis até. E até o cabelo parecia de um loiro mais claro.

Ele caminhou até nós e eu sufoquei no peito um grito ou um insulto, ou até mesmo os comandos básicos como me afastar. Quando parou a minha frente deixei que se inclinasse e me abraçasse. Meu corpo, minha mente e principalmente minha exaustão me deixava paralisada. Não movi os braços para corresponder, mas de uma forma esquisita me senti acolhida.

... — ...

Crowley não se levantou quando os três apareceram no meio de uma sala escura. O demônio estava sentado numa poltrona, uma lareira acesa á frente e um copo de Whisky equilibrado na mão. Castiel olhou em volta e viu que era uma casa pequena e parecia abandonada, algumas janelas tinham pedaços de madeiras atravessados deixando só alguns raios do sol passar. O chão era sujo e empoeirado, os móveis na maioria estavam quebrados e jogados aleatoriamente pelo cômodo, e no canto uma escada para o andar de cima. Cass se perguntou se Crowley vivia ali.

_Esqueceram como bater? – perguntou tirando os olhos dos três para o líquido marrom no copo.

_Não temos tempo para gracinhas Crowley, diz logo o que quer. – falou Dean irritado. Castiel entendia o motivo, mas esperava que o amigo não ficasse tão... mal com a situação. Afinal ele sabia sobre Isabel desde o inicio. E não tinha nada que Cass poderia fazer a respeito.

_Ah, a essa altura vocês já devem saber. Anjos mortos, uma princesa perdida e blá, blá, blá. – Crowley se levantou, caminhou até uma mesa e pegou de lá jornais. Entregou um para Dean e outro a Sam. Castiel chegou mais perto para ver do que se tratava. _Mas antes vamos visitar o velho Bobby, tenho trabalho para vocês.

_Esse diz que um lote de vacinas para gripe suína está preste a sair... – disse Sam lendo o jornal.

_Continue Alce, posso até ver a fumaça saindo pelos ouvidos.

_O meu é um jornal de Chicago. – disse Dean confuso tentando achar ali alguma anomalia.

_É como trabalhar com crianças... Vamos para casa meninos. Conto tudo lá.

_Vamos no meu carro. – Crowley revirou os olhos.

_Como quiser, Esquilo. – Dean se virou para Castiel.

_Acha que podemos voltar, será que os anjos estão vigiando?

_Posso verificar.

Antes que Dean dissesse mais alguma coisa. Cass desapareceu. Quando apareceu no local de antes a sensação foi imediata. A presença dos anjos era forte ali, o cheiro, a poeira na neve e o sangue das vítimas inocentes vinha até ele. Castiel atravessou a rua e foi para o lanchonete.

Dentro estava tudo quieto. As luzes piscavam no intervalo de batidas de um coração, pulsando e revelando aos poucos os detalhes da cena horrível.

Os corpos fumegando no piso xadrez, nas cadeiras e debruçados na mesa sobre o próprio sangue. Não ouve muita luta, percebeu, apenas dois corpos de anjos no chão, um deles com a adaga ainda cravada no peito, do lado o corpo da garçonete que os avisará. Os olhos não existiam mais, e ela parecia sangrar mais que os outros.

Cass pulou o corpo de um senhor e foi mais para o meio da lanchonete encontrar o único anjo presente além dele. Castiel sabia quem era, eles se reconheciam.

_Castiel. – disse cordial se virando para o irmão.

_Elias. – respondeu Cass. _Isso era mesmo necessário?

_Você conhece as ordens, e não esperávamos demônios, tudo deveria ser muito limpo, mas... – e parou de falar como se esquecesse o resto da frase. Castiel não sabia o que Elias iria fazer, se iria atacá-lo ou deixá-lo ir. _O que faremos agora?

O anjo ficou surpreso com a pergunta. Não sabia bem o que dizer, Elias parecia agora um garoto desolado deixado para trás numa festa, era o efeito que a luz dava junto ao rosto triste, ou aflito talvez, Castiel não sabia bem. Cass usou o poder para manter as luzes acesas, pelo menos as que sobraram. Assim os dois ficaram no escuro, os dois sem respostas e sem muitas perguntas também.

_Eu não sei. – admitiu Castiel.

_Você deve saber de algo, os Winchesters, devem ter um plano, alguma coisa. Você está sempre com eles, sabe de alguma coisa. – não foi bem uma perguntar apesar de ter soado como. Cass não sabia a que ele estava se referindo, mas dado as circunstância em qualquer aspecto Castiel não sabia de mais nada.

Ia dizer isso a Elias, mas um barulho ali perto despertou a atenção dos dois. Olharam para a porta aberta. Elias foi o primeiro a recuar assustado, a adaga caiu da mão frouxa e tilintou quase produzindo eco no silêncio. Castiel também sentira o mesmo, mas a surpresa o paralisou.

_Preciso de sua ajuda, irmão. – disse o garoto na entrada com a voz rouca. Castiel não disse nada por um tempo, o fitou abismado, mas se forçou a dizer:

_Achei... que estivesse morto.

_Eu sei irmão, eu sei.

... — ...

Não sentia o gosto da comida direito, eu deveria estar faminta, mas de alguma forma tinha perdido a vontade de comer ou de qualquer coisa, e passar pedaços de carne pelo nó na minha garganta era quase uma dor física. Estava praticamente jogada na cadeira na cabeceira da mesa, Lúcifer do outro lado olhando através da janela.

Depois de algum tempo remexendo a comida desanimadamente com o garfo eu desisti totalmente. Não estava com ânimo e nem cabeça, mas queria encerrar logo aquele jogo.

_Deveria comer. – disse ele ainda encarando a paisagem branca lá fora. Queria saber onde estávamos, mas algo me dizia que ele não iria me dizer.

_Não estou com fome. – minha voz saiu fraca e desanimada desmentindo minha resposta.

_Sim, você está. – ele se virou para mim como se para provar seu ponto. Preferia que não fizesse isso. Olhei para ele e dessa vez estava totalmente vulnerável. O escudo baixo, a armadora de lado. Não tinha armas nem facas. Era só um trapo humano sentada numa cadeira de mogno.

_Você pode me dizer o que fez comigo, no céu. Não consigo...

_Coma. – me cortou. Senti aquela palavra ser atirada contra mim e se cravar de algum jeito. Era quase um comando do meu cérebro, um comando em que não tinha pleno controle. Peguei de volta o garfo e olhei para a comida no prato. Era arroz e um caldo grosso com carne.

Estava com fome e obviamente deveria comer. Mas a incerteza me deixou paralisada, o garfo no prato sem que conseguisse movê-lo para boca, e meus olhos encarando a comida como se tentasse resolver uma equação.

Na verdade era isso, uma complicada e confusa equação, quanto de mim e dos meus atos eram meus e não dele. As palavras de Steve ainda dançavam na minha mente, mas elas ganharam companhia com as que ouvi há um tempo de Sam. Por isso não fiz o que ele mandou. Empurrei o prato para longe e levantei os olhos para ele.

_Não. – Lúcifer me observou atentamente. Não disse nada, nem fez nada por um tempo. Depois um mínimo sorriso se formou em seus lábios.

_O que quer saber? – não esperava por aquilo. Por isso não soube bem o que responder. Me obriguei a pensar um pouco e formulei uma pergunta.

_O que aconteceu lá? – ele inspirou e puxou a cadeira na cabeceira se sentando.

_Sabe o que aconteceu, só não consegue se lembrar direito. Mas vou dizer. Depois que foi com o anjo Josias eles a prenderam e lá você me chamou, como disse para fazer. E depois... – ele fez uma pausa e se inclinou para frente. _Bem... tecnicamente eu não posso e não quero pisar no céu novamente, o que fiz foi "emprestar" parte de mim a você. Lembra do que disse a você quando nos encontramos pela primeira vez?

Não lembrava muito. Parecia que tinha sido há anos, então balancei a cabeça negativamente.

_Somos metades Isabel. Minha essência, meu toque, eu estou em você. Logo podemos ser um. – minha cabeça martelava e eu tentava entender, mas aquilo tudo parecia alto demais para eu alcançar. Me sentia muito cansada.

_Eu não...

_Entende? – um sorriso compreensivo delineou seus lábios finos. _Não precisa minha querida...

_Mas e depois, com aqueles anjos, eu os matei, mas não lembro bem de ter feito, aquilo era você? – ele concordou uma vez com a cabeça. _Você na minha cabeça, no meu corpo... como...?

_Isabel, pense em você como um anjo que é meio demônio, ou um demônio que é meio anjo. O que a torna anjo é uma parte minha. A essência de um anjo pertence a mim, sempre vai pertencer, sendo assim consigo senti-la em qualquer lugar, assim como você pode me sentir. Bem aí dentro, bem no fundo, em todas as vezes que me chamou e eu estive lá, e bem agora, sentada nessa cadeira, cada célula sua consegue me sentir, e isso é minha essência em você. – ele esperou um pouco para que eu compreendesse e depois continuou. _O que fiz lá, não posso fazer de novo tão cedo. Foi como uma possessão. Enviei minha essência a você, como um receptáculo. Mas diferente de Sam você não foi feita para isso, não me suportaria por muito tempo. Eu poderia ter matado você, mas sabia que conseguiria. Sabia que iria me chamar e sabia que iria me deixar entrar.

Permaneci em silêncio esperando tudo se assentar na mente. Era muita coisa, muita informação. Estava enjoada.

_Disse que não podia entrar no céu e nem queria, mas esteve lá, me curou. O vi no céu antes de perder a consciência e parar naquele campo. Por que me usar se poderia entrar lá? – a expressão de Lúcifer se fechou e ele me fitou. Intenso que chegava dar medo, seus olhos azuis me perfuravam como espinhos de gelo. E num instante tudo mudou e sua expressão voltou a se suavizar, mas sabia que aquela pergunta de alguma forma havia mexido com ele.

_Me viu, no céu, como? – estranhei a pergunta.

_Eu... eu vi, mas na verdade senti. Vi asas douradas e o toque quando fui curada, então...

_Não era eu. – agora estava realmente confusa.

_Não? – Lúcifer se levantou e colocou a cadeira no lugar, voltou a posição de antes, de costas para mim. _Se não era você, quem era?

Ele ficou em silêncio, cogitei perguntar alguma coisa, mas fiquei calada.Tinha tanto no que pensar, assimilar que parecia que minha cabeça iria explodir. Ou eu iria explodir, voar por aí em pedaços quentes e brilhantes e então tudo estaria acabado. Iria finalmente quebrar em um milhão de pedaços.

_Tenho que ir... Tenho assuntos a resolver com Morte. – ele disse isso de costas para mim, depois se virou, me lançou um sorriso tranquilizador. _Tente comer um pouco.

E desapareceu.

...

Acordei assustada com o barulho. O barulho de chaves e a maçaneta se abrindo. Era alguém entrando na casa.

Estava exausta depois de passar horas procurando uma saída, uma arma, e até mesmo quebrando uma cadeira na tentativa de quebrar o vidro da sala quem nem sequer teve uma rachadura. Realmente aquele lugar parecia não ter saída. Tinha descontado nas paredes de vidro minha raiva mas em compensação aquele ato pareceu exaurir minha energias, e ainda me deixou com calos na mão.

Afastei as cobertas e saí da cama. O corredor estava congelando, assim como toda a casa, parece que Lúcifer tinha levada com ele todo o calor.

Entrei e peguei Steve entrando na sala com uma sacola de supermercado na mão. Ele sorriu para mim levantou a sacola.

_Boa tarde, raio de sol. – Steve deixou a sacola na bancada da cozinha e depois se voltou para mim. _Lúcifer disse que você não quis comer. Mas que menina desobediente. Comprei umas porcarias que talvez queira comer...

_Onde Lúcifer foi, o que foi fazer?

_Estou bem, obrigado por perguntar.

_Steve, por favor, me diz o que está acontecendo. – perguntei quase suplicante, ficar horas ali sem noticias e nada para fazer estava me enlouquecendo. Steve soltou um suspiro longo. _O que ele foi fazer com Morte?

_Digamos que Chicago está prestes a ser riscada do mapa. – depois de alguns minutos absorvendo aquilo pronunciei:

_O quê?

_Morte está lá para inundar a cidade. – disse ele calmamente, mas era claro que não havia nenhum vestígio de humor em sua voz.

_Mas... as pessoas... elas vão morrer. – ele me olhou como se eu fosse uma criança estúpida.

_Essa é a ideia, Bel. – agora o frio da casa parecia em mim.

_Temos que fazer alguma coisa. – sabia que não adiantaria muito apelar para Steve, o tinha perdido, mas algo em mim me dizia para tentar, não podia apenas ficar ali quando centenas de pessoas estavam preste a morrer._Por favor, pelo menos avise os meninos, eles podem fazer alguma coisa. – Steve sorriu.

_Está mesmo se preocupando com isso?

_São pessoas, seu mostro! – gritei sentindo os espinhos da raiva me perfurarem.

_É sério? Virou a Madre Teresa agora. Por favor Isabel, o que acha que acontece com suas preciosas pessoas quando você mata demônios com aquela faca mágica ou seus poderes mágicos? – eu sabia onde aquilo iria levar e tentei não morder a isca.

_Você é inacreditável. – ele deu um sorriso sacana.

_Já me disseram isso. – precisava fazer alguma coisa. _Princesa, é só...

Antes de ele terminar a frase afastei a mão direita e desferi um soco em seu rosto e uma joelhada no seu estômago quase que ao mesmo tempo. O efeito não seria muito eficaz, mas o elemento surpresa me deu alguns segundos para correr até o sofá e pegar o pedaço de madeira quebrada que deixei atrás das almofadas. Steve estava encurvado se recuperando e aproveitei a posição para pular em cima dele e cravar a madeira em suas costas.

Ele arquejou e gritou, o sangue chegou a espirrar no meu rosto e sujou minha mão do sangue que já se derramava com um rio vermelho na sua camisa branca. Puxei a madeira com força e ele gritou novamente. Segurei nas mãos como um taco e bati na lateral de sua cabeça. O som foi como se eu tivesse batendo num coco. Ele cambaleou para trás tropeçando e caindo com um baque surdo no chão.

Pulei em cima dele e comecei minha busca pela chave, apalpando os bolsos e a sua camisa. Quase gritei de felicidade quando encontrei ela presa num colar em seu pescoço. Peguei a chave e puxei arrebentando o cordão fino. Tudo isso pareceu levar minutos, mas eram apenas segundos, tão depressa que quase nem sabia que poderia ser tão rápida.

Fui cambaleando para longe dele e me levantei depressa ouvindo seus grunhidos. Meu coração batia tão rápido que temia não conseguir chegar a porta que parecia está á quilômetros. O ouvi se levantando e seu pés batendo no chão logo atrás de mim.

Praticamente me atirei contra a porta, desesperada tentei colocar a chave na fechadura. Consegui e logo conseguiria girá-la. Coloquei a mão na maçaneta para abrir a porta, mas antes que fizesse isso senti seus dedos na minha nuca e agarrando meu suéter.

Ele me puxou para trás com força me jogando contra parede, engasguei com força bruta e a dor do ar sendo expulso dos meus pulmões. Steve olhou para a chave na fechadura e fez uma careta, tirou-a de lá e colocou no bolso da calça. Quando tentei reagir ele me empurrou de volta pelos ombros me empresando na parede. Se inclinou para frente sibilando no meu ouvido.

_Não torne isso mais difícil, princesa. Não quero machucá-la, mas vou se precisar. – o empurrei para longe, mas ele nem se mexeu. Estava com o cheiro terroso de sangue, o que me enjoava. Na lateral de sua cabeça o sangue manchava seu cabelo claro, resultado da pancada. Ele passou a mão pelo cabelo afastando do rosto e sorriu para mim. _O que vou fazer com você? Eu deveria castigá-la por ter me dado uma baita dor nas costas e na cabeça.

_Não precisa fazer isso, Steve. Me deixe ir...

_Você não entende, né? – ele se inclinou novamente sussurrando tão baixo que no meu ouvido que mal o ouvir acima das batidas do meu coração. _Fazendo isso você vai ferrar mais ainda a gente. Então seja boazinha e confie em mim.

Cuspi em seu rosto e o mandei ir para aquele lugar, Steve riu e afrouxou as mãos no meu ombro me dando a oportunidade de socar seu rosto novamente. Com o impacto achei que tivesse socado a parede e quebrado os nós dos meus dedos. Ele cambaleou para trás e eu o empurrei para longe correndo para o corredor, tentando ir para o banheiro onde eu sentaria no vaso e choraria ou tentaria arrancar a janela da parede.

Mas nem cheguei perto e Steve já estava na minha frente me jogando novamente contra a parede e me prendendo lá com antebraço no meu peito. Ele se inclinou de novo e me olhou nos olhos. Me tirando o fôlego quando estes me fitavam tão negros como ônix.

_Isso não vai me assustar, Steve. – disse com a voz rouca.

_Valeu a tentativa, não acha? – respondeu piscando e deixando seus olhos castanhos dourados novamente, agora com um brilho perigoso e diabólico. Aproveitando a distração levantei o joelho e chutei entre as pernas usando meu peso para afastá-lo.

Ele se desequilibrou, mas antes de cair agarrou o colarinho do meu suéter me puxando com ele para o chão. Caímos com um baque, metade do meu corpo por cima do dele.

Agora não só queria sair logo dali, como estava com muita raiva e ela me corroía como veneno e ardia nas minhas veias até que me vi em cima de Steve tentando a qualquer custo feri-lo. Não, tinha que matá-lo.

Enquanto ele se debatia tentando me afastar eu arranhava seu rosto e tentava alcançar seu pescoço. Minha pele começará a brilhar e eu sentia a teia dos meus poderes cercando a essência demoníaca de Steve. Ele gritou tirando as mãos que prendiam meus pulsos e então a coisa se tornou insuportável, como fogo líquido correndo dentro de mim.

Com a mesma rapidez que veio, deixei aquilo se esvair. Por mais que o tempo congelava eu suava e queimava por dentro. Steve me empurrou de cima dele me fazendo cair para o lado dolorosamente. A agonia dentro de mim me fazia querer rolar naquele chão para apagar as chamas imaginárias, gritar ou atravessar o vidro e me enterrar na neve do quintal.

Me contorcia no chão com os olhos ardendo enquanto envolvia os braços no corpo e me encolhia como uma criança. Steve rolou no chão e ficou de joelhos, estava ofegante e parecia com dor. Ótimo, eu não era a única.

_Estava tentando mesmo me matar? – perguntou, parecendo genuinamente incrédulo. Estiquei as costas no chão e fitei o teto.

_Preciso sair daqui. – disse com a respiração ofegante, mas pelo menos a dor ia diminuindo.

_Desculpe, princesa, não posso... – não esperei ele, ou eu, se recuperar totalmente. Me estiquei e peguei o peso de papel de ferro, em formato de um cisne, da mesinha de centro e lancei o objeto na cabeça de Steve enquanto ele tentava se levantar.

O peso atingiu a parte baixa da orelha o fazendo urrar, o sangue escorrei em seu pescoço. Ia me lançar para frente, para ele para ser exata, tentar de novo pegar a chave, mas ao invés disso me levantei. Tinha que desmaiá-lo primeiro ou o ferir mais gravemente, só assim poderia pegar a chave e sair. Ele olhou para mim, a fúria queimando nos olhos.

Não demorou nem um segundo para Steve soltar para cima de mim como um animal. Foi como ser atropelada por um caminhão. Voei para trás caindo com força contra a mesinha de vidro. Senti minhas costas baterem no vidro e o momento em que ela estalou e se partiu em estilhaços estrondosos no chão de madeira.

Caí desajeitadamente para o lado, e gritei de dor e desespero quando o corpo de Steve pesou sobre o meu, os cacos em baixo de nós como espetos nas minhas costas. Ele prendeu meus pulso no chão e por um instante me senti tonta e minha vista escureceu pela dor e pela náusea da queda.

_Que droga, Isabel! – ele disse balançando a cabeça de um lado para o outro. Parecia alucinado ou desesperado. Meu quadril estava apertado entre seus joelhos, o que me dava poucos movimentos e ele ainda mantinha minhas mãos presas, e a dor que sentia era quase exaustiva. _Lembra quando disse que gostava de você, no nosso primeiro encontro? Então, falava sério e falo sério, eu gosto de você Isabel, mesmo, mas essa brincadeira já tá começando a me fazer gostar menos de você, e isso não é bom.

_O que vai fazer? Me matar? Me amarrar na cadeira? Não pode me machucar, Lucífer acabaria com você. – ele sorriu lunático. _Vai em frente, tente. Sabe que não vou parar até ver você morto. Até ver os dois mortos! – gritei para Ele me remexendo no chão para tentar me soltar. Ele me empurrou de volta com mais força.

_Pelo amor de... Cala a boca! – gritou, depois se inclinou para frente para sussurrar num murmúrio desesperado. _Ele consegue nos ouvir. Isabel, me escute bem, não faça nada, só escuta... Ele não vai parar, ele matou a mulher do Christian... ameaçou o bebê e vai matá-lo... Eu precisava, eu preciso fazer isso...

Minha cabeça deu mil voltas para entender o que ele me dizia, e logo me ocorreu que o nome Christian me era familiar por que tinha ouvido antes. Sua história, seu único antepassado e a mulher grávida. E então as coisas naquele quebra cabeça fora se encaixando aos poucos. Ele fazia tudo aquilo por sua parte humana. William tentando salvar Christian e um bebê inocente. Era inacreditável. Era demais para entender que fosse assim tão simples e... humano.

_E se eu deixar você ir, estou morto. – tive que ler seus lábios sangrentos para entender oque me dizia. Então tinha seu egoísmo ali. Se ainda estava vivo, certamente Lúcifer tinha planos para ele, não iria confiar essa tarefa á um demônio humanizado ou seja lá o que Steve era.

_Então vai deixar outras milhares de pessoas e crianças morrerem para salvar um homem e um bebê? – sussurrei de volta. Ele riu um pouco, o cabelo grudava no sangue no rosto o fazendo parecer um louco.

_Não só por ele, ou o bebê... Eu sei, não deveria me importar com essas coisas, e realmente não me importo. – ele pensou um pouco. _Pelo menos nem tanto.

_Então o que é? – ele sorriu mais uma vez e senti suas mãos me soltarem. Ele se levantou devagar e esticou a mão para mim. Ignorei sua mão e me levantei sozinha com dificuldade. Todo o meu corpo se retesiou diante da dor e instantaneamente senti os filetes de sangue escorrerem pela minhas costas. Steve me olhou com uma careta.

_Você está horrível.

_Mas acho que foi uma briga justa. – ele concordou afastando o cabelo sangrento da cara. Olhei para ele com expectativa de que fosse me dizer mais. As perguntas que gritavam na minha mente tumultuada eram: Quem era Steve? O que era Steve? Qual era o papel dele naquilo tudo? _Steve...

_Não vai a lugar algum, Isabel. – me interrompeu levantando as mãos em rendição. _Eu sinto muito, mas as coisas tem que ser assim.

Vi naquele momento que era inútil argumentar com ele. E não tinha mais forças para isso, não tinha forças mais para nada. Steve se afastou e foi para o corredor arrastado os pés e sumindo no seu quarto. Sem mais o que fazer também me arrastei para meu quarto.

...

Começou com lágrimas calmas, um riacho pacífico, mas depois parecia que tempestades moravam em minha garganta. Os soluços vieram fortes e dolorosos. Meu corpo inteiro ardia enquanto a água quente lavava meus ferimentos e eu via, encolhida no chão do box, a água avermelhada e os pequenos caquinhos de vidros serem levados para o ralo.

Tanto as dores no corpo quanto as dores psicológicas faziam com que eu tremesse de tanto chorar. Não conseguia simplesmente parar, estava atada a mim mesma, aquela coisa cheia de dor e tristeza. Simplesmente não sabia o que fazer.

Envolvendo os braços aos joelhos, o cabelo molhado no rosto machucado, a água que vinha de cima se misturavam com minhas lágrimas, chorava por aqueles que amava e os que não podia salvar. E o som do chuveiro não era nada comparado ao som ecoando do meu choro naquele pequeno banheiro.

Como queria Dean ali. Como queria poder abraça-lo e chorar em seus braços.

... — ...

Três dias depois.

Dean estava satisfeito com os resultados dos últimos dias, mas era impossível deixar de sentir o nó na garganta. Conseguiram salvar Chicago, Morte lhe deu anel, Bobby voltara a andar, graças a Crowley, e ele e Sam impediram que metade do mundo virasse zumbi. Então as coisas estavam indo bem melhores do que poderia esperar há três dias.

Mas apesar do outro lado da balança ser desfavorável, pesava mais. Ele concordou com Morte em deixar Sam se entregar á Lúcifer. Mentiu, é claro, tinha que ter outro jeito. Isabel ainda estava desaparecida, não tiverem nenhum sinal de seu paradeiro. E agora estava ele e Sam sentados na sala de estar de Sebastian. Pagariam o preço que o demônio pediu para lhes entregar o anel de Peste.

O mordomo, Arthur, o mesmo daquela noite, apareceu e os conduziu por um corredor longo. Dean lembrava daquele corredor e da sacada logo a frente e claro lembrava perfeitamente daquela fatídica noite. Não gostava daquele dia, e estar naquele lugar lhe trazia lembranças. Ele, o irmão e Isabel, vestidos naquelas roupas chiques e desconfortáveis, cães do inferno e depois, ali perto o que acabou com Dean. Saber que Isabel e Sam o traíram, dormiram juntos e o fizeram de idiota.

Dean odiava lembrar o fato. Tudo naquela noite ele odiava. Assim como tudo naquela casa e em Sebastian. Arthur os deixou em uma sala no fim do corredor. Dean olhou em volta esperando ver objetos de torturas e sangue nas paredes, mas não tinha nada disso.

Era uma sala ampla e arredondada. As paredes forradas com papel azul claro com estampa geométrica dourada, quadros em intervalos. O teto abobadado lembrava o céu, tinha até entre as nuvens pintadas uma representação muito errada dos anjos; gordinhos e tocando arpas. Havia estantes de livros dos dois lados, uma mesinha no centro e quatro poltronas confortáveis em volta. E em frente uma ampla janela de vidro que dava para o jardim.

Sebastian estava sentado em uma das poltronas, de frente para a janela, bebericando alguma coisa de uma xícara. A raiva de Dean ainda não tinha passado, vê-lo despertou o desejo que vinha nutrindo desde que o conheceu, queria matá-lo. Não, queria torturá-lo até ele dizer tudo o que sabia e depois matá-lo. Mas concordou, mesmo contrariado, em estar ali quando Sebastian fora na casa de Bobby vê-lo no dia anterior.

_Ah, olá meninos, sente-se. Sirvam-se. – disse com um gesto para a bandeja na mesinha com xicaras delicadas e um bule fumegando. _Apesar de eu achar que chá não vai satisfazer o gosto... rústico de vocês. – completou com desprezo. Como Dean o odiava.

_Diz aí, o que tenho que fazer? – disse Dean irritado.

_Mas já aos negócios? Pensei que poderíamos conversar um pouco. Alguma notícia da princesa perdida? – como sempre, antes de Dean responder com alguma grosseria, ou pior, Sam interveio.

_Vamos logo com isso Sebastian, não temos tempo. Onde está o anel? – Sebastian sorriu lentamente como um jacaré preste a abocanhar a vítima. E balançou a mão direita mostrando um único anel no dedo anelar.

_Pois bem, já que é assim. – ele pousou a xícara na mesinha e se levantou, ajeitou o blazer creme e olhou para os dois, se firmou em Sam. _Você. Fica de fora. Pode esperar no corredor se quiser, ou na biblioteca, você é o irmão nerd, não é? Vai gostar de lá.

_O quê? Não, de jeito nenhum. Não vou deixar o Dean sozinho com você. – disse Sam se alterando e chegando mais perto de Sebastian que só se voltou para Dean como se Dean fosse um pai que ele esperasse que controlasse o filho birrento.

_Sam. Espere lá fora. – disse calmamente ao irmão. Sam se voltou para ele surpreso.

_Não, não vou deixar você sozinho com ele. Dean, não. – Dean suspirou, já estava cansado daquilo.

_Tudo bem, Sammy, ele não vai me machucar.

_Por que acha que deixei que entrasse com toda essa coisa anti-demonio dentro dessa jaqueta barata? Sei que está com a faca, sei que não hesitaria em tentar me matar. Não se preocupe Sam, estamos no mesmo time, lembra? Não vou machucar seu precioso irmão. – disse como se forçasse as palavras a saírem. Dean sabia que ele perdia a paciência, também sabia que Sam não iria ficar quieto. _Pelo menos não muito. – acrescentou preocupando um pouco Dean. _ Mas ele vai se sentir bem melhor quando acabar.

_Sam, espere lá fora. – disse firme ao irmão antes que ele tivesse a chance de falar qualquer coisa. _Vou ficar bem, como ele disse, eu tenho a faca. – disse mais suavemente.

Sam olhou para ele como se esperasse que ele mudasse de ideia, ou que tivesse certeza do que estava pedindo. Por fim cedeu..

_Se fizer alguma coisa com meu irmão...

_Por favor, poupe suas ameaças para Crowley.

Sebastian ignorou Sam e foi até a porta abrindo-a chamando Arthur no corredor, o velho logo apareceu de prontidão.

_Leve o senhor Winchester a biblioteca. – ele fez um gesto para que Sam saísse. Com um último olhar de aviso e preocupação seu irmão se dirigiu a porta saindo para o corredor.

Sebastian não esperou nada e nem se despediu, a porta fora fechada para Arthur e Sam. Com um simples gesto de mão Dean ouviu a porta ser trancada sem nem ao menos ele tocá-la.

_Podemos começar? – perguntou a Dean. Pela primeira vez ali Dean se sentiu nervoso.

... — ...

Sam não ia sair de frente daquela porta, por isso dispensou Arthur. Claro que não podia ouvir nada vindo daquela porta mogno.

Do outro lado não podia fazer nada a não ser esperar. Não confiava em Sebastian sozinho com o irmão. Ele sabia que Sebastian seria um bom aliado, como soube que foi no dia em que Isabel desapareceu no ar com o anjo, mas mesmo assim também compartilhava da vontade de matá-lo com o irmão, mas tudo em seu tempo.

E ele ainda tinha o anel. O último anel. As coisas estavam finalmente andando, sem Isabel. Sam não queria nem pensar nela, isso fazia com que a dor em seu peito latejasse. Nunca alguém o feriu tanto por partir. Mesmo daquele jeito, mesmo por vontade dela, Isabel se fora e aquela realidade sem ela era distorcida e estranha a Sam.

Era obvio que ainda a amava, e muito, sofria tanto quanto Dean, e os três dias fora desolador para os dois, para Jamie e para Bobby. Não saber e não poder fazer nada era desesperador. Cass não podia ajudar, não conseguia nada com o anjos e ele notara que o anjo estava estranho. Ainda não teve a oportunidade de perguntar por que, mas sabia que alguma coisa estava acontecendo com Castiel.

Agora sem muito o que fazer tendo talvez algo a barganhar, Sam estava decidido a se entregar. Era o justo e certo a fazer, no fim das contas as coisas não estavam mais nas mãos de Isabel. Iria ser uma decisão conjunta, contaria a Dean e Bobby seu pano e esperava que os dois concordasse com ele.

Por outro lado se preocupava com Dean, como ele encararia tudo, o irmão não iria concordar de cara. Sem Isabel e ele querendo se entregar a Lúcifer, Sam só poderia esperar que o irmão ficasse bem e aguentasse mais um pouco.

Depois de alguns minutos andando de um lado a outro Sam ouviu o primeiro sinal de vida vindo aquela sala.

Chegou mais perto e seu coração disparou quando ouviu um grito de dor de Dean.

... — ...

As batidas e os gritos de Sam eram distantes e inconsequentes diante do turbilhão de coisas que estava acontecendo em sua cabeça. Enquanto a agulha enfiada no seu pescoço tirava a graça de Miguel de seu corpo ele sentia como se tivesse suas lembranças sendo sugadas também pegando caminho diante de seus olhos e mente.

Ele viu o pai, a mãe e Sammy. Via sua primeira caçada, viu Sam partir para Stanford, viu o pai mais uma vez e missão que eles tinham diante dos olhos. Viu o inferno, viu Isabel... E a imagem dela era nítida, mas ao mesmo tempo turva como se estivesse de baixo d'água. Viu seu rosto sereno em uma cama de hotel, e viu seu rosto assassino que o assombrava desde então.

Viu sangue, família, esperança, amor e muita dor. Era quase insuportável prender o grito na garganta. Era quase insuportável deixar tudo se esvair dele. Ele sentia a agulha grossa cavando algo nele, era doloroso, mas nada se comparava ao fogo que se alastrava dentro dele. Nada era tão insuportável quanto a graça de Miguel sendo sugada para fora de seu corpo.

Do lado de fora Sam ainda gritava seu nome e esmurrava a porta, Sabastian, apesar do cuidado, não se preocupava em ir cada vez mais fundo. Então as coisas foram ficando escuras, borradas até apagarem por completo. Mas ele ainda estava lá, ainda sentia a textura da poltrona confortável enquanto seus dedos afundavam no seu encosto. Ainda podia sentir a agulha, mas em meio a escuridão ele a viu. Uma vela iluminando seu caminho.

O rosto de Isabel flutuava em sua mente, branco e plácido como nunca antes. Ele tentou se agarrar aquilo, a única coisa dela que havia sobrado para ele, sua lembrança. Ela sorriu devagar. Ah, seu sorriso. E então desapareceu como fumaça, a vela em seu caminho escuro se apagou, assim como calor em seu corpo foi apaziguado. Tudo havia desaparecido.

As coisas iam e vinham, ele ouvia Sam do outro lado berrar alguma coisa com Arthur, viu Sebastian debruçado sobre ele lhe dizendo alguma coisa. "Não sabia que era tão forte. Bravo soldado! Sinceramente achei que morreria, esse processo é bem letal, o que tinha dentro de você mais ainda." Ele pôde ouvir isso, as palavras eram confusas e longes, mas ele entendia.

"Pronto para a segunda sessão? "

As palavras flutuaram para ele. Dean não conseguiu dizer nada, estava fraco demais para protestar e seu cérebro não funcionava bem com a velocidade com que as palavras deveriam ser ditas. Então ele gritou de novo quando sentiu a picada letal da agulha em seu pescoço.

... — ...

Era tudo exatamente igual como era antes. Até o cheiro na cozinha pela manhã, chá fresco, pão assando e ovos. A madeira velha do balcão da cozinha e os bancos ainda tinham a mesma textura áspera.

O sol dourado ainda refletia nos mesmo talheres já sem tanto brilho pendurados na parede perto da pia. E ali a fogão estava ela, mexendo os ovos e cantarolando alguma canção que não conhecia. As vezes achava que ela esquecia que ainda estava ali, sentada no bancada esperando e observando ela. Tinha certeza que naquela idade ainda a achava muito bonita.

lembrava de pensar que quando crescesse meu cabelo ia ser tão lindo quanto o dela. Tão brilhantes e cheio de ondas como os da minha mãe, que meus olhos iam ter aquele brilho bonito, como os olhos de plásticos das bonecas que gostava. Agora percebia o quanto estava ali, fazendo o café da manhã e cantarolando parecia sonhadora. Com que ela sonhava? O que fazia suspira entristecida e se esquecer de mim na mesa da cozinha a olhando, esperando a minha vez.

E naquele sonho ela fez o mesmo que sempre fazia, se virava de repente para mim e sorria. E perguntava o quanto estava com fome, era sempre uma escala de 1 a dez que eu animada gritava cem e ela ria e enchia meu prato com o que quer que tenha preparado.

Aquela seria a melhor parte da minha vida, só nós duas, eu ia a escola, voltava, nós riamos dos roncos do tio no sofá a noite. E a gente passeava por Oxford, tomava sorvete e ela para mim parecia tão diferente e especial das outras mães, talvez seja por que ainda era jovem demais. Mesmo naquela época sabia que eu vivia em meu mundo só meu, e ela no dela, mas sempre juntas. Eu sabia que tinha algum lugar em mim que ela não podia ir, que algo me cercava, assim como ela também mantinha uma casa em seu peito onde eu não podia passear. Mas eu era feliz,

Então não me assustava aquele sonho, eu de anos depois sentada naquela cadeira que agora parecia maior. Não me assustava o fato de ela não ter notado a diferença de idade, o sorriso dela era o mesmo, ela ainda era linda e jovial, ainda tinha o mesmo brilho no olhar, a mesma tristeza escondida. Aquele sonho, ou lembrança me enchia de saudades.

Ela riu para mim como se eu tivesse respondido algo e colocou os ovos no meu prato. Era tão estranho que era como entrar em uma fotografia, sabia o que acontecia a seguir, o que eu falaria se tivesse 7 anos, mas não fiz isso, por que tinha 22 e tinha voltado ali, através do tempo para reviver aquele momento, para quê?

_Coma tudo, Bel, se não vai continuar baixinha. – disse ela sorrindo para mim afagando meu cabelo.

Encarava os ovos no prato enquanto ela mexia na gavetas do armário velho de madeira. O tilintar dos talheres sendo remexidos parecia mais alto ali, ou na minha cabeça, queria dizer alguma coisa a ela foi simplesmente abraça-la, mas não conseguia.

Levantei o rosto e a olhei, ela olhou para mim com um sorriso tranquilizador e pegou da gaveta uma faca.

_Me amor, você tem que prestar a atenção. Só tem um jeito de escapar, e você tem que ser rápida, tudo bem?

Me levantei do banco sentindo meu coração pesar no peito. O buraco que sentia antes agora parecia minar enquanto a via e a ouvia na minha frente. Era um truque cruel da minha mente.

Assisti confusa enquanto ela fazia um corte na parte interna do braço. Foi aí que tudo começou a escurecer e ficar confuso demais, parecia que finalmente o frio de Oxford encontrou caminho para se apegar a mim. Dei a volta na bancada com as pernas bambas para impedi-la.

_O que está fazendo? – foram as minhas primeiras palavras ali. Minha voz soou estranha, como se há vários dias não falasse. Soou distante e rouca. Quando me aproximei, ela recuou balançando a cabeça e estendo a mão para me parar onde estava.

_Preste a atenção. – fiquei parada olhando para minha mãe, que agora parecia outra pessoa, soava como outra pessoa.

Ela largou a faca na bancada do armário, o sangue escorria pelo seu cotovelo e manchava com pintas vermelhas o piso limpo. Ela levou dois dedos ao corte no braço e desenhou uma linha reta no vidro da porta do armário.

Tinha que controlar todos os meus impulsos primários para não impedi-la ou desabar ali, ou até mesmo para não acordar. Minha cabeça começava a doer enquanto ela desenhava linhas de sangue sem sentido para mim na porta do nosso armário.

Era um desenho simples até. Um circulo com linhas entrecruzadas no meio. Ela finalizou o desenho e olhou para mim.

_Pode funcionar com você, eu sei que pode. Afinal você ainda poderia ser um anjo. – ia perguntar do que ela estava falando quando o símbolo sangrento começou a emitir um brilho e um zunido leve. _Faça agora!

Foi a última coisa que me disse antes que tudo voasse pelo ares, inclusive eu. Meu corpo foi arrancado do chão e impulsionado para trás...

Acordei ofegante e dolorida, minha cabeça latejava, assim como meu coração. O que diabos foi aquilo? Afastei as cobertas da cama, afastei o cabelo grudado na testa pelo suor e me levantei da cama quase que num pulo.

Eu sentia como se tivesse sido acordada por uma descarga elétrica. De repente eu tinha um propósito, talvez uma ideia tirada de um sonho e que parecia desesperada, mas que estava disposta a tentar. Afinal, não tinha muito a perder.

Sabia o que deveria fazer.

... — ...

_Como sabe que vai dar certo? – perguntou Castiel se aproximando dele.

_Eu não sei irmão. – Miguel colocou a mão direita no ombro de Cass e completou com um sorriso. _Mas tenho fé que irá. E eu preciso encontrá-la primeiro.

_E o que acontece depois?

_Quem sabe? Mas está perto, eu posso sentir. – ele cravou seu olhar insistente e pesado no anjo, o que não condizia com o corpo que possuía, e colocou a outra mão no ombro em seu ombro. _Tudo irá terminar logo, irmão, em poucos dias eu presumo. Mas não se preocupe, vamos vencer.

... — ...

Sam estava com o ombro dolorido de tanto tentar arrombar a porta, era claramente inútil, mas o desespero o fazia continuar, mas a falta de fôlego e o celular vibrando no bolso o fez parar. Na tela do aparelho uma única mensagem.

Redan, Atlanta. Sejam rápidos, Alce. A encontre primeiro.

xoxo

Notas finais
E então, e entãooo, o que acharam??? Pleassseeeee, eu peço que me digam se ainda estão aí e leram até aqui, vai, eu nunca pedia nada a vocês ( mentira, eu sempre peço ) Comentem o que acharam, sério, críticas são bem vindas... E eu prometo terminar logo essa fic, eu já disse isso antes, mas agora realmente estamos em retas finais. Até meus Anjos ;) XOXO
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.