Brincando com Segredos

6 A noite é uma criança - Parte dois.


Notas iniciais
Oieeee! Como vocês estão? Galera, eu estou muito feliz com as duas recomendações que a história ganhou e gostaria de dedicar esse capítulo enorme para a Lola e a Bird! Vocês são ótimas! Ah, também preciso me desculpar por não ter postado o último capítulo no fim de semana anterior. Sério, me perdoem, a minha net não estava colaborando. Essa parte da história é bastante importante e representa o fim de um arco. Não se assustem ou deixem de ler por causa do tamanho, por favorrr. Será que estamos prestes a descobrir quem é SS? Ainda esperando pelo palpite de vocês. Espero que gostem e boa leitura! "O lugar da mulher é onde ela quiser!" O dia da mulher são todos os dias. Em uma fic onde elas dominam, como não perceber o amor que sinto por todas essas batalhadoras? Não sou mulher, mas... We can do it!

Uma e dezoito, madrugada.

Apesar de não ter bebido muito, eu estava me sentindo a Love To em Habits (Stay High). Minha garganta arranhava frequentemente e involuntariamente. Enquanto procurava Tass, os meus medos me entorpeciam delicadamente, esfaqueando meu estomago, dilacerando o meu emocional. Eu estava destruída.

O som latejante da mesa do DJ parecia aumentar cada vez mais, assim como as drogas e a quantidade de pessoas, que triplicava a cada segundo. Na boa, isso já estava ficando insuportável. E é então que o meu celular notifica mais uma mensagem. Tratava-se de SS, como sempre.

Primeiramente, ele ou ela vinha explicando o conceito da caça ao tesouro que falara anteriormente (como se eu não soubesse como funcionava o jogo) e disse que, a cada pista resolvida, uma nova seria desbloqueada. A primeira era:

“Anônimo: Michael não tem um bom relacionamento com ela, mas é a primeira coisa que eu uso em um dia quente de verão.”

Eu realmente achava que seria algo mais fácil de decifrar, levando em conta os minutos que eu demorei em perceber do que se tratava. Mas eu não era burra o suficiente para não saber que a resposta era PISCINA. Bom, dentro de minha cabeça, a resposta fazia sentido. Michael morreu em uma, então era óbvio que não teria um bom relacionamento com ela, e sim, é o lugar perfeito para se refrescar em um dia de verão.

Que tipo de ligação existia entre a piscina e o evento que eu conseguiria impedir? Bem, se a pista realmente estivesse lá, a única coisa que eu tinha que fazer é seguir a trilha de doces deixada por SS, como mais uma ovelha do rebanho.

Fui correndo para a piscina enorme da casa de Jenna. Ali, a água azul parecia iluminar toda a região ao seu redor. Dezenas de pessoas nuas se banhavam, arremessando balões para o alto, cantando versos embolados de músicas esquisitas. E entre uns e outros, pensando em entrar ou não, estava Tass.

A garota se equilibrou na beirada do corrimão de descida e foi abordada por alguns garotos. Quando me aproximei, ela me encarou seriamente, depois apontou para o seu celular, que estava embolado junto com as suas roupas, não muito longe de onde estávamos. Ela também havia recebido a mensagem e, assim como eu, deduzira a resposta.

— Só entra se ficar peladinha. — O garoto na água nos olhou maliciosamente, rindo.

— Não tem problema. — A resposta da Tass me fez recuar de tão assustada. Ela puxou a sua camisa pra cima sem hesitar, abrindo o sutiã logo em seguida. Senti que o meu rosto estava corando, mas mesmo assim não deixei de olhar. Sua pele esbranquiçada tornou-se avermelhada como uma maçã, seus seios desnudos foram rapidamente cobertos pela suas mãos trêmulas. Não chegou a tirar o short, mas já era bonito o suficiente para passar horas admirando, e assim jogou-se.

Todos voltaram os olhares para Tass dentro da piscina. Ela estava tão submersa na água que quase não conseguia vê-la, nadando de um lado ao outro, buscando algo que poderia nos levar para a próxima pista. Com sucesso, ela retornou para a beirada, erguendo a mão para mim. Toquei-a envergonhadamente, passando a camisa para que ela pudesse se cobrir logo.

Já vestida, entregou-me um pedaço solto do azulejo que ela encontrara. Pintado de vermelho, lia-se um “F” um tanto manchado. Não sabia como aquilo poderia nos ajudar, mas já era um bom passo. Como sempre, Tass chegou a uma conclusão mais rápido do que eu.

— Não é a piscina, é o que tem nela. — Sussurrou.

— Agora você tá toda molhada.

— Não tem problema. — Ela sorriu pra mim e se virou para os que ainda a olhavam. — Vocês são uns lixos! — Concluiu, exibindo o dedo do meio. — Parece que chegou mais uma mensagem.

Agarrei meu celular com pressa, verificando a nova pista.

“Anônimo: Aposto que sua mãe não sabe, mas eu sei que você se acaba nessas bebidas. Vai uma balinha de maçã verde para disfarçar o bafo?

— Maçã verde não é um tipo de uísque, ou vodca, ou sei lá? — Perguntei.

— A mesa de bebidas! Vem. — Ela puxou a minha mão e arrastou-me pelo campo onde a festa estava rolando. Dentro da casa, passamos por alguns corredores até chegarmos a uma sala menor que a de estar. Não tinha muita coisa ali, mas o que mais chamava a atenção era uma mesa enorme com caixas térmicas lotadas de bebidas.

Uma e trinta, madrugada.

Algumas garotas conversavam baixinho enquanto bebiam socialmente. Na nossa frente, um casal se atracava, como se estivessem lutando. Tass cruza os braços, verificando algumas garrafas, procurando se a segunda pista realmente estaria ali.

— Não sabia que você comparecia a esses tipos de eventos. — Senti uma mão quente encostar em meu braço. Meu coração disparou, mas relaxou depois de alguns segundos, quando percebo que se trata de Thomas.

— Achou que eu só participava de festas da virada?

— Ah, não foi o que eu quis dizer. — Ele se afastou, deixando as sobrancelhas caídas no rosto. Encostou-se na parede e olhou desajeitado pra mim. — Eu não a encontrei depois...

— Da chuva de vômito de minha mãe? — Interrompi o garoto, completando sua frase. — Aposto que você ainda lembra. Relaxa, eu não me importo com isso.

Tass deixou uma das garrafas escorregar de sua mão, causando uma barulheira no cômodo um tanto apertado. Ela me encarou enraivada, abaixando-se para pegar um único caco partido da garrafa que se estilhaçou. Ela ignorou os outros e veio serpenteando até o meu lado, entregando-me o pedaço que pegou.

— Tem como parar de flertar e me ajudar aqui? — Ela sussurrou no pé do meu ouvido. — Foi você que disse que ele estava louco para achar a antiga SS. — Sussurrou, esbravejante.

— Qual o problema? — Bati o pé no chão.

Nesse instante, Thomas desviou o rosto para o lado, se fazendo de despercebido. Ele tossiu cinicamente e mudou a posição dos pés, notavelmente desconfortável com aquela situação. Como se estivesse tentando nos dizer: “Ei, eu ainda estou aqui!”.

— Thomas, espero que você não fique chateado, mas eu e a Emma temos que resolver algumas coisas. — A garota puxou-me pelo braço novamente e me arrastou até outro cômodo do casarão. Dessa vez, estávamos em um quarto vazio, com algumas estantes lotadas de livros. Abri o palmo da minha mão e vi um “O” pintado de vermelho em um dos lados do caco de vidro da garrafa.

A minha paciência já tinha esgotado. Não estava com vontade nenhuma de participar desse jogo proposto pela SS. Para ser sincera, eu não aguentava mais a porcaria das coisas que estavam acontecendo. Encarei Tass, sentindo que uma fúria enorme estava surgindo em meu peito. A garota revirou os olhos, finalmente perdendo o controle das coisas também.

— O que é agora? — Ela gritou, cerrando os punhos. — Não fica com essa cara pra mim não! O que eu fiz pra você ficar com essa cara de animal com fome?

Taquei o caco de vidro no chão, reduzindo-o a partes menores.

— Eu só não aguento mais essa porcaria! Não aguento mais ter que ficar seguindo pistas, tentar desvendar mistérios de mensagens de celular! Eu não aguento mais você achando que pode me controlar, me arrastando de um lugar pra o outro. — Gritei, jorrando verdades no rosto de Tass.

— Se não fosse por mim, você ainda estaria sendo espancada em um quarto! — Ela apontou o dedo ameaçadoramente pra mim. — Você que pediu a minha ajuda!

Sabe quando você percebe que está prestes a falar algo que não deve, mas é tarde para tentar conter as palavras? Então, mesmo não querendo falar aquilo, saiu facilmente pela minha boca.

— E eu me arrependi de fazer isso! — Inclinei o meu corpo para frente, esbravejando.

Tass poderia ter feito qualquer coisa: Um soco, ou um chute, ou um tapa bem forte na cara. Era algum desses que eu esperava. No lugar disso, a garota se aproximou e simplesmente me beijou. Então, como uma criança tristonha, ela se afastou depressa e passou fungando pela porta e bateu-a na minha cara.

Quando dedilhei os meus lábios, ainda sentia o arder e o sabor de framboesa do seu batom. Meus olhos se fecharam e eu fiquei calada por um bom tempo, até que o meu celular vibrou. Senti uma enorme vontade de arremessa-lo contra a parede, mas eu realmente precisava impedir que algo acontecesse às duas horas da madrugada.

“Anônimo: Aqui você vai encontrar, duas pistas para a investigação não atrasar. Ande logo, o tempo está passando mais rápido do que você imagina. Deixe os beijos para depois e descubra qual o segredo que Jenna esconde embaixo de sua cama.”

A minha primeira reação depois de ler a nova pista é virar vorazmente para o lado. Observo todos os detalhes do quarto, tentando encontrar alguma câmera ou a presença de alguém me analisando. Como SS sabia a respeito do beijo? Ou Tass é a própria SS, o que não faz o menor sentido pra mim, ou alguém tem me espionado de alguma forma.

A segunda opção é, de longe, a mais aceitável, ainda mais depois que encontro uma janelinha que me permite uma visão do campo dos jardins da mansão. Enfim, o novo sms não me pareceu uma pista, mas sim um comando. A única coisa que eu preciso fazer é chegar até o quarto da Jenna e suspender a sua cama, simples. Procurar pela Tass ou pela Mia não estava em meus planos, definitivamente não.

Procurar pelo quarto da dona da festa não é muito difícil. Ouvi alguém falar que ficava em um dos últimos andares, então fui subindo as escadas de madeira correndo, entrando em corredores que pareciam intermináveis, até finalmente encontrar o cômodo. A porta era rosa e tinha um J desenhando em um molde dourado. Girei a maçaneta e empurrei a porta, tendo acesso total ao local.

Não era muito diferente dos quartos que eu havia entrado. Patricinhas geralmente tinham gostos semelhantes, então era tudo muito parecido. Um lustre prata iluminava o grande cômodo, enquanto um casal dormia no chão, coberto por trapos. Não eram jovens, aparentavam ter uns quarenta anos. Soube de imediato que eram os pais dela.

O som parecia não incomodá-los, e foi justamente por isso que não tive medo de causar muito barulho ao atravessar o lugar até chegar a cama de casal da garota. Jenna era ditadora o suficiente para não permitir que os seus próprios pais dormissem em sua cama.

Levantei o colchão na maior pressa e vi, estirados na base de madeira, dois papéis lado a lado, um com a letra “R” e o outro com a letra “C”, pintados de vermelho. Mais distante, havia algo enrolado em um pano branco. Toquei com cautela, sentindo algo rígido e pesado. Pelo formato, era uma arma.

Descubra qual o segredo que Jenna esconde” Recordo de uma das partes do sms.

Depois de pegar os papéis com as letras, junto-os com as outras duas pistas e saio de fininho do quarto. Desço as escadas e vou para o centro da mansão mais uma vez, onde a festa está no seu auge.

Uma e cinquenta, madrugada.

Meu coração está mais acelerado do que nunca. Tenho apenas dez minutos para juntar as pistas e impedir a eminente surpresa de SS. Agarro o celular nervosamente, verificando a mais recente mensagem. A última pista me deixa confusa.

“Anônimo: E quando você termina com o seu trabalho sujo, vai até a pia e limpa as suas mãos. Tome o máximo de cuidado possível, embaixo do seu nariz, as badaladas finais sinalizam a derrota ou a vitória.”

Novamente, sou imersa em uma situação de nervosismo. Quando estou assustada, não consigo pensar direito, e isso é péssimo.

Trata-se de um comando, não uma dica. Deduzo e, sem hesitar, vou direto a pia da cozinha (a mais próxima). O lugar está vazio, mas tenho a impressão de que estou sendo observada. Vou até a grande bacia de metal e ligo a torneira, sentindo a água gelada molhar as minhas mãos trêmulas. Acima da pia, uma janela nos permite uma vista para uma parte vazia da mansão, o jardim lateral, silencioso e sonolento, distante de todo o restante da festa. Ali crescia uma árvore gigantesca.

Depois de alguns segundos, percebo que a água não está descendo. O ralo está entupido.

Embaixo do seu nariz, as badaladas finais sinalizam a derrota ou a vitória.”

Olho para baixo com cautela, como se algum animal estivesse em meus pés, pronto para me dar o bote. Embaixo da pia, noto um armário de duas portas. Abaixo-me e puxo a portinhola para frente. Meus olhos se hipnotizam pelo relógio redondo de bolso que vai de um lado para o outro em minha frente. Ele tem suas correntes amarradas ao cano da pia. Desamarro-o e o seguro com minhas mãos.

Ele aparenta ser banhado por ouro, pesado e cheio de detalhes. O ponteiro vai deslizando suavemente pelo plano com os horários. Tick, tock. No seu fundo, em miniatura, encontra-se uma pintura tremida da letra “A”.

Tick, tock. Meu coração está ritmado com o ponteiro do objeto. As pontas se ligam em minha cabeça sem demora, e é como se eu estivesse formando uma palavra em uma sopa de letrinhas. F na piscina, O na bebida, R e C nos papéis, A no relógio. FORCA.

O relógio estala em minha mão, apitando furiosamente como uma sirene. Largo-o no chão e recuo para o lado, levantando-me. O meu celular vibra em meu short, agarro-o na maior pressa, vendo a noite se desmoronar sobre a minha cabeça.

Duas horas, madrugada.

Os meus dedos elétricos percorrem o aparelho e abrem a mensagem.

“Anônimo: Contemple a paisagem. Você fracassou.”

É então que tudo acontece. A sincronia da situação parece surreal, mas quando ergo a cabeça para a paisagem através da janela da cozinha, percebo algo se movimentando no tronco da árvore gigantesca da propriedade. Viro-me para uma outra janela do meu lado, que me permite ver o lado da mansão que está sendo usado para a festa.

Corro até esse lado, escancaro-a e inicio um berreiro para pedir ajuda. Alguém será enforcado na árvore e eu sou a única que poderia impedir isso. As pessoas continuaram dançando, ignorando-me. O volume da música está muito mais alto que os meus berros, ninguém iria me notar.

Sinto o meu peito subir e descer em uma velocidade fatal, o ar vai fugindo do meu corpo e percebo que estou em um beco sem saída. Realmente não tem mais nada que eu possa fazer. Volto para a janela acima da pia e vejo o evento de SS se realizar com êxito. Tento filmar com o meu celular, mas a bateria simplesmente acaba.

No meio da escuridão, consigo identificar dois formatos humanoides sobre o tronco da árvore. Um deles está em pé, usando uma máscara de palhaço, enquanto o outro permanecia deitado, imóvel. O em pé empurra o imóvel para baixo e eu vejo o exato momento em que o corpo despenca e retrai antes de se chocar contra o chão, preso por uma corda na garganta. O choque da queda violenta me fez despertar em um choro de medo.

Corro até o lado de fora e grito como nunca gritei. Sinto as minhas veias se alterando na minha garganta e o sangue correr mais rápido em minhas veias. Berrei, urrei como nunca fiz anteriormente em toda a minha vida. Achei que sangraria pela boca. Era isso que acontecia quando você vomitava o próprio medo.

Todas as luzes se apagaram subitamente, afogando-nos em um mar de horrores. Quando a mesa do DJ também desliga, a única coisa que todos escutam são os meus gritos.

— Forca! Forca! — É a única coisa que sai da minha boca. Alguns dão risada pela minha aparente figura psicótica, outros começam um burburinho. Luzes de celulares passam a brilhar por todo o campo, trilhando um caminho até mim.

Continuo parada no degrau do jardim e só cesso os gritos quando Jenna me acolhe e pergunta o que está acontecendo. Sinto-me péssima por ser aquela que vai levá-los até o lugar, mas é o que eu tenho que fazer. Guio a multidão por um roseiral úmido, enquanto vou sendo auxiliada pelas lanternas atrás de mim.

Quando chegamos ao jardim vazio, os ruídos se tornam mais frequentes, mesclados a gemidos e pequenos gritos de espanto. As luzes vão escalando a árvore gigantesca e param em um único ponto: o corpo totalmente suspenso pela corda.

Os tererês da garota ainda se moviam por conta do baque. Seus olhos estão fechados e o rosto dela esbanja uma tristeza mórbida. Os pés estirados não chegam a contorcer, assim como os braços. Ela está morta. A pele bronzeada agora estava completamente pálida. Ela está morta. Mia está morta.

— Ela se matou! — Alguém gritou.

— Puta que pariu!

Jenna me perguntou algo, mas não respondi e nem cheguei a entender. Afastei-me dela e de toda a multidão, caminhando para fora daquele lugar carregado de medo. Não, não adiantou. Para onde quer que eu fosse, o sentimento enterrado no meu peito ia comigo. Mia teve uma conversa suspeita no celular antes de ser morta. Ela não conseguiu me capturar e estava pagando por não ser forte o suficiente para fazer isso.

SS planejou uma fuga alternativa, imaginando que Mia não conseguisse, desenvolveu essa caça ao tesouro, colocando-me como a peça mais importante do jogo, capaz de salvar a vida de alguém. Foi tudo muito bem arquitetado e, apesar de estar quase destruída, uma parte de mim ainda se mantinha em pé, determinada a sair vitoriosa. E é então que eu vejo uma sombra correndo pela orla atrás da árvore. A máscara avermelhada de um palhaço tristonho de um lado e alegre do outro cintilou pela escuridão e desapareceu na mata.

A pessoa que empurrou Mia. SS? Talvez. Era uma oportunidade que eu não podia perder. Desci do salto e coloquei o pé na lama, iniciando uma corrida para dentro da floreta. Quando peguei uma velocidade maior, senti os galhos finos das árvores acertando o meu rosto, cortando-o em pequenos filetes.

Bati o meu dedão em uma raiz exposta, mas continuei a correr, seguindo o palhaço. A penumbra da madrugada me deixava atordoada, fazendo-me ficar perdida por alguns minutos, mas sempre que um ruído surgia, eu voltava ao alcance do corredor.

Sentia-me tão distante da festa, da realidade de minha vida. Vestido rasgado, suja de barro, aquela era a Emma mais determinada que eu já tinha conhecido.

Acabei seguindo o palhaço por bastante tempo. Ele não me viu, pois passei a ser mais silenciosa com os meus passos. Atravessamos matas que pareciam intermináveis, até finalmente chegarmos a um campo aberto, com um pequeno casebre entre duas grandes rochas. Quando ele passou pela portinha, arrastei-me até lá e colei o corpo na madeira do lugar, enfiando o olho em uma tira na estrutura que me permitia ver tudo lá dentro.

Luzes acesas. Nas paredes, fotos se espelhavam, tingidas de vermelho. O palhaço usava uma luva e o restante da roupa era toda preta. Ele caminhou até uma das fotos e, de um ângulo melhor, acabei percebendo que se tratava de mim em uma delas, com um “bitch” como legenda. Do lado da minha fotografia, havia uma da Tass e uma do Thomas. O que ele tinha com tudo isso? Bem, isso eu ainda não sei.

O palhaço se voltou para o lado em que eu estava. Eu pedia baixinho que ele tirasse a máscara, mas não o fez. Na verdade, tirou um celular do bolso e o arremessou no chão, quebrando-o, depois o colocou em um balde com o que parecia ser mais uns sete celulares quebrados.

Ele pegou um piloto, tirou as luvas e escreveu algo na própria mão. A primeira coisa que eu vi foram as unhas pintadas. Um vermelho vivo, muito parecido com sangue. Então era ela, não ele. Que filha da puta seria?

Winston, o próximo. — A voz veio abafada pela máscara. Eu diria que seria de um homem, mas pelas mãos, diria que era uma mulher. Winston, o próximo. Decorei.

O palhaço saiu do casebre com a máscara, segurando um garrafão. Começou a despejar o material dali de dentro. Nesse instante, comecei a recuar para dentro da floresta mais uma vez e, de uma distância favorável, a vi pondo fogo em tudo. Apagando os seus rastros.

***

21/02/2015- Serpentes Sanguinárias.

Página removida.