Breazin
6 Capítulo 6
— Eu?- Dante ergueu as sobrancelhas com o pedido. Era algo incrivelmente arrogante mesmo que Dannyl provavelmente não tivesse noção disso.- Por que acha que você merece algum tipo de treinamento especial?
O garoto estremeceu, mas em sua defesa ele não recuou.
— Prometo que faria tudo o que o senhor pedir. Vou me esforçar mais do que qualquer um. Por favor, me dê uma chance.
Elliot suspirou.
— Você não entende, não é? Se não fosse pelo Cordélio eu nem saberia quem você é. Pensei que não quisesse receber um tratamento diferente por causa dele.
Os olhos de Dannyl se arregalaram e ele ergueu o rosto para Dante. Era poucos centímetros menor que o loiro.
— Como sabe que eu disse isso?
O fato dele ter esquecido de chamá-lo de "senhor" era prova de que realmente estava surpreso. Por um instante o próprio Elliot ficou sem palavras, então decidiu apenas contar a verdade.
— Eu escutei sua ligação. Cordélio colocou o som no viva-voz e eu estava no quarto.
— Ah não.- Dannyl cobriu o rosto com as mãos e soltou um muxoxo. Então pareceu se lembrar com quem estava falando.- Por favor, tenente Dante. Agora você sabe porque não posso pedir para ele, e também não posso falhar nessa prova. Eu não vou ter outra chance.
— Poucos candidatos têm outra chance depois de serem eliminados uma vez.- Elliot respondeu com severidade. Apesar de tudo, estava considerando a proposta. Dannyl parecia ter potencial e, por mais que não gostasse disso, era irmão de Cordélio. Não se sentiria bem de descartar o irmãozinho de seu companheiro.- Se quer tanto assim, me prove que realmente merece.
O garoto quase deu um salto de entusiasmo, mas se conteve e mesmo o esboço de sorriso que iluminou seu rosto por um segundo foi apagado.
— Sim, senhor! O que eu preciso fazer?
— É você quem precisa pensar em alguma coisa. Eu vou estar esperando.
Elliot viu a final da fila que entrava na escola preparatória. Era o sinal de que o tempo do garoto acabara. Sem mais palavras ele voltou sua caminhada, que era mais uma corrida lenta, ao redor da base. Viu pelo canto dos olhos quando Dannyl correu de volta à fila, com a mala balançando atrás de si. Contra sua expectativa, simpatizara com o garoto. Esperava que ele se saísse bem.
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Faltavam dois meses para a prova. Os candidatos eram convocados com antecedência para se preparar e para a prova, o que incluía uma série de palestras e instruções ministradas por oficiais de Rydef.
Dannyl tinha aquele tempo para treinar. Ele não teria segunda chance precisava ser aprovado naquele ano. Para isso teria que convencer o tenente Dante a tornar-se seu mestre o mais rápido possível. De nada adiantaria conseguir convencê-lo nas vésperas da prova.
O pior era que Dannyl fora sincero no que dissera. Ele estava preparado para se esforçar mais do que qualquer outro candidato e enfrentar qualquer desafio que o tenente lhe propusesse. Ele só não conseguia pensar em nada que pudesse fazer para impressioná-lo.
Ele sabia que essa não seria uma tarefa fácil em se tratando Elliot Dante Ventura. O filho do general Ventura, comandante do exercito de Breazinder, era reconhecidamente o melhor guerreiro da unidade de operações especiais. Fora o mais jovem cadete a se formar na academia e em sua formatura conquistara todas as insígnias concedidas às diferente habilidades, exceto uma. Qualquer coisa que Dannyl pudesse fazer provavelmente pareceria ridículo a alguém tão forte assim, e justamente por isso o garoto estava determinado de que ele era a pessoa certa para treiná-lo.
Logo depois de deixar sua mala no quarto ele saiu para caminhar pelo complexo militar. Os outros candidatos conversavam e se conheciam, mas ele estava preocupado demais com aquelas questões para se dar atenção a isso. Além do mais, queria aproveitar enquanto ainda era cedo e haveria menos oficiais por perto.
Havia uma distância considerável para se percorrer a pé entre a região da escola preparatória e da academia e àquela em que estava o quartel da unidade de operações especiais. Dannyl teve tempo para pensar durante o caminho, a região era quase deserta e ninguém tentou pará-lo.
Ele estava acostumado a andar bastante e a se perder nos próprios pensamentos enquanto isso. Quando seu pai morrera, antes que Cordélio se formasse e passasse a receber o salário de oficial, sua família passara por uma época difícil. Os empregos de sua mãe e Amélia mal eram capazes de manter a todos e eles tiveram que cortar o máximo possível de gastos. Dannyl era jovem naquela época, mas tomara para si a responsabilidade de cuidar de seus três irmãos menores enquanto elas trabalhavam. Ele os levava para a escola e caminhava todo o percurso ate seu próprio colégio, para economizar a passagem. A noite fazia o caminho inverso para buscá-lo e levá-los para casa.
Dannyl se lembrava que na época, apesar de todo o orgulho e respeito que sentia por Cordélio, ele o culpara por não estar por perto para ajudar. Hoje porém seu irmão era o principal responsável por sustentá-los.
Chegou aos primeiros prédios do quartel. Já podia avistar alguns militares, de azul e preto, um pouco mais a frente. Estava quase voltando quando o avistou.
Cordélio estava com o uniforme de corrida, shorts preto e blusa branca, e olhava para os lados como se procurasse alguém. Dannyl pensou em ir embora. Era o melhor a fazer. E mesmo assim sua mão se ergueu e ele acenou para o irmão.
Cordélio o viu, é claro, provavelmente teria visto de qualquer forma. Ele sorriu e correu até Dannyl.
— Você não me avisou que já tinha chegado.
— Eu ia ligar mais tarde.
— Ah. Mas mudou de ideia e decidiu vir me ver?
— Estava só caminhando.- Desviou os olhos para o chão.- Você estava procurando alguém?
— Sim, o Elliot. Queria conversar com ele, mas ele desapareceu bem cedo.- Seu rosto se fechou em uma careta.- Ele devia saber que eu ia procurá-lo, isso é bem a cara dele.
— Eu encontrei o tenente Dante mais cedo.
— Sério? É, ele costuma mesmo correr ao redor da escola preparatória e da academia.- Deu de ombros.- Como você está, ansioso pela prova?
O tom de Cordélio misturava felicidade e cautela, como se ele tentasse não irritar o menor. Dannyl tentou não se irritar com isso.
— Um pouco.- Mentiu. Após um momento de hesitação, continuou.- Posso te fazer uma pergunta estranha?
— É claro.
— Se você tivesse que impressionar o tenente Dante, o que faria?
Cordélio riu.
— O Elliot? Isso depende de que tipo de "impressionar" você está falando. Pode ser algo muito fácil ou muito difícil.
— Não... Deixa pra lá.
— O que foi, Dan? Pode falar, eu vou tentar te ajudar.
— Eu sei.- Dannyl respondeu, um pouco mais amargo do que gostaria.- Mas não preciso de ajuda. Até mais, Cordélio.
Despediu-se do irmão e voltou pelo caminho que levava à escola preparatória.
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Dante voltou a seu quarto para tomar banho. De alguma forma não cruzou com nenhum rosto conhecido, ou melhor, nenhum rosto que pudesse pará-lo para tentar conversar. Praticamente todos os rostos em Rydef lhe eram conhecidos.
Saiu do banheiro e colocou a farda negra padrão. Algo vibrava no bolso da jaqueta. Havia esquecido o celular ali, quase não usava o aparelho. E pegou-o e viu com surpresa que recebia uma ligação.
— Alô.
— Elliot?
—... Pai?
— Olá, Elliot. Tem algum compromisso hoje a tarde?
— Eu- Não. Eu ia treinar.
— Vou roubar algum minutos do seu treino. Irei passar por Rydef hoje a tarde e queria almoçar com você.
Dante não soube o que responder. Aquilo era... Inesperado.
— A que horas eu espero o senhor?
— Devo pousar às 13h. Me espere na entrada do prédio principal.
— Sim, senhor.
O general Ventura, comandante do exercito de Breazinder, desligou. Elliot checou as horas, ainda tinha algum tempo.
Seu pai queria almoçar consigo. O que será que era tão importante a ponto de ele ter de encontrá-lo pessoalmente? Ou será que ele realmente pensou no filho porque iria passar por Rydef? E pensou que poderia ve-lo...
Fazia algum tempo que Elliot não almoçava com o pai. Quando era mais novo isso acontecia com maior frequência, mas agora que tornara-se comandante do exército o general passava quase todos os dias viajando em missões urgentes e importantes.
Fazia ainda mais tempo que não via sua mãe. Nas poucas vezes que se encontraram, Ângela Livia Ventura era educada e gentil, uma perfeita dama, sabia desenhar e tocar piano. Tanta polidez e cortesia faziam com que Elliot a visse mais como uma estranha do que como a própria mãe.
Podia até imaginar o que Julian diria. "Que bom que você e seu pai finalmente estão tentando dialogar, Elliot. É o primeiro passo para construir um relacionamento saudável." Aquele idiota agia como se fosse uma espécie bizarra de terapeuta familiar, e nunca seguia os próprio conselhos. Mas em favor do moreno Dante precisava admitir que ele estava seguindo o trato que fizeram. Ele não tentara agarrá-lo ou beijá-lo na noite anterior. O mais longe que chegara foi segurar sua mão. Se fechasse os olhos e se concentrasse ele quase podia se lembrar da sensação.
Abriu os olhos e se levantou, frustrado. Estava agindo como um idiota. Não era hora para pensar nisso, agora que iria encontrar seu pai em poucos momentos. Ou melhor, nunca era hora de pensar nisso. Ele não era uma adolescente apaixonada era um soldado de elite do exército de Breazinder.
"Você é uma maquina, Elliot Ventura, não um ser humano." A voz de Kamil Gernot ecoou em sua mente. Ele parou de andar. Era verdade. Ele havia decidido ser mais do que um soldado. Mas mesmo assim... Mudanças eram sempre difíceis.
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Hans despediu-se da esposa na porta de seu quarto. Desceu as escadas para o primeiro andar e passou pela loja de instrumentos musicais, trancando novamente a porta ao sair.
Quando virou-se a primeira coisa que viu foi o carro preto brilhante parado do outro lado da rua a alguns metros. Caminhou no sentido oposto, os passos apressados, mas não foi rápido o suficiente. Já havia sido avistado.
— Hans.
Ele não parou.
— Hans, sua mãe esta falando com você.
A voz de Jules George Marcheri era autoritária. Ele insistia em pensar que ainda tinha algum poder sobre o filho. E, por mais que Hans detestasse admitir, realmente tinha; apenas não o tipo de poder que o homem imaginava.
Dois movimentos. Primeiro, parar de andar. Segundo, virar-se.
A rua estava vazia, ainda era cedo. E aqueles dois já estavam tocaiando a casa de sua esposa tentando, ou ao menos Hans esperava que esse fosse realmente o objetivo, emboscá-lo na saída.
Jules Marcheri era alto e ruivo. Com olhos pequenos e amendoados. Sua esposa tinha belos cabelos loiros ondulados e incríveis olhos azuis. Observando os três era impossível não notar as semelhanças que Hans tinha com os pais. O tom ruivo do pai, os olhos da mãe. Ele esperava que as similaridades parassem por ai.
— O que vocês querem?
— Quero conversar com você, Hans. Faz tanto tempo que não volta para casa.
— Eu não vou voltar, nunca. Aquela não é minha casa.- Seu tom era seco e direto. Ele sabia bem que, quando não tomava cuidado, suas palavras afiadas podiam cortar alguém até a alma. Naquele momento usava isso ao máximo.
— Ainda está com essa ideia? Pensei que um ano de rebeldia seria o suficiente para você recuperar a razão. Você não é mais uma criança.
— Não. Eu sou um homem casado e que está se atrasando para o trabalho porque as pessoas que um dia foram seus pais insistem em persegui-lo.
Os olhos de Eleonora se arregalaram. Os de George se estreitaram. Hans estava pronto para dar aquela conversa por encerrada e partir, quando se lembrou que havia um assunto a tratar.
— E parem de tentar prejudicar a Miria. Ela-
— Aquela mulher é a culpada de tudo isso!- Eleonora gritou.- Não vê que ela está tentando te usar? Eu sei que ela é bonita, filho, mas você não pode-
— Não fale dela assim.
A mulher se calou. Hans não gritara. Pelo contrário, sua voz fora baixa, fria, cortante.
— Você está sendo tolo. Infantil. Não faz ideia-
George se interrompeu. Seu olhar estava fixo em um ponto atrás do filho. Hans não precisou se virar para saber o que ele olhava.
— Aqui não é lugar para você.- Ele terminou.
— Aqui é a minha casa.- Miria falou, caminhando para o lado do marido.
— Sua meretriz interesseira... Fique longe do meu filho!
Os próximos segundos pareceram durar uma eternidade. Eleonora atirou-se em direção a Miria. Hans a interceptou. Segurou a mãe e girou-a, prendendo seus braços atrás das costas. A mulher arfou, provavelmente de susto. Aquela era uma postura de restrição, não iria machucá-la.
— Hans!- Seu pai perdeu a compostura.- Como se atreve a atacar a sua mãe?!
— Estou contendo-a, da mesma forma que faria com qualquer um que tentasse perturbar a paz em Breazinder. É minha obrigação como oficial do exército.- Disse lentamente, pronunciando com calma cada palavra. Os lábios de Eleonora tremiam mas ele não se importava.- Como militar eu peço que, por favor, parem de causar problemas. Como Hans Vere eu digo: saiam daqui.
As palavras pesaram no ambiente. Quando Hans e Miria se casaram, o garoto tentou tomar para si o sobrenome da esposa. Miria, no entanto, lhe pedira que não fizesse isso. A partir do momento em que Hans recusasse seu nome de origem nobre e passasse a se chamar Hans Vere, ele estaria cortando os últimos laços com sua família e junto com eles qualquer possível tentativa de reconciliação.
George encarava o filho. Hans viu em seu olhar que aquela fora a última tentativa do homem. Da próxima vez que voltasse não seria em termos tão agradáveis. O rapaz soltou Eleonora, que permaneceu ajoelhada no chão com olhos lacrimejantes. Por um breve segundo o peito de Hans apertou.
"Essa é a minha mãe."- Ele pensou com uma mistura estranha de sentimentos. Então desviou o olhar e voltou para o lado de Miria. Nesse momento era a moça que George encarava, com uma expressão ainda pior do que a que dera ao filho. Miria não se abalou. Fazia tempo que olhares não a intimidavam.
— Você ainda vai se arrepender, garoto.
— Vão. Embora.
Eles foram. Hans esperou até ter certeza que o carro preto já estava distante antes de se despedir da esposa.
— Hans.- Ela o segurou
— Eu preciso ir, Miria. Conversamos mais tarde.
Miria soltou seu pulso. Então segurou seu rosto com as duas mãos e beijou-o. Suavemente. Com intensidade. Uma promessa.
— Tudo bem. Mas eu não vou esquecer.
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