Broken Girl
29 Capítulo vinte e nove: Cinzas de Anjos
Notas iniciais
Sam não soube exatamente como aconteceu. Ele se lembrava de está na lanchonete próxima ao hotel, tinha deixado Isabel, a libertado. Mas a noite caíra, o frio de inverno e as sombras nas calçadas. E então tudo se apagou para ele. A cabeça batendo na parede ou um soco, ele não se lembrava bem, mas agora não importava.
Acordou desamarrado em algum lugar escuro. Ainda estava armado, se agarrava a pistola, a adaga dos anjos sumira. E os sons longe, mas perto o suficiente para ele ouvir os gritos agonizantes, foi o que o despertou. Agora ele estava parado em pé no escuro tentando distinguir as formas a sua volta. Foi quando ouviu um gemido, um sussurro perto. Sam girou o corpo e apertou os olhos para distinguir de onde vinha o som estranhamente abafado.
_Por favor... – era uma voz feminina, fraca e distorcida. Por um momento ele sentiu medo por pensar que poderia ser Isabel. _ Aqui... – disse a voz novamente. Não parecia Isabel. Ele se aproximou mais com a arma em punhos. Ele deu alguns passos hesitantes e cegos, até que conseguiu identificar a forma de um carro. O teto alto de madeira quebrada lhe dava alguma luz da noite. Foi assim que ele se situou, percebendo que estava em uma espécie de celeiro.
_Ei, quem está aí? – perguntou olhando a forma escura atrás da janela.
_Por favor... rápido antes que ele volte. – disse a menina, a voz chorosa e as mãos espalmadas no vidro. Agora de perto Sam conseguia ver um rosto jovem e assustado, as arcas de lágrimas trilhando as bochechas manchadas. O carro, Sam supôs estava trancado.
_Tudo bem, fique calma, vou tentar tirá-la daí. – Sam olhou em volta e não conseguiu captar nada que pudesse usar para arrombar o carro, o jeito seria quebrar a janela. _Agora eu quero que se afaste e... – ela de repente começou a bater as mãos no vidro, a voz abafada se embolando, os olhos arregalados, até que Sam entendeu.
_Atrás de você! – Sam se virou, no momento seguinte sua arma voou para longe como um graveto, ele viu a figura em preto e depois alguma coisa agarrou seu corpo, não um braço ou qualquer uma parte única, ele se viu ser suspenso por alguma força gravitacional.
Sam se sentiu acima de tudo, o carro e a garota gritando agora ficando em algum lugar abaixo dele enquanto ele voava no escuro. E logo veio a queda, outra força o empurrando para baixo. Bateu no capô do carro com um som de metal amassado, rolou e caiu no chão de terra. Seu rosto apontava para cima, os olhos turvos pela dor e tontura captavam estrelas borradas no céu através das fendas no teto.
Sam grunhiu de dor e tentou se levantar, mas não precisou, o homem de terno entrou em seu campo de visão e o agarrou pela camisa colocando-o de pé e de novo a força atingiu todo o ele, dessa vez o atirando contra a parede, uma estante cheia de ferramentas, outras coisas e latas, vidros explodiram e ele sentiu a madeira se partir com o peso do seu corpo. Bateu ali de cara, o corpo mole trazendo o chão para cima tão rápido que em meio segundo ele estava estirado nele.
Sam sentiu a dor explodir nas costas. Um osso se partindo. Teria gritado se tivesse forças. Sua visão se enchei de estrelas novamente. Sentiu a ardência atrás dos olhos e o gosto do próprio sangue na boca. Numa mudança vertiginosa, suas bochechas encostaram o chão e sua visão captou outra coisa que o deixou perturbado. Ele sentia que iria partir logo, não a morte, mas o inevitável desmaio. Mesmo com a mente confusa, ele ansiava por isso, pelo menos a dor iria cessar. Queria apagar, desmaiar. Iria logo, mas antes ele veria o rosto de Dean. Seu irmão caído bem ao seu lado, o rosto virado para ele, os olhos fechados e o rosto manchado de sangue.
Sam tentou chamar seu nome, mas as palavras se embolaram ao sangue e a tontura o venceu. Seu desejo foi atendido. Sam desmaiou.
... — ...
A cidade estava um caos completo. As casas tinham portas e janelas quebradas, algumas chamuscava no estranho fogo branco, que iluminava bem o sangue e a confusão na rua com um brilho duro e contrastante, como se um refletor tivesse sido ligado em alguns pontos. Tinha corpos caídos como se fossem nada mais do que parte da calçada, as pessoas os pisavam, pulavam e corriam a minha volta. Gritos de dor e outros eram nomes chamados aos berros desesperados.
Parei horrorizada. Steve praguejava ao me lado e me dizia alguma coisa, mas prestava a atenção em outra. Uma família do outro lado da rua. Uma mulher, puxava algum corpo de dentro da casa em chamas, uma garotinha chorava agarrada a sua saia, todos ainda com roupas de dormir. A mulher tossia e engastava, mas jamais deixava a mão do marido caído no chão da varanda.
Mal chegaram a rua e um homem de terno preto apareceu, a luz do fogo iluminava sua adaga. Mal percebi que corra para eles até que o vi ficando cada vez mais perto de mim. Erguia a minha adaga e praticamente me joguei em cima dele. A lâmina cortou seu ombro e meu corpo se chocando no seu fez com que nós dois caíssemos nos degraus da varanda.
O anjo me empurrou de cima dele com o braço fazendo minhas mãos escorregarem do cabo da adaga e meu corpo rolar para a rua. Ele se virou e logo estava em cima de mim e lâmina erguida acima da sua cabeça, até que no instante depois ele pareceu me reconhecer, seu olhar ficou confuso a adaga permaneceu no ar. Aproveitei a oportunidade, e chutei a lateral do seu corpo o derrubando. Arranquei a adaga de sua mão e a cravei em seu peito.
Apertei os olhos quando a luz explodiu de seu peito. Quando tudo terminou me levantei e procurei pela família, a menininha se escondia atrás da mãe e a mulher se encolhia para trás.
_Vão, saiam da cidade! – disse. Elas continuaram paradas olhando para mim assustadas, o marido e pai ainda morto no chão. A casa ainda em chamas atrás delas. _Precisa deixá-lo. Por favor, vão! Agora!
_O que está fazendo? – perguntou Steve impaciente pegando meu braço e puxando para longe. A mãe e filha enfim se mexeram e as vi se afastando e depois minha visão mudou quando Steve me girou para ficar à sua frente.
_O que está acontecendo aqui afinal, eles estão matando pessoas... estão...
_Estão nos caçando. Procurando demônios. – disse Steve silenciando o principio da minha histeria.
_E Sam e Dean, onde estão?
Steve balançou a cabeça de novo.
_Dean me achou antes do caos começar, ele estava procurando o Sam e disse que você tinha preferido ficar no quarto, é claro que não acreditei, mas logo depois fomos atacados por anjos e ele sumiu.
Minha cabeça zunia. Sumiu? Como assim sumiu? Ele não pode simplesmente desaparecer...
A minha desorientação me deixava estática no caos a minha volta. Não aguentava mais o calor, os gritos e os movimentos das pessoas a minha volta. O sangue, a luta. Tudo tomou proporções bem maior do que eu imaginei. Mal vi quando Steve foi afastado de mim e sumiu no tumulto.
O colorido das tentas e barraquinhas derreteu e virou cinzas ao fogo celestial. O colorido se devia ao sangue nas ruas. Sem pensar muito corri para qualquer fosse a direção. Corri e ignorei os gritos e mãos que tentavam me agarrar até que cheguei a um beco vazio.
Forcei minha mente a trabalhar, a lutar, a sair daquela viela e enfrentar oque tinha armado. Mas estava exausta e dominada por um pânico maior do que o da batalha. O pânico da perda, não fazia ideia onde Sam, Dean ou Castiel estavam. Não os sentia. E estava mito cansada. Sangrava em algum lugar, mas sentia dor no corpo inteiro.
Minha garganta arranhava por causa da fumaça e meus olhos ardiam, e eu sufocava a vontade no peito de me agachar ali mesmo, colocar a cabeça entre os joelhos e chorar, ou simplesmente entrar em transe para que pudesse obter resposta.
Sabia o que tinha que fazer. Me entregar. Era essa a mensagem. Suportar. Não sabia o que poderia significar esse suportar.
Quando recuperei o fôlego tentei me enchi de coragem para entrar novamente na batalha. Ia encontrar Sam, Dean e Castiel nem que eu tivesse que torturar cada anjo naquele lugar. Me preparei para ir, mas mantive os pés fincados no chão quando uma figura de preto apareceu no fim do corredor.
Seu olhar se prendeu ao meu e nenhum dos dois deu o primeiro passo para a luta. Na verdade ele parecia tranquilo. Seu olhar continuou no meu enquanto ele se afastava e eu tonta e desesperada a o segui.
Tive que praticamente correr para acompanhá-lo. Mas passamos sem problemas um tanto longe do caos e logo me vi em um campo aberto, a cidade em chamas logo atrás de mim. A minha frente dava para ver o trilho do trem percorrendo até perder de vista. Alguns vagões vazios e enferrujados e um pouco mais à frente um celeiro.
Estava a ponto de perguntar a onde iríamos. De gritar para ele que não haveria luta, que só queria uma coisa de volta e eu iria com ele, mas ele parou na estrutura grande de madeira, um celeiro velho e maltratado pelo tempo. O anjo olhou para mim e entrou. Respirei fundo e o segui com o coração martelando.
Assim que entrei a cena me atingiu como um soco no estômago. Sam e Dean estavam caídos no chão, sangue manchava seus rostos e eles estavam desacordados. Logo ao lado estava um Castiel também ferido, de joelhos em um círculo que brilhava com um luz azul como o fogo que crepitava lá fora. Seus braços estavam acorrentados a frente do corpo. Seus olhos azuis tão vivos estavam quase sem foco. Ao lado, o anjo que me levou até ali e um outro que não conhecia. No centro como um anfitrião estava Josias.
Eu queria desabar.
Meu instinto me dizia para correr até eles, mas minha mente mantinha a fortaleza que tentava armar. Por isso respirei fundo e tentei me pronunciar o mais clara possível, era difícil sufocar os gritos e soluços na garganta e dar passagem ao que era racional.
_Não estou aqui para lutar. Deixe eles iriem e eu vou com você. – ele me analisou como se me estudasse. O rosto quase inexpressivo marcado com olhos insondáveis me fitavam atentamente.
_Preciso lembrar a você que só preciso de meio segundo e aquela pobre criatura, como vocês dizem, irá pelo ares. – olhei para o rosto apavorado de Tessa flutuando muito branco na escuridão do interior do carro. Ela olhava para mim muito confusa e suplicante.
Deus saberia que eu nunca havia desejado mal algum á ela, e estava disposta a lutar por ela, devia isso a Adam. Então o que faria?
_Portanto sugiro que não tente qualquer que seja seu plano com sua corja de demônios.
_Não tenho nada. Vim me entregar. Pode me levar para onde quiser, mas vai ter que deixa-los ir. – e pela primeira vez mostrou algum humor através do desprezo.
_Não vim aqui só por você. Não armei isso tudo só para você, cria do demônio. Vou levá-los conosco. Quanto a garota... – fez uma pausa. Ele olhou para o lado, Tessa. Meu coração gelou. E disse: _A garota poderá ir quando formos.
Não disse nada. Aquilo tudo tinha me perturbado. Devagar e gradativamente minha máscara de garota durona foi se desfazendo. Podia ver que ele se divertia vendo o desespero repentino cair sobre mim.
Não era apenas eu. Ele arrastaria Sam e Dean. Minha mente estava nublada. Olhei para os dois inconscientes no chão, e na outra extremidade Castiel, machucado e acorrentado. Não sei o que esperava, ele não podia ajudar naquela condição.
_O que esperava? Somos muitos, Isabel. – disse meu nome como se fosse alguma coisa venenosa. _Nunca podera derrotar o céu.
Os gritos da cidade em chamas ainda eram audíveis. Eu não entendia o por que eles tinham que morrer. Quantos mais eu teria que carregar comigo? E eu também mais do que nunca desejava que os anjos fosse como nas histórias de ninar, que eles fossem fofos e que te protegessem a noite do monstro que morava em baixo da cama. Estava tão enganada. Eles eram os monstros que moravam lá. Implacáveis e cruéis.
Começava a achar que a escolha de Lúcifer fora sábia. Pelo menos ele era honesto com quem era, e o preço fora a queda. E eu agora entendia sua raiva. Eu tinha aquela raiva em mim. Como um pavio pronto ara acender, esperando apenas uma fagulha. Mas tinha alguma coisa me mantendo no exato lugar onde estava. Sam e Dean eram minhas âncoras ali. Tessa e seu olhar desesperado, e Castiel sem forças no chão. Não podia me descontrolar.
Mas era difícil não ceder a pressão em mim. Aquele chamado desesperado por libertação. A muito tempo não usava meus poderes . Tinha dentro de mim aquelas duas forças conflitantes brigando por espaço. Céu e Inferno. Tinha os dois comigo e não podia usar, não agora, não com tanto em jogo. Então o que iria fazer?
Josias deu um passo a frente. Resistir a vontade de me encolher. Ele parou bem diante de mim. Seus olhos olhando para baixo, para mim. Ele deu um sorriso amplo.
_Não vai fazer nada. Não pode. Eu vejo você criaturinha. Está assustada. – ele tentou me tocar, mas recuei deixando sua mão pairando próximo a meu ombro. Seu sorriso havia sumido, agora ele parecia me desafiar. _Pronta para ir?
Olhei atrás dele. Sam e Dean. Eles não sentiriam nada, disse para mim mesma. Nem saberia o que havia acontecido quando acordassem. Não tinha escolha, a não ser... O solo sob nossos pés começou a tremer. A princípio uma leve vibração, depois a escala fora aumentando gradativamente. Josias agarrou meu braço e o puxei de volta. Não era eu.
O tremor fora se tornando mais forte. Ele continuou a me encarar, agora com raiva. Deu um passo para trás. O anjo olhava para todos os lados. Seja o que fosse ele também sentia. E não vinha de mim, vinha de todos os lados. O ruído maldoso e aquela vibração ruim. Parecia que podia sentir nas veias o sangue de Lilith se agitar. Um trovão soou no alto, e em seguida os vidros já quebrados da janela se espatifaram lançados para dentro junto a pedaços de madeira. Coloquei as mãos sob a cabeça para me proteger. E foi como se acionassem um interruptor, a luz se fora.
Meu Deus... O berro de Tessa fez meu coração dar um tranco, como um motor de caminhão. Uma nuvem negra havia tomado todo o galpão. Como uma onda fui arrancada do chão e caí rolando a poucos metros como uma marionete. Minha bochecha bateu no chão e meu braço ardia em algum corte ou contusão. Não enxergava nada, nem um palmo á frente.
E eu podia sentir que era um demônio. Sentia a energia da nuvem roçando minha pele, meu sangue pulsava. Aquela força era tão grande que achei que me arrancaria do chão novamente. Vinha acompanhada de uma rajada de vento, que não sabia se era natural ou efeito da nuvem negra. A terra solta pinicava na minha pele nua e me arranhava como minúsculas navalhas. Fechei bem os olhos. Não adiantava mantê-los abertos.
E a agonia, a sensação de vastidão negra se expandia no meu peito que me deixava paralisada. Estava entrando em pânico.
Até que ouvi gritos. Foi então que comecei a me mexer. Me coloquei de joelhos e comecei a engatinhar no escuro. Uma explosões brilhantes do meu lado direito me fez recuar para o lado, meu corpo bateu em algo sólido e eu conseguir distinguir com as mãos a roda da caminhonete. As luzes cessaram sem eu conseguir saber o que eram, ou melhor quem era. Sabia que aquela luz só poderia significar uma coisa; A morte de um anjo.
Tateando pela lataria do carro conseguir me colocar de pé e achar a maçaneta. Meu coração martelava no tímpanos, que eram preenchidos pelo ruído do inferno. Aquela fúria e aquela energia demoníaca que produziam um som vibrante e agonizante. Como uma tempestade. E ainda tinha o som do bater de asas dos anjos, seus passos desesperados tentando saber o que acontecia, suas adagas cortando a fumaça negra sem realmente acertá-la. Aquilo fazia parte do ar.
_Tessa! Tessa! Tente abrir a porta! – gritei batendo no vidro da janela. Tentava puxar a maçaneta, mas ela não abria. Ouvia um gemido de dentro do carro. Colei meu ouvido no vidro. _Tessa, por favor. Concentre-se! Tem alguma coisa aí dentro que possa quebrar o vidro?!
_Não! Eu não vejo nada! Estou cega! Ah, meu Deus, estou cega!
_Não! Tessa, você não está cega! Tentei... – minha frase ficou no ar quando alguma coisa atingiu minhas costas me prensando contra o carro e me derrubando no chão. Minhas mãos deslizaram pelo vidro sem eu a menos conseguir alguma coisa em que segurar. Era um corpo caindo junto ao meu.
Senti mãos tentando me agarrar, mas me encolhi contra a roda da caminhonete e comecei a me debater. Ouvia uma voz me chamando. Me agitei ainda mais, porém alguma coisa agarrou meu tornozelo. Gritei usando o outro pé para chutar seja lá o que fosse. Conseguia sentir meu pé acertando algum membro e depois outro. O fato de que não podia ver me deixava quase histérica. E mesmo sabendo que ninguém podia ajudar eu continuava gritando.
Até que meu tornozelo foi solto e antes que conseguisse pensar em qualquer coisa sentir um peso sobre mim me prensando no chão. Era um corpo forte e masculino sobre o meu. Fiquei tentada a abri os olhos. Mas continuei com eles fechados tentando saber se a silhueta em cima de mim era familiar. Me deixei parar de me agitar. Um roçar de cabelo na minha bochecha e meu coração se encheu de esperança. Senti lábios no meu ouvido e eles diziam:
_Calma Princesa, sou eu. – por um momento pensei que fosse Sam. Pude sentir o sorriso na voz de Steve mesmo sem vê-lo. Coloquei minhas mãos em seu peito, tateando e o empurrei para cima. Senti seu joelhos ao lado do meu quadril quando ele se ergueu.
_Steve! Saí de cima de mim! – Seu peso me abandonou completamente e sentir sua mão no meu braço em puxando para cima. Então ele enxergava. _Quebre o vidro! – gritei batendo na janela da picape.
_Você tem que sair daqui, não temos tempo, vamos! – ele tentou me arrastar para longe.
_Não! Quebre o vidro! – puxei meu braço de volta. Uma outra explosão de luz seguida de um grito atingiu minhas pálpebras. O ouvi praguejar e então ele gritou para Tessa se afastar. Ouvi o impacto de alguma coisa contra o vidro e logo depois ele se partindo.
_Tessa! Venha. – Coloquei minhas mãos para dentro do carro. Um dos cacos cortou um pouco meu braço. Steve me puxou para longe impaciente.
Ouvi os gemidos de Tessa perto dessa vez. Ela a salvo estava pronta para procurar Sam e Dean. Ia fazer isso quando Steve agarrou meu pulso e disse algo que se perdeu no vento agora mais forte e tudo tremeu novamente.
Tessa gritou de novo, e eu agarrei a maçaneta do carro temendo ser lançada de novo para longe. E sentir tudo sendo implodido. Me permitir abrir um pouco os olhos e a primeira coisa que vi fora asas, pelo menos a sombra delas nas costas do anjo Josias que agora brilhava por inteiro. E foi como se tudo tivesse parado no tempo. O ruído demoníaco era abafado agora. A fumaça negra se dissipava até que o único som fosse o som agudo do anjo se alastrando entre a escuridão, preenchendo as vigas de madeira do galpão, assumindo nossas audições até que estava em toda parte.
Steve arrancou minha mão me jogou no chão, seu corpo sobre o meu novamente. Só fui entender o por que quando tudo foi pelos ares. Quando o som angelical se tornou insuportável. A madeira do galpão parecia papelão sendo jogados na noite. O chão tremeu, mais vidro explodiu. A picape bem atrás rangia. O teto desabava numa chuva de telhas e lascas de madeira.
Meu rosto estava prensado no chão, assim como meu corpo era protegido pelo o de Steve. E naquele momento e queria sair dali e correr para Sam e Dean, protegê-los com o meu corpo.
... — ...
Castiel estava no alto quando viu o galpão explodir. Ele sabia que era obra de um anjo. E temeu por Isabel e pela pobre garota. Quando viu a força do Cavalheiro do Inferno tomar o lugar ele resgatou o pouco que tinha de força para lutar e tomara a adaga de um dos anjos que o prendia. Dali ele nem lembrava muito bem a ordem dos acontecimentos. Sabia que tinha usado a arma para se soltar das correntes e desfazer os encantos. Tinha matado um de seus irmãos e depois tinha levado Sam e Dean com ele.
Não podia ir muito longe com sua graça enfraquecida e ainda com dois humanos com ele era demais. Mas conseguiu se afastar o suficiente. Sam e Dean acordariam logo e ele não sabia bem como para-los. O primeiro instinto dos Winchesters seria entrar na briga novamente e ir atrás de Isabel.
Castiel estava sentado no topo de um morro, vendo lá de cima as últimas chamas celestiais crepitar na cidade. Já havia assistido batalhas e cidades sendo destruídas antes pela força celestial, já até participou de muitas. Mas agora toda aquela brutalidade parecia lhe deixar triste. Ele não sabia quanto de seus irmãos sobreviveram e quantos demônios ainda caminhavam por ali, mas naquele momento ele desejou secretamente ter o poder para ir para bem longe da luta, de seus irmãos e todo aquele caos. Desejou ter o sono dos Winchesters e só acordar quando tivesse terminado.
Ele viu como um grande corredor se estreitando a batalha daquela noite. A primeira que poderia marcar uma era. Demônios e Anjos se enfrentando em campo aberto, na terra. Era o apocalipse. Não como ele imaginou que seria. A incerteza do que iria acontecer em seguida era quase desesperador. Ele podia sentir a dor e agonia do céu. O medo também estava nele.
Sem Miguel, sem regras ou uma linha a seguir qualquer coisa poderia acontecer. Isabel poderia acontecer. Agora ele realmente acreditava na possibilidade de que o futuro do mundo estava nas mãos de uma garota. Céu e Inferno não tinham mais como controlar o destino da batalha.
Agora Isabel estava lá embaixo, demônios a seu lado e um Cavalheiro do Inferno fazendo o que ele deveria fazer. Cass não sabia como poderia protegê-la e nem como fazer com que ela escolhesse o lado certo, se é que tinha algum. Se sentia um pouco culpado por deixá-la. Se Josias vencesse ele a levaria. O que poderiam fazer com ela no céu, ou o que ela poderia fazer no céu era preocupante.
Castiel colocou as palmas da mãos no peito de Sam e Dean, e deixou seu poder enfraquecido passar para eles tentando curar os ferimentos mais graves.
_Poupe suas energias, irmão. – Cass estava tão fraco e distraído que não sentiu sua presença. Ele olhou para cima e acompanhou com o olhar quando o anjo se agachou ao seu lado e fez o que ele tentava fazer. Para Ele foi rápido. Sam e Dean estavam curados. Iam acordar logo.
Castiel não tinha oque dizer. Talvez estivesse tão confuso e dormente que esqueceu as perguntas. Ele não sentia nem medo.
Lúcifer sentou ao seu lado esticou as pernas na grama alta e se apoiou nas mãos atrás de si, como se pegasse a luz da lua em um piquenique, e olhou para baixo. Para a cidade. E então se voltou para Castiel.
_Foi uma boa decisão ter deixado o céu. – ele estava diferente da última vez que o virá. Seu rosto estava mais branco e mais danificado. Sua casca parecia preste a explodir. Mas sua fala era tranquila e casual, como se ele não pudesse simplesmente terminar com tudo que acontecia lá baixo em um minuto se quisesse.
_Por que agora somos iguais? – tentou Cass. Lúcifer sorriu preguiçosamente.
_Não exatamente. – ele olhou para baixo novamente. Seu rosto agora assumia uma expressão tranquila, quase terna. _Você só não iria querer estar lá.
Cass tentou interpretar o que o outro anjo dizia. Queria perguntar, mas não queria ouvir a resposta. Então Lúcifer continuou.
_Hoje é uma noite um tanto especial para mim. – ele olhou para Castiel e este sentiu o peso daquele anjo. Sua graça pungente, bela e grandiosa o oprimia a uma pequena chama em comparação. Lúcifer olhou para Sam ali perto, afastou o cabelo de sua testa com o cuidado de um pai.
Castiel pensou o quanto aquilo era frustrante para ele; está preso naquele corpo em combustão esperando pelo Sim. E a possibilidade de não conseguir, o desejo forte que tinha de tomar o corpo de Sam como achava que fosse de direito seu. Tendo de ser o diabo paciente. Por fim Lúcifer disse:
_Estamos todos em busca de redenção esta noite.
Cass deixou seu olhar vagar para a cidade destruída. Não achava que Lúcifer o mataria ali. Tinha uma leve suspeita de que aquela era sua punição; sobreviver e ser obrigado a ver a obra de seu pai ser destruída.
_Veio levá-la? – Castiel perguntou, mas quando olhou para o lado novamente Lúcifer não estava mais lá. E alguma coisa em seu peito se aliviou da pressão que ele nem percebia que existia. E agora Dean começava acordar.
... — ...
Tudo terminou. Meus ouvidos zunia. Steve saiu de cima de mim e eu pude respirar o ar da noite, agora estranhamente silenciosa. Tessa chorava agarrada a jaqueta de Steve. Olhei para os lados e vi a vastidão do campo, a cidade destruída perto e o trilho do trem cortando tudo e se perdendo. No entulho e madeira quebrada no chão eu procurava qualquer vestígio de Sam e Dean.
Fiquei de joelhos e estava quase começando a gritar por eles. Mas não fiz isso quando encontrei alguém de joelhos no chão. O terno estava rasgado e o rosto marcado por sangue. Era Josias. Não morto, mas enfraquecido. E logo notei os corpos dos dois anjos mortos ali perto. Nem sinal de Castiel e nem sinal de Sam e Dean.
Me levantei e tentei chegar mais perto, sentindo aquela raiva novamente. O que ele tinha feito com Sam e Dean, e o Cass? Seja lá onde eles estivessem eu queria estar lá. Ele tinha que me levar. Estava perto de Josias quando uma mão agarrou meu pulso. Steve. Olhei para ele esperando que me puxasse de volta ou falasse que precisávamos ir embora e que eu era uma idiota, mas ele não fez isso. Ficou ali com os dedos em volta do meu pulso me olhando fixamente. Não sabia oque queria, seu rosto era uma máscara séria.
_Steve... – ele me soltou e olhou para baixo, de um passo para trás e eu fiquei confusa. Tessa estava ali perto encarando algo atrás de mim, os olhos arregalados e ainda acuados. Segui seu olhar sabendo que não era Josias e logo o identifiquei.
Era Sebastian ao longe. Ele parecia parte da noite com seu terno preto quase brilhante num cenário negro opaco. Enquanto chegava mais perto via que algumas partes de sua roupa estava rasgada, não tanto quanto a de Josias, e seu rosto também estava machucado, também não era nada grave. Então aquilo tudo foi coisa dele. Não sabia direito o que pensar.
Ele tirou um lencinho branco do bolso, e limpou com nobreza o canto da boca suja com sangue. Ele caminhava lentamente na nossa direção. Guardou o lenço e puxou de uma das mangas a adaga dos anjos. Ele estava perto.
Sem pensar duas vezes disparei na direção de Josias. Me ajoelhei a sua frente não me importando com a dor no joelhos com o impacto brusco. Segurei a lapela de seu terno. Ouvi Sebastian me chamando de estúpida e perguntando oque estava fazendo. Não sabia direito o que fazia.
Enquanto tentava pensar rápido no que fazia o que diria para o anjo a resposta veio a mim calando meus pensamentos conturbados. Não era uma resposta clara, mas parecia que uma corda tinha sido jogada para mim lá do alto. Virei a cabeça quase automática e olhei para o morro ali perto, o topo dele.
Não via nada na penumbra da madrugada, mas ali o céu parecia jogar suas estrelas no topo, e não sabia se era aquela visão bonita que me atraia ou outra coisa. Mas sentia-me tonta com a força repentina da corda me enlaçando e me dando a resposta. Eu sabia o que fazer.
Sacudi o anjo e chamei seu nome sem nem ouvi direito as palavras saírem da minha boca. Meu coração disparava e eu sabia que aquele era o ápice da madrugada e talvez daquela batalha. O anjo piscou para mim confuso, até esse movimento parecia lento no meu estado.
Quando percebeu o que estava tentando dizer ele agarrou meus braços e fui envolvida pela sua essência quente e tudo sumiu.
... — ...
Lá em cima a sensação era a mesma da outra vez. A mente flutuante, a audição captando sons e agudos que não entendia.
Mas havia dentro de mim uma vontade de voltar a ser eu. Achar o caminho em minha mente e me fazer inteiramente presente naquele lugar. Tinha uma missão a cumprir ali, só não sabia qual era. Mas sentia meu corpo pedir por descanso... Deixar tudo para trás e continuar flutuando para longe.
...
Minha respiração e meu coração acelerado era as únicas coisas que ouvia. O nada era o que via. Estava cega novamente. Tinha despertado em uma torrente só de sensações, como se minha mente e sentidos tivessem sido jogados de volta ao meu corpo de uma vez só.
Tremia, mas não era de frio, não era frio ali. Com o tato consegui traçar as dimensões mínimas da minha cela, pelo menos achava que era isso. As paredes eram ásperas e tinham uma umidade e calosidade não tão natural de um calabouço. Tinha poucos metros livre naquele espaço apertado.
Me encolhi no canto e deixei minha mente carregar para eu conseguir solucionar o quebra cabeça que era minha presença ali. Agora toda certeza que tinha de que deveria estar ali se evaporou. Respirei fundo três vezes e tentei me acalmar.
Estiquei as pernas e deitei no chão firme como rocha e estranhamente liso. Deitei de barriga para cima e tentei colocar um por um meus medos de volta no lugar de onde vieram, cada fio de pânico que tentava me consumir e a fisgada no peito por não saber o que iria acontecer e muito menos o que aconteceu á Sam e Dean.
O próximo passo era encontrar resposta numa mente vazia. Eu não fazia ideia, e não precisava fazer. Lá estava o que procurava. Aquele fio invisível se desenrolando na minha mente. Tão claro que era fácil seguir. Eu sabia daquela conexão.
Naquela banheira de hotel quase morri para buscá-lo. E agora não precisava nem suspender a respiração. Ele estava lá tão presente que parecia um ser vivo dentro de mim. Em uma corrente elétrica e intensa e a energia fluia através daquele fio.
E como um monstro faminto ela abria espaço em mim em busca de algo. Meus batimentos aceleraram, minha respiração era forte e meu corpo parecia queimar e gelar ao mesmo tempo.
Não sabia o que acontecia comigo, mas era quase insuportável... A dor de ter algo sendo remexido e arrancado pedaço por pedaço dentro de mim. Eu queimava. Minha pele começara a brilhar. Um brilho tênue vindo de dentro iluminando minhas veias e depois se intensificando deixando meu corpo ofuscante até para mim. Cada vez mais forte e achava que poderia explodir.
Só me deixe entrar. Prometo que não vou machucá-la. Apenas me deixe entrar...
Minha garganta liberou um grito preso de dor e agonia.
Ascendia. De Ascender a algo maior que eu.
Não conseguia me encontrar.
... — ...
O paraíso estava inquieto. Aquele anjo também estava.
Nunca sentirá um sentimento humano real, mas agora parecia que suas emoções inexistentes estavam afloradas.
Ele foi o primeiro que viu. O primeiro a se assustar. Não acreditava no que via nem no que sentia.
A força era imensa. E ele sentia em sua essência. E então foi um caos. Os anjos correram até ela. Ele continuou longe.
O anjo ainda inexperiente assistia seus irmãos sucumbirem. Um a um.
E ele teve certeza que via a Estrela da manhã. Ele sentia Lúcifer.
O pequeno anjo se escondeu e observou. A garota estava cercada por outros e lutava com eles. Suas mãos estavam com o sangue de seus irmãos. E ela brilhava como uma estrela. Estava linda. Uma beleza terrível e pecaminosa.
Os anjos caíam aos seus pés em explosões de luz que ofuscavam o brilho das adagas feita do aço angelical. Ele tinha suas em mãos, mas mesmo assim se manteve longe da luta.
Tudo não durou muito. Ele viu a garota ofuscar e sucumbir a luz. E ela voltou a sua forma humana e frágil. A garota observou devagar o corte na barriga. Seu choro parecia ser ouvido em todo paraíso. Seus soluços sinceros. Ela parecia transbordar de solidão e medo.
Ele ainda podia sentir vibrar no peito a força daquela essência poderosa. Mas agora era fraca. Parecia ter deixado o resquício no ar. Na poeira da morte de tantos anjos. Nas partículas de suas essências estilhaçada.
Então era aquilo. O fim. Ela era mesmo o fim.
Zaniel estava com medo.
E do alto mais anjos vinham. Zaniel olhou para céu e esperou os enviados do pai chegarem mais perto para que ele saísse. Ia fazer isso, ia lutar pelo paraíso, pelos seus irmãos mortos. Por Deus. Mas parou no lugar quando a garota se levantou e correu para longe, seu cabelo negro como o pecado voando atrás dela. Por um momento ele achou que tivesse sido visto quando seu rosto virou em sua direção, um rosto branco, manchado de lágrimas e sangue. Mas ela continuou correndo...
... — ...
Se ali fosse a beirada do mundo, o lugar acima das nuvens, parecia que estava na beirada dele. Oscilando na cruel consciência.
Fale com o autor