Bring Me the Mermaids
11 Tenderness
Notas iniciais
~Ternura
Não se lembrava exatamente há quantos dias Gildarts tinha ido embora, mas a Heartfilia sentia temor e ficava cada vez mais com medo quando lembrava que tinha contato muita coisa que não deveria. Pelo menos conseguiu omitir bastante, como seu nome, o lugar onde vive, os vários seres que ficam à sua volta e aquilo em que mais teme.
Como se fosse uma brincadeira maldosa do destino, assim que o ruivo foi embora, Natsu entrou dentro da cabine e ficou com a Heartfilia, a encarando sentado em sua poltrona com curiosidade e intensidade, ela não podia simplesmente ignorar esse tipo de olhar porque sentia penetrar em sua pele. Sentia-se bastante desconfortável e para evitar com que seus olhares se encontrassem, virou para o lado da porta da cabine e voltando para a água, dormiu sob olhos pesados em cima de si.
Enquanto a Heartfilia passava por um momento desconfortável, Gildarts Clive andava em direção à sede que fica na cidade de Singapura. Andava em passos rápidos, não se permitindo levar pelos galanteios das cortesãs que, devido ao prazer que ele proporcionava a elas, não cobravam valores. Ignorava os chamados para beber, o que era estranho, porque era só ele pisar em Singapura que começava a beber. Não é de se estranhar que sua filha tenha puxado isso dele.
Chegou na sede procurando por Mirajane, Laxus e Erza, precisava tirar dúvidas sobre a viagem em que eles estavam fazendo, e se caso batesse com que a Heartfilia falou para ele, o destino deles seriam, de fato, pior que a morte. E ele não queria sua família envolvida em algo desse porte.
Encontrou Kana no meio do caminho e, em vez de receber um abraço caloroso da filha, recebeu um belo de um chute na cara. Desacreditado pelo tratamento, levantou cambaleando e olhou para a morena a sua frente, não sabia se ficava com medo ou se nervoso. A Alberona olhava para ele intensamente, seu rosto franzido dava um ar assustador e a forma como o corpo dela está, diz muito para ele que dependendo da resposta, vai levar mais do que um chute.
– Você não fez nada com a loirinha não né? Quando eu voltar para aquele navio e se ela estiver mal, ah Gildarts, você vai se arrepender. — Ameaçou a loira.
– Me chamando pelo nome? — O ruivo perguntou com a sobrancelha arqueada. — A coisa é mesmo séria. — Bagunçou o cabelo. — Mas Kaninha, linda do papai, só fiz o que Natsu pediu, sabe que não posso simplesmente dizer não para ele. — Viu ela bufar e suspirou. — Antes que comece a falar, quero que vá falar com os líderes para me encontrar na sala do capitão, precisamos conversar.
– É tão sério para chamar os três? — Ele assentiu em resposta. — Tudo bem, daqui a pouco eles vão estar na sala, mas já vou avisando, Erza está com ressaca e Mira não está falando com Laxus, tome cuidado com o que vai dizer. — Avisou se virando para procurar os líderes.
Claro, não queria morrer com a idade que tinha, planejava fazer muitas coisas antes de morrer. E morrer pela mão da Erza não era uma coisa muito boa de se imaginar. Balançou a cabeça positivamente e começou a andar para a sala do capitão, tinha assuntos urgentes a tratar.
[...]
Oceano Atlântico
Em meio a tempestade, navios pesqueiros estranhavam o aparecimento repentino de uma chuva forte. Com céu claro e sem nuvens, se esperava que em alto mar eles não tivessem problemas em pescar. Mas nada resolvia, e eles não sabiam que dali a poucos segundos, a tempestade iria embora tão rápido como veio.
Abaixo dos navios, na parte mais funda do mar, passava rapidamente um ser aquático. Pela rapidez em que nadava, assustava os pequenos animais que ali residiam. Seus cabelos azuis se camuflavam com a água do mar e seus olhos, tão azuis como um dia de tempestade, olhavam para frente atentos ao que aparecia.
Ninguém sabia, mas o que provocava a chuva forte e fazia com que os pesqueiros tivessem um dia de dificuldade, era uma sereia que passava por baixo deles. Pelo humor nervoso que residia nela, provocar uma tempestade era o mínimo que iria fazer, se quisesse aumentar e trazer infortúnios aos humanos, iria se concentrar para criar algo maior.
– Eu vou te salvar. — Murmurou para si. — Juvia vai te salvar, nem que tenha que fazer sacrifícios. — Com isso, a sereia de cabelos azuis nadou mais rápido para a fraca presença que sentia de sua amiga.
[...]
Cidade de Novena — Singapura
Kana Alberona
Depois de ter falado com meu pai, fui procurar os líderes. Procurar, porque os três nunca descansavam quando chegava em terra, sempre arranjavam mais trabalhos e viviam andando de um lado para o outro. E isso é muito cansativo. Tudo que eu mais quero é deitar na minha cama e dormir até o meio da noite.
Fui para o refeitório achando que pelo menos a vice capitã estaria lá, mas me enganei quando vi que não tinha ninguém nesse lugar. Ah para! Vão me fazer andar essa sede todinha — que não é pequena — para encontrar eles no lugar menos improvável possível? Passei a mão na minha cabeça. Mas eu não ia procurar mesmo.
– Ei, Max, onde é que tá os líderes? — Ele deu de ombros. — Sumiram do nada?
– Acho que Laxus-san está na sala dele.
Menos mal, pelo menos não vou andar tanto.
– E as outras duas?
– Só vi elas saindo da sede.
Puta que pariu. Sai do refeitório meio nervosa. Eu não me importo de ter que ir buscar elas, faço isso sempre, mas me deixa irritada quando eu quero dormir e eles são me dão mais trabalho! Que saco! Virei um corredor e vi uma cabeleira branca e longa, opa!
– Mira. — Gritei enquanto corria ao seu encontro. Ela virou para mim ao ouvir seu nome. — Gildarts está na sala do capitão, ele quer você e os outros líderes. — Ela levantou a sobrancelha.
– Chamando seu pai pelo nome? Estranho. — Dei de ombros. — Tudo bem, Erza está no quarto dela, está com muita dor de cabeça e Laxus... — Suspirou olhando para baixo e eu abracei ela. — Ah Kana, nem sei o que eu faço.
– Ele fez alguma coisa de novo?
Ela negou e continuou: — Naquele dia ele entrou no meu quarto, pedindo desculpas por seu comportamento infantil e que não deveria ter feito nada. — Uau, e eu achava que era difícil ver algo do tipo vindo de Laxus. — Só que... Eu não consigo esquecer o que ele fez pra ela, isso é mais difícil de aceitar.
É, eu concordo. Ele foi um bastardo insensível. Mira olhou pra mim rindo ao ler meu pensamento e falou que iria encontrar eles na sala, nos despedimos e comecei a andar em passos rápidos até o quarto da Erza. Ela vai ser complicada de chamar, ainda mais revoltada do jeito que tá. E a culpa nem é minha.
Bati na porta recebendo a resposta para entrar, coloquei a cabeça dentro do quarto avisando que Gildarts está aqui e quer ela junto com os líderes na sala do capitão, a ruiva assentiu levantando com dificuldade da cama. Coitada. Chamar Laxus foi mais fácil do que pensei, só cheguei pra ele e falei que meu pai está aqui, ele entendeu e acho que tem problema ai, porque o cara ficou mais sério que o normal.
Sinceramente, eu estou muito curiosa para saber o que diabos eles estão falando, e se eu for sozinha, dá problema. Como não quero me ferrar sozinha, puxei a primeira pessoa que encontrei no caminho, se eu for me ferrar que seja com alguém.
– Tá louca Kana? Me solta. — Gray falou tentando se soltar de mim.
– Nem ferrando gelinho — O moreno fez uma carranca pelo apelido, ele odeia ele. -, eu vou me ferrar e nada que uma boa companhia pra isso.
– Você tá é maluca. Ei, por aqui é a sala do capitão. — Virou o rosto rapidamente pra mim. — Não acredito, tamo junto! — Agora ele ia por espontânea vontade.
Sentamos no chão com muito cuidado, e quando digo cuidado eu digo que minha garrafa de bebida habitual nem encostou no chão. Tanto eu quanto Gray sabíamos que Mira podia ler mentes e sentir presenças, bem... Gray só ficou sabendo quando eu falei pro povo no convés, mas justamente por ter o conhecimento que esvaziamos a nossa mente e colocamos nossa orelha encostada na porta.
– ... uma história muito interessante. Um belo conto de fadas.– Ouvi a voz de meu pai.
– Pare de perder tempo Gildarts, o que a Heartfilia falou com você para ficar assim?
– Calma Laxus, ainda odeia ela?– Ficou um silêncio na sala. — Oooh, enfin agi. Hoho, la chose est encore grave.
– Gildarts enfermés ne veulent pas se battre. – Erza repreendeu ele.– Commencez droit à la parole.
– Acho que vão gostar de ouvir. Todos vocês. — Sabia que ele tinha falado isso para mim e para o moreno ao meu lado, tanto que nós nos olhamos apreensivos. Algo me diz que eu não vou gostar dessa história.
Narradora
Remorso. Um tipo de sentimento que pode ser levado de duas diferentes formas. A primeira como um arrependimento, o fato da pessoa ter feito algo errado sem pensar nas consequências futuras e naquele momento, o sentimento vem a tona. A segunda forma vem como dor, mas não uma dor física e sim o tipo de dor emocional, que vem logo após uma decepção.
Naquela noite, três pessoas sentiam remorso, mas duas não sabiam como classificar. Kana Alberona vivenciava dentro de si uma parte de remorso e a outra ela desconhecida. Não sabia se era medo pela futura conversa que teria com seu pai por ter começado a ter uma amizade com sereia, ou um abalo muito grande pelo o que foi dito dentro da sala. Mas se sentia arrependida de ter ouvido o que eles falaram, e ela sabia porque se sentia assim, saber a história de sua amiga sereia a deixou sem bases, de tudo, não esperava algo daquele porte.
Mirajane Strauss, no entanto, sabia muito bem como definir o que sentia. E ia além de um remorso emocional. A albina sempre teve uma expectativa muito grande sobre as pessoas a sua volta, principalmente àquelas com quem tinha uma afeição amorosa. Mas assim como a dor que sentia em seu âmago, a expectativa alta que sentia por seu amado, foi quebrada em pedaços, como um vidro de perfume que cai no chão. Os olhares antes inquisitivos que recebia de um par acinzentado, hoje carregavam o perdão, ato que ela não conseguia realizar.
A terceira pessoa, a mais inocente de toda a história, sentia arrependimento de ter resolvido seguir a parte mais irresponsável de seu cérebro. Gray Fullbuster encara o líder, Laxus Dreyar, com uma feição séria e decidido, esperando o sermão chato que ouviria e a punição por ter ouvido conversas proibidas. Sentia remorso por ter feito algo errado e provavelmente se sentiria pior por estar salvando uma companheira, já que sabia que ela não sentia arrependimento nenhum por ter ido espiar.
– Então deixa eu ver se eu entendi, você, de livre e espontânea vontade, resolveu seguir a Alberona? — O moreno assentiu perante a voz rigorosa. — E, mesmo que ela tenha tentado te expulsar, ainda sim resolveu ir, por pura curiosidade, estou certo?
– Sim. — Respondeu dando de ombros. Simples e direto.
– Gray... — O loiro massageou sua têmpora. — Quer mesmo livrar Kana? — Laxus olhava para o moreno nervoso com seu braço no apoio da cadeira e sua mão em sua cabeça. — Eu sei que você foi arrastado pra lá, só precisa admitir.
– Mas não tem nada para admitir senhor, eu realmente fui para lá porque eu quis.
– Não tô acreditando nisso. — Murmurou nervosamente. — Tá bom, estou com muita dor de cabeça para fazer as coisas certas, caia fora daqui e não conte pra ninguém o que ouviu. Se eu souber que alguém andou de fofoquinha por ai sobre o assunto, sua sombra não vai ser mais vista. — Uma ameaça boa o suficiente para Gray Fullbuster sentir sua espinha arrepiar de medo. — Estamos entendidos? Ótimo, agora suma da minha vista.
O moreno assim que deixou a sala, sentiu seus ombros relaxarem. Um peso enorme tinha saído de suas costas e não tinha nada que pudesse ele se sentir mal naquele momento. Gray começou a caminhar despreocupadamente para a sala de Kana, queria saber como sua amiga estava porque quando eles foram pegos, em vez da morena sair correndo para se salvar, ela levantou em choque, recolheu sua bebida no chão e foi andando com a cabeça baixa sabe-se lá para onde.
Passou no quarto dela já entrando, estava acostumado a passar por lá pela madrugada procurando companhia, e viu que estava vazio. Pensou um pouco no lugar em que ela ficava sempre quando estava com a mente perturbada e se dirigiu para lá. Por sorte a encontrou. E lá estava Kana, sentada em uma árvore encarando o horizonte, tão perdida em seus pensamentos que não viu Gray se aproximar e sentar do seu lado.
– O que aconteceu? — Perguntou atraindo a atenção da morena. — Nem bebendo tá.
– Você ouviu o que eu ouvi? — Ele assentiu. — Gray, pode acontecer uma coisa horrível com a loirinha, e eu não posso fazer nada. — Puxou seus joelhos e encostou sua cabeça neles.
– E você se importa por quê? — Recebeu um olhar cético da morena. — Porque olha só, você conversa com ela todos os dias, mas até Mira-chan faz isso. Pensei que poderia haver um motivo maior sabe.
– Para de ser imbecil gelinho, eu quero ajudar ela porque a loirinha é minha amiga. — Voltou a olhar o horizonte. — Mas nem sei o que vai acontecer comigo se resolver ajudar. — Suspirou. — É por isso que eu odeio ser um cargo tão baixo. Podia ter um poder igual Mira e Erza tem.
– Igual o capitão não? — Ela negou. — Por quê? É o poder maior que tem dentro da frota.
– É mas, até Natsu tem medo da Erza ou da Mira. Quem é que não tem medo delas? Meu pai que é bem mais forte que elas não é capaz de responder elas, basta um olhar demoníaco delas e pronto, o cara já tá ajoelhado pedindo perdão. — Os dois riram e ficaram conversando banalidades.
Com a lua crescente no céu, os dois se cansaram de ficar fora e entraram na sede, sendo recebidos por olhares curiosos a sua volta. Normalmente, a Alberona estaria acordando agora chamando todas as pessoas para beber até o sol aparecer, e Fullbuster acompanharia apenas para rir do caos que sempre aparecia nas tabernas.
Não aguentando mais, Kana em vez de ir para o refeitório, seguiu para o seu quarto alegando estar com muita dor de cabeça, e naquele dia, não iria colocar uma gota de álcool dentro do seu corpo. Precisava pensar em como iria agir agora que tinha conhecimento do passado.
[...]
Uma semana. A principal frota de piratas Fairy Tail ficaram uma semana em Singapura, o maior tempo em terra, o que foi muito bem comemorado. O máximo era três dias para se divertirem e comprarem os mantimentos para a próxima viagem, que certamente duraria mais tempo do que eles queriam.
Os poucos marujos subiam a rampa para o navio desanimados para a próxima viagem, poucos já que foi decidido que mais da metade ficaria na sede até um outro navio da Fairy Tail aparecer e eles irem juntamente com os Majores para as missões decididas.
Mas a semana não tinha sido satisfatória para todos. A Heartfilia ficou presa na cabine do capitão e por pouco gritou de felicidade ao ouvir vozes diferentes daquele que a mais atormentava. Ah! Estava tão feliz, nunca mais ia pedir para eles alcançarem terra rápidos. Foi levada de volta para o deck principal sem conseguir conter um sorriso.
Sorriso que se perdeu assim que sentiu uma presença forte vinda do oeste. Mirajane andou até ficar ao lado dela, olhando para a mesma direção, esperando uma criatura com quem iria conversar novamente. A presença diminuía e aumentava em proporções diferentes, a albina, confusa pela troca, olhou para a sereia e viu que ela sustentava um fraco sorriso.
– Chame seu capitão, fale com ele para levar esse navio para o Oeste. — A albina assentiu e antes de andar, conseguiu ouvir: — Está na hora de conhecer as almas que querem ser livres.
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