Brincando com Segredos

7 Boneca de porcelana.


Notas iniciais
Eu sei gentee, quanto tempo, não é mesmo? Podem me xingar, eu sei que fui um pé no saco em não ter postado o capítulo antes, mas muitas coisas estavam me impedindo de fazer isso. A notícia boa é que agora a poeira abaixou e eu finalmente vou retornar com a fic. Peço desculpas a todos, pela falta de comprometimento com vocês leitores, mas espero que entendam o meu lado. A fic não foi abandonada e eu espero muito que ainda estejam aqui para poderem ler a continuação! Esse foi um capítulo muito trabalhoso de se fazer, sem contar o bloqueio criativo que tive nesse ponto fundamental da história. Como pedido de desculpas, fiz esse capítulo SUPER BOMBÁSTICO para vocês e imploro que, se forem comentar sobre algumas dessas revelações bombásticas, usem o aviso de spoiler para não estragar a magia de quem ainda não leu! Espero muuuuito que gostem! Boa leitura!

"Os melhores aprenderão com os erros do passado, enquanto o resto parece condenado a repeti-los." (Revenge)

Quando as sirenes dos carros de polícia começam a preencher o vazio que outrora comandava o pequeno campo ao redor da floresta, o palhaço mascarado termina de queimar o pequeno casebre e corre para o lado oposto ao que eu estou. Pondero se devo ou não segui-lo, mas acabo retornando para a trilha que me leva até a casa de Jenna.

A multidão de jovens agora parecia extinta, com uma quantidade completamente reduzida. Estavam ao redor da grande árvore ao lado da mansão. Seis policiais rondavam todo o terreno, enquanto mais alguns deles interrogavam os pais de Jenna, que pareciam incomodados com a presença de um defunto no quintal deles.

Cheguei sorrateiramente pelo canteiro de rosas, tentando não parecer suspeita. Calcei o meu salto e limpei a lama que estava em meus pés. Não demorou muito para que eu fosse abordada. Wells, como o detetive se apresentou, me levou até a cozinha e me fez perguntas básicas. Inventei umas baboseiras quando ele perguntou o que eu tinha feito durante a festa, omitindo a brincadeira de SS e o envolvimento que ele/ela tinha com a morte de Mia.

— Não lembro ao certo o que foi que eu bebi, mas deixou-me fodida. — Falei devagarinho, mantendo os olhos alertas. — Foi aí que eu senti um enjoo, como estava perto da cozinha, corri até a pia para vomitar. Daí foi só eu olhar pela janela e lá estava o corpo, pendurado como um saco de pães.

Mais viaturas chegaram ao local, dessa vez com algumas vans de canais, provavelmente para uma reportagem sobre o caso.

— Emma, eu realmente estou muito triste pelo que aconteceu com a garota. Soube que vocês eram amigas... — O queixo torto do rapaz tremeu rapidamente. Seus olhos escuros fitaram-me delicadamente e eu senti a sua mão apertando a minha por cima da mesa. — Bem, estamos avaliando o caso com delicadeza. Precisará comparecer a mais algumas entrevistas nos próximos dias, ou até resolvermos o caso. Aparentemente foi um suicídio. — Ele se levantou da cadeira e foi até a porta dos fundos. — Falaram-me que Mia escreveu uma carta dizendo que faria isso. — E assim deixou o lugar.

Não, não foi um suicídio. SS a matou e eu era o motivo disso. Lembrei da conversa que Mia teve no celular com quem provavelmente seria SS. Estavam brigando feio, por causa de algo que Mia não queria fazer comigo, ou que não conseguiria. Talvez a garota estivesse prestes a revelar a verdadeira identidade do diabo, mas acabou sendo espetada antes que pudesse sair do inferno.

Deveria contar a verdade aos investigadores? Dizer que vi a garota sendo morta? Um calafrio tomou conta do corpo e afundei no medo da incerteza. A resposta era definitivamente não. Se descobrirem SS, também me descobrirão. Todo o meu passado seria exposto e essa história de gato e cachorro seria divulgada em todas as mídias. Um pouco egoísta, mas e daí?

Fiquei mais alguns minutos na casa e só deixei o lugar quando o delegado permitiu que o fizesse. O gorducho perguntou se eu tinha capacidade de dirigir, e eu o respondi que sim. Nesse instante, peguei o caminho de volta para casa como se nada tivesse acontecido. Apesar de nervosa, eu não senti nada pela morte da garota. Finalmente SS tinha feito algo útil, e se eu não a encontrar, os policiais o farão.

Ou era pelo menos isso que eu achava.

***

Três semanas depois.

Voltar para o Winston não foi nada fácil. Aquela mesma sensação de tristeza voltou a me perseguir todas as manhãs, quando acordava para realizar as minhas atividades diárias como ajudante de professora de natação. A professora permanente, Lynn Benvenuit, era completamente doce e inteligente. Fazia quase tudo e só me pedia para assessorar algumas tabelas para ela.

No primeiro dia do emprego, fui atingida por uma chuva de olhares. Os alunos me encaravam ferozmente, como se eu fosse uma carne a ser desfiada. Nos corredores, pessoas sussurravam sobre a minha decadência profissional e eu era obrigada a ouvir bordões como “um bom filho a casa torna”. Sinceramente? A vontade que eu tinha era de abrir o meu próprio blog novamente e meter a faca nesse bando de vagabundos.

Desde a morte de Mia, Serpentes Sanguinárias estava definitivamente fora de ar. Talvez a nova SS estivesse fazendo que nem eu, depois da morte do Michael. Ou ele/ela só estaria esperando a poeira abaixar? Bom, até lá, eu teria tempo o suficiente para reorganizar os cacos que foram partidos na festa da Jenna.

Tudo parecia muito bem, mas a verdade é que o meu pedacinho de mundo ainda estava ruindo. Tass não falou mais comigo depois do beijo. A garota não tem respondido os meus sms e não atende a porta de casa. Fui burra e ignorante pra caralho, eu sei.

Além disso, tinha que escutar Adelaide e mais um montão de gente dizer que foi Tass que matou Mia. Na verdade, essa é a teoria mais aceita pelo pessoal depois da de suicídio, mesmo depois dela ter sido liberada do interrogatório com a polícia. Com aquela briga entre as duas no começo da festa... Até eu suspeitaria.

— Boa tarde Sra. Thompson! — Lynn se vira bem entusiasmada para me abraçar enquanto eu ainda estou atravessando a porta da quadra de natação. — Preciso que você seja mais rápida do que os outros dias, tem um serviço bastante importante para realizar!

Antes de respondê-la, contemplo a visão pavorosa da piscina onde Michael foi morto. A lembrança daquela noite me atinge com força e sinto uma tontura indesejável. Retomo o equilíbrio com um pouco de dificuldade.

— O que preciso fazer? — Digo baixinho para ela.

A treinadora arregala os olhos para algo atrás de mim e bate as mãos, entusiasmada.

— Pronto, ele chegou!

Quando me viro, arregalo os olhos com o que vejo. Era o garoto da festa da Jenna, o que eu fiz questão de chutar depois de achar que ele seria a SS. Usava uma sunga azul, o corpo todo molhado. Seus cabelos escuros estavam pingando e os olhos se escancararam imediatamente. Ele também lembrou de mim.

— Você! — Gritou, apontando o dedo para o meu rosto.

— Você? — Foi a única coisa que consegui dizer.

— Por favor, não me dê outro chute, sério! — Ele recuou, erguendo as mãos para antecipar um provável golpe meu.

Nesse instante, Lynn se colocou entre nós, parecendo não entender a situação.

— Nos conhecemos na festa da Jenna. Bem, não da melhor forma possível. — Desabafei.

— Na verdade essa garota é psicótica! — Ele aumentou o tom de voz novamente. — Eu só queria usar o banheiro!

— Tudo bem, já podemos parar com isso! Eu fui muito precipitada em ter atacado você daquela forma... — Lembrei-me o nome do garoto segundos depois. — Dylan...

Ele cerrou os punhos e cruzou os braços, encarando-me como se fosse me devorar. Então, espontaneamente, mudou sua expressão maligna e sorriu pra mim.

— Tudo bem, eu só estou zoando um pouco. — Ele ergueu a mão e eu o cumprimentei.

— É melhor que vocês realmente esqueçam isso! Terão que trabalhar juntos agora. — Lynn agarrou o meu pescoço e fez o mesmo com o de Dylan. — Irá monitorar todas as pontuações desse nadador Emma! Sinto que ele irá tirar o time de natação do fundo do poço.

***

Winston, o próximo.

Acordo desesperada, arranhando a escuridão na minha frente, tentando retirar a máscara de palhaço da SS. Sem sucesso, finalmente percebo que era tudo um pesadelo. Então o cd volta a repetir e a minha vida segue a coreografia rotineira. Tomo banho, arrumo todos os meus materiais em uma mochila, checo se o SS voltou a funcionar, arrumo uma roupa e desço para tomar café da manhã.

O café da manhã, a parte mais dolorosa do dia, quando sou obrigada a ficar em silêncio por falta de um assunto a comentar com a minha pequena família.

Minha mãe me encara da ponta da escada, erguendo os braços para me abraçar. Permito que ela o faça, mas não permaneço enroscada nela por muito tempo. “A princesa mais linda do castelo”, ela sussurra. A porta da sala de câmeras se abre e Adelaide serpenteia para a cozinha entediada, sendo rejeitada por mamãe.

— Bom dia. — Sussurro baixinho em seu ouvido enquanto a sigo. A garota se vira rapidamente, arregalando seus olhos pra mim, como uma criança. Naquele momento, ela joga boa parte do seu cabelo desesperadamente em seu rosto devorado pelas chamas, em uma falha tentativa de esconder a notável feiura das cicatrizes. — Não precisa esconder isso. — Digo com cautela quando finalmente nos sentamos ao redor da mesa.

Sirvo-me com um pedaço de bolo e cerejas, enquanto Cristal chama uma de nossas empregadas rudemente, pedindo por um pouco de suco. Satisfeita, a mulher me encara com os olhos caídos, como se estivesse admirando a minha beleza.

— Conseguiu falar com a Tass, querida?

— Já faz umas três semanas que ela não me responde. Não atende o celular e nem abre a porra da porta de casa. — Falei o xingamento baixinho.

— Não se preocupe, uma hora ou outra ela vai aparecer. — A mulher cruzou as pernas, fitando a sua taça com frieza.

— Ela não está desaparecida, apenas tá me evitando. — Retruquei.

Adelaide pôs a mão na bochecha e passou a encarar suas batatas pelos longos cinco minutos que se seguiram. O silêncio desconfortável foi quebrado subitamente por minha mãe.

— A morte de sua amiga Mia me fez ficar mais alerta a algumas coisas. — Ela me encara sem piscar, balançando os cabelos. — É uma pena que tudo isso esteja acontecendo com você, então resolvi fazer um pequeno jantar hoje, para celebrar... — Levantou a taça com delicadeza e concluiu. — Você.

Engasgo na mesma hora.

— Mas nem é o meu aniversário!

— Eu sei, querida. Só estou cansada de não aproveitar as coisas enquanto as tenho. — Cristal virou-se com elegância, fitando o quadro do papai com o Ben. — O irmão de vocês era ótimo. E você também é, Emma.

Nesse momento, sinto um prato voar na minha frente, raspando pelo meu nariz e se estilhaçando na parede ao lado da mesa. Adelaide se levantou bruscamente, varrendo tudo que estava em cima da mesa para o chão. Coleções inteiras de porcelanas quebraram com um único movimento de minha irmã. Cristal se levantou na mesma hora, horrorizada com a cena.

— Eu também sou sua filha! — Ela gritou, puxando o forro branco e arremessando uma porrada de garfos nos serviçais que se aproximaram, afastando-os do local.

Mamãe driblou as cadeiras vazias e agarrou o braço de Adelaide, segurando-a com força. Virou-a em sua direção e a encarou nos olhos. Tentei fazer algo, mas os meus pés pareciam grudados no chão.

— Não, você não é a minha filha e nunca será! — Vi as unhas de Cristal se enterrando nos braços de Adelaide, que tombou no chão depois de um tempo, aos berros. Seus joelhos estavam pressionados contra os cacos quebrados. Finalmente consegui levantar e ajudei a minha irmã ao fazer o mesmo.

Encostei-a na parede e arrisquei olhar para as suas pernas. Pequenos cortes rasgavam sua pele, derramando uma quantia considerável de sangue. Apesar disso, tinha certeza de que ela não estava chorando pelos ferimentos, mas sim pelo que nossa mãe tinha acabado dizer. Aquilo me machucou, e eu realmente estava disposta a fazer tudo parar. Então virei-me para ela, estendendo minha pesada mão contra o seu rosto cheio de pó.

— Não tente fazer isso novamente. — Ela correu para o lado, pressionando o corpo contra um armário luxuoso. — E é por isso que eu não te dou nada! — Gritou para Adelaide, e eu soube exatamente o que queria dizer. Lembrei-me do dia em que escutamos a conversa de Cristal com o seu advogado, quando ela pediu para que todos os bens fossem passados para mim.

— Parem, por favor! — Tentei parecer forte, mas já estava chorando no momento em que disse isso.

— Poupe-me de suas idiotices, Emma! Você é o bem mais precioso de minha vida, mas não se faça de vítima, não seja sonsa! — Ela aumentou o tom de voz mais ainda, apontando o dedo agressivamente contra o meu peito. — Nós duas sabemos que você nunca gostou da Adelaide, que sempre teve vergonha dela!

Perto da escada, Adelaide se encolheu, fungando baixinho.

— Eu mudei! — Gritei para minha mãe. — Você fala como se fosse a melhor mãe do mundo para ela!

Nem tinha terminado de falar quando senti que ela tinha me agarrado. Meu corpo inteiro pareceu mais leve enquanto era puxada pelo cabelo, indo em direção a Adelaide. Cristal me largou ao lado da minha irmã e apontou para o rosto desfigurado dela sem educação nenhuma.

— Eu estou cansada de fingir que isso não aconteceu. — Berrou. — Todos aqui vivem em um mundo de mentiras, idealizado pelas falsas imagens, mas eu nunca esquecerei cada merda que vocês fizeram na minha droga de vida! — Suas palavras perfuravam minha garganta como uma lâmina. — Você fez isso com a sua irmã, Emma! Não pode ignorar a crueldade que fez a essa garota!

É então que sou devorada pela parte mais podre do mundo. A minha visão escurece e o restante dos meus sentidos se desligam. Vejo que minha mãe ainda grita, mas não escuto o que ela está falando. A última coisa que eu ouvi me destruiu completamente. O tipo de verdade que mata uma pessoa da mesma forma que uma bala faz. Eu tinha consciência daquilo que fiz, mas nunca estive pronta para ouvir aquilo. Ouvir a verdade.

Uso toda a minha força para levantar o pescoço e encaro minha mãe entre lágrimas e pontilhados esverdeados. A última coisa que vejo é ela dedilhando o cabelo, procurando por um ponto específico. Quando o acha, ergue completamente a mão e puxa a peruca desde sua couraça interna, até que fique finalmente com o seu cabelo natural: Um ninho de poucos tocos escuros e ressecados, mal distribuídos por toda a cabeça, completamente sujos. O pó de seu rosto, agora completamente destruído por suas lágrimas, revela uma cicatriz vertical na bochecha. É então que eu desmaio.

***

Canadá, 10 anos antes.

Não sei ao certo o que estou fazendo, mas roubar as roupas do guarda-roupa de minha mãe parece uma ideia divertida. Aproveitei que ela estava nos fundos da casa e peguei o seu salto mais caro, seu vestido mais curto, e apliquei uma porrada de maquiagens em meu rosto rechonchudo.

Eu queria ser que nem ela.

Desci as escadas com cuidado para não tropeçar em nenhum degrau e arrisquei desfilar um pouco até o banheiro. Papai e Ben tinham acabado de sair, provavelmente para conhecerem garotas novas em um puteiro. Não sei que lugar é esse, mas papai sempre fala com sua amiga no telefone que não vai demorar muito até chegar lá.

Peguei o jeito de andar sem muita demora. Lá fora, a noite caia depressa, preenchendo o céu com visíveis estrelas brilhantes. Um ruído estourou na direção da sala. Cambaleei até lá e encontrei Adelaide de pernas cruzadas no chão, brincando com minhas bonecas.

A forma com que ela penteava o cabelo da Barbie era o que mais me incomodava. Não podia deixar que ela continuasse com aquela crueldade, então fui até a garotinha e puxei o brinquedo de sua mão.

— Você não pode fazer isso com as minhas bonecas! — Gritei com ela.

— É claro que posso. — Ela se levantou e arrancou a boneca de minha mão. — Quem é você pra mandar em mim?

— Eu sou sua mãe, é claro! Não vê as roupas que estou usando? — Empinei o corpo inteiro, passando a mão no vestido longo que estava usando.

— Você não parece nem um pouco com ela. — Adelaide caçoou, rodopiando pela sala enquanto ria.

Estava realmente começando a me irritar. Se gritasse com ela, mamãe perceberia e me daria uma bronca por estar usando suas roupas. Infelizmente, tive que concordar com a pirralha: Aquela minha fantasia de Cristal estava péssima, faltava um elemento para o toque final. E é então que eu o vejo: Uma cartela azul de cigarros e um isqueiro, na mesinha de centro.

Agarro-os sem demora e vou até Adelaide, que está brincando com as cortinas brancas da porta. Ponho o primeiro cigarro nos lábios e o acendo sem demora. Fico imóvel por alguns segundos, sem saber o que fazer. As primeiras baforadas me fazem ficar sem ar. A fumaça me engasga violentamente, como se tivesse mãos para me enforcar.

Grito pela ajuda de minha irmã, mas a garota apenas coloca a cabeça para fora da cortina e ignora a minha situação. Com raiva, acendo o isqueiro e o arremesso na direção dela. Em questões de segundos, a cortina já está pegando fogo. Ela desaba sobre o corpo de Adelaide, que se contorce atrás do pano, buscando por uma saída.

Ela gritou até que toda a vizinhança a escutasse. O outro lado da cortina em chamas caiu sobre o sofá e começou a incendiá-lo, assim como o restante da casa. Quando Cristal chega, ela só salva uma de nós duas e deixa a outra para ser morta. Mamãe não estava triste, nem assustada, seu rosto parecia aliviado, apesar de sangrar bastante. E quando estamos do lado de fora, ela me diz:

— Obrigado por fazer algo que eu sempre quis fazer. Somos mais parecidas do que eu imaginava... — Termina de dizer isso com um beijo molhado em minha testa, enquanto a fumaça e as labaredas das chamas se expandem até o jardim.

É nesse momento que a filha ignorada escancara a porta da casa, completamente desfigurada, gritando de dor. O rosto de Adelaide estava derretendo.

***

Agora.

Acordo com os ruídos de uma televisão antiga. Apesar da visão embaçada, consigo identificar uma foto atual de Mia. A voz do apresentador do jornal diz: “De acordo com os policiais, a nova meta é encontrar o celular da garota, que anda desaparecido desde a sua morte. Acreditam que possa haver alguma importante evidência no aparelho.’’

Dando uma olhadinha melhor no lugar, percebi que se tratava da sala de câmeras.

Outras sete televisões exibem vídeos de pontos da minha casa. No corredor, uma empregada esfrega o chão com força, tentando limpar o que parece sangue. A tela da frente do quarto de Adelaide está apagada, como se a câmera dali estivesse quebrada. A porta do quarto de minha mãe se abre e eu vejo seu advogado sair de dentro do cômodo, seguido pela própria mulher. Sinto-me enjoada ao ver os dois se beijarem, enquanto minha mãe massageia o rapaz. Paro de olhar imediatamente e levanto-me do chão frio.

As lembranças da briga me assolam devagarinho, mastigando as entranhas do meu estômago. Não consigo conter as lágrimas e mergulho em uma série de soluços agudos. Diante de mim está a mochila que eu havia preparado para ir até a escola. Não lembro ao certo o que aconteceu, mas tenho noção de que se passaram algumas horas desde o café da manhã.

É então que o meu celular toca. Meu corpo gela ao ler o nome “Tass” no visor. Aceito a chamada com pressa, buscando respostas por todo o tempo em que ela tinha me ignorado, mas novamente, ela não me responde e vai direto ao ponto.

O que eu escuto é extremamente devastador.

Aqui é a Tass. — Sua voz séria preenche o meu ser. — Já estou cansada desse jogo. Eu sou a SS, Emma. Precisamos nos encontrar para resolvermos algumas questões pendentes.

E como uma boneca de porcelana cheia de rachaduras, eu finalmente quebro.

***

Serpentes Sanguinárias.

Acham que sabem algo sobre mim? A partir de agora, aqueles que tentarem me destruir, vão pagar com sangue.