Brincadeira Perigosa
1 Capítulo 1 O Homem sem nome.
Notas iniciais
Boa leitura!
Já estava cansada e acabei transferindo o peso da sacola de compras para a outra mão e não pude deixar de pensar com saudade no elevador luxuoso do prédio em que morávamos antes. Na verdade nunca gostei daquele apartamento nem o considerava um lar, entretanto era bem melhor do que o que tínhamos agora. Olhei em volta para a pintura gasta, o papel de parede em péssimo estado, o piso barato do chão e da escada.
Não pude deixar de fazer uma careta.
Adentrei em casa almejando que Kurenai tivesse deixado pelo menos uma xícara de café para mim, mas duvido que isso seja possível, Kurenai nascera para ser a mulher mimada de um homem rico e Satoru Haruno, o meu querido pai exercera extremamente bem esse papel.
Eu sempre pensei que nunca teria problemas de dinheiro, que meu futuro estava seguro. Até o dia em que o avião de papai teve um acidente a caminho de Suna. Junto com ele morreram meus sonhos de liberdade e estabilidade financeira. Depois de conversar com advogados e contadores, descobri que restava muito pouco da fortuna da família.
Minha mãe me deixou certa quantia de dinheiro como herança, porém eu só a receberia ao completar vinte e um anos e o que o papai deixou para mim e Kurenai estava vinculada a realização de algumas condições. A mais importante e difícil é que nós duas temos que viver juntas até eu completar a maioridade, ou que uma de nós duas venha a se casar. Não importa o que venha primeiro.
Ao contrário de mim Kurenai ficou feliz em aceitar as condições do testamento e fez todo o tipo de chantagem emocional para que o meu desejo de liberdade não a privasse da mesada que recebe todo mês.
— Seu pai queria que você ficasse sob os meus cuidados. Foi sua última vontade Sakura você não pode ignorá-la.
Era difícil compreender o motivo daquela condição do testamento, papai sabia que nós duas nunca nos demos muito bem. Quando ele se casou com Kurenai eu tinha doze anos. Era uma garota magra, com cabelos claros compridos até a cintura amarrados em uma trança, de pele muito branca e olhos verdes claros, usava aparelho nos dentes. Ninguém podia dizer que fosse uma criança bonita.
Desde o início, Kurenai não se interessou por mim e expôs isso nitidamente. Logo percebi que dentro daquelas roupas caras e sofisticadas, havia uma mulher interesseira e mesquinha.
Como sou distraída deixe me apresentar, meu nome é Sakura Haruno atualmente tenho dezenove anos como já disse antes tenho cabelos claros que chegam ao meio das costas, olhos verdes, lógico que não uso mais aparelho nos dentes e não sou tão feia, tenho um metro e sessenta e cinco, seios médios e firmes, cintura fina, barriga lisinha, quadris levemente arredondados e coxas torneadas. Não sou tão bonita quanto minha madrasta, mas tenho meus encantos. Agora que estou mais madura consigo ser um pouco mais tolerante. Não tenho nenhuma fantasia a respeito de minha madrasta. Sei que Kurenai é preguiçosa, egoísta e interesseira que gasta muito mais do que pode.
No início, não foi fácil me ajustar à nova realidade, mas agora, a vida começa a se acertar. É claro que o dinheiro está sempre faltando, culpa dos gastos desregrados de Kurenai. A única maneira que consegui encontrar para impedir esse desperdício sou eu mesma fazer as compras, quando volto pra casa, depois das aulas. Arrumo o apartamento e faço a comida. Não sei como consigo tempo para estudar, estou fazendo um cursinho e me preparando para a faculdade, mas o tempo é tão corrido. Se conseguir passar farei medicina esse é o meu maior sonho.
Às vezes Kurenai vem me perturbar com planos que não tem qualquer futuro. Fala em grandes campanhas. Mas nenhuma proposta real surgia. Todos sabem que ela não é realmente uma profissional, uma modelo com quem se pode contar. Embora seja uma mulher belíssima, já conta com seus trinta e três anos e sua falta de compromisso e decoro não ajuda nem um pouco. No passado antes de casar com meu pai ela era uma modelo em início de carreira e quando papai e Kurenai se conheceram logo começaram um romance, três meses depois estavam casados.
Como se já não bastasse a nossa situação Kurenai entrou em sociedade numa butique que está para reabrir. Não sei de onde ela tirou o dinheiro pra isso, mas já estou preocupada. Os antigos donos estavam sempre com problemas, gastavam mais do que recebiam dos lucros, por isso tiveram que vender para poder sanar as dividas.
Acredito que há um financiador por trás dessa sociedade, alguém que não se importa em apostar dinheiro. Kurenai foi muito evasiva sobre o assunto, talvez seja um homem a bancar essa sociedade. Não duvido nada que seja algum admirador que esteja bancando o patrocinador para se dar bem com ela. Papai morreu há dois anos e, não há a menor dúvida que Kurenai não ficaria sozinha, ela não é esse tipo de mulher, quanto mais rico, bonito e interessante o homem for, ela não deixa escapar.
Talvez esse novo relacionamento dela seja bom. Quem sabe assim eu possa ficar livre logo dessa convivência com Kurenai, se ela conseguir um marido que possa lhe dar o estilo de vida a que estava acostumada, finalmente me deixará em paz e esse financiador misterioso, parece um forte candidato. Pelo jeito tem muito dinheiro para apostar no projeto de uma futura mulher de negócios.
A eminente falência da sociedade é algo palpável, já que nem Kurenai nem Anko Mitarashi, sua sócia e também ex-modelo, tinham qualquer noção sobre negocio. Enfiaram na cabeça, que fariam sucesso de qualquer jeito. Quais foram mesmo as palavras que elas usaram? A é isso. Somos mulheres de bom gosto e com paixão por roupas e nossas amigas nos prestigiarão com suas presenças e dinheiro é claro.
Não levou três meses para serem obrigadas a colocar o cartaz na porta da loja: "Liquidação para Acabar".
Pensei que Kurenai fosse ficar com um temperamento horrível, mas ela não disse nada sobre a falência. Talvez o amante realmente tenha arcado com as dividas.
Bem, de uma coisa eu sei esse incidente serviu para Kurenai encarar a realidade e não inventar mais projetos extravagantes para ganhar dinheiro.
Assim que entrei no apartamento pude sentir o cheiro de cigarro no ar e Kurenai deitada no sofá acendendo um cigarro no outro, fui em direção a cozinha com as sacolas de compras.
— Já fumou tudo isso? (Perguntei colocando as compras sobre a mesa e apontando para o cinzeiro).
— O que você trouxe de bom?
— Nada de especial. Carne para assar, cenoura, cebola, batatas, ervilhas... essas coisas.
— Minha nossa! Você devia procurar emprego numa cantina. Bem, divirta-se com seus legumes, queridinha, porque eu, graças a Deus, não estarei aqui para o jantar. Vou sair.
— Você podia ter me avisado!
— Não podia, porque só soube há uma hora. Provavelmente vou demorar, não me espere acordada. (falou cheia de malicia)
Guardei a comida em seus devidos lugares mais tarde faço um chá com torradas pra mim, lavei a louça que Kurenai utilizou e fiz um suco de laranja, peguei o suco e fui pra sala coloquei o copo em cima da mesa e peguei os livros do cursinho e meu caderno de anotações e comecei a estudar.
— Mais trabalho?
— Você sabe o quanto o estudo é importante pra mim.
— Você devia sair mais, divertir-se. Também devia cuidar mais da aparência. Do jeito como anda, ninguém diria que tem dezenove anos.
— Não faço a menor questão de ser a garota dos sonhos dos rapazes.
Kurenai adora que eu me pareça mais jovem do que realmente sou. Ter uma enteada adulta a faria parecer bem mais velha. Tenho certeza de que quando nos mudamos para esse apartamento ela disse aos vizinhos que somos irmãs. Kuirenai levantou-se e olhou-se no espelho.
— Estou engordando. Só pode ser essa comida cheia de amido que você faz. Vou ter que começar uma dieta de salada verde.
— Sabe quanto custam às saladas, nesta época do ano?
— Será que você só sabe ficar falando no preço das coisas?
— Bem, alguém tem que pensar nisso. Se formos cuidadosas e economizarmos, tudo bem. Senão...
— Estou cheia de me controlar e ser econômica. Trancada neste maldito buraco, sai dia, entra dia! Pelo menos você tem aquele cursinho para ir.
— Você podia tentar se interessar por alguma coisa, achar algo para fazer. E não reclame de ficar trancada aqui. Pode ir onde quiser, e sabe disso. Você joga bridge toda semana com Tsunade Senju e aquela turma...
— Não tenho jogado com elas há meses.
— Eu não sabia.
— Há muita coisa que você não sabe. Tsunade pode perder tudo o que ela precisa fazer é estender a mão para o velho Jiraya, que ele paga sem abrir a boca. Ela não imagina que não é assim tão simples para nós.
— Você deve dinheiro a Tsunade Senju?
— Claro que devo. E muito, se você quer mesmo saber. Continuei jogando, porque pensei que minha sorte ia mudar. Mas não mudou. Ou melhor, mudou para muito pior. E se você não paga as dívidas para essa gente, é logo excluída da turma. Com muita sutileza, mas sem perdão. — Seu tom era amargo. — Por favor, não me olhe assim. Você sabe que eu jogava por dinheiro.
—Desculpe isso nunca me ocorreu. O que vai fazer agora? Pedir ao sr. Sarutobi para adiantar sua próxima mesada?
—Já pedi, e a resposta foi não. Em vez disso, ouvi um sermão sobre minha extravagância. Meu Deus, ele nunca ousaria fazer uma coisa dessas, se seu pai fosse vivo!
—Talvez fosse melhor se ele tivesse feito: evitaria problemas desse tipo. Acha que a sra. Senju vai pressionar você para pagar a dívida?
—Ainda não sei. Estamos, digamos assim, estremecidas. Vou arranjar esse dinheiro de qualquer jeito. Tsunade pode tornar as coisas bem difíceis para mim, se quiser.
— Gostaria que você tivesse me contado isso antes.
— Para quê? De que adiantaria? Para agüentar o seu olhar acusador e, talvez, ouvir mais um sermão? Não, obrigada. O que mais você teria feito? Me arranjaria o dinheiro? Vou me virar sem a sua ajuda.
— É aquele homem? Estou falando daquele homem da butique. O que adiantou o dinheiro para você entrar como sócia. É a ele que vai pedir ajuda?
— Se quer saber, é isso mesmo.
— Acha que é prudente envolver-se tanto com ele? Pode ser uma dívida ainda mais perigosa do que a do jogo.
— Meu Deus! Você até parece a heroína de novela mexicana! A senhorita puritana em pessoa. Minha querida tudo neste mundo tem que ser pago. Mesmo o casamento com o seu adorado papai.
— Isso é vulgar e detestável!
— A verdade, docinho, é sempre vulgar e detestável, como você vai descobrir quando for mais velha. Eu era mais jovem do que você quando entendi isso sobre a vida.
— Espero nunca chegar lá.
— É uma esperança inútil. Você não parece só uma criança, você é uma criança. Mas vai ter que crescer um dia. Agora, preciso fazer algo pelas minhas unhas. Quem me dera poder pagar uma manicure decente.
Assim que ficou pronta para sair Kurenai já estava de bom humor. Usava um de seus extravagantes vestidos de seda vermelho vivo longo com um decote profundo em V e fenda lateral e muitos colares e pulseiras, além de brincos.
— Boa noite, queridinha. Não leia muito, porque dá rugas em volta dos olhos.
Correspondendo a um impulso, fui até a janela e havia um carro estacionado do outro lado da calçada esperando pela Kurenai. Recuei quando ela se virou para o prédio, voltei aos estudos e ouvi o carro se afastando.
Fiz um chá de camomila, peguei duas torradas e passei geléia de framboesa comi enquanto assistia a um velho filme na televisão, depois lavei a louça, apaguei as luzes e fui dormir.
O apartamento ficava numa casa antiga e tinha sido originalmente sótão e quarto de empregados. Além da minúscula cozinha, da sala e do banheiro com boxe, havia dois outros cômodos. No maior, dormia minha madrasta, outro era o meu e mal tinha espaço para alguém se mexer, pelo menos mantenho minha privacidade, Detestaria ter que dividir um quarto com Kurenai.
Troquei de roupa e enfiei-me embaixo das cobertas, depois de algum tempo cai num sono profundo.
Não soube logo o que me acordou apenas me sentei no escuro, o coração batendo forte, aos poucos percebi que era Kurenai andando na sala, se bem que ela não tem um passo tão pesado e não faria tanto barulho, ouvi uma voz de homem e sem pensar no que estava fazendo empurrei as cobertas e pulei da cama, abri violentamente a porta e entrei na sala. Pude vê-lo imediatamente: era alto e magro, cabelos escuros e pele clara, contrastando com os olhos escuros, quase ônix estava bem vestido e tinha uma elegância displicente.
Tive a nítida impressão de que já o conhecia, que já o vira em algum lugar, talvez num jornal ou revista, mas não lembrava quem era, nem o que dizia a notícia.
Demorei a perceber que Kurenai estava na sala, deitada no sofá e muito pálida. Curvado sobre ela, com o copo na mão, o homem parecia tentar obrigá-la a beber alguma coisa.
— O que você fez com ela?
Ele me olhou dos pés à cabeça, com um descaramento que me fez corar, mas não me deixei intimidar, apesar de sentir-me ridícula, de repente, com cara de sono e usando camisola.
— Afinal, quem é você, garota?
— Sou Sakura Haruno.
— Sakura? Ah, a menina. Tinha esquecido...
Kurenai mexeu-se e murmurou alguma coisa, fazendo com que ele se virasse para ela.
— O que aconteceu? Está doente? Desmaiou?
— Se quer que eu diga de uma maneira delicada, ela passou da conta.
Olhei incrédula de um para o outro.
— Você quer dizer... está querendo dizer que...
O homem confirmou com um movimento de cabeça.
—Quer me mostrar qual é o quarto dela, para que eu a ponha na cama? Seria melhor você também ir se deitar, antes que pegue um resfriado.
—Você saiu com ela e a trouxe bêbada! Não é justo. É uma coisa suja, que não se faz!
— Saí com ela, sim. Mas posso lhe garantir que a tolerância de sua madrasta ao álcool é pura ilusão.
Ele a pegou nos braços e a carregou com facilidade, como se fosse uma boneca. Havia alguma coisa erótica, quase indecente, em suas pernas nuas e sua cabeça apoiada no peito dele, mas o que estou pensando.
—O quarto dela é por aqui. Basta colocá-la na cama, eu cuido do resto.
—Você não é muito jovem para lidar com essas coisas? Ou isso costuma acontecer com freqüência?
— Não é de forma alguma uma coisa normal. Se você puder esperar um pouco, vou vestir um robe.
Quando voltei ela já estava entre os lençóis. O homem a olhava sombrio e ansioso.
— Quer que a ajude com o vestido dela? Você é uma garota muito franzina, vai ter dificuldade para virá-la.
— É melhor deixá-la dormir vestida como está, obrigada — respondeu com dignidade, escondendo ainda mais o que ele chamara de corpo franzino dentro do robe.
— Como quiser. Mas, se ela passar mal durante a noite e estragar o vestido, não vai apreciar essa sua decisão.
— Está tudo bem, obrigada. Sei cuidar dela.
Ele sorriu inesperadamente e me senti atraída por seu charme de repente não era mais um estranho. Virei-me com medo de que ele percebesse como fiquei perturbada. Que idade teria? Provavelmente a mesma que Kurenai talvez um ou dois anos mais moço.
— Sabe de uma coisa? Acho que é mesmo capaz de se sair bem sozinha, mas a pergunta é: e quem cuida de você?
Corei novamente sem saber exatamente por que, sorri sem jeito e voltei a olhar para minha madrasta.
— Sinto muito por tudo isso...
— Aceita um conselho de amigo? Kurenai vai acordar com uma tremenda ressaca, sentindo a cabeça explodir. Se eu fosse você, sairia da frente dela, para não levar as sobras.
Ele saiu do quarto e eu o segui.
— Até logo, garota.
Fiquei atordoada depois que ele se foi acredito que seja por causa de sua saída brusca, ou por ter sido acordada no meio da noite.
Encostei-me na porta e respirei fundo, foi aí que me lembrei que nem sabia quem ele era.
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