Breazin

5 Capítulo 5


— Ele está bem?- Seth perguntou com tom preocupado, olhando para Alexis no fundo do restaurante.

O loiro observava desanimado um grupo de homens lançar dardos em um alvo. Ele parecia perdido nos próprios pensamentos.

Assim como Seth, Cordélio também encarava Alexis. O rapaz parecera estar se divertindo até alguns momentos atrás, o que será que acontecera? Levantou-se da mesa e foi até ele.

Quando se aproximou pode escutar que um dos homens do grupo falava com Alexis.

— Vamos, vem jogar também. Vai ser divertido.

Alex mal parecia ouvir, mas sobressaltou-se quando a mão do outro homem puxou-o pelo ombro, aproximando-os.

— Se eu ganhar você paga uma bebida para mim e se você ganhar eu pago uma para você.- Ele falou próximo ao ouvido do loiro.

— Eu... Não estou interessado.- Alexis respondeu, dando alguns passos rápidos para trás.

— Deixa o garoto em paz, Ray!- Outro dos homens gritou.- Você só quer se aproveitar dele!

Todo o grupo começou a rir e Alex desviou o olhar, o rosto vermelho.

— Eu posso jogar?- A pergunta veio de Cordélio, atraindo o olhar dos demais, especialmente de Alexis.

— Você?- O primeiro homem, Ray, perguntou em tom arrogante.

— Sim. Mas nós podíamos melhorar a aposta. Quanto vocês pagariam se eu acertasse todos os dardos no círculo?

Após um instante de silêncio perplexo as risadas voltaram.

— Isso aqui não é show de talentos, garoto. A gente não vai sair pagando para ninguém...

— É claro que se eu errar eu é que pagaria o mesmo a vocês.- Cordélio deu de ombros.

Ray parou de rir. Olhou para o moreno como se o achasse louco, mas não se importasse nenhum pouco de tirar dinheiro dele.

— Já que você insiste. Eu pago quinhentos se você acertar os dez dardos no menor círculo. Da linha de tiro e sem segunda tentativa.

Cordélio sorriu. Ele foi para a linha traçada no chão em frente ao alvo e os demais homens se afastaram, observando-o com expressões entre debochadas e curiosas. Alexis estava atônito, sem saber o que fazer ou se deveria intervir. Não conseguia desgrudar os olhos do moreno a medida que ele pegava um dos pequenos dardos e o arremessava, da mesma forma como não conseguira quando estavam no estande de tiro.

O dardo parou no centro do alvo. No exato centro do menor círculo branco. O clima de tensão que surgiu no ambiente era quase palpável.

Cordélio não pareceu se importar. Ele pegou o próximo dardo e arremessou. Mais uma vez no centro, a um milímetro do anterior. Um a um todos tiveram o mesmo destino e a cada acerto Alexis tinha mais vontade de rir das caras das pessoas ao redor. Ele sentia um orgulho bobo e sem explicação de Cordélio. O peso invisível que pressionava seu peito se esvaiu.

O último dardo parou exatamente sobre o primeiro, chegando a arrancar um pedaço do corpo de plástico. O queixo de Ray quase foi ao chão. Cordélio apenas sorria, e Alex também.

Quando os dois voltaram para a mesa o moreno tinha um novo bolo de notas no bolso da calça. Hans deu a ele um riso irônico.

— Você não tem vergonha de extorquir civis?

— Aqueles mereceram, e foi um acordo justo. Vou comprar alguma coisa para mandar para casa.

— Foi tão legal! Você acertou todos mesmo, não achei que fosse possível. O pessoal das operações especiais é mesmo incrível!- Allyn comentou com os olhos brilhando.

Cordélio sorriu para a garota, mas logo seus olhos se arregalaram quando passaram por ela e focaram no vidro escuro na frente do restaurante. Ele apoiou-se na mesa, se erguendo do banco.

— Elliot?

— O Dante está aqui?- Hans seguiu o olhar do outro.

— E ele está com o Suez!

"Ah." Hans pensou. Agora a conversa que tivera com o loiro fazia muito mais sentido. Sua atenção foi tomada quando Cordélio saiu do banco e começou a dirigir-se à porta. Ele segurou o amigo pela borda da camisa.

— O que você está fazendo?

Cordélio parou. Seus olhos passaram rapidamente de Elliot para Hans e de volta ao loiro.

— Seguir eles?- Respondeu em tom de dúvida.- Quero ter certeza que vai dar tudo certo.

— Deixa o Dante viver. Já estava na hora.

A testa de Cordélio se franziu com indecisão e ele lançou um último vislumbre a Julian e Elliot, que já se afastavam. Então voltou à mesa.

— Eu não sabia que o tenente Dante saia com homens.- Seth disse com surpresa.

— Eu não sabia que ele saia com quem quer que seja.- Allyn emendou.

— Ele não saia.- Confirmou Hans.- Ah, e se eu fosse vocês não tentaria falar sobre isso com ele, nem contar que o viram.

Alexis viu Elliot se afastar e a imagem que tinha do tenente transformou-se ligeiramente. Ele conhecia alguns outros homens em Rydef, alem dele próprio, que eram abertamente homossexuais. Em Breazinder era algo relativamente comum e mesmo no exército havia pouco preconceito. Mas ele jamais imaginara que o mais temido e admirado guerreiro de Rydef gostasse de homens, muito menos que estivesse envolvido com o doutor Suez. Lembrava que os dois estiveram juntos em uma missão. Será que mesmo naquela época...

Interrompeu os pensamentos. A vida amorosa do tenente não lhe dizia respeito. Olhou para Cordélio, que mordia o lábio inferior, ainda com a mesma face de quem estava imerso em pensamentos complicados. Era bem típico dele se preocupar tanto em conseguir um jeito de ajudar o amigo.

Alexis sacudiu a cabeça mais uma vez, para afastar aquelas ideias que não levariam a nada bom.

— Alex, está tudo bem?- Era Cordélio.

— Sim.- Sorriu, o mais sincero que pode.- Tudo bem.

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— Acho que aqueles são seus amigos...

— Não olhe para eles.- A voz de Dante o cortou.

— Tá bom.- Julian respondeu, virando para o menor.- Mas acho que eles já nos notaram.

— Eu sei que já. Vamos embora daqui logo antes que um deles tente vir falar conosco.

— Caramba, Elliot.- Riu sarcástico.- Isso porque eles são seus amigos.

O loiro não respondeu, apenas manteve o passo constante se recusando a desviar o olhar do caminho a sua frente.

— Bem.- Julian passou a mão pela barba curta no queixo.- Vou ter que encontrar outro lugar para irmos então.

— Era lá que você queria ir?

Com isso Elliot teve que virar para o maior, descrente. A coincidência era absurda. Julian apenas deu de ombros.

— Eu sei onde podemos ir.- Dante suspirou.

— Ótimo! Guie-me então por seu belo país, senhor nativo.

— Você parece conhecer Breazinder muito bem.- Elliot lembrava-se de quando Suez o arrastara a uma boate em Breazinder, tempos atrás. O moreno sabia até o nome do segurança.

— Eu costumava sair bastante.

Andaram por mais uns bons minutos sem um destino evidente. Julian chegou a perguntar se Dante sabia aonde estavam indo, pois já tinha mais a mínima noção do caminho de volta para o lugar onde deixaram o carro. Elliot apenas zombou do seu senso de direção.

Enfim viraram uma esquina e deram de cara com um grande parque. Pelo horário avançado já estava bem vazio, exceto por alguns casais se agarrando nos bancos decorados. Julian ergueu as sobrancelhas, sem acreditar que Elliot, justo Elliot, o levara ali.

Mas o garoto passou direto pela grama macia, seus passos decididos e inflexíveis como sempre. Ele andava extremamente rápido para alguém com pernas tão pequenas e Julian teve de se apressar para acompanhá-lo.

Entraram em uma construção antiga com teto abobado. No interior uma escada em espiral erguia-se até além de sua visão. Elliot já subia por elas. Os degraus eram mal iluminados por pequenas janelas retangulares furadas nas paredes de pedra e o progresso de Julian foi lento, com uma das mãos tateando a parede.

Foi quando chegou ao próximo andar, entretanto, que perdeu completamente o fôlego.

Elliot estava parado no meio do piso de madeira e encarava-o de frente com aqueles profundos olhos negros. Eram ao mesmo tempo buracos negros que o puxavam para um caminho sem fim e lentes afiadas que viam direto através dele, chegando a sua alma.

Por trás do garoto um rasgo no teto de formato esférico permitia a visão do céu. Um caminho de estrelas formava alguma constelação brilhante contra o azul escuro. Não havia lua aquela noite.

Julian deu um passo a frente e então outro. Chegou a Elliot e quis parar ali, mas obrigou-se a continuar caminhando até chegar ao grande telescópio apontado para as estrelas através da fenda.

— Não sabia que você gostava de astronomia.

— Eu... Não sei se gosto.- A voz ligeiramente hesitante de Elliot era encantadora.- Não tenho muito conhecimento. Vim parar aqui da última vez que o Cordélio me convenceu a sair com ele. Eu escapei e fui procurar um lugar calmo.- Em sua própria defesa, Dante só se deixara ser convencido pelo amigo uma vez. Foi suficiente para decidir que não cometeria esse erro novamente.

Na fraca luz que iluminava o ambiente ele viu Julian sorrir.

— Quer experimentar?- Uma de suas mãos apontava o telescópio.

— Você sabe mexer nisso?

O moreno assentiu.

— Quero.

Julian subiu a escadinha baixa que levava ao instrumento e escontou o rosto à região onde estavam as lentes. Mexeu um pouco nos ajustes ao lado e depois olhou novamente. Em certo ponto ele girou uma manivela e o próprio teto girou, deslocando a fenda da semi esfera.

Dante observava a tudo um pouco impressionado. Não se lembrava de astronomia constar no currículo de Julian. Talvez o moreno não soubesse dirigir e tivesse um senso de direção ridículo, mas também possuía alguns conhecimentos inusitados.

— Está pronto.- Disse descendo da escada.- Pode ver.

Elliot subiu os degraus. Ele nunca usara um telescópio antes e sentiu um pouco de dúvida sobre o que deveria esperar. Aproximou os olhos das lentes oculares.

Julian não apontara o instrumento para as estrelas, mas para um outro planeta. Ele podia ver nitidamente os anéis do planeta como faixas claras e manchas no corpo esférico. Afastou o rosto e olhou para o céu. Quando conseguiu identificar o mesmo planeta, ele não passava de um pontinho.

Antes que percebesse havia um sorriso em seu rosto. Ele não costumava sorrir. Sentiu-se um pouco tolo e seu primeiro reflexo foi olhar para Julian. De onde estava pode ver o rosto do cientista de cima, iluminado pelas estrelas.

O moreno também sorria, mas de uma forma totalmente diferente, que fez todo o rosto do loiro avermelhar. Julian não olhava para o céu. Por quanto tempo o estivera observando?

Elliot desceu os degraus rapidamente, pulando os últimos.

— É incrível.- Comentou com a voz séria.- Não sabia que era possível ver tantos detalhes.

— O que eu mais gosto são as crateras da lua.- Julian respondeu.- Podemos voltar algum outro dia para eu te mostrar.

— Sim... Eu gostaria disso.

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Konrad esfregou os olhos e resistiu a vontade de deitar a cabeça na mesa e dormir lá mesmo. Ainda havia muito trabalho a fazer, o suficiente para que prosseguisse a noite inteira e mesmo assim não terminasse. Ele imaginava que àquela altura Cordélio e Hans deveriam estar se divertindo em algum bar próximo.

O moreno havia convidado-o para ir com eles, como sempre fazia. Kaster não se sentiria a vontade saindo para comemorar por alguém com quem praticamente não tinha contato, como o capitão Alexis, e pode usar a desculpa do trabalho que precisava terminar. Dante provavelmente já estaria dormindo ou então treinando em algum lugar do quartel. Konrad o admirava ainda mais agora que via bem de perto o tamanho da papelada com a qual ele costuma ter de lidar.

Precisava também decidir como alocar seus companheiros nas próximas missões. Havia alguns grupos suspeitos e outros de atividades comprovadamente ilegais para investigar e prender, políticos e testemunhas que precisavam de proteção e a polícia de uma cidade pobre fizera um pedido de ajuda para contenção do crime local. Ele chegara a pedir conselhos a alguns dos outros tenentes que se formaram com ele e hoje também comandavam as próprias equipes, mas tudo o que lhe disseram foi que confiasse em seus instintos.

Além de tudo, ele ainda teria de ministrar algumas instruções aos novos candidatos da escola preparatória que chegariam nos próximos dias para a prova. O próprio comandante da escola, que em Rydef se subordinava apenas aos comandantes da academia e do próprio quartel, foi quem lhe pedira. Há alguns meses Konrad fora convidado para um curso em parceria com nações amigas para negociação em resgate de reféns e agora chegava a hora de repassar o conhecimento adquirido.

Ele levantou-se, pensando que um banho poderia ajudar a mante-lo acordado e clarear as ideias. Deu uma última olhada para a mesa, onde uma pasta chamava sua atenção. De um arquivo repleto de suspeitos, Konrad podia ter passado direto por aquele se aquela organização em específico não fosse cliente de seus pais.

As sedas eram o principal negócio de sua família, mas há alguns anos seu pai também começara o negócio de chás raros. Kaster lembrava-se de escutá-lo falar sobre a empresa metalúrgica que comprara quantidades incrivelmente grandes de um chá específico. Precisava ligar para ele em breve e obter mais informações sobre o assunto.

Se fosse para seguir seus instintos, certamente aquilo era algo que deveria investigar.

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Apesar de ter ido dormir tarde na noite anterior, Elliot acordou cedo. Queria sair para correr antes que os outros acordassem e assim evitar perguntas inconvenientes, ao menos por algum tempo. Trocou de roupa e saiu do dormitório quando o sol ainda estava nascendo.

Ele parou por alguns segundos para observar. Depois da noite anterior o céu parecia conter novos significados. Ele se perguntou o que veria se pudesse olhar para o sol sem ferir os olhos. Também teria manchinhas, como aquele planeta?

Seguiu seu caminho costumeiro rodeando todo complexo de militar de Rydef. A estrutura era composta por três conjuntos de prédios. A escola preparatória, a academia e, um pouco distante destas, o quartel da unidade de operações especiais. Duas instituições formadoras e uma base de atuação da unidade, todas reunidas em um único lugar. Vez ou outra renascia a discussão se aquilo era estrategicamente coerente, mas o fato era que a base em Rydef era a que menos sofrera invasões na história de Breazinder.

Em alguns minutos Elliot aproximou-se dos portões de acesso à escola preparatória e notou uma movimentação incomum.

Eram garotos, todos novos, que chegavam carregando malas. Alguns conversavam baixinho entre si, outros olhavam para os lados, encantados e havia aqueles que seguiam em silêncio. Os novos alunos. Ou ao menos aqueles que usariam os alojamentos disponibilizados na base para os candidatos que morassem longe e não pudessem pagar por um hotel.

Elliot não havia perguntado a Cordélio, mas imaginava que Dannyl seria um deles. Não precisou procurar muito para reconhecer o garoto em meio ao grupo. Ele não era exatamente parecido com o irmão, mesmo com a versão mais nova de Cordélio de Dante conhecera. Dannyl tinha o cabelo mais escuro e os olhos mais claros que os do irmão, embora também fossem castanhos. Era um pouco mais magro, porém jovem demais para que isso determinasse o tipo de corpor que teria no futuro. A diferença mais gritante era que enquanto Cordélio estava sempre sorrindo e descontraído Dannyl tinha a expressão séria. Era um dos que olhava para a frente, sem conversar com os demais.

No entanto ele desviou o rosto para Elliot, como se sentisse que era observado. Quando viu o loiro parou de andar. Dante também parou a caminhada e viu o garoto olhar rapidamente para os lados e depois correr em sua direção, com mala e tudo.

Elliot se encontrara com o irmãozinho de Cordélio poucas vezes antes, a maior parte em cerimônias que envolviam os familiares. Ele sempre pareceu um garotinho admirado com o ambiente ao redor, os olhinhos brilhando e seguindo Cordélio por toda parte. Havia crescido bastante.

Nos poucos segundos antes que Dannyl o alcançasse, ele se perguntou o que o garoto poderia querer. Ele não iria falar com ele só para perguntar se Elliot o reconhecia, não é? O loiro não estava a fim de nenhuma conversa leviana e boba que pessoas que pouco se conhecem tem quando se esbarram na rua e, de qualquer forma, se o garoto fosse ser um candidato para a escola preparatória ai mesmo que não deveria conversar muito com ele. Tenentes e alunos não deviam ser amigos, muito menos alunos do primeiro ano. Isso só serveria para fazer os instrutores pegarem ainda mais no pé do garoto, como se eles já não tivessem motivo suficiente para isso.

Dannyl parou na frente dele. Arfava um pouco, mas tinha uma expressão determinada que fez com que Elliot pelo menos esperasse para ouvir o que ele tinha a dizer. O garoto curvou-se, fazendo uma reverência um pouco exagerada.

— Tenente Dante, bom dia.

Elliot esperou.

— Eu poderia conversar com o senhor?

— Pode falar agora.

Dannyl ergue-se. Deu um rápido olhar para a fila que entrava nos alojamentos e retornou as íris douradas para Elliot. Havia algumas semelhanças entre ele e o irmão, se olhasse bem. O nariz fino e o formato do rosto. E o olhar determinado. Dannyl parecia com Cordélio quando este estava sério.

— Eu gostaria de fazer um pedido ao senhor.

— Se quer pedir algo é melhor procurar seu irmão.

A mandíbula de Dannyl se apertou. Seja lá o que tiver passado por sua mente, ele engoliu a resposta. Em vez disso falou.

— Meu irmão não pode me ajudar com isso. Tenente Dante, eu... Gostaria que o senhor me treinasse para a prova da escola preparatória.

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