Brincando com Segredos
11 Do vinho para o veneno.
Notas iniciais
Eu estava prestes a ter um ataque cardíaco.
E é como se aquele inferno de vestido dourado estivesse me sufocando lentamente. O banheiro começou a girar ao meu redor enquanto via-me diante daquele espelho enorme. Tentei pedir ajuda, mas eu estava tão tonta. Senti o meu corpo despencar do salto rapidamente. O lustre prata foi a última coisa que eu vi antes dos meus olhos se fecharem.
***
Dois meses antes.
Ainda é cedo quando retorno para casa após um percurso longo de corrida matinal. Tomo um banho rápido para tirar o suor e coloco a roupa mais simples que encontro no meu guarda-roupa. Desço para a sala e encontro minha mãe conversando no celular seriamente com alguém. Do seu lado, três policiais me encaram. A presença deles não me incomoda mais, com uma exceção.
Três dias se passaram desde a morte de Adelaide. A casa estava virada ao avesso e repleta de detetives que estavam trabalhando no caso de minha irmã. O quarto dela fora isolado, assim como o buraco no quintal, o local do atropelo e a cozinha. Quando escuto os passos atrás de mim, as entranhas em minha barriga se comprimem.
— Bom dia, senhorita Thompson. — A voz grossa da mulher serpenteia até os meus ouvidos de forma agressiva, porém repleta de uma classe incrível. — Espero que esteja pronta.
Meus olhos se encontram com os da mulher. Samantha era uma das melhores investigadoras do departamento policial de Oakland. Seus olhos castanhos eram desafiadores, assim como o seu cabelo curtíssimo. O corpo dela se acentuava ainda mais em suas roupas, que sempre vinham acompanhadas por um cinto onde ela colocava seu revólver. Sua pele negra brilhava lindamente e ela me encarou com frieza, pedindo, logo em seguida, que eu a acompanhasse.
Nós duas caminhamos entre as evidências sinalizadas no chão da cozinha e partimos até o quintal. Ela apontou para uma mesa com duas cadeiras. Sentamos depressa.
— Não temos muito tempo e sei que você deve estar cansada, mas preciso te fazer uma pergunta. — Ela cruzou as pernas, puxou um bloco de notas e voltou a me fitar.
— Tudo bem. — Respondi.
Samantha tem conversado comigo desde o dia que deixei o hospital. Resolvi não contar nada muito significativo pra ela, apesar de não ter recebido nenhuma ameaça de SS que me impedisse de fazê-lo.
— Você sabia que sua irmã era dona do Serpentes Sanguinárias?
Mordo minha língua quando tento processar sua pergunta. Meus olhos se arregalam e eu me passo por espantada, apesar de já saber isso há um tempo.
— Você tem certeza disso? — Coloco as mãos sobre o meu peito, fazendo expressões de choque. — Eu, eu, eu estou em choque! Nunca passou pela minha cabeça que a Adelaide pudesse fazer esse tipo de coisa.
Rezo mentalmente para que minha atuação impecável possa convencer Samantha, mas ela apenas dá um risinho e volta a falar:
— A minha equipe conseguiu acesso ao computador de sua irmã, Emma. Eu estava me perguntando o motivo dela ter um programa de defesa tão avançado como aquele. Ficamos horas tentando descodificar as barreiras de segurança do aparelho.
Lembro-me de estar no quarto de Adelaide, o seu laptop no chão, enquanto eu tentava descobrir a sua senha.
— Essa foi inesperada. — Olho para minhas mãos alguns instantes. Talvez o fato dela saber sobre o blog fosse bom, assim a segunda SS poderia ser facilmente identificada pela polícia, e não por mim.
— Vamos revisar tudo o que você me contou. — Ela levantou o caderninho e continuou a falar. — Sua mãe sai de casa. Você, Adelaide e Tass são atacadas por um mascarado que te engana com um truque de buraco no quintal e atira em pratos na cozinha. Você pega a arma e tenta defender as outras garotas. No fim, sua irmã é atropelada. Sem contar a inteligência do mascarado em entrar na casa sem ser notado e conseguir acesso à sala de câmeras para poder desligá-las... Bom, isso foi um breve resumo dos fatos.
Sinto um ar estranho em sua voz, como se a minha história não tivesse lhe descendo o pescoço. Aquela não era a história real do que tinha acontecido naquela noite, mas eu achava que os meus dotes teatrais pudessem persuadi-la de alguma forma.
Quando ela termina de falar, faço que sim com a cabeça pela vigésima vez.
— Foi horrível, Samantha. Eu realmente não sabia o que fazer...
Ela tossiu com ignorância, cortando o meu momento.
— Caso essa sequência de acontecimentos seja verídica, a nossa recente descoberta sobre Adelaide e o seu blog pode afetar diretamente nas investigações do crime. — Ela faz uma pequena pausa. — Ela criticava muita gente naquele blog, poderia ter algum inimigo...
Dessa vez sou eu quem a corto:
— Está me dizendo que a pessoa que nos atacou estava castigando a Adelaide por ser dona do Serpentes Sanguinárias? — Meu corpo se estica pra frente.
Fingir ajudava e muito com a criação de uma linha de investigação para a polícia. No meu peito, uma sensação de conclusão começava a surgir. Sabia que Adelaide fazia dupla com SS e que tinha sido punida por ter se mostrado fraca, assim como Mia. O que Samantha achava era que Adelaide tinha sido atropelada como uma espécie de vingança. Senti a formação de um final alternativo diante dos meus olhos.
— Naturalmente, essa é a única resposta que eu consigo encontrar para justificar a crueldade. — Ela levantou o braço para um rapaz de cabelo grisalho que estava passando. Ele se aproximou e Sam disse para que eu também pudesse ouvir. — Matias, não acredito que estou dizendo isso, mas quero que a mídia continue no nosso pé. Você está responsável por mantê-la informada, começando pela descoberta a respeito do blog.
Meu coração acelerou subitamente. Aquilo significava muitas coisas, inclusive que eu estava livre do fardo da acusação de ser dona do SS. Finalmente Adelaide seria incriminada, mesmo que morta, por todas as coisas que eu ou ela fizemos através daquele site. Todos achariam que Adelaide foi quem gravou o vídeo de Michael sendo morto por Mia, ou quem desmascarou a sexualidade do próprio irmão. Eu não ia mentir, estava feliz por isso.
Matias concordou e chamou mais um policial, com quem deixou a varanda e seguiu para a parte frontal da casa. Eu e Samantha ficamos sozinhas.
— O advogado da Tass está dificultando a conversa que eu e ela precisamos ter. Afinal, você não foi a única que estava naquela noite, não é? — Sempre que alguém falava da Tass, um calafrio tremendo subia pelo meu pescoço. SS conseguira eliminar a minha melhor amiga do jogo e eu não sabia como ajudá-la. A arma e o celular da vítima estavam no quarto de Tass; isso já era o suficiente para poderem prendê-la. — Enfim, acontece que encontramos vários furos no sistema do computador de sua irmã...
— Seja mais direta. — Respondo com um pouco de frieza, sentindo-me instigada por finalmente termos chegado a um ponto que eu não tinha conhecimento.
Ela se endireitou na cadeira e ergueu uma sobrancelha pra mim.
— Adelaide apagou vários arquivos na noite do ataque, como se soubesse que alguém a atacaria... E quando eu digo arquivos, quero dizer conversas...
Não, Samantha. Penso. A segunda SS tinha usado o computador de Adelaide para excluir os arquivos que tivessem ligação com ela/ele, assim a polícia não chegaria até sua origem e nunca saberia que haviam duas pessoas com o domínio do site, a não ser que eu contasse. Vadio!
Por um instante, meus lábios tremem e sinto que estou prestes a falar algo para ela. No momento decisivo, nada sai de minha garganta.
— Vou ser sincera, Emma. Isso tudo está fedendo a merda, e eu sei que vem de seu lado. Sua melhor amiga foi presa por assassinato e sua irmã era a garota mais odiada e, ao mesmo tempo, adorada pela elite jovem de Oakland. Você? Você tá no meio disso e sei que está mentindo sobre muitas coisas para mim. — Ela se levantou e encarou-me furiosamente. — Vou continuar com as investigações e vou descobrir o que está acontecendo de verdade, você me ajudando ou não.
***
As semanas que se seguiram foram tortuosas. Meus pensamentos estavam completamente divididos em contar ou não a verdade para a Samantha. Talvez eu pudesse confiar nela. Não, reprimo a indecisão em minha cabeça. “Você não pode confiar em ninguém”, repito para a minha imagem refletida no espelho todas as manhãs. Meus cabelos negros estão grandes e o meu rosto sem maquiagem parece muito melhor do que os últimos dias, agora que as olheiras começaram a desaparecer.
Mudanças drásticas alteraram a minha rotina no final do ano: A diretoria do Winston me deu um tempo de férias como auxiliar de professora de natação. Afinal, meu cargo não era nada importante, então eu passava boa parte do tempo em meu quarto, lendo e ignorando mensagens de jovens desesperados pela minha presença em suas festas.
A notícia de que Adelaide era dona do SS chocou a todos. As redes sociais fulminavam com o frescor desse babado e o twitter se banqueteou com milhões de hashtags que envolviam o caso. No começo, foi bastante difícil sair de casa. Quando não falavam sobre a minha irmã, comentavam sobre a Tass. Era tudo muito insuportável.
Nos jornais, o assassinato de Adelaide deixou de ser o centro das atenções aos poucos e a investigação começou a perder forças. Em uma tarde chuvosa, Samantha retornou até a mansão, dessa vez sem a sua roupa de trabalho. Estava tão diferente e simples sem o revólver que me assustou.
— Eles estão arquivando o caso aos poucos, falaram que vão continuar investigando, mas é pura lorota para a mídia acreditar no papo furado deles. Estou te contando, pois quero que saiba a verdade. — Ela levantou a taça de vinho e caminhou pelo carpete branco do saguão.
— Você não vai tentar fazer mais nada? — Perguntei para a figura entristecida da mulher.
Ela apertou os punhos e se aproximou de mim.
— A diretoria me afastou desse departamento, Emma.
Eu não sabia como aquela praga tinha feito isso, mas tinha certeza que havia dedo da SS nessa história. Tirar a Samantha do jogo para poder se safar... Ela poderia estar entocada, mas ainda estava agindo.
Com a saída de Samantha, o departamento realmente fez com que o caso fosse esquecido pela mídia. Diariamente eu ainda via um ou outro comentário perverso na internet sobre a morte de minha irmã, mas fora isso, nada mais foi feito.
Meu pai, meu irmão e minha irmã. Os Thompsons tinham diminuído consideravelmente, e como já esperava, o restante da família veio consolar eu e minha mãe. Era algo bastante forçado, com dois ou três tios meus perambulando pela mansão, pedindo que os empregados fizessem algum tipo de comida sofisticada.
A verdade era que eu não tinha muito contato com eles, por morarem longe e por serem um pé no saco. Com Cristal também não era muito diferente. Ela os tolerou pelas duas primeiras semanas, mas depois arranjava briga com um dos seus irmãos em um período curto de tempo bastante surpreendente.
No final de outubro, uma matéria jornalística foi feita especialmente para o caso de Mia. Teve direito aos pais da garota levantando cartazes em um manifesto contra Tass, explicação a respeito do julgamento da garota e um pronunciamento da sua mãe, que acabou me fazendo chorar. No fim, a reportagem conseguiu filmagens do rosto desolado e pálido da minha amiga sendo levada para a prisão. O tempo que ela passaria lá ainda estava sendo discutido. Aquilo era terrível.
Quando um mês se completou desde o atropelo, recebemos a visita inusitada da irmã de meu pai. Melanie, era como se chamava. A questão é que a vadia era completamente diferente dos meus outros tios. Ela era uma versão antiga de minha mãe, com aqueles vestidos colados e a maquiagem pesada.
Eu estava no meu quarto fazendo uma maratona no Netflix quando os primeiros gritos de barraco estrondaram. Corri imediatamente pra sala com aquele ar de medo e desespero, a sensação de estar diante de mais uma situação com SS me perseguindo. Felizmente foi totalmente o contrário disso.
Minha mãe e Melanie discutiam com violência. Alguns empregados assistiam a algazarra de longe, enquanto o aspirador rodava sozinho e uma panela guinchava fervorosamente na cozinha. Quando cheguei mais perto, Melanie me fitou e cessou os gritos imediatamente.
— Emma! — Ela parecia surpresa. Seu rosto magro como o de uma caveira deixou seu tom avermelhado de lado e voltou para o pálido habitual. Ela caminhou até o meu lado com o seu salto extremamente alto. — Quanto tempo, minha querida.
A mulher me abraçou e os seus cabelos loiros roçaram no meu nariz. Seu perfume enjoado me fez querer vomitar, mas eu apenas continuei imóvel enquanto os seus braços esqueléticos me envolviam.
— Se afaste de minha filha, sua vadia! — O corpo da mulher foi puxado pelo braço de minha mãe rapidamente. — O que você pensa que está fazendo? Vem em minha casa, fala sobre a minha empresa e ainda abraça a minha filha!
Melanie cambaleou com os olhos arregalados. Depois de um tempo, endireitou o vestido e olhou para minha mãe.
— Eu não vou deixar o meu nível no chão com o seu! Eu sou uma mulher organizada e vim aqui com o preceito de discutir a respeito da sua ineficiência com a empresa do meu irmão!
Minha mãe cerrou os punhos e eu segurei o seu braço por um tempo, tentando impedi-la de acertar a mão no rosto da cunhada.
— Que ineficiência? Eu estou dando toda a atenção para a empresa! — Ela hesitou por um tempo, como se não estivesse acreditando em suas próprias palavras.
Melanie estava certíssima. Eu tinha esquecido completamente da empresa do papai e raramente via mamãe administrando alguma coisa ou se importando com algo que dissesse respeito à companhia.
O final daquele barraco terminou no tribunal. Gabriel, que estivera se relacionando com a minha mãe, prestou-se como o seu advogado. Minha tia apresentou um documento provando que ela tinha metade das ações da empresa e exigiu que um acordo fosse feito para que Cristal pudesse ser punida pela sua ineficiência para com os serviços que ela deveria prestar. A vagabunda conseguiu o que queria, mas o vestido bege que ela estava usando não lhe permitiu passar o ar de vitoriosa. Estava tão feia, bleh!
Na saída do tribunal, uma Ferrari parou exatamente na calçada diante de mim e mamãe. Ela me encarou com o olhar de incerteza, e eu o retribui. Quando a porta do veículo se abriu, um jovem de estatura mediana pulou para fora dele com uma ansiedade notória. Ele veio correndo até mim com os olhos arregalados.
Primeiro eu dei atenção para os seus magníficos cabelos azuis, depois para os seus olhos cor de mel e a pele bronzeada. Demorei um pouco para recordar quem era, mas só foi preciso um sorriso rápido e todas as memórias voltaram para a minha cabeça. Era Edward, o ex-namorado do Ben, e ele trazia algo dourado em suas mãos.
***
Mensagem para: Edward Smith.
De: Serpente Sanguinária.
Você não sabe quem eu sou, mas por causa do vídeo que tem, entrará na brincadeira. Se mostrar essa porra para a polícia e livrar a vagabunda da Tass, eu juro que mato toda a sua família. Emma Thompson também não pode saber disso, então não tente nada com ela ou será punido. O meu sono já passou e agora o jogo vai começar novamente.
Doce veneno, SS te ama.
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