Brincando com Segredos
10 Aquele com as despedidas.
Notas iniciais
“O que acha que eles vão fazer com vocês quando descobrirem que Emma Thompson tem um cadáver no quintal?”
Mesmo depois de desligar a ligação, a voz instigante da SS ainda zunia em meu ouvido. Na cadeira, Adelaide se meche com cautela, como se estivesse pensando se deveria ou não abrir os olhos. Encaro Tass por um tempo. A garota está arfando muito, mas no momento que se vira pra mim, parece ficar mais calma. Conto sobre o recado na ligação para ela.
— Pode ser uma armadilha. Talvez ele ou ela quer que você saia do sótão só pra poder te esfaquear do lado de fora. — Ela cruzou os braços e sorriu. — Ou você realmente acha que ele enterrou um corpo em seu quintal?
Aquilo não tinha graça, na verdade, me deixava mais apavorada ainda.
— É o que vou descobrir. Fique aqui e, pelo amor de Deus, tome cuidado. — Disse decididamente. Tass tentou fazer com que eu mudasse de ideia, mas não funcionou. Passei meu braço por cima do seu ombro e abracei com força. Uma sensação boa esquentou o meu peito e eu senti que estava corando. Seu cabelo estava tão cheiroso, sua pele tão macia.
Ela segurou a minha cintura e começou a se afastar. Subitamente, dedilhei o seu pulso e a encarei com uma vontade enorme de lhe dizer algo. Percebi que Tass estava hesitante, mas eu sabia o que queria. Aproximei-me cada vez mais dela e acariciei sua bochecha. Estávamos tão perto uma da outra...
— Sinto o cheiro de couro. — A voz de Adelaide serpentou entre nós duas, fazendo com que nos assustássemos. O que ela estava fazendo ali? Porra, já tinha esquecido a sua presença. Ela se inclinou na cadeira, fazendo os cabelos loiros e sujos de sangue caírem para frente. — O meu amiguinho já chegou?
Levantei o dedo do meio para minha irmã. Tass levantou a panela que usara para me salvar e piscou o olho pra mim. Deixei as duas para trás e desci para o corredor que levava para meu quarto. Nesse instante, puxei a arma de Adelaide de dentro de minha jaqueta e me esgueirei até a beirada da escada. Não havia nada. Um silêncio assombrador me dilacerava e eu fui tomada por uma série constante de calafrios.
Desci até a sala com a maior pressa. Estava mais atenta do que nunca. Pela janela, vi que uma forte chuva assolava Oakland. Ergui a arma e tentei ignorar a dor dos meus pequenos ferimentos. Deslizei até a cozinha e escancarei a porta para o quintal sem demora, sendo recebida por uma ventania tão forte que jogou os meus cabelos para trás. De longe, no meio do gramado, vi uma parte notoriamente alterada no solo, como se alguém tivesse acabado de enterrar algo ali. Meu coração disparou e eu corri até o lugar.
A chuva açoitava as minhas costas com tremenda fúria, mas eu ignorei e comecei a cavar um buraco em cima da parte defeituosa. Estava mais nervosa do que nunca, com medo do que estava no final do buraco. Minhas unhas estavam pretas de tanto jogar a terra para longe e finalmente elas atingiram algo sólido e frio. Soltei um gritinho de surpresa. Era uma caixa de ferro, não um corpo.
Dentro da pequena caixa havia uma folha amarelada de papel, onde se lia com letras garrafadas a seguinte frase:
“Se veio até aqui, considere-se a responsável pela morte da sua amiga.”
Meu corpo se virou automaticamente e eu olhei para a casa atrás de mim. Em uma das janelas, vi um vulto passar depressa em direção ao sótão. Enquanto corria, escorreguei na lama. A tempestade ao meu redor parecia me jogar para baixo, mas não deixei de ser rápida. Meus pés trabalhavam tão depressa que em questões de segundos eu já estava no sótão também, apontando a arma para qualquer coisa que se movimentasse, nesse caso, foi para Tass.
A garota levantou a panela e desceu-a em direção ao meu rosto, parando instantaneamente quando me reconheceu. Eu também abaixei a arma. Os olhos dela lacrimejavam e a boca tremia. Olhei para a cadeira em que Adelaide estava amarrada. A vadia não estava mais lá.
— A segunda SS não me matou. — Sua voz estava apavorada. — Só disse que queria levar a Adelaide.
— Para onde foram? — Cerrei os punhos com raiva.
Tass balançou a cabeça negativamente. Um grito de horror, vindo do primeiro andar, fez minhas entranhas se revirarem. Puxei Tass pelo braço e corremos até o topo da escada. De onde estávamos, vimos o corpo frágil de Adelaide se estatelar de joelhos no chão. A garota chorava muito e, diante dela, de costas para nós duas, estava uma figura alta, coberta por uma capa negra e acobertada por uma máscara de Serpente. Era a segunda SS. Ela levantou a mão e estapeou violentamente o rosto da minha irmã. Ela disse algo que não conseguimos ouvir.
— Me perdoe, por favor! Eu te decepcionei, deixei que ela me descobrisse, eu sei... As coisas estão indo longe... — Adelaide parou de fungar, juntou as sobrancelhas e olhou exatamente para mim. A SS se virou e também nos notou. Ergui a arma contra o peito da vadia e coloquei o meu dedo no gatilho. Minha mão tremia tanto. — Vocês deveriam ficar quietas no sótão, Emma!
Tass se comprimiu no degrau ao meu lado e começou a chorar.
— Tire a máscara ou eu te mato. — Levantei o meu corpo e gritei para SS.
Ela foi para trás de Adelaide e pôs a faca em sua garganta. Começaram a andar com cautela na direção da porta. Meus pés pesaram e o revólver pareceu inútil naquele momento. Eu não sabia atirar e aquilo poderia atingir Adelaide com uma facilidade tremenda. De repente, SS recolheu a faca e empurrou minha irmã para frente. Meus olhos se focaram em Adelaide por uma fração de segundos, nesse momento de distração, a porta se abriu e o mascarado passou por ela.
Apertei o gatilho e a arma disparou ferozmente contra a mancha que atravessava a escadaria do lado de fora. A bala pareceu atingir sua perna, mas SS continuou a correr. Na escada, Tass passou pulando em minha frente, puxando-me logo em seguida. Descemos até a sala e corremos para o lado de fora. SS abriu a porta de um carro preto e jogou-se ali dento, fechou a porta e ligou o veículo.
— Atire mais uma vez! — Tass gritou pra mim.
Meu dedo tremeu, mas o disparo havia sido efetuado. Dessa vez, o projétil atingiu o vidro lateral do carro, que rompeu em vários cacos. SS deu ré e acelerou para a pista de saída. Adelaide, que até agora estivera dentro da casa, passou cambaleando do meu lado em direção ao veículo. Tentei impedi-la, mas a garota berrou e me arranhou.
— Não me abandone! Nós somos a dupla perfeita! — Ela pulou por cima da pequena grade do jardim e caiu de joelhos no outro lado. Levantou-se imediatamente e ziguezagueou até a pista. — Eu juro que vou corrigir os meus erros! — Ela berrou mais uma vez. A promessa de Adelaide foi a última coisa que eu ouvi partindo da garota. Segundos depois, SS acelerou o carro na direção de minha irmã e a atropelou sem hesitar.
O corpo de Adelaide voou por cima do veículo e foi arremessado pelo asfalto como um boneco de pano. Minha boca se escancarou e eu soltei um grito de pavor. Iniciei uma corrida até a pista. O carro sumiu na escuridão e eu ajoelhei-me ao lado do copo imóvel da garota. Sua cabeça sangrava muito e o restante do corpo parecia deslocado. Seus olhos estavam mais fechados do que nunca. Coloquei a mão no seu pulso, mas não senti nada. Ela estava morta.
A chuva voltou a pesar em minhas costas e eu desabei em choro, pedindo socorro. Tass falava com alguém no telefone e dois faróis surgiam na penumbra. O carro do advogado estacionou do lado de fora e vi minha mãe sair sorridente do veículo, ela parecia deslumbrante, até nos ver. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela gritou como eu nunca vi. Perguntou-me o que tinha acontecido, mas eu estava tão desnorteada que não consegui falar nada.
Cristal agarrou Adelaide pelos braços e começou a chorar em seu pescoço, pedindo que voltasse, que aquilo não poderia ter acontecido. Gabriel gritava com alguém no seu celular, provavelmente pedindo ajuda. Minha visão embaçou e o restante das coisas que aconteceram também não foram boas. Primeiro a ambulância chegou para levar Adelaide. Cristal pediu que eu ficasse em casa enquanto ela ia para o hospital. Senti Tass me abraçar, mas eu não tinha consciência geral e sólida das coisas ao meu redor.
Aos poucos, depois que minha mãe saiu, várias pessoas foram chegando. Vizinhos, amigos e familiares. Não tinham vindo por Adelaide, nem sequer perguntavam por ela, só queriam saber sobre mim, se eu estava bem e o que tinha acontecido. Um dos meus tios levou a dezena de pessoas para a sala de nossa casa e ficou em choque quando viu as coisas quebradas na cozinha, mas eu não estava disposta a contar o que tinha acontecido, para ser sincera, ainda estava chorando.
— SS não vai fugir dessa vez, Emma. — Tass sussurrou em meu ouvido em um determinado momento.
A chuva cessou depois de muito tempo e, quando comecei a voltar ao normal do transe que havia me possuído, sirenes policiais eclodiram da pista em que Adelaide havia sido atropelada. Que porra era agora? Quando abri a porta, fui empurrada violentamente para o lado. Meus tios correram para onde eu estava, mas deram espaço no momento em que quatro policias entraram armados na casa, três deles erguiam suas armas, enquanto a mulher, que vinha na frente segurando algemas, levantou o que parecia ser um documento. Ela disse seriamente:
— Tenente Michelle. Polícia de Oakland. — Ela deu passos longos e decididos até Tass. — Você está presa pelo assassinato de Mia Huldy. Você tem o direito de permanecer em silêncio; tudo o que você disser poderá e deverá ser usado contra você no tribunal. Você tem o direito de ter um advogado presente durante qualquer interrogatório. Se você não puder pagar um advogado, um defensor lhe será indicado. — E assim, virando-se para a garota, passou a algema pelos seus pulsos e jogou-a para frente, fazendo-a andar. — Entendeu?
Meus olhos se encontraram com os de Tass e ela pediu por ajuda. Coloquei-me na frente dos policiais e segurei os ombros da minha amiga, parando-a.
— Ela não fez nada! — Gritei no momento em que três mãos me puxaram para trás. Michelle passou com Tass na minha frente. A garota estava aos berros, sacudindo-se, dizendo que era inocente. Os outros policiais escancararam a porta e eu vi dezenas de câmeras, repórteres e carros televisivos. Corri para a varanda com Gabriel ao meu lado. Aquilo não poderia estar acontecendo.
Tranquei o nó na minha garganta e driblei os flashes que estouravam ao meu redor. Tass entrou no carro e encarou-me pelo vidro, desesperada. Aproximei-me desnorteada enquanto a multidão me tocava, perguntava, filmava.
— Eu te amo! — Gritei para a garota no momento em que o carro da polícia deu uma arrancada em direção à escuridão. Na algazarra, senti dedos gelados me puxarem: o mesmo detetive que conversara comigo no dia da morte de Mia estava diante de mim. Ele puxou um bloco de notas e começou a falar algo, mas eu estava focada no rosto maquiado e falante de uma jornalista em minha frente. Uma grande câmera estava sobre ela e eu a ouvi dizer:
“Depois de um bom tempo chegamos a esperada conclusão do mistério ao redor do assassinato de Mia Huldy. Recentemente, a autópsia mostrou que antes do enforcamento, a garota recebeu uma pancada forte na cabeça, causada por um taco de beisebol. O crime, praticado para se parecer com um suicídio, foi desvendado hoje quando o departamento de policia recebeu uma denúncia anônima que dizia que o taco usado no assassinato estava na casa de Tass Stewart, adolescente que brigou com a vítima horas antes de sua morte. A varredura na casa não só confirmou a denúncia como também achou outra importante evidência: o celular da vítima, que estava escondido no colchão da jovem que acabara de ser presa. Mais uma vez, Oakland presencia a justiça sendo feita.”
Sinto uma pontada estridente em minha cabeça, depois disso, vejo policiais entrando em minha casa velozmente. A mão do detetive aperta o meu ombro com força e eu desmaio. No fim, agradeço por isso ter acontecido, assim não tenho que acompanhar a tortura que é ver o meu mundo desabar.
***
Acordei horas depois, em uma cama de hospital. Da janela, vi nuvens cinzas carregadíssimas, provavelmente estava amanhecendo. Apesar de estar nauseada, levantei o corpo imediatamente. A porta do quarto em que eu estava se abriu e uma enfermeira deu passagem para a figura entristecida e desgastada de minha mãe.
— Tudo bem com você, querida? — Ela se sentou em uma poltrona do meu lado e eu balancei a cabeça. — A sua irmã, ela não conseguiu... — Minha mãe abaixou a cabeça e eu segurei a sua mão. Nós duas choramos a manhã inteira e eu ouvi suas lamentações. Nunca demos valor para a Adelaide enquanto ela estava viva, também nunca demonstramos que gostávamos dela, mas no final, depois de todas as crueldades, a amávamos o suficiente para sofrermos com a sua morte.
O enterro aconteceu no dia seguinte. No discurso, dessa vez, Cristal não ficou bêbada e não vomitou. A policia abriu uma investigação para Adelaide e eu realmente não sabia mais o que fazer sobre acobertar ou não a existência de SS, mas esses são detalhes mais específicos. Tass foi o assunto de Oakland por meses e a sua imagem de jovem grávida que teve o namorado assassinado foi substituída por algo muito mais cruel e odiado por toda a população.
Tudo estava de cabeça para baixo em minha vida e tudo isso por causa de uma maldita pessoa. Talvez SS não saiba, mas eu ainda não desisti de encontrá-la. A tristeza que me consumira nos dias que se seguiram tornou-se vazia e passei a ter vergonha dela e de todos os outros momentos que deixei o meu corpo ficar daquela forma.
Adelaide não acreditava em mudanças, por isso trouxe o meu passado como forma justificável para me torturar, mas diferente dela, eu acreditava sim que isso era possível. Eu nunca mais serei a mesma, nem Tass, nem Cristal. SS estava mudando as nossas vidas, controlando-nos como peças de um jogo de tabuleiro.
Depois de todos esses acontecimentos eu tinha certeza de uma coisa: com toda essa polícia, SS ficará escondida por um tempo considerável e só voltará a atacar quando as coisas se acalmarem. Até lá, eu estarei pronta para desmascará-la.
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