Brincando com Segredos

4 Bebê. Jaqueta. Envelope.


Notas iniciais
Olá! Como estão? Eu estou super animado ft. feliz! Saiu música nova da florence (tremendo até agora) e seria muito bacana se vocês escutassem ela lendo o capítulo, o nome é "What kind of man"! Então, sei que alguns personagens estão sem dar as caras, mas não se preocupem, eu não os esqueci. E as apostas para quem é a SS? Teorias? Hahaha. É isso, espero que gostem! Boa leitura.

''Cada ferida é uma lição, e cada lição nos torna melhores.''
(A guerra dos tronos)

A-B-O-R-TO. A denúncia da SS feita no blog ainda estava em minha mente, embaralhada com a fumaça pesada da noite passada.

— Então você fez isso mesmo? — Minha voz encheu o lugar vazio de vida. Entrego um olhar de paciência e conforto para Tass, enquanto ela funga baixinho, tentando esconder o choro.

— É mais difícil do que você imagina. — Ela cerrou os punhos. As lágrimas rolavam pelo seu rosto com ferocidade, como um animal indomável.

— Podemos tornar toda essa situação mais fácil. — Estiquei a minha mão até a dela, apertando-a. — Estou do seu lado, assim como você está do meu. — Tentei um abraço, mas Tass se afastou.

— Esse é o preço que eu estou pagando ao te ajudar. — Aquelas palavras me feriram. E assim, ainda em um choro ritmado por soluços, ela me deixou sozinha em seu quarto cor de cinza. Não demorou muito para eu escutar mais gritos dos seus pais no primeiro andar.

***

Minha mãe brigou bastante por causa do acidente com a BMW de meu pai. Disse-me que aquele carro era uma memória viva dele e que, se eu não tivesse a irresponsabilidade de sair àquela hora da madrugada para fazer sabe-se lá o quê, nada daquilo teria acontecido. Sim, ela estava certíssima.

Pela tarde, eu e Tass nos encontramos antes de ir à delegacia e criamos uma história falsa. Ela estava mais calma, porém contou-me sobre a forma com que as pessoas a olhavam na rua e as mensagens ofensivas que estavam chegando em seu celular.

Quando a policia me interrogou, já estava tudo armado. A história era a seguinte: “Tass me mandou uma mensagem no meio da noite, dizendo que estava prestes a se matar. A garota andava meio depressiva desde a morte do namorado, no ano passado, e da perda do seu filho. Fui correndo para lá, tentar impedi-la. Quando já estava voltando, vi o carro do meu pai pegando fogo.” Junte esse texto mais uma boa dose de cinismo e sentido, já que Tass criou outro lado para a história que se encaixou perfeitamente com a minha. Voilá! A conclusão deles?

“Acreditamos que o acidente com o carro da senhorita Thompson esteja envolvido com outras séries de atos criminais partidos de um grupo de vândalos da região. Acontece que, nos outros casos, não chegaram a ser tão radicais como agora. O que nos faz manter a investigação ativa.”

Descobri que as câmeras da portaria do condomínio de Tass tinham sido quebradas antes do ataque, o que as impediu de flagrar qualquer coisa. Felizmente, eu sabia muito bem que tinha sido o agressor. Só faltava saber quem era o agressor. Bem contraditório, não é?

A polícia falou com o porteiro mais tarde, quando ele voltou do hospital. Repetiu o próprio depoimento para a impressa, que fez questão de exibir o documento no jornal da manhã.

“Não me lembro de muita coisa. Para ser sincero, foi tudo muito rápido. Uma pedra enorme espatifou o vidro da minha cabine do nada. Corri para pegar a minha arma, mas já era tarde. Senti algo me atingindo na nuca, depois tudo ficou escuro e só acordei minutos depois, com o pessoal do condomínio me levando para longe das chamas do veículo.”

Agora era só esperar a poeira baixar e voltar a buscar formas de bloquear SS antes do seu próximo passo. Com Tass do meu lado, tinha certeza de que tudo ficaria mais fácil. Nós duas nos encontramos em um café no centro da cidade, em uma manhã ensolarada. Ela se vestia como eu, short curto e uma camiseta vermelha. Parecíamos garotas de algum acampamento uniformizado.

— Essa é a lista de todas as pessoas que eu ofendi no SS. — Passei uma folha para ela enquanto bebi um pouco de limonada. — Altas chances de um desses aí ser o meu agressor.

— Você acha que é um homem? — Perguntou, verificando cada nome.

— Acho que sim. Era muito forte para ser uma dessas magricelas que estão na lista. Então tenho quase certeza que é um garoto. — Tomei a folha da mão dela e mostrei o nome grifado de vermelho, “Thomas Geller” — Ele estava na festa de ano novo da nossa família. Disse que ainda sente muito ódio pela SS e que pretende encontrá-la. Talvez ele tenha descoberto que sou eu e agora tá me caçando.

— Ou continua sem saber e vai passar a procurar essa nova SS que, definitivamente, não é você. — Ela segurou o copo com as duas mãos, apreensiva. — Espera, esse Thomas é o que namorou com o seu irmão antes do Edward?

— Sim, mas eles terminaram e viraram melhores amigos. Depois o Ben conheceu o Edward e eu os dedurei no blog. — Revirei os olhos seguidamente, cansada de ter que lembrar de tudo que fiz. — Mas esse Thomas também gosta de garotas e, cai entre nós, ele é um gato! — Afundei o corpo na poltrona.

— Precisamos de foco! — Tass bateu na mesa, fazendo-me voltar a ficar com as costas retas. — Sei que a porcaria da fita foi queimada, mas você não lembra de nenhum detalhe que possa nos ajudar a identificar esse babaca?

E então, com apenas algumas palavras, sou levada por uma sensação enorme de virada de jogo. Levanto-me subitamente, sorrindo como bebê.

— O filho da puta estava usando uma roupa escura, mascarado/a. — Parei por alguns minutos, tentando lembrar mais alguma coisa. — Mas havia um detalhe esverdeado no centro, certeza que é algo que veio do...

— Guiding Star? — Tass também se levantou. Seus olhos estavam brilhando e a garota ria descomunalmente.

Corremos para fora do café como loucas. Quando entrei no carro dela, uma mensagem chegou no meu celular. Anônimo. A tentação de abrir era muita, mas decidi apenas guardar o aparelho mais uma vez.

***

Chegamos à Guiding Star alguns minutos depois. A atendente da loja de roupas nos olhou atravessado, mascando um chiclete rosa.

— O que desejam? — Perguntou com desânimo enquanto arrumava um croque em seus cabelos negros.

Dei uma rápida olhada nas vitrines. As mesmas jaquetas que o meu agressor usava se estampavam em cada centímetro da loja. Cartazes enormes diziam que a vestimenta estava com desconto, mas aparentemente ninguém comprara.

— Vocês vendem algo a não ser essas jaquetas? — Limpei a garganta.

— Estamos tentando tirar essas porcarias da venda há muito tempo! Quase ninguém compra. — Ela esbravejou, massageando as têmporas.

— Quase. — Falei devagarzinho.

— Isso. Acontece que vendemos apenas alguns modelos. — Ela nos encarou com seriedade. — Afinal, o que querem?

Tass se virou, fingindo estar interessada em algumas roupas da loja. Nesse meio tempo, o meu celular apitou. Dessa vez era uma mensagem da própria garota.

Tass: “Já trabalhei nessa loja há alguns anos. Eles guardam as informações de compras no computador no andar de cima. Se quiser saber quem comprou, seja útil e mantenha a bestinha ocupada enquanto eu vou olhar.”

Segui o conselho dela instantaneamente. Guardei o celular e caminhei até a atendente, puxando uma conversa furada. A mulher ficou de costas para a passagem do segundo andar e acabou não percebendo o momento em que Tass espreitou-se pela porta e subiu as escadas correndo. Agora era só uma questão de tempo para que ela voltasse com os nomes dos compradores.

***

Fiquei em choque quando descobri que só duas pessoas haviam realizado a compra da jaqueta. Guiding Star era uma loja pouco famosa, tendo apenas um estabelecimento em toda Oakland. Não tinha a possibilidade deles terem comprado em outro lugar, isso era fato.

O mais estranho era que eu não reconheci nenhum dos dois nomes. Tori Johnson e Bob Sullivan. Nunca falei sobre esses dois no meu blog, tinha certeza disso. Para tudo acontecer mais rápido, eu e Tass nos separamos. Ela seguiu para o endereço de Bob, no centro da cidade, e me deixou no interior, onde era a casa de Tori. Só de lembrar que ela poderia ser a minha agressora, calafrios percorriam todo o meu corpo.

O carro de Tass me deixou em frente à porta do prédio endereçado, ela abaixou o vidro, me deu uma rápida olhadela, sussurrou um “Feliz Jogos Vorazes! E que a sorte sempre esteja ao seu favor” e partiu até o segundo suspeito. Subi as escadas de concreto devagarinho, até finalmente bater na porta de madeira três vezes.

Quando ela se abriu, a visão que eu tive foi de uma mulher magra e corpulenta. Ela tinha cabelos loiros, um rosto fino e pálido. Parecia ter uns trinta e poucos anos. Me encarou normalmente, demorando apenas alguns segundos para perguntar o que eu queria.

— Olá? — Eu nunca tinha visto ela antes.

Oi, tudo bem? Gostaria de saber se a senhora queimou o carro de meu pai, ou foi até a minha casa me enforcar. Penso.

— Tori? — Ela balançou a cabeça em concordância, porém bastante desconfiada. — Pode parecer estranho eu querer saber isso, mas comprou alguma jaqueta ridícula na Guiding Star? — Pergunto, mordendo os lábios.

Ela me encarou por algum tempo, como se estivesse suspeitando de algo.

— Você a encontrou? — Ela arqueou as sobrancelhas.

— O que quer dizer com isso? — Aproximei-me mais da mulher, aproveitando seu momento de distração para tentar olhar a parte de dentro da casa, sem sucesso.

— Fui roubada há pouco tempo. A jaqueta foi tirada de mim, assim como minha carteira e mais alguns pertences. — Olhou para baixo, notavelmente desconfortável.

Fiquei mais esperançosa ainda. Tori não era a nova Serpente Sanguinária, pelo menos era o que eu achava. Esse cargo estava na mira de outras pessoas agora. Ou o homem que Tass foi investigar, ou o assaltante da Tori. Puta que pariu, isso tá ficando muito confuso.

— Você se lembra do rosto dele ou dela? — Me senti péssima em ter que perguntar aquilo, mas ela pareceu pior.

— É um interrogatório? — Tori cruzou os braços, perdendo a paciência. Seu tom de voz já era bastante alarmante. — O que você quer? Não lembro da porcaria do rosto de ninguém, estava usando máscara! Só me deixe em paz. — Seu rosto avermelhado foi para trás da porta, enquanto ela se trancava em minha frente. Não podia perder a oportunidade de descobrir mais coisas, então, dessa vez, toquei a companhia.

Quando foi aberta mais uma vez, a mulher já estava mais calma. Ela puxou a gaveta de um armário ao lado da porta e agarrou um envelope branco. Olhou-o por um tempo, depois o ergueu contra mim.

— Pegue! — Aceitei o material sem contestar. — Ele ou ela me deu isso antes do roubo. A policia não ficou interessada o suficiente no caso, acabaram considerando ele como uma besteira, não quiseram nem ver o que tem aí dentro. Parece que você quer saber mais disso tudo sobre eles! O que tá escrito não faz o menor sentido pra mim, talvez faça para você. — Estava prestes a fechar a porta em minha cara mais uma vez, quando retornou para dizer: — Aliás, se encontrar a jaqueta, pode ficar com ela. É horrível!

***

O dia estava terminando quando eu e Tass fizemos uma breve reunião no meu quarto. Tori e Bob, o segundo comprador, não eram a Serpente Sanguinária. Pelo que a garota me explicou, Bob era um velhinho que morava apenas com alguns gatos. Riscamos os dois da lista. Apesar de parecer em vão, toda essa história nos levou a uma nova pista: O assaltante e o envelope deixado.

Antes de abri-lo pela primeira vez, lembrei-me da mensagem no celular. Nós duas deitamos na cama e eu li o recado no aparelho, sem medo nenhum, já que tinha dando um grande passo para chegar até a verdadeira identidade desse filho/a da puta. Era o que eu achava...

“Anônimo: Eu sou o tipo de pessoa que deixa as outras acreditarem que estão evoluindo, quando na verdade não saíram do mesmo lugar.”

E é então que percebo o que está acontecendo e o quão fui manipulada.

— SS sabia que eu iria, de alguma forma, recordar de algo marcante das filmagens. A blusa com aquele detalhe foi o suficiente para ficar gravado em minha mente. — Coloquei a mão na boca, espantada com a teia de sequências planejadas pelo meu agressor. — Sabia que eu iria até a loja, que procuraríamos o nome dos compradores e visitaríamos eles.

Tass limpou a garganta depois de muito tempo em silêncio.

— Então o seu agressor assaltou Tori e deixou a carta para ela sabendo que você iria encontrá-la? Que volta da merda, era só colocar a merda do envelope no correio e ponto. — Ela revirou pela cama, irritada.

Talvez minha amiga não tivesse entendido o que SS quis com tudo isso, mas eu compreendi perfeitamente. Eu sou controlada facilmente. Fui uma das próprias peças do meu rival, e isso é algo que pode torná-lo mais fraco do que já é.

— Enfim, vamos ver logo. — Joguei o meu celular no outro lado da cama, ainda incomodada com a nova mensagem. Abro o envelope com calma, encontrando uma folha de papel dobrada. Quando termino de desenrolá-la, leio o recado deixado com palavras recortadas de revistas.

“A festa para os novatos sempre tem algumas surpresas. Um dos primeiros passos para descobrir quem eu sou é estando no mesmo lugar que eu.”

***

13/02/2015- Serpentes Sanguinárias.

Acusada por ter matado o próprio namorado, Mia Huldy voltou para Oakland nessa sexta-feira treze! Qual será a reação da garota ou descobrir que sua melhor amiga, Emma Thompson, tem saído com a amante que ficara grávida do seu ex? Pirando por esse encontro.