Brincando com Segredos

3 Lembrança queimada.


Notas iniciais
Eeeeei, desculpem a demora! Eu estava viajando e curtindo mais um pouquinho o final das minhas férias. A Serpente Sanguinária ficou com muita saudade de vocês e quer bater um papo legal, meio que para descobrir alguns dos seus segredos, haha. Espero que gostem do capítulo! Boa leitura.

Meu mundo desabou no exato momento em que aquela sombra passou pela porta do meu quarto. Caída no chão, encarando o espelho com a mensagem de batom vermelho-sangue, percebi que, mesmo que aos poucos, a minha máscara estava se desfazendo. A janela ao lado da minha cama estava escancarada, exibindo um céu negro com poucas estrelas.

Caminhei sorrateiramente até lá e vi o meu agressor pular os portões da casa. Ele estava escapando. Pensei em acordar minha mãe ou Adelaide, pedir para que elas chamassem a policia, mas foi o bipe do celular que me impediu. Agarrei-o no chão e verifiquei os recados. Minha mão trêmula revelava o quão ainda estava assustada.

“Tass: Você precisa ver isso: www.serpentsangs.com”

O endereço do site me deixou mais espantada. Meu dedo gélido percorreu a tela e pressionou o link apressadamente. O que aquilo significava? Desativei o site há muito tempo. Cuidei de tudo para que ninguém conseguisse ativá-lo, mas parece que acabei me passando com aquele caso.

A página abriu segundos depois. O layout estava bastante diferente do que eu fizera. Havia uma única aba, definida como “ferrados”. Um montão de besteiras estavam escritas sobre mim. À medida que processava cada palavra, pequenos surtos de medo invadiam o meu peito. Senti os olhos lacrimejarem enquanto fitavam a terrível foto postada no site, onde eu, supostamente, me encontrava em uma posição desconfortável no banheiro do Winston, junto com mais alguns garotos.

Fiquei estática. Minha barriga começou a enjoar e o silêncio da casa passou a me dar calafrios. Alguém tinha feito uma puta montagem. Eu realmente não tinha pegado todos aqueles garotos. Na verdade, para ser sincera, ainda era virgem.

Amanhã todos estariam falando disso. Quantas pessoas já tinham acessado essa merda? Olho para o recado no espelho mais uma vez. “Você foi a Serpente Sanguinária por um bom tempo. Agora é a minha vez e espero fazer um jogo melhor que o seu. Siga as minhas regras, ou juro que voltarei a esganá-la, sua putinha.” A mesma pessoa que me agredira era a mesma que fizera a montagem, a nova Serpente Sanguinária, como se intitulava. Fiquei lendo aquilo pelo restante da noite, certificando-me se mais ninguém entraria em meu quarto para me espancar.

Um estranho em meu quarto significava o rompimento da minha intimidade. Aquele lugar, que eu considerava seguro, estava amaldiçoado pela lembrança marcada com batom. Eu era fraca, frágil e quebrável. Deixei o meu passado alcançar o meu presente. Isso é algo que eu preciso mudar imediatamente.

A nova Serpente Sanguinária também sabia sobre eu ter ocupado o cargo anteriormente. Com esse poder em mãos, ela, ou ele, pode me manipular perfeitamente. Todos os cuidados que tomei para não ser descoberta foram falhos. E se mais de uma pessoa soubesse da verdade? Eu estava completamente ferrada. O agressor pode ser qualquer um. A lista de inimigos da segunda face da antiga eu é enorme, são tantas pessoas que sofreram com o blog.

Outro bipe estoura do meu celular. Dessa vez, o recado é de alguém sem identificação.

“Anônimo: Não quero muito papo, então vou ser direto/a. Esse não é um jogo coletivo. A minha única regra é de que outras pessoas não precisam saber sobre as nossas diversões entre quatro paredes. Se isso chegar até a polícia, terá que revelar que fora a SS antiga. Eles realmente ainda não se esqueceram da sua presença na noite da morte do Michael, vadia. Arrisque me dedurar e eu MATO a sua família.”

Tonta. Era assim que eu me sentia. Queria me matar e terminar logo com aquilo. Joguei o celular na cama, abri o meu closet e me vesti com algo simples. Antes de sair do quarto, apaguei a mensagem no espelho e corri para o primeiro andar. Fui até uma salinha atrás do quarto de minha mãe, nas pontinhas dos pés para não acordá-la. Eu realmente era um gênio por ter lembrado daquilo.

Uma televisão de monitoramento exibia a visão das gravações das câmeras da mansão. Retornei o vídeo para algumas horas antes e lá estava o meu agressor, pulando o portão da casa, seguindo em direção à porta dos fundos, achando a chave de reserva ao lado da máquina de lavar e, finalmente, entrando na minha zona de conforto.

— Você não é tão inteligente. — Sussurrei enquanto gravava tudo em uma fita. Em seguida, afastei-me do lugar e fui até o corredor.

O mármore branco da escada estava gelado e me provocou arrepios. Do lado de fora, fui atingida por uma forte ventania. Fechei a porta atrás de mim e corri pelo jardim até a garagem. A antiga BMW de meu pai me encarava como se estivesse pedindo que eu a dirigisse. E foi o que eu fiz. Coloquei a fita do agressor invadindo a minha casa nos fundos do banco e deixei o lugar.

Liguei os faróis do carro e fui o contornando pela estrada da mansão até o lado de fora das propriedades da minha família. Depois foi tudo muito rápido. Cheguei ao condomínio de Tass trinta minutos depois. O porteiro olhou-me pela janelinha do cubículo em que ele ficava, estranhando minha presença naquele horário, fitando-me com uma careta bizarra.

Tass surgiu uns quinze minutos depois. Ela falou com o rapaz e ele abriu o portão para que eu passasse. Estacionei na primeira vaga que encontrei e corri para os braços de Tass imediatamente. Ela acolheu-me em um abraço caloroso e nós ficamos daquela forma por um bom tempo. No fim das contas, eu estava chorando mais do que nunca, sentada na grama dos fundos da casa de minha melhor amiga.

— É por causa das fotos? — Ela perguntou. Estava incrivelmente exausta, com olheiras enormes. Seu cabelo castanho claro estava bagunçado, o que me fez deduzir que a garota estava em um sono profundo antes de ser chamada.

— Também. Na verdade, eu preciso te contar algumas coisas. — Eu estava quebrando a única regra da Serpente Sanguinária. Iria contar tudo para alguém, valia o risco.

Ela juntou as sobrancelhas, confusa. Seus grandes olhos castanhos me fitavam como um caçador fitava uma presa. Foi então que desengasguei a verdade.

— Eu fui a Serpente Sanguinária. — Abaixei minha cabeça rapidamente, morrendo de vergonha. Um nó formou-se em minha garganta, prestes a se desfazer e me transformar em uma garotinha chorosa de novo. Nunca tinha confessado aquilo para alguém.

Ficamos um tempo caladas, escutando o som dos grilos no pequeno canteiro de rosas ao nosso lado. A lua nos iluminava intensamente, o que me fez perceber que Tass estava chorando. Levantei o rosto e toquei o seu ombro com leveza.

— Emma, você viu o Michael morrer.

— Foi uma das piores situações de toda a minha vida. — Disse a verdade, colocando a mão na coxa desconfortavelmente.

— Sou grata por ter entregado o vídeo. Sem isso, a Mia não estaria presa. — Não havia nenhum ar de raiva em sua voz, apenas tristeza.

— Ele morreu dizendo que amava você, não ela.

— Eu sei. — Limpou as lágrimas e sorriu pra mim. — Você é uma tremenda filha da puta por todas as coisas que fez. Destruiu a vida de muitas pessoas.

— Eu sei. — Disse no mesmo tom que ela. — Mas... Eu mudei depois do acidente. Até apaguei o blog! Acho que você percebeu essa mudança...

— Foi por isso que eu me aproximei de você. — Ela passou um filete solto do seu cabelo para trás da orelha. — Por você ter se tornado alguém melhor.

Encarei-a timidamente. Mentalmente, soltava milhões de fogos, agradecendo pelo fato dela não ter começado a me enforcar de raiva. Mas aí os fogos se apagam e eu volto para a vida real.

— Você não é a única que sabe sobre eu ter sido a SS. Alguém acabou descobrindo e tá usando isso contra mim agora, você viu o site! Aquelas fotos! — Tentei não passar desespero na minha fala, mas já era tarde. — Fui atacada por essa pessoa hoje.

Tass jogou o corpo para trás, exibindo uma careta espantada. Contei tudo que aconteceu pra ela, tornando cada momento mais tenso que o outro na minha narrativa.

— Então, se uma das regras é não contar para ninguém... — Ela começou a falar, erguendo uma das unhas para roer.

— Eu não me importo em ser punida.

Um bipe semelhante ao do meu celular soou no bolso do short de Tass. Ela enfiou sua mão ali e puxou o aparelho cor de rosa. Ficou um tempo observando a tela com os olhos esbugalhados. O que era agora? Ela girou a mão e exibiu uma mensagem anônima.

“Anônimo: Punição, vagabundas. Carro em chamas.”

Nós não éramos burras, sabíamos o significado daquilo. Saltamos do gramado e corremos lado a lado pelas ruas desertas do condomínio. Nossos passos ecoavam por todo o lugar. Por onde passávamos, luzes se acendiam nas casas. Na terceira quadra, alguém colocou o rosto sonolento para fora da janela e nos encarou.

Quando chegamos à portaria, um grupo de morados vestindo pijamas gritavam por ajuda. No chão, o porteiro bizarro estava caído, provavelmente desmaiado. E mais a frente, uma grossa cortina de fumaça serpenteava a escuridão, vinda de um carro que estava pegando fogo. Era a BMW de meu pai.

Um senhor gorducho gesticulava e gritava bastante, pedindo para que todos se afastassem, enquanto mais curiosos chegavam para bisbilhotar o que estava acontecendo. As chamas ferozes rompiam e se alastravam cada vez mais para os lados, ameaçando mordiscar algum pedaço de carne a qualquer instante.

O fogo não só mostrou o quão sério o agressor era, também consumiram uma importante evidência. A fita estava em chamas.

Tass se aproximou de mim com cautela, estreitando os olhos para o veículo. Sua boca estava entreaberta e as mãos trêmulas me passaram seu celular.

— Tem outra mensagem. — Afastou-se logo em seguida, juntando os próprios braços.

Na foto mandada pelo mesmo número anônimo, o quarto de vídeo da minha casa estava completamente destruído. Pilhas enormes de fitas estavam queimadas no chão, junto com a televisão e algumas câmeras estraçalhadas. A Serpente Sanguinária não era tão burra assim. Acontece que eu tinha acabado de perder a oportunidade de escapar do jogo. Agora o meu rival sabia que eu iria contrariá-lo e não irá demorar para que sua próxima jogada me tire do tabuleiro. Afinal, de todos na roda, eu sou a mais fraca.

***

03/02/15- Serpentes Sanguinárias.

"Todos aqui lembram da nossa queridinha Tass Fabray? Grávida do importantíssimo herói Michael! Infelizmente, o bebê atleta e pop star saiu do útero dela sem vida mesmo e nem chegou a ver a cor da grana que teria. Aqui vai uma bomba: Acontece que a vadiazinha não perdeu o filho por qualquer outro motivo doentio de anemia ou essas palhaçadas. Apenas uma palavra: A-B-O-R-T-O."

Notas finais
Até o próximo capítulo! irraaaaaa!