Bring Me the Mermaids
4 Eternal Equilibrium
Notas iniciais
~Equilíbrio Eterno
A lua minguante embelezava o céu sem nuvens.
Sua luminosidade não aclarava os ambientes internos do navio, favorecendo seu fulgor absoluto apenas no deck. Na cabine de Natsu, a claridade da lua passava pela janela aberta, porém o ambiente ainda era mantido escuro, fazendo com que algumas lamparinas fossem espalhadas nas superfícies. Os líderes e a sereia se encontravam dentro da cabine. Mirajane e Laxus foram chamados urgentemente por Erza, que saíram as pressas de seus aposentos. Se encontravam claramente sonolentos, porém não demonstravam ter lentidão de raciocínio. Natsu sabia que poderia falar sobre diversos assuntos naquela pequena reunião e nenhum seria esquecido pelo casal.
Os quatro observavam a Heartfilia com intensidade, a deixando constrangida. Gostaria de pedir para que movessem o olhar para outra direção, o que poderia acarretar em uma sequência de punições apenas por desejar, decidiu guardar para si os sentimentos que tinha. Precisava começar a falar antes que o capitão a mandasse dizer com grosseria, porém imaginava que apenas palavras poderiam não ser compreensíveis o bastante.
Movimentou sua mão em círculos na superfície da água e depois a ergueu na altura de seu busto, sendo sua parte superior amostra. A ação fez com que uma taça parecida com a que desapareceu fosse criada, não era adornada de joias e de metal, e sim de água congelada. Os humanos demonstraram surpresa por verem que o objeto era idêntico ao anterior, até mesmo os detalhes imperceptíveis pareciam ser similares. A taça não era segurada pela sereia, e sim parada no ar.
— Essa é a mesma taça? — Erza perguntou apontando para o objeto, o choque era notável. Em resposta, a sereia negou. — Então, como…
— É apenas uma duplicada feita de água, decidi criar para explicar satisfatoriamente. — Moveu a mão para frente, consequentemente o objeto moveu também. A sereia o deixou próximo dos humanos, para que pudessem observar com cuidado. — Esta taça é pertencente aos Anjos, e como um símbolo de amizade entre eles e o ser que se encontra na ilha, foi lhe dado como um presente.
— Ser? Existe alguma coisa na ilha? — Laxus indagou observando a taça de perto.
— Não algo e muito menos coisa, mas sim alguém e um ser vivo. — A sereia negou irritadiça. Dizer que o ser existente na ilha era algo seria o mesmo que afirmar que ela é um objeto e indigno de ser chamado por sua forma. E isso era algo que a Heartfilia não aceitaria. — Onde a luz não possa entrar, onde os movimentos da água são os únicos ruídos e onde apenas os que carregam boas essências são capazes de adentrar nos confins celestiais. — O ambiente ficou em silêncio absorvendo suas palavras, por fim, quem quebrara fora a própria sereia. — Dragneel, quais foram minhas palavras há três luas?
Natsu havia anotado o que a sereia havia dito, pois pensava na possibilidade de precisar analisar as frases. Buscou em sua mesa por um papel específico, odiando a si mesmo por ter bagunçado a superfície antes e não tê-la arrumado logo, assim não dificultaria a procura pelo bendito papel. A Heartfilia não estava com pressa, interiormente desejava que ele não lembrasse, pois assim deixaria a viagem complicada. Mas para lhe demonstrar que nem sempre seus desejos podem ser realizados, o capitão logo passou a repetir suas palavras.
Os momentos seguintes seguiram em silêncio, chegava a ser irritante não ter nenhum som. Foi por pouco que não exigiram que a Heartfilia falasse, pois ela sequer demonstrava querer responder, porém conseguiram ouvir um sussurro dela e logo após, a taça transformou em água novamente. Para o espanto dos humanos, a água não caiu na madeira, permanecendo sem forma no ar. Novamente, dirigiram seu olhar para a Heartfilia.
— Entendo… Frigus, mare nigrum e fluctus tuos, sunt gestatio me fluctus tuos. — Sua voz parecia um cântico, tanto que atraiu os humanos para próximo de si. Somente quando disse em seu habitual tom de voz, que eles pararam. — Existe uma linha tênue entre o mundo dos vivos e dos mortos, alguns lugares são pontes, outras passagens estreitas e outros são impossíveis de notarem.
— E qual nosso interesse nisso? — Laxus perguntou desinteressado cruzando os braços. Saber sobre a morte enquanto vivo, não era de sua vontade.
— Para saber obter o sagrado tesouro, todas as informações sobre vida e morte são necessárias. A não ser que queira encontrá-lo a beira de sua morte. — A resposta da sereia desagradou o líder, aumentado a feição irritada — No arquipélago do ser é quase imperceptível a entrada do mundo dos mortos, é necessário cuidado. A primeira frase da profecia significa que há águas escuras e sombrias, que podem envolver seu corpo nela. Revelando que se deve evitar entrar em contato com quaisquer águas, porém é fundamental atravessá-las para encontrar o amigo dos Anjos. No entanto, o único que pode adentrar em solo sagrado é o que tem a alma cristalina.
— Não há como enganar essa criatura?
— Desejas enganar o amigo dos Anjos? — A sereia olhou profundamente a vice capitã, que não soube o que responder. — Se for esse seu intuito, então farei questão de finalizar sua estúpida viagem no mundo dos vivos. — Os olhos castanhos da Heartfilia ficaram dourados, claramente mostrando perigo. Antes que pudessem pensar em fazer algo, a sereia voltou a falar. — Existe neste mesmo navio uma única alma capaz de adentrar na moradia do ser. — O grupo a olhou espantado. — Não é tão surpreendente, afinal é uma das poucas almas na qual é possível salvar. Tu humana, que carregas uma aparência perigosa aos errantes, mas que tem uma alma tão pura quanto a um Anjo, deverá fazer contato com o ser que faz da ilha seu lar.
[…]
Arquipélago Desconhecido
A vegetação no arquipélago era idêntica a qualquer outra ilha na qual tiveram contato. O trio pensou que poderia ser diferente, ainda mais por existir um ser aparentemente divino, supostamente o local deveria ser mais mágico. O que não desagradou Gray Fullbuster de qualquer forma, o tripulante havia ficado muito feliz por ter sido escolhido para essa estranha missão, ainda mais por ser capaz de sair do navio.
Em sua mente, havia se passado meses desde o último contato humano, mesmo que não tenha sido muito tempo da saída do Japão. Os olhos castanhos do jovem tentavam absorver o máximo que podia, sabia que quando voltasse para o navio teria que contar tudo que havia visto e ouvido, mesmo que fosse assustador para si. As duas líderes a sua frente andavam confiantes, sabiam que caminho precisavam passar para que pudessem evitar infortúnios. Na noite anterior, a Heartfilia passou horas dizendo quais os caminhos corretos e o que poderia ter na ilha.
Avisou que o ser que estava os aguardando não conseguia ter contato com a luz, por sua pele ser extremamente sensível, por isso deve estar em um local completamente escuro, mas que não significava que só conseguia saber o que estava diante dele, pelo contrário, tinha conhecimento de tudo o que estava a sua volta. A sensação de serem observados era constante, a cada passo parecia que havia mil olhos os analisando, o jovem tripulante sentia-se assustado com a constante vigilância, diferente das líderes. Na noite anterior, a sereia explicou que haveria a possibilidade dos seres protetores da ilha estarem observando-os e analisando-os, preparados para atacar caso sentissem que os invasores desejavam prejudicar o espaço, a parte “omnium ora in me” fazia mais sentido agora que estavam experienciando todos os olhos em si.
Andaram mais um pouco até encontrar uma cachoeira. Decidiram tacitamente que estava na hora de descansar, provavelmente teriam que andar por mais tempo. Foram avisados também de em hipótese alguma, pegarem algo que pertencia a ilha, pois ficariam presos para sempre no local.
— De acordo com que a sereia falou, vamos passar por essa cachoeira e depois subir naquela colina. — Erza apontou para a direção. Falava ofegante e não sabia o motivo. — Gray, pegue naquele bornal um frasco de água, vamos dividir.
— Não podemos beber da cachoeira? Pode matar a sede mais rápido. — O Fullbuster indicou com a cabeça, mas não sem realizar o que havia sido mandado. Em resposta, Mirajane negou e respondeu:
— Se a gente beber água ou resolver pular para tirar esse cansaço, vamos morrer. — Ela percebeu que havia assustado o marujo, e quase explicou os motivos da frase, mas decidiu deixá-lo assim. Melhor não ter problemas depois. — Vamos descansar por agora, teremos muito o que andar ainda.
[…]
Navio Fairy Tail
A sereia observava com certa curiosidade para a ilha. Era inacreditável que os humanos tenham conseguido adentrar e continuar a aventura. Imaginava que alguém morreria no primeiro momento em que pisassem na terra firme, porém o grupo havia sobrevivido e chegaram a adentrar na natureza. Talvez o ser conseguiu sentir o que havia de bom nos que estavam por lá, mesmo que uma claramente demonstre não ter uma alma complacente quanto os outros dois.
— Hei, loira. — O chamado trouxe sua atenção para a estranha voz. — Sabe se eles estão vivos? — Em resposta, a sereia negou. — Que droga, queria ter ido.
— Vocês são humanos bastantes estúpidos. — A Heartfilia passou a observar os tripulantes a sua frente. — A ilha tem mais perigos do que se possa imaginar, não é certo me perguntar se estão vivos, mas se conseguirão voltar em vida.
— Mas tem duas líderes com Gray, e as duas são muito inteligentes. — Uma tripulante andou próximo da sereia, em sua mão carregava uma garrafa. — Não é possível que vão ficar por lá para sempre.
— O “sempre” pode ser um dia ou um ano, o quanto valerá para você é algo que está sujeito a sua necessidade de permanecer no mesmo espaço — A humana a olhou sem entender, e provavelmente ficaria sem resposta, a sereia não estava querendo responder esse tipo de questão. — O que te dá tanta fé nos humanos que estão na ilha?
— Não sei. — A humana bebeu do que havia na garrafa e se aproximou mais do tanque. — Só sei que tudo vai dar certo.
Em resposta, a sereia apenas suspirou. Em sua concepção, os humanos não faziam sentido.
— Qual seu nome, humana? — A humana a olhou confusa — Nome, qual o seu? Ou não tem?
— É claro que tenho! Como que alguém não tem nome? — Bebeu novamente o líquido da garrafa. – Kana Alberona.
— Há diversas coisas sem nome, Kana Alberona. Quando não se tem um nome, não há conhecimento sobre a própria existência e, dessa forma, outrem pode decidir o que se tornará. Se tem, seu corpo, alma e mente pertencem apenas a você e ninguém mais, pois seu nome te protegerá dos infortúnios. Se compartilhas seu precioso nome, cede ao outro a liberdade de brincar com sua vida e modelar sua alma. — Kana a olhou assustada, se soubesse desse tipo de coisa jamais teria espalhado seu prenome pelas terras em que passou e nem mesmo ter dito para a sereia. — Mas não se preocupe, não tenho interesse em tirar sua liberdade. Se fosse outro ser, sua vida já poderia ter sido extinguida.
Até dado momento, a sereia percebeu que não havia tido contato com Natsu desde o momento que fora posta do lado de fora da cabine. Achou engraçado que ele também não demonstrou curiosidade ao que estava ocorrendo nesse momento. Se fosse descaso ou confiança excessiva em seus tripulantes, não sabia. Percebeu que Kana havia voltado para os demais, e por não haver ninguém que gostaria de manter um diálogo, voltou a observar a ilha. Já havia se passado a manhã, o sol estava se realocando para o meio do céu. Pensou que eles podem ter chegado no local que havia dito.
Gostaria de ter ido, e tentou dizer aos humanos que ir seria uma ótima escolha, porém o capitão a olhara com poucas amizades, representando que sair do navio seria a última coisa que faria. Era óbvio que duvidava de suas palavras, o que a Heartfilia achou estupidez de sua parte. Se fosse para duvidar do que dizia, que não deixasse os homens adentrarem no arquipélago, oras! Caso quisesse realmente a morte deles ou até mesmo fugir, já teria feito no momento que havia sido capturada.
Suspirou alto, fazendo com que os marujos olhassem para ela apreensivos. Não era por menos, pouco antes disse que o trio que foi para a ilha poderia não conseguir voltar e depois falou coisas estranhas sobre nome. Não era fácil saber a resposta de seus problemas. Chegaram a imaginar que se matassem a Heartfilia, não teriam problemas difíceis, mas só de imaginar a fúria do capitão os fizeram se aquietar.
De todas as formas possíveis, preferiam morrer dignamente e não pela raiva de Natsu Dragneel.
— Sabem, não julgo por não gostarem de mim, porém poderiam parar de me olhar. — A Hearfilia virou em direção aos marujos e sentou na borda do tanque.
— Não é que não gostamos de você. — Vendo que ninguém responderia, Kana transmitiu o sentimento de todos. — Só foi estranho o que falou.
— Não importa quais palavras profiro, ainda será estranho aos seus ouvidos — Afirmou a sereia, recebendo olhares surpresos dos homens. Havia sentido em sua fala. — Não que tenha importância, seus pensamentos não me afetam.
— Espero que não, alguns ali são bem pervertidos. – A Alberona apontou para os homens próximo de si, recebendo alguns insultos em resposta. Ela sabia que poderia acarretar em briga, portanto resolveu aproximar-se da sereia. — Estava pensando, você sabe meu nome, mas não sei o seu. É bem injusto isso.
— Existe uma diferença entre esses conhecimentos: não tenho pretensões de fazer-lhe mal algum, saber seu nome apenas me trará boas memórias.
— E por que acha que não quero o mesmo?
— Kana Alberona, fui raptada por vocês para levá-los a um tesouro enigmático. — Desceu da borda e aproximou-se de Kana, deixando seus rostos frente ao outro. — Sou prisioneira de seres que são capazes de exigir que minha voz seja silenciada. Sou impossibilitada de movimentar meu corpo conforme desejo. Por que não pensar que tenciona me fazer mais algum mal?
— Sei lá, fé em mim? — Sorriu. — É injusto você saber o meu nome e eu não saber o seu.
Sua resposta surpreendeu a sereia, que esperava escutar a humana esbravejar que os humanos não são ruins e ela era a exceção. Já ouvira esse discurso anteriormente quando se aproximava das cidades humanas.
— Serei uma tola por acreditar em suas palavras, mas terei fé. — Os tripulantes próximos ficaram espantados diante suas palavras. E imaginar que a sereia confiaria algo tão escondido quanto seu próprio nome para um humano, ainda mais para alguém como Kana. — Terás que me prometer, Kana Alberona, que não pronunciará meu nome levianamente entre os humanos, em virtude de ser a única que saberá meu verdadeiro nome.
Não bastou ter conversado abertamente com a pirata, a sereia também tinha que permitir que seu nome fosse ouvido por ela. Para os tripulantes, isso era injusto. A tripulação começou a reclamar, quase gritaram para que também soubessem, mas lembraram que Natsu estava na cabine. Caso ele surgisse, todos estariam com problemas. Mas não havia sentido no que a sereia falou, por qual motivo exato ela diria o prenome para uma bêbada sem causa? Por acaso existia um método de avaliação para saber quem ouviria?
— Meu nome pertence a mim e ao falar, terão conhecimento de quem verdadeiramente sou. — O silêncio voltava a cada palavra da Heartfilia. — Sequer seu capitão sabe, por qual motivo terei de compartilhar? Apenas Kana Alberona receberá minha fé e caberá somente a ela saber. — Aproximou seu rosto novamente da tripulante, sussurrou: — Escute-me, ao mesmo tempo em que saberá meu nome, terá compreensão de minha alma.
A maruja assentiu, colocou a garrafa de bebida no chão e chegou mais perto do tanque. A sereia colocou suas mãos na beirada, dando um pouco de impulso para levantar e depois abaixar para chegar próximo aos ouvidos da humana. Sussurrando disse:
— Meu nome é…
Arquipélago Desconhecido
A gruta frente a eles tinha um aspecto desconhecido e sobrenatural. Aos seus olhos humanos, adentrar na gruta pedia um nível de coragem na qual não estavam prontos. O problema estava em dar o primeiro passo, ato difícil de fazer. Mesmo Erza, conhecida por sua incrível força e bravura, sentia-se incapacitada de continuar. A vice capitão chegou desviar o olhar para o lado, buscando saber se a líder e o marujo tinham a mesma sensação, mas diferente do que imaginava, Mirajane demonstrava anseio em entrar.
No entanto, Mirajane queria poder escolher quando entrar na caverna, assim poderia ir assim que o sol nascesse, porém a Heartfilia advertiu que passar a noite em um local sagrado não era pertinente, ainda mais pela possibilidade de seres desconhecidos aparecerem durante a madrugada e desejarem acolher os humanos. As líderes não sabiam que tipo de acolhimento ocorreria, mas preferiram não saber e persistir com o plano.
— Posso fazer uma pergunta? — As mulheres olharam para ele e afirmaram. — Por que o capitão e o líder não vieram em meu lugar?
— Eles tem um caráter perverso, não podem caminhar com a gente. — Erza respondeu. — Não quer dizer que você não tenha, mas é melhor que Natsu e Laxus. — Completou deixando o marujo desanimado.
— Vamos entrar. — Mirajane ditou a ordem e deu o primeiro passo. — Nada vai acontecer se continuarmos parados aqui e nosso tempo é curto.
Ela deu poucos passos e os outros começaram a segui-la. Adentraram na caverna sem conseguirem enxergar, pensaram em como haviam sido estúpidos por não pensarem na necessidade de ter uma luz. Agora pagavam por isso. Já estavam longe da entrada, os únicos barulhos capazes de serem escutados é a respiração ofegante do trio e seus passos. Estava tão escuro que era incapaz de saber o que poderia estar a frente deles, Gray chegou a imaginar que poderiam cair em uma armadilha e nunca mais voltar ao navio.
E antes que expusesse seus pensamentos, a caverna começou a mostrar iluminação própria. Parecia coisa de outro mundo, o trio chegou a parar a caminhada para admirar o efeito. As paredes e o teto reluzia fracamente, mas permitiu que eles pudessem caminhar tranquilamente. A vice capitã andava a frente com cuidado e atenção, buscando compreender os caminhos nas quais estavam andando, sua pretensão é saber para aonde é a saída.
Enquanto isso, Mira e Gray admiravam o redor as características escondidas pela escuridão. Mesmo com a pouca iluminação, dava para perceber diferentes detalhes, como desenhos de seres grandiosos e coloridos por uma estranha coloração. Em algumas partes das paredes, uma estranha flor desabrochava e mostrava sua beleza, encantando a líder. Se não soubesse que sua vida poderia estar em risco, Mira teria pegado a flor para si.
Andaram em silêncio, só se ouvia o barulho de suas respirações e passos. Após algum tempo, passaram a ouvir o barulho de pequenas gotas caindo em alguma superfície. As líderes se olharam e decidiram seguir o barulho. A Heartfilia tinha falado algo sobre água, possivelmente deveriam seguir por ali. A cada novo passo, o barulho ficava mais forte e repetido. Quando chegaram no local, o trio prendeu a respiração surpresos com a beleza natural.
Naquela parte da caverna, a iluminação era devido as estalactites* que tinham um brilho ameno. Os três estavam posicionados em uma parte alta, podendo ver um pequeno barco ancorado e, atrás dele, pequenas ilhas. Os piratas não conseguiam ver muito diante a fraca luz. Conforme se aproximavam do barco, percebiam que a superfície era um lago negro, porém não se era possível saber sua profundidade, e nenhum deles tinha curiosidade sobre.
— Mira, estamos no caminho certo? — Erza olhava receosa para esse novo ambiente.
— Sim, lembra das palavras da Heartfilia? Esta água é a passagem do mundo para o mundo dos mortos, é necessário atravessar para chegar no lugar sagrado. — Respirou profundamente — E é aqui que nos separamos, Erza.
Embora não transparecesse, a jovem líder sentia medo. Erza não conseguia ver, mas sabia que a amiga não estava confortável com a situação, porém sabia que nada poderia fazer, apenas poderia preparar o barco. Gray, por outro lado, se sentia incapaz de fazer algo. Durante todo o caminho, fez perguntas impertinentes e sentiu que mais atrapalhou que ajudou. Bem, de toda forma, foi bom sair do navio. Pensando que conseguiria descansar, sentou no chão e passou a observar as líderes.
— O que está fazendo, Gray? Por que está sentado aí? — A vice capitã o olhou sem entender.
— Não tenho mais nada a fazer, por isso sentei. — A expressão que ambas o dirigiram lhe deu a interpretação de que estava errado. — Eu tenho trabalho a fazer?
— Claro que tem, acha que trouxemos você aqui apenas para passear? — Gray preferiu não admitir, mas era exatamente isso que havia pensado. Por sua segurança, ficou calado. — Está de brincadeira comigo. Você vai remar este barco para Mira, se qualquer coisa acontecer com ela, terá alguém capaz de salvá-la.
— Mas não será melhor a senhora?
— Não, porque assim sei que você não terá chances de escapar daqui sozinho. Leve Mira para o local e depois espere por ela. Não ouse segui-la ou sair do barco. Agora levante sua bunda desse chão e venha para cá.
Ele assentiu levantando, melhor obedecer a ordem. Gray entrou primeiro no barco, sentando no meio. Todavia, ele não encontrava os remos que utilizaria para movimentar o barco e não queria utilizar suas mãos. Se esse lago é a passagem para o mundo dos mortos, deixaria todas as partes de seu corpo longe. Olhou para os lados e encontrou um pequeno remo próximo, o pegaria assim que estivessem prontos para sair. Com ajuda dos dois piratas, Mira entrou na embarcação e sentou-se na frente, podendo assim observar o que estaria diante dela. Com calma, o tripulante começou a remar para a escuridão a frente.
O Fullbuster remou até a escuridão tomar conta deles, chegou em um ponto na qual não conseguia saber se Mira estava próxima. Considerou chamá-la, mas tinha medo de atrapalhar sua concentração. Já a líder não sabia para onde olhar e o que procurar. Por um momento, virou-se querendo saber se conseguia enxergar Erza, porém apenas conseguia ver um ponto de luz na extremidade. Não sabiam para onde deveriam ir, e nesse ponto, gostaria de ter tirado essa dúvida com a sereia, talvez ela soubesse o local em que necessitavam estar.
Os olhos de Mirajane corriam pela escuridão buscando qualquer ponto de luz. Tinha uma estranha sensação de morte, talvez fosse pelo lago, talvez fosse pelo medo do escuro. Seus pensamentos rondavam em inúmeras possibilidades, e quase pediu a Gray que virasse para qualquer lado e eles fossem para uma das ilhas em que viram anteriormente. No entanto, uma estranha voz adentrou em sua mente e lhe pediu para se acalmar.
Mirajane, mesmo estranhando o que aconteceu, respirou fundo e silenciou seus pensamentos confusos. Não soube dizer quanto tempo havia passado, mas o silêncio em sua cabeça fora quebrado novamente pela estranha voz, e agora dizia suavemente que eles estavam chegando próximo do chão sagrado.
— Continue, Gray, estamos chegando. — Ela sussurrou.
Ele assentiu, mesmo que ela não pudesse ver. Permaneceu remando até perceber que estavam se aproximando de uma ilha iluminada. Em seus anos de vida, Gray nunca havia ficado tão feliz em ter visto a claridade. Tamanha felicidade, remou com maior força e agilidade, fazendo com que o barco fosse se aproximasse mais rápido da ilhota.
O barco parou assim que se chocou com a terra. O pirata pensou que deveria amarrar a embarcação para que não fosse afastado, mas antes que fizesse qualquer ação, a mão de Mirajane parou em frente a ele.
— Tu, humano impuro, não és desejado em nosso solo sagrado. — Múltiplas vozes quebraram no silêncio. Ele não sabia a origem, mas achou sábio permanecer quieto. — Somente a dita alma pura suportará adentrar em nosso consagrado lar.
E assim como surgiram, as vozes desapareceram de repente. Gray quase foi falar com a líder, porém lembrou das palavras de sua vice capitã e, imaginando que Mirajane sabia de algo, preferiu o silêncio. Ela, no entanto, sequer ouvira as vozes, pelo contrário, desde o momento em que encostaram na ilha, sua mente já não lhe pertencia. Inconsciente, foi retirada do barco e levada pelos seres ocultos para o centro do ilhéu.
Apenas quando chegou no local que tornou-se consciente. Ela olhou para os lados procurando por Gray, mas não via nada além da escuridão. Bem, se ele estivesse ali, algo estaria errado. Suspirou de alívio por perceber que tudo estava acontecendo corretamente e, principalmente, por estar viva.
— Alma cristalina, chegastes em nosso lar — Uma voz grossa e gentil se fez presente, assustando a jovem — Sinto alegria ao ver um humano com uma alma tão limpa como a vossa.
— Quem…
— Sou somente um ser da boa vontade que comparti bons presságios. Não tenhais medo, jovem criança, prometo-lhe não prejudicar.
— Promete também não machucar meus dois amigos que estão comigo?
— Se assim farás com que confie em mim, sim. — A voz, tão suave e gentil, acalmou a líder em sua preocupação. — Durante o tempo em que nosso sagrado lar era a passagem imaculada para a obtenção do equilíbrio eterno, recebíamos convidados de honra e éramos agraciados com vossas misericordiosas presenças. — Enquanto a voz falava, Mirajane buscava sua origem — Conquanto, o equilíbrio eterno passou a ser temido por distintas raças e, tamanha tolice embaçado de coragem, os seres passaram a tentar alcançar a vida eterna. Este chão sagrado, tão imaculado, tornou-se medonho. Com uma finalidade tão suja, até mesmo minha presença fora apagada. Minha alma, enfraquecida e amena, permanece somente pelo dom em que obtive de preciosos amigos. Jovem criança de alma cristalina, por teres pouco conhecimento deste santificado lar, lhe pergunto, o que tanto procuras em nosso lar abandonado?
[…]
Erza não sabia quanto tempo havia passado desde que Gray e Mira sumiram pela escuridão. Sequer tinha como mensurar, não tinha a presença da luz solar e nada que pudesse lhe ajudar a compreender os minutos. Sua preocupação era tamanha ao ponto de considerar a nadar até ambos, porém poderia perder sua vida no momento em que entrasse em contato com a água escura. Teria que esperar, mesmo que não tivesse paciência.
De repente, passou a sentir um tremor em seus pés e, como se não bastante, as pedras que estavam no teto começaram a cair. O ambiente passou a tremer, Erza escutava longínquos barulhos de destruição. Ela não sabia o que havia acontecido, mas sua preocupação alcançou o limite. Os dois precisavam voltar imediatamente antes que a caverna começasse a desmoronar.
Como se estivesse sido escutada por alguma divindade, o pequeno barco apareceu sendo remado por Gray. Não era possível ver a feição do pirata, mas os gritos de socorro e ajuda sim. Sem pensar, a vice capitã correu para onde o barco estava ancorado antes, o segurou para que Fullbuster saísse com Mirajane em seu colo e ambos se puseram a correr.
Corriam sem olhar para trás, a sensação dos olhos era ainda mais presente do que antes. Voltavam seguindo o caminho iluminado, porém Erza se preocupava, ela não sabia por onde deveriam seguir depois que acabasse a iluminação. No entanto, para sua surpresa, uma estranha claridade nas paredes os guiaram para fora. Desceram a montanha rapidamente, mesmos ofegantes, corriam o máximo que podiam para chegar a praia. Precisavam se aproximar da areia do mar e assim voltar para o navio.
Não demoraram a chegar na praia e avistar o bote que os levaram a ilha. Erza subiu no bote e Gray entregou Mirajane em seus braços, para que assim ele empurrar o barco para uma área mais funda e pudesse remar. Quando sentiu a água em sua cintura, subiu e passou a remar fortemente em direção ao navio da frota. Os tripulantes no navio observavam o trio com alegria, pois estavam voltando com vida, porém eles não compreendiam o motivo do desespero de Gray em remar tão rápido. Com certeza, brincariam com ele sobre isso posteriormente.
Assim que se aproximaram o suficiente, receberam cordas para amarrar no barco e uma escada foi jogada. A dupla amarrou nos locais necessários, Gray colocou Mirajane em seus ombros e subiu a escada, logo depois Erza subiu. Foram recebidos com festança, mas ambos estavam cansados demais para conseguirem comemorar em conjunto. O pirata entregou sua líder para Laxus e deitou no chão, os demais o observaram com estranheza.
— Chega de aventuras por hoje. — Se manifestou enquanto olhava para o céu escuro.
Os demais riram de si e ficaram em volta dele, queriam saber como fora a aventura. Enquanto isso, Laxus seguia para seu quarto e Natsu se aproximava da sereia, que olhava preocupada para Mirajane.
— O que tanto olha para a Strauss? Está encantado por sua beleza?
— Sua fala, assim como todas as outras, são ilógicas, Dragneel. Peça ao homem que levou Mirajane embora para trazê-la de volta, temo que possa se desequilibrar caso permaneça sozinha.
Embora não gostasse do retorno que recebeu, Natsu pediu a Erza que fizesse isso. Deu ordens aos tripulantes para colocarem uma rede para Mirajane. O líder apareceu com sua amada em seus braços, a expressão raivosa dirigida a sereia a fez afundar na água. Com claro desgosto, Laxus pôs a líder na rede. A noite, os tripulantes foram dormir no deck inferior e os superiores foram para seus quartos privados.
Porém, a Heartfilia manteve seu olhar em Mirajane. Além de preocupada com o estado mental dela, estava curiosa para saber o que tinha ocorrido no chão sagrado. Uma vez, há tanto tempo em que não sabe dizer, havia se encontrado com o ser que estava na caverna. Sabia o quão amável ele era, ainda mais com criaturas tão puras como ela. A sereia queria saber, como a jovem humana reagiu a estar frente a um ser tão antigo. Seja o que for, só poderia ter suas dúvidas sanadas quando Mirajane acordasse.
Paciente, virou a noite observando a líder.
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