Brincando com Segredos
16 A caçada noturna - Parte dois.
Notas iniciais
SS2
Acelero o carro para a rodovia, desviando por pouco de um caminhão enquanto estava na contramão. Percebo a movimentação nos fundos do veículo. Madison parece não ter gostado das amarras que eu preparei para ela. Acredite, foram muito mais fortes que a algema que Emma colocou na recente assassina. Sério, a garota tentou me matar com essas correntes malditas. Aah, o maravilhoso cheiro da morte.
Ela se chacoalha mais uma vez, gritando por baixo da fita adesiva cinza. Adelaide iria amar tudo isso, principalmente agora que, enquanto eu estou levanto os jogadores para O Ato Final, o outro, está completamente comprometido na divulgação da Fase Final. Poderia ser uma noite melhor?
Agora tenho certeza que ela não só odiou as amarras. Pela forma com que se movimenta, desaponto-me ao perceber que a garota teve repulsa ao forro que eu fiz especialmente para ela: Como um bom travesseiro, o corpo deslocado e dobrado debilmente de Edward, a sua primeira vítima, e, como um lençol extremamente quentinho e perfeito, o corpo cortado do seu irmão, Alex, que ainda jorrava, sobre o peito virado pra cima da jovem, uma boa quantidade de sangue fresquinho.
***
Emma
O tiro estrondoso ainda ecoava pelos meus ouvidos. O rosto feliz e ansioso de Edward antes da morte, clamando para descobrir quem estava por trás da máscara em minha frente ainda permanecia intacto diante dos meus olhos. Aquele barulho horripilante, depois a sujeira respingada. O sangue no meu rosto. Estou em um estado de transe. Nervosa. A minha cabeça ainda não processou tudo, mas eu sigo, acelerando os passos pelo corredor abafado. Os ruídos em minha mente cessam. Agora escuto uma voz rápida e robótica que, com o tempo, julgo ser real.
“Hoje é uma noite triste para toda a Oakland. O corpo do advogado Gabriel Jackson foi encontrado completamente mutilado, em uma fossa ao lado da rodovia norte. Ele e Cristal Thompson foram sequestrados pelo famoso assassino que, nos últimos dias, quebrou a internet, conhecido urbanamente como Veneno. Samantha Clever, investigadora que está responsável pelo caso, marcou uma reunião com a imprensa amanhã. Até agora, os resultados das digitais não deram resultados.
O que intriga as autoridades, nesse momento, é o nome que a perícia encontrou, escrito por uma faca, na perna direita do rapaz. A informação não foi divulgada por completa e é considerada confidencial. Tália Elliot para o News Oakland.”
Quando a voz chorosa da repórter desaparece, eu empurro cuidadosamente a porta do quarto. Cristal está sentada na cama, os braços envoltos no corpo curvado de Dylan. Os dois erguem os olhos avermelhados para mim, deixando a televisão de lado. Estão completamente devastados, e embora eu respeite o luto deles, preciso, urgentemente, ter uma conversa com a minha mãe. Felizmente, ela parece entender isso.
— Eu sinto muito. — Falo rapidamente, tentando não encarar os olhos arregalados e tristonhos do garoto. Meu estômago aperta com força. Eu escolhi o corpo do meio. Eu acabei, indiretamente, matando o Gabriel. Percebo, nesse instante, que os meus olhos começam a marejar. Se eles soubessem disso, o que fariam?
Não recebo uma resposta de nenhum dos dois, mas Cristal se levanta, uma expressão de preocupação no rosto. Ela viu o meu nariz ensanguentado, resultado do combate recente contra a parede de um labirinto infantil e de plástico. Sem contar o restante do meu rosto completamente sujo, salpicado pelos pingos de sangue de Edward.
— O que aconteceu? — Seus dedos gélidos começam a dedilhar cada parte dolorida do meu corpo. A minha perna parecia ter melhorado consideravelmente, agora que não sinto mais as pontas violentas em minha canela. A boca avermelhada de Cristal se abre. Ela chora mais ainda, recostando a cabeça em meu ombro e perguntando, diversas vezes, o que me havia acontecido. Bruscamente, puxo-a pelo braço, levando-a para o corredor.
— Você nunca me contou que Adelaide tinha um irmão gêmeo! — Grito sem medo, apertando-a pelos ombros. As lágrimas despencam pelo seu rosto sofrido e em choque, mas eu preciso que ela me dê respostas. — Até quando você vai esconder as coisas de mim?
Dylan caminha sorrateiramente até a porta do meu lado, batendo-a sem dar importância ao nosso pequeno drama, voltando, com o olhar cabisbaixo, para o noticiário sensacionalista que falava vulgarmente sobre a morte de se pai.
— Eu não sei do que você está falando, Emma! — Ela também grita, tentando de desvencilhar das minhas unhas ferozes.
— Você não entente, não é? As pessoas estão morrendo por causa de uma coisa que você fez! Todos os motivos vingativos, tudo nasceu com você, e eu fui a escolhida para terminar com essa psicopatia, mãe! — Continuo a gritar, deixando que a voz embaralhada se atrele ao meu discurso. — Só me fale a verdade!
Cristal acaricia o meu pulso cautelosamente, depois, sem parecer compreender muito a situação, guia-me para o fim do corredor até o meu quarto. Dentro, nós duas nos sentamos na minha cama desforrada e ela, com o beiço tremendo, começa a falar, antecedido por uma respiração lenta e nervosa, as palavras me açoitam sem demora:
— Eu não sei como você descobriu sobre isso, mas da mesma forma que eu vou te dar explicações, preciso que você me dê todas também. — Ela me fitou com voracidade, sem hesitar em instante algum. — Tudo começou quando eu decidi que queria ter mais um filho depois de você e Ben. Não tenho medo em admitir que a ideia veio após um período de brigas entre eu e seu pai, mas, querendo ou não, a fórmula de ter crianças estava sustentando o nosso casamento, e essa, mais uma vez, era a única saída que eu encontrei para mantê-lo dentro de casa por mais alguns anos, sem ter que me humilhar diante do seu rebanho de amantes. — Ela respirou ofegante, apertando a minha mão. — Eu não estava completamente disposta a ter os bebês, nunca abandonei os meus vícios para que eles crescessem saudáveis, então acabei tendo uma gravidez conturbada... Bebidas, drogas, a fama subindo a minha cabeça... A maioria das pessoas acham que é fácil ser mulher de um homem tão importante para a economia como o seu pai, apenas usufruindo de suas riquezas e aparecendo em festas de caridade. Nós estávamos envolvidos em corrupções, escândalos. Tudo isso sobre os olhares impiedosos daqueles que queriam o topo da pirâmide, Emma.
— Não se faça de vítima. — As palavras saem facilmente da minha boca, sem nenhum arrependimento.
Cristal apenas balança os cabelos, passa a mão na maquiagem borrada e continua:
— Não demorou muito para que os médicos identificassem alguns problemas nos bebês. Não sei ao certo o que os gerou, mas estavam ali, e por mais que eu aceitasse ter filhos com algum tipo de deficiência, o seu pai mostrou-se ser completamente intolerante a isso. Vivia falando que pegaria completamente mal para a definição de família perfeita dele, que a imprensa pegaria no pé deles e que toda essa imagem iria provocar um rompimento drástico na sua caminhada para o sucesso definitivo. Foi aí que nós começamos a nos afastar novamente. Percebi que aquilo não seria base o suficiente para a recuperação do nosso romance. Ele queria que eu simplesmente desse um fim nas crianças.
Enquanto ela falava, lembro de algumas manchetes antigas sobre uma briga série entre os dois, onde ela foi acusada de tentar matá-lo. Cristal parece ter lido a minha mente, agora que levou a conversa para esse rumo.
— Eu não sabia o que fazer. Você me conhecia naquela época, eu era uma mulher fraca e de opinião manipulável. Eu iria fazer tudo para agradá-lo, mas não sabia se abortar ou dar os meus filhos por conta do desejo imundo de perfeição dele era a coisa certa. Foi então que, em uma noite de briga, ele socou o meu rosto. Não, não terminou aí. Seu pai deu uns três pontapés na minha barriga, e isso me deixou destruída. Todas as manhãs, quando eu acordava, recebia o olhar ameaçador dele. Eu não estava segura em minha própria casa! Tinha medo até de dormir! — Ela fungou bem alto, o choro desfazendo o rímel negro ao redor dos olhos. — Quando ele estava na banheira, liguei o secador e tentei eletrocutá-lo. Não tive muito sucesso, claro. Mas depois desse dia, seu pai me obrigou a entregar os bebês, ou estragaria a minha vida – acredite, ele tinha meios suficientes para isso.
— Mas você não entregou os dois. Adelaide cresceu com a gente e a outra... — Ela interrompe o que eu estou falando antes mesmo que eu complete o meu raciocínio.
— Outro, Emma... Era um garoto. — Meu coração dispara, mas Cristal continua. — Seu pai arranjou uns contatos, fez tudo na surdina. Você e Ben sempre achavam que eu estava grávida apenas de uma criança, por isso eu acabei convencendo o Greg a aceitar pelo menos um dos bebês, assim teríamos como driblar alguns questionamentos da imprensa e tudo mais. No final, tudo ficou em segredo, os médicos foram muito bem pagos e nenhuma informação sobre a outra criança, tão problemática quando Adelaide, vazou. Seu pai levou esse segredo para o túmulo, satisfeito por, parcialmente, ter uma família perfeita.
— Eu não acredito nisso, puta que pariu! Durante esse tempo todo eu fui enganada! Mas, mas, o que aconteceu com o garoto, mãe? Você deveria ter ficado com ele! — Grito enraivada.
— Greg deu o garoto para um fazendeiro, se eu não me engano, era um amigo de infância. Eu e a esposa do rapaz trocamos cartas nos primeiros anos... Ela me contava sobre o comportamento do garoto, muito semelhante ao de Adelaide... — Cristal se levantou cismada, não dando muita importância para a minha gritaria. Ela foi para algum lugar, depois voltou com as sobrancelhas juntas, confusa. — Eu não entendo, as cartas desapareceram...
Tsc, coitada. Essas cartas devem ter desaparecido há muito tempo e, provavelmente, Adelaide as encontrou. Essa foi à ponte que os irmãos devem ter estabelecido para se juntarem novamente e, através disso, formularem a ideia de SS.
— Eu preciso que você me fale o lugar... Onde esses fazendeiros vivem, sei lá! — Sussurro sem paciência, sentindo o cansaço me esgueirar.
— O que você vai fazer? — Sua voz tristonha me deixa, por algum motivo, mais enraivada.
— Só preciso que me diga! — Cerro os punhos, socando disfarçadamente uma pilha de roupas ao meu lado.
Depois de uns segundos de hesitação, a mulher fechou os olhos, apertando-os como se estivesse tentando se lembrar de algo. Meu aparelho celular vibra, mas apreensiva com a resposta de minha mãe, apenas ignoro-o.
— Eles moravam em Atlanta quando trocamos as últimas cartas, mas soube que se mudaram para Port Hills. Se eu não me engano, o nome da esposa dele é Vanipa. — Cristal abaixa a cabeça imediatamente, espantando-se com a sua própria frase. — Eu sei que não é muito distante daqui, mas acredito que eles não representem um risco para nós...
Não podia ficar mais um segundo com ela. Levanto imediatamente, verificando as horas. Havia várias mensagens de Tass, mas eu não tinha tempo para lê-las. No corredor, Dylan e eu nos batemos, mas ele simplesmente levanta os ombros. Cristal sai do meu quarto com pressa, chamando-me para continuar a conversa. Não, eu não posso voltar pra lá agora. Port Hills não era muito distante, talvez umas horas com o carro na estrada, mas compensaria caso eu achasse a família de criação do irmão gêmeo de Adelaide, de SS.
Minha mãe não tenta me impedir. Desço as escadas com habilidade, saindo sem cautela para a noite lá fora. Um cheiro estranho percorre as minhas narinas. Inicialmente, acredito que seja o corpo de Edward no fundo do carro, mas é algo muito mais costumeiro aos meus sentidos. Agoniada, não dou atenção ao fedor, seguindo cambaleante até o veículo.
Uma tontura tremenda me pega de surpresa, atacando-me como socos reais. Madison e o irmão não estavam mais nos fundos do carro, e isso é extremamente preocupante. Talvez eles tenham escapado ou atacados. Meus pensamentos rondam por essas duas possibilidades. Decido checar a mala também. Quando a abro, a visão que outrora estava ocupada pelo corpo morto de Edward, agora exibia um fundo claramente manchado com somente o seu sangue. Teria Madison escapado e, frouxamente, levado o corpo junto? Não, não. Os três foram pegos.
Pensar nessa hipótese me faz ficar alerta. Passo o meu corpo por cima da janela aberta, agarrando o revólver sem munição de Madison. Nesse instante, meu olho passa sobre o painel de gasolina. Puta merda, eu nunca conseguiria chegar a Port Hills daquela forma. Precisava imediatamente de outro carro. Coincidentemente, Dylan e Cristal surgem na porta da mansão, preocupados com a minha agitação. A mulher continua com as mesmas perguntas, assustada com os meus ferimentos.
Dylan tem um carro, eu poderia pegá-lo. Penso. Não, garota! Você nunca vai conseguir dirigir com o pé dessa forma. Como um anjo e demônio, decido arrastar Dylan comigo, assumindo a responsabilidade do garoto.
— Emma, você não pretende ir para Port Hills, certo? Eu ordeno que você continue aqui! E não tente arrastar o Dylan também. Ele acabou de perder o pai, não sabe o que está fazendo!
— Por mim tudo bem. Eu vou ficar de boa, sério. — Ele diz para Cristal quando a mulher tanta pará-lo. — Preciso relaxar um pouco, não?
Sinto-me péssima por estar fazendo isso, mas minutos depois, sem rodeios, Dylan e eu estamos sentados no forro fundo do seu Jipe, enquanto o garoto, em choque com tudo, pergunta aonde devemos ir. Bom, a sua reação quando descobriu que íamos para Port Hills não foi uma das melhores.
— Eu sei que você preferia algo para descontrair e tal, mas eu preciso resolver algo importantíssimo. E antes que você me pergunte, não posso dizer sobre o sangue. — Falo decididamente, finalmente usando um pano para limpar a sujeira em minha face.
— Tudo bem, Emma. Eu realmente não tô nem aí pra você e o seu sangue. — Ele sussurra entediado, trancando, notoriamente, o choro em sua garganta.
— Se não ligasse pra mim, não estaria me levanto pra longe. — Brinco com o garoto, dando-lhe um leve soco no ombro. Então, com a mesma frieza da frase anterior, Dylan me responde:
— Eu só estou te dando uma carona de ida. Se quiser voltar, terá que arranjar outra pessoa. Desculpe, mas eu não estou só te levando para Port Hills... Eu estou fugindo.
***
Tass
As coisas estão um porre desde o dia em que a Adelaide morreu. Aquele inferno de noite provocou uma chuva de desastres sobre a minha vida, começando pela prisão. Quando fui liberada, achei que tudo iria melhorar, mas para ser sincera, Emma não está colaborando para que isso aconteça.
Nós duas temos um lance legal, e eu realmente gosto dela. Acontece que a garota parece estar tão entretida com SS que esqueceu completamente de mim, principalmente agora que eu estou dando um tempo e me afastando totalmente de qualquer ação que envolva as brincadeirinhas desse psicopata.
Até então, a noite do atropelo tinha sido a pior de minha vida, mas agora, diante da possibilidade de ter que enfrentar SS mais uma vez, tudo mudou. Com o telefone na mão, tento ligar para Emma pela centésima vez, pedindo para que ela, ao menos, estivesse viva. Recapitulo o áudio desesperador que Sam me mandou:
“Preciso de sua ajuda, Tass. Emma não atende o celular e acredito que você tenha noção de onde ela esteja. Tente entrar em contato com ela e, se não conseguir, busque em todas as redes sociais, aplicativos e essas merdas jovens, o usuário “DOCEVENENO”. Eu não deveria lhe dar essas informações, já que são confidencias, mas a sua ajuda é de extrema importância. Esse foi o nome que encontramos em um dos pedaços do advogado Gabriel. SS escreveu isso, ele ou ela quer que a gente encontre essa porcaria”.
Cansada de esperar pela garota, adicionei todos os aplicativos mais famosos e badalados da atualidade, procurando, enquanto comia pizza em meu quarto, por algum que tivesse esse usuário registrado. No fim, três horas haviam se passado e nada. Nem sinal de DOCEVENENO nem de Emma. Por volta das uma hora da manhã, o telefone em formato de cotonete do meu quarto toca, fazendo com que eu me assuste.
Sinto os nervos do meu corpo estremecerem, enquanto preocupada, caminho até a bancada, pegando o aparelho logo em seguida.
— Alô? — Pergunto, recebendo a resposta logo em seguida.
— Olá, esquecidinha. Tudo bem com você? Espero que sim. — A voz claramente modificada me fez querer chorar, mas ignorei a vontade infantil naquele momento.
— O que você quer? Eu não estou mais nessa parada, juro. Você já me colocou na cadeia e tudo mais, não tá na hora de parar?
Com brutalidade, a voz grita pelo fone:
— Só vai ser a hora de parar quando eu falar que é a hora de parar, seu ratinho de estimação! Não percebe que é apenas uma marionete da Emma? Que tem sofrido por causa dela esse tempo todo? E o que aquele palito tem feito por você, Tass? Eu te digo: NADA!
Meu coração dispara, mas continuo calada, tentando manter em foco a porta trancada do meu quarto, enquanto a voz ameaçadora continua a me xingar.
— Já não está muito tarde? A hora de colar o velcro terminou, querida. Ficar esperando pela periquita da Emma Thompson deve ser terrível, não? Então, acho que vou dar um de amiguinho seu agora, tudo bem? — A voz soltou uma gargalhada medonha, depois continuou: — É sempre bom tentar novos relacionamentos depois que um não tem sucesso. Procure pelo aplicativo SnakeGame e adicione o usuário que, como eu devo imaginar, você já sabe qual é.
Sinto meus dedos tremeram, mas deslizo-os rapidamente pela tela no meu celular, prendendo o telefone no ombro e no ouvido. Quando termina de baixar, faço um cadastro rápido, enquanto na chamada, SS cantarola o refrão de uma música aterrorizante. Pela tela, vejo que o aplicativo, embora não seja muito desenvolvido, exibe uma barra para adicionar contatos. Coloco o DOCEVENENO e envio-lhe uma solicitação de amizade, que é confirmada no mesmo instante. A página é direcionada, automaticamente, para o perfil de SS, onde observo, em destaque, um cronômetro prestes a chegar a dez segundos. No canto superior, leio a seguinte legenda: “Vítima número um: Banho”, enquanto no canto inferior, exibe-se a quantidade de acessos daquela página. Quando meu olho bate nos números, solto um gritinho de exclamação, horrorizada.
Duzentos e cinquenta pessoas estão acompanhando aquele cronômetro, esperando a contagem regressiva para mostrar, sabe-se lá o quê, relacionado à vítima número um. E quando o aplicativo zera a espera, o perfil de DOCEVENENO transforma-se em uma tela de vídeo. A câmera do celular captura a mão coberta por uma luva preta, seguido pelo restante do corpo totalmente caprichado em um visual obscuro. Não demoro a perceber que a gravação é ao vivo.
SS, agora mostrando-se para a câmera do próprio celular, passa a linguinha rosada por um furo grotesco da máscara de Serpente, fazendo caretinhas e gestos hippie para o aparelho. De repente, as atitudes cômicas do assassino desaparecem, enquanto um barulho de chuveiro ecoa no fundo do que parece ser um quarto luxuoso. A figura vai até o banheiro na ponta dos pés, o celular sendo erguido por uma de suas mãos e uma faca grande na outra.
Através da gravação, vejo a silhueta de alguém por trás das cortinas do banheiro, o corpo sendo molhado pela água grosa que cai do chuveiro. SS dá um zoom em sua mão, até que os seus longos dedos enluvados puxam o plástico, fazendo com que ele se desgrude da barra de metal que o suspende e revele a jovem nua que até então se banhava.
O grito horrorizado da garota, que eu reconheci ser Tina Jordan, do terceiro ano, faz o meu celular despencar em direção ao chão, assim como o telefone em forma de cotonete, que desliza pelo meu ombro e só não se quebra por causa do seu fio em forma de algodão, que acaba puxando-o antes da colisão com o rodapé.
Horrorizada, ajoelho-me diante do aparelho, que continua reproduzindo a cena. SS ergue a faca em direção a Tina, que escorrega para o chão, atrapalhada com a cortina, a água do chuveiro e faca que vai, lentamente, apunhalando a sua barriga. Ela continua gritando, mas só se silencia quando a facada, tão profunda em seu peito, faz com que a vida dela se vá. Mesmo quando a tela volta para o perfil de DOCEVENENO, a única coisa que eu consigo fazer é levantar-me e ligar para Sam, esperando que ela tenha visto o que acabou de acontecer e, com a maior das esperanças, acreditar que ela possa impedir a “Vítima número dois: Explosão”.
***
Emma
Dylan e eu passamos a metade do caminho conversando, enquanto a estrada, agora muito mais deserta, vai sendo, aos poucos, tomada pela escuridão da noite ao nosso redor. A história sobre fugir não era brincadeira. Nossos papos, agora tão descontraídos, voltavam hora e meia para a discussão desconfortável do início, quando tentávamos falar sobre a morte de seu pai, o sangue no meu rosto e o que iríamos fazer em Port Hills.
No final, o lugar surgiu tão rapidamente quanto o fim de nossas piadas embaraçadas, que não perdiam a graça nem no meio de toda essa desordem e caos. Era formada, basicamente, por casas comuns de madeira, ruas espaçosas e, nas regiões mais afastadas, pequenas plantações caseiras que surgiam, irregularmente, entre piscinas pequenas de plástico.
— Nós precisamos encontrar uma tal de Vanipa... — Sussurro com incerteza, esgueirando-me pela janela do Jipe para observar as casas. — Ruas desertas.
Dylan concorda com a cabeça, atento.
— Que porra de nome é esse? Vanipa? — Ele ri um pouco. — Parece o nome de um Pokémon.
Quando rodamos alguns poucos quarteirões do lugar, decidimos que seria loucura e impossível achar a mulher daquela forma, então, em um ato de vandalismo, aproveitando a quietude das coisas, Dylan e eu assaltamos um daqueles armários que ficam do lado de fora dos correios com barras de metal que desmontamos, em mais um ato de vandalismo, de um balanço infantil. Ali dentro encontramos um guia com algumas informações dos cidadãos do lugar.
Assustados, voltamos imediatamente para o Jipe, onde procuramos, com a lanterna sobre os nomes, o terrível Pokémon Vanipa. Bem, isso não foi fácil, e somente a partir das duas da manhã que a coisa fica realmente séria. A mulher vivia em uma casa não muito distante do ponto em que estávamos.
Ainda sem saber os meus motivos, Dylan estaciona diante da casa aparentemente antiga. Nós dois brigamos brevemente sobre ele querer ir junto, mas eu minto, dizendo que conheço-a e que é melhor eu ir sozinha. Perdendo o conflito, ele se rende a minha ordem, permanecendo com a bunda pregada no carro.
Atravesso a pista até o outro lado da calçada, tentando ignorar o silêncio assustador do local inteiro. Passo por uma pequena porta de madeira molhada, caminhando, agora, pelo jardim murcho e cinza do lugar, para só então subir degrau por degrau da escada que leva até a varanda, onde encaro, com o peito ardendo em curiosidade, a porta fina e estreita com o número 45 gravado. Sem rodeios, bato duas vezes, sussurrando um amedrontado “Tem alguém aí?”.
Passados três minutos, escuto ruídos de reclamações vindo de dentro do lugar, depois a porta se abre bruscamente. Meus olhos se encontram com o da velha baixinha que me atende. Ela segura os seios, tampando-os enraivada, tentando colocar o pijama no lugar certo. Alarmada, ergue uma escopeta marrom contra a minha barriga, esbravejando logo:
— O que é que você quer? Isso é hora pra aparecer na casa dos outros? — Suas mãos se abaixam ao notar que eu não apresento ameaça alguma. Finalmente destranco a respiração, ainda sentindo medo da arma. Ela continua imóvel em minha frente, esperando que eu lhe dê uma resposta sensata.
— Sou uma Thompson, senhora. Acredito que temos muito a conversar, inclusive a respeito do meu irmão. Enfim, anseio que este seja o momento certo para conhecê-lo, certo? — Com um sorriso cínico no rosto e ignorando a mulher espantada, rastejo-me para dentro da casa sem ao menos ter sido convidada.
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