Brincando com Segredos

5 A noite é uma criança - Parte um.


Notas iniciais
E aí pessoal, como estão? Vamos lá, esse capítulo estava bem grande, então eu resolvi que seria melhor dividi-lo em duas partes. Estou muito feliz e gostaria de agradecer aos comentários e os novos acompanhamentos, vocês são ótimos! Escrever é realmente uma terapia, ainda mais quando você conhece pessoas novas, haha! E essa nova capa? Bird, você é destruidora mesmo viu! A SS já quer te contratar para fazer um layout bacana para o site dela, mas ela também quer um segredo, então toma cuidado. Enfim, espero muito que vocês gostem. Boa leitura! PS: Teorias e apostas de quem seria SS? As dicas vão ficar mais fortes agora...

Seis horas e trinta minutos, manhã.

Acordo bem cedo naquela manhã. O clima está tão quente que sinto uma tontura trememenda ao levantar. A primeira coisa que faço é ter uma reunião com a minha mãe em seu escritório. Logo depois de abrir o envelope, na noite anterior, SS mandou-me uma mensagem pelo celular, dizendo que eu deveria congelar a minha matrícula na faculdade.

— Você não percebe a porcaria que está fazendo? — Cristal gritou no meu ouvido, batendo a mão nervosamente na coxa. — Você estudou tanto para querer congelar o curso agora? O que deu em você?

— Eu já disse! O Winston abriu uma vaga para auxiliar de professora de natação. — Busquei motivação para continuar tagarelando. Voltar para a minha antiga escola fazia parte dos desejos de SS também. Esbravejei mais justificativas. — Fui campeã do time de natação nos últimos três anos. Ontem eu conversei com a diretora e ela concordou que eu seria ótima com a vaga!

— É claro que ela concordou, nosso filho namorou com o filho dela. — Ela apoiou o corpo em uma mesinha, puxou um cigarro e revirou os olhos. — Ela é uma bajuladora. Isso sim!

Nesse instante, meu celular vibrou dentro do meu short. Provavelmente era a Tass.

— Olha, eu sei muito bem o que estou fazendo. Eu quero muito essa vaga! — Não quero nem um pouco! — E vou fazer o que for preciso para consegui-la. Acredite, a faculdade de letras pode esperar.

E com isso, sem olhar para o rosto frio da minha mãe mais uma vez, deixo o lugar e vou até um parque no centro da cidade, onde Tass estaria me esperando.

Dez horas, manhã.

A garota estava recostada em um bebedouro cinza, espiando um grupo de rapazes bonitos do outro lado da rua. Coloquei os meus óculos escuros e desfilei até ela, jogando charme para os mesmos garotos. Estava com tanta saudades de fazer esse tipo de coisa.

— A festa de novatos ao qual SS se refere no envelope só pode ser a da Jenna Springs. — Falo para ela.

— Deve ser mesmo! É a mais famosa de todas essas. — Tass mordeu os lábios e me encarou por alguns segundos. — Então nós vamos, certo?

Balancei a cabeça, concordando. Havia algo de diferente em minha amiga, identifiquei isso de primeira.

— Fiquei sabendo que vai rolar amanhã. Você está pronta? — Dessa vez foi eu que a encarei. A tensão entre nós duas estava cada vez maior. Querendo ou não, eu fui a culpada por meter a Tass nessa história. Se eu não tivesse contado pra ela sobre SS, a notícia do seu aborto não seria divulgada.

— Não se preocupa, é claro que eu estou preparada. — Ela olhou para os arredores do parque. Percebi imediatamente um certo desconforto em sua expressão. Descobri o motivo logo em seguida, como uma bomba estourando em seu ouvido, as palavras de Tass obtiveram o mesmo efeito. — Mia estará lá, de acordo com a Serpentes Sanguinárias.

Aquele nome me deu um arrepio instantaneamente. Foi como se um código tivesse sido instalado em minha mente, desbloqueando fragmentos do passado que eu não queria lembrar. Eu sabia exatamente de quem ela estava falando. Mia Huldy, a minha ex-melhor amiga, a garota que deixou o Michael morrer na piscina da escola, a assassina que eu dedurei.

— E eu preciso te contar mais uma coisa. — Fui despertada pela voz de choro da Tass. Ela mantinha a cabeça cabisbaixa, fungando baixinho. Virou de costas para o grupo de garotos e ergueu o rosto avermelhado para mim. — Foi ela que me obrigou a fazer o aborto, Emma! Mia Huldy me ameaçou, assim como SS fez com você!

Quando ela terminou de falar, senti um grande vazio crescendo dentro da minha barriga. Agarrei os pulsos de Tass e a puxei para um canto mais vazio, onde nos sentamos na grama ao lado da Cassa de Horrores. Tentei falar algo, mas um enjoo nada costumeiro arranhou o meu estômago como uma fera. Felizmente, não fui eu a primeira a quebrar o silêncio.

— Quando ela terminou os serviços de punição por ter feito aquilo com o Michael, se mudou para algum lugar no Arizona. — A jovem apertava sua barriga com força, falando em meio a soluços. — Conversou comigo pelo modo anônimo, dizendo que se eu não fizesse algo para matar o bebê, ela mesmo faria. Ela é psicótica, Emma! Eu falei com a polícia, mas eles não deram importância para o caso. — Dessa vez houve uma pausa enorme. Tass estava chorando bastante, limpando as lágrimas lançadas e derramando novas. — Foi aí que ela apareceu em minha casa. Foi tudo muito semelhante ao que aconteceu com você. Ela invadiu o meu quarto, quebrou o espelho e usou um pedaço do vidro partido para cortar uma parte da minha barriga.

— Deus! — Apertei a mão dela. Um nó se formou em minha garganta, mas eu acabei prendendo o choro.

— O corte não foi tão profundo. — Ela levantou uma parte da roupa, exibindo uma cicatriz média e horizontal. — Mia disse que se eu não abortasse imediatamente, ela seria mais cruel da próxima vez. Talvez ela seja SS.

Uma garotinha parou para ver o que estava acontecendo. Em uma mão, ela segurava um balão azul, em outra, um sorvete derretendo.

— Eu sinto muito... Você não precisa ir. — Foi a única coisa que eu consegui falar. Na verdade, sou muito melhor com os atos. Um abraço apertado pode confortar a dor de uma mãe que perdeu o filho?

— Apenas me conte o que você acha sobre ela ser SS. — Devolveu o abraço, finalmente demonstrando paciência.

O que Tass me contara mudou o rumo de tudo em minha mente.

— Talvez ela tenha descoberto que eu a dedurei com o vídeo para a polícia. — Comentei com a voz trêmula. — Ficamos em silêncio por alguns minutos, até eu ter uma ideia brilhante. — Mia e eu ainda somos “amigas”, não é mesmo? Pelo menos em público... SS tem montado uma estratégia que, uma hora ou outra, vai me levar até ela. É como se ela quisesse que eu a encontrasse. E é isso que vai acontecer na festa! — Levanto-me da grama com disposição, limpando o meu short. Estendo a mão para Tass com firmeza.

Sinto muito Serpente Sanguinária, mas o seu fim está mais perto do que nunca.

***

Nove horas e trinte e sete minutos, noite.

Tass decidiu que iria para festa de última hora. Nós duas nos encontramos em minha casa e, juntas, partimos para a mansão de Jenna. Logo nos jardins, centenas de jovens se acumulavam ao redor dos portões, esperando a permissão para entrar naquele território mágico. Eram tantas pessoas que achar SS seria bastante difícil. Felizmente, nós tínhamos um alvo em especial.

Nós estávamos vestindo algo bastante excêntrico. Precisei buscar modelos mais ousados no fundo do meu guarda-roupa, sério. Vestido azul colado não mata ninguém, não é? Bem, se achei a minha roupa curta, não podia dizer mais nada se comparada com a da Tass. A garota decidiu fazer a prostituta e veio com um short mais curto que a minha paciência com a SS.

A atmosfera do lugar estava coberta por uma cortina enorme de fumaça. Aqui e ali, jovens se juntavam para fumar em grupo, carregando variados tipos de drogas. Cada centímetro da mansão estava ocupado por pessoas dançando freneticamente. O som era tão potente que pensei que aquele rap estranho iria estourar os meus ouvidos. Puta merda, aquele lugar não fazia mais o meu tipo. Pra onde eu olhava, algo absurdamente vulgar estava acontecendo.

Agarrei o meu celular correndo para ver a nova mensagem que tinha acabado de chegar. Não me surpreendo nem um pouco ao ler o anônimo de sempre.

“Anônimo: Está na festa certa, putinha.”

— Eu poderia estar em casa vendo o casamento de Klaine e Brittana em Glee. — Tass sussurrou.

Bloqueei o aparelho, joguei-o na minha bolsinha e falei do recado para Tass, que também não se surpreendeu. Enfim, ficamos meia-hora simplesmente curtindo a festa. Jenna apareceu lá pelas meia noite, dizendo que estava muito feliz por estarmos lá e que deveríamos ir para os fundos do terreno, onde a coisa estava supostamente melhor.

Sim, a minha antiga eu diria que aquele era o lado mais divertido da coisa. Uma orla enorme se estendia por um campo iluminado por luzes da mesa de um DJ. A piscina dos fundos era enorme, uma das maiores que eu já tinha visto, para ser sincera. A multidão estava muito mais agitada naquela região, virando litros de bebidas alcoólicas, tirando as roupas. Um delírio só.

— Emma? — Uma mão fria tocou o meu ombro. Virei-me instantaneamente, deparando-me com o ex do meu irmão.

— Edward! Como vai? — Nós dois nos abraçamos rapidamente e o apresentei a Tass.

— Ah, eu estou bem! E é um prazer conhecê-la. — Disse para a minha amiga. — Minha mãe me falou sobre você querer pegar a vaga de auxiliar de professora de natação. Pra ser sincero, eu achei meio estranho. — Ele estreitou os olhos, passando a mão nos cabelos negros logo em seguida. Meu irmão era um sortudo por ter ficado com ele. Edward era o tipo de garoto na boa, que não ligava para quase nada. Olhos cor de mel, lábios rosados, pele bronzeada. Nem forte, nem fraco.

— É que é algo que eu quero muito fazer. — Gritei para que ele pudesse ouvir. Do meu lado, Tass lançou-me um olhar de desentendida. Ainda não havia contado a ela sobre as novas exigências de SS.

Por fim, o garoto se despediu de nós duas e seguiu até o lado de dentro. Tive tempo o suficiente para explicar para Tass que voltaria para Winston antes de mais uma pessoa aparecer. Dessa vez era Mia. Quando nossos olhos se encontraram, senti as pernas balançarem, o coração acelerar e a voz falhar.

— Olha só quem está aqui. — A voz sonsa e arrastada da garota preencheu os meus ouvidos como se não houvesse som algum para ofuscá-la. Ela jogou seus cabelos de tererê para trás e me encarou desafiadoramente. Foi preciso levantar um pouco a minha cabeça, já que ela era muito maior que eu. E então, como velhas amigas, Mia me sufocou em um abraço apertado.

— Quanto tempo! — Gaguejei para falar. Afastei-me dela rapidamente, cambaleando para frente de Tass. Mia estava mais bronzeada do que o normal, provavelmente pelo sol que tomou durante o período no Arizona. — Eu senti muito a sua falta! — Menti.

— Não precisa mentir, prostituta! Todos me odeiam por eu ter matado o Michael, mas não aguentam ficar longe de mim. — Ela riu baixinho enquanto acendia um cigarro. — Enfim, aquele babaca tá em outra e eu estou aqui, vivinha.

Foi o ponto chave para fazer Tass se irritar. Quando vi a mão passando triscando na minha bochecha, já era tarde, não adiantava mais tentar impedir. O soco atingiu o queixo de Mia com tanta violência que a garota pareceu voar, terminando por se estatelar no chão como uma boneca de pano. Com a magnitude do golpe, Tass também fora pra frente, mas não caiu.

— Isso é para você aprender a respeita o Michael! — Ela gritou, sacudindo a mão, depois se virou pra mim, sorrindo. — Agora minha mão tá doendo. — Depois falou baixinho. — Isso também foi pelo meu filho.

Uma multidão se formou ao redor da garota caída. Ela se levantou depois de alguns minutos, ostentando um joelho visivelmente arranhado e um queixo partido. O restante da turma começou a colocar lenha na fogueira, mas eu me coloquei diante das duas com os braços abertos.

— De que lado você vai ficar, Emma? — Mia gritou, limpando o queixo.

A minha resposta seria Tass imediatamente, mas lembro-me de que Mia pode ser SS, e que eu deveria fingir ser sua amiga novamente, para tentar descobrir algo ou finalmente combatê-la. Dou meia volta com cautela, olho para Tass e pisco o olho, depois retorno para o meu ponto de origem e respondo cinicamente.

— Claro que é você, prostituta. — E então, no meio dos gritos de comemoração, deixo o círculo de briga ao lado de Mia, sem saber o rumo que estamos tomando.

***

Meia noite e quarenta, madrugada.

Eu e Mia estamos caladas desde o momento eufórico com Tass. Ela me chamou para dançar junto com uns garotos que ela acabara de conhecer, e eu o fiz. Embalada com a batida dançante, vou até o chão sem medo de cair do salto, acrescentando mais drama em minha representação artística de patricinha vadia. Subitamente, vejo a garota pegar o celular, afastando-se de mim com cautela, provavelmente para que eu não perceba. Estava lendo uma mensagem?

— Eu preciso ir ao banheiro. Se importa? — Ela suspendeu o rosto, possuída por uma expressão totalmente diferente da que tinha há alguns minutos atrás. Eu via medo em seus olhos.

— Claro que não. — Respondo enquanto a vejo partir para uma barraca com dezenas de banheiros químicos. Definitivamente, preciso segui-la, algo de muito suspeito está acontecendo. Afasto-me dos garotos logo em seguida, dando dedo para um deles depois de uma terrível tentativa de beijo forçado.

Perto dos banheiros, o cheiro de mijo é bastante forte. Na grama, pessoas bêbadas rolavam de um lado para o outro, olhando o céu estrelado. Vejo Mia entrando em um desses banheiros e percebo que a cabine ao lado dela está vazia. Corro até lá e me trancafio ali, colando o corpo na parede próxima ao da outra garota, que estava falando no celular, aparentemente.

Por causa da distância da mesa do DJ, o barulho ali era muito menor, o que me permitiu escutar toda a conversa. A partir disso, tudo mudou. O diálogo foi muito rápido, mas era o suficiente para me fazer chorar verdadeiramente de horror.

Desculpe, mas não posso fazer isso./ É algo que está além de qualquer coisa que eu posso fazer, talvez eu não esteja apta para essa maluquice que estão planejando!/ Porra, eu não vou conseguir pegá-la./ Emma é esperta, vai acabar descobrindo./Foda-se!”

A principio não fazia muito sentido, mas ela estava certa, eu acabei descobrindo algo que não devia. Quem estava na outra rede com a garota? Pelo que entendi, ela não conseguiu fazer algo que a pessoa do telefone pedira, provavelmente me pegar, o que podia significar capturar, eu acho. Que maluquices estavam planejando? E se SS fosse mais de uma pessoa? Mia e o/a desconhecido (a) do telefonema?

Precisei tampar os ouvidos, inibido qualquer tipo de barulho externo. Fechei os olhos com força e me encolhi no canto do banheiro. Até o odor pareceu diminuir, mesmo com aquele saco de fezes amarrado na beirada do sanitário.

Você precisa se acalmar! Penso.

Retorno ao mundo das dores alguns minutos depois, com uma sequência fracionada de batidas da porta. Ergo as minhas mãos trêmulas até o botão de abrir e fechar e o pressiono, arrastando a porta plastificada logo em seguida.

A visão que outrora poderia ser contemplada, agora estava ocupada pela presença de uma figura bizarra, e isso faz o meu coração pular para fora do meu peito. Tratava-se de alguém usando uma máscara prateada carnavalesca, coberta por detalhes. Através da fenda para a visão, pude ver olhos escuros mirando-me. Cambaleei assustada para o interior da cabine, soltando um único e estridente grito.

O garoto, ou pelo menos parecia um, levantou uma das mãos para mim, mas a estapeei com as minhas. Quando ele recuou, ergui a perna, chutando-o no estômago e levando-o ao chão com tamanha violência. Dessa vez eu não seria enforcada.

— Você está louca? — No chão, o garoto removeu a máscara sem medo, revelando um rosto indiferente pra mim. — Eu só quero usar o banheiro, relaxa. — Ele se levantou com calma, erguendo a mão para tentar me acalmar.

Acabei de bater em um inocente, e isso seria cômico se não fosse trágico.

— Puta merda! Me desculpa, eu pensei que era outra pessoa. — Corri até ele, limpando uma parte suja de sua camisa.

— Tudo bem, quem não gosta de um banho de mijo? — Ele olhou para a grama amarelada e sorriu pra mim. Aparentava ter uns dezessete anos, pelo tamanho. Os cabelos eram os mais escuros que eu tinha visto em alguém, um pouco encaracolados, mas nada de cachinhos na cachola. — Sou o Dylan.

— Ok. — Digo com arrogância, caminhando até a cabine ao lado. Quando a porta se abriu, Mia não estava mais lá. O meu tempinho na cadeira do pensar permitiu que a garota desaparecesse, já que eu não a encontrei nos minutos de procura que se seguiram.

Uma e dezessete, madrugada.

Procurar por Mia já estava me deixando exausta. O nervosismo da garota tinha sido transferido pra mim com uma facilidade surpreendente. Quanto mais tarde ficava, mais a festa se intensificava. Tass também havia dado uma de Gone Girl e enfiou-se em algum lugar impossível de se rastrear, nem as mensagens ela respondia. O que estava acontecendo?

Para piorar as coisas, sinto o meu celular vibrar. Meus dedos coçam nervosamente e a minha garganta se fecha em um enjoo.

“Anônimo: Mudanças. Hora de usar o plano alternativo. Enfim, espero que você goste de caça ao tesouro, pois eu amo e nós iremos jogar nesse finalzinho de festa. O melhor evento dela ainda tá para acontecer e só você pode evitá-lo. Se achar todas as pistas até duas horas da madrugada, talvez possa impedir que algo ruim aconteça. Tick, tock, o seu tempo está acabando.”

***

21/02/2015- Serpentes Sanguinárias.

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