Mudanças.

Gajeel.

Dor. Sentia muita dor. E essa dor insuportável se instalava em minha cabeça. Não parecia que ela ia explodir, parecia que ela já havia explodido. Eu não queria acordar, provavelmente abrir os olhos só me causaria mais dor... Mas estava frio e molhado.

Onde é que eu estava mesmo? Não tinha a mínima idéia... Eu precisava acordar.

Respirei fundo antes de tentar abrir os olhos. A primeira coisa que vi foram cabelos azuis quase tocando o meu rosto. Não estava tão claro como eu imaginava. Havia uma coberta em cima de nossas cabeças. A pirralha nem notou que eu acordava, mantinha os olhos fechados e apenas seus lábios se moviam. Não sabia se ela estava dizendo algo, ou estava tremendo de frio. Apesar de haver uma coberta, ela estava completamente molhada, e a água que a encharcava era muito, muito fria.

Levy estava extremamente pálida e seus lábios quase roxos, minha cabeça se mantinha deitada em seu colo. Queria poder me levantar e perguntou o que estava acontecendo, mas a dor na minha cabeça era tanta que eu não conseguia nem falar. A ultima coisa de que me lembro era... Era...

Não me lembro de nada.

Tentei mais uma vez falar, chamar pelo nome dela, mas não conseguia. Fiquei a encarando na esperança de que abrisse os olhos e me visse. Mas ela apenas tremia. Ou será que sussurrava? Tentei prestar atenção em seus lábios, vê se formavam alguma palavra.

— Por favor...

Ela sussurrava.

— Acorde...

Será que era a mim quem ela chamava? Eu estou acordado Levy.

— Le... – tentei falar. Mas assim como ela, só um mínimo sussurro saiu.

Fechei os olhos e tentei me concentrar no silêncio. Quem sabe assim a dor não amenizava.

Mas não havia silêncio.

Sirenes. Sim, havia o som de sirenes. E parecia que havia muita gente, pois a gritaria também era ouvida.

Chuveiro. Estávamos no banheiro então. Já era de se esperar, mas só agora eu escutava o barulho do chuveiro ligado.

Soluços. Levy chorava. Não dava para diferenciar as lágrimas da água que caia, mas eu sabia que ela chorava.

Abri os olhos novamente e desta vez a pirralha me notou. Percebi que ela segurou um soluço quando me viu, e logo após me abraçou fortemente.

— Você está vivo! – ela disse e desta vez pude escutar com mais clareza seu choro.

— Ai... – foi o que consegui dizer após o abraço apertado que acabou apertando um pouco minha cabeça.

— Desculpe... Você está com um galo enorme! – ela disse rindo, e passando a mão lentamente em minha cabeça o que me causou um leve arrepio.

— Está doendo? – ela perguntou gentilmente.

— Muito... – foi o que consegui responder.

— Fiquei tão preocupada... – ela sussurrou e se abaixou um pouco com o intuito de me dar um beijo.

Fechei os olhos esperando seus lábios, porém escuto a porta do banheiro ser empurrada violentamente, assustando a nos dois.

— Eu achei civis! Repetindo, eu achei civis! – gritou uma voz desconhecida.

Passos foram se aproximando, e a coberta que estava em nossas cabeças foi retirada. A luz me cegou por alguns instantes, até eu conseguir similar a pessoa que agora se agachava diante a mim. Aquela farda com certeza era do corpo de bombeiros.

Mas o que ele estava fazendo aqui?!

— Onde vocês estão? Quantos civis? — disse a voz que saia pelo radio que o bombeiro carregava.

— Dois civis, uma adolescente e um homem. Estamos no banheiro da casa. O fogo anda se alastrando para a cozinha. A adolescente parece bem, o homem tem um corte na região da cabeça e com sangramento. – disse o bombeiro pelo radio.

Fogo? Mas o que havia acontecido? Levy tentou cozinhar?

— Qual o nome de vocês? – ele perguntou após enviar a mensagem.

— Levy McGarden e Gajeel Redfox. – respondeu a pirralha – Ele bateu a cabeça com muita força na hora da explosão! Mal está conseguindo falar! Por favor o tire daqui!

Explosão... Como um baque, as lembranças vieram a tona... A caixa suspeita, o momento em que joguei Levy no sofá, a explosão...

— Aah! – gritei tocando minha cabeça, a dor parecia ter duplicado.

— Atenção! Preciso de um resgate! Estou aqui com Levy McGarden e Gajeel Redfox. Repetindo, estou aqui com Levy McGarden e Gajeel Redfox! Preciso de um resgate para Gajeel Redfox que se encontra muito ferido!

— Estamos enviando mais pessoas!

Escutava as vozes, mas não conseguia raciocinar...

— Consegue se levantar Levy?

— Sim!

— Preciso que me ajude a levantar esse cara!

Minha cabeça girava e doía. Estava difícil manter a consciência...

— Escute Levy, eu preciso que você se enrole na coberta e vá andando para fora. Quando encontrar outro bombeiro o avise do lugar onde estamos.

— Certo!

Como ele ousa... Mandar ela andar no fog...

— Hey! Gajeel?! Preciso que você mantenha a consciência cara!

Manter... a... consciência...

Então tudo se apagou.

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Abri os olhos e desta vez encontrei tudo branco. A claridade incomodou logo de inicio, mas depois me acostumei. Sentei-me e analisei o local onde me encontrava. Eu estava em um quarto de hospital. Estava vazio, havia apenas duas camas, uma poltrona ao lado de cada cama, um armário embutido na parede e uma televisão pequena. Tudo muito branco e em cores neutras.

Na poltrona ao lado da minha cama, havia algumas peças de roupas. Foi então que notei que eu estava usando apenas uma camisola de hospital.

— Mas que merda que aconteceu?! – respirei fundo e tentei raciocinar. – Vamos lá Gajeel, qual a ultima coisa que você se lembra...Banheiro! É, eu estava no banheiro com a Levy. Havia um bombeiro também... É claro! A explosão! Estávamos no banheiro devido a explosão que teve na sala... – aos poucos as coisas faziam sentido. – Minha cabeça...

Instintivamente toquei no lugar onde ainda estava um pouco dolorido, minha cabeça estava enfaixada.

— Certo, se eu estou em um hospital significa que horas já se passaram. Vou embora daqui.

Levantei e tirei alguns fios e sondas que estavam ligados em mim, vestindo minhas roupas logo em seguida. Abri a porta do quarto devagar. Se alguma enfermeira chata me visse, provavelmente mandaria eu voltar para cama. Por sorte, não havia ninguém no corredor.

— Gajeel...? – disse uma voz doce que eu reconheceria em qualquer lugar.

Assim que me virei, não tive tempo nem de falar. Levy veio correndo até mim e pulou. Segurei-a da melhor forma que pude, que foi encaixando as mãos embaixo do seu quadril e a tirando do chão. Ela abraçava fortemente meu pescoço.

— Ei, o que houve? – perguntei depois de um tempo assim.

— Você está bem...

— É claro que estou! – afastei-a um pouco e me segurei para não dar um beijo nela.

Sarah vinha logo atrás com uma cara que parecia aliviada, mas ao mesmo tempo indecifrável. Coloquei Levy no chão e ela abraçou minha cintura.

— Eai. – falei despreocupado.

Sarah me analisou de cima a baixo e quando finalmente me encarou ela disse:

— Precisamos conversar. – virou as costas e saiu andando.

— Aconteceu algo que não estou sabendo? – perguntei para a Pirralha.

— Depois que fomos resgatados e tivemos primeiros socorros, você foi mandado para cá e eu tive que ir para a delegacia dizer tudo o que aconteceu. Minha mãe parecia estar em choque. Quando ela me viu, ela quase me esmagou em um abraço mas depois não disse mais nada, apesar de eu notar que ela me observava na maior parte do tempo.

— Então você não sabe o que ela quer?

— Não tenho a mínima idéia. Ah e tem mais uma coisa...

— O que?

— Sua mãe está aqui... – ela disse de cabeça baixa.

— Minha mãe? O que ela faz aqui? – perguntei surpreso

— Tivemos que falar pra ela. Faz 48 horas que está desacordado Gajeel...

Parei para analisar minha situação. Estou desacordado a dois dias, minha cabeça tem um galo enorme, minha mãe esta no hospital, Sarah quer conversa algo serio comigo... Eu diria que minha situação não está uma das melhores...

Dei uma bagunçada no cabelo da pirralha antes de seguir pelo mesmo caminho de Sarah. Ela estava perto da máquina de café. Parecia pensativa, estava tão perdida em seus pensamentos que não notou quando cheguei perto. Despertou quando peguei um copo e enchi um pouco com aquela bebida quente.

— Você não deveria tomar isso... Está de jejum. – ela disse calma.

— Estou dormindo a dois dias, preciso de cafeína para não dormir por mais tempo.

Ela deu uma risada leve e depois voltou a ficar séria.

— O que aconteceu? – perguntei.

— Tudo. – ela disse de cabeça baixa – Eu estava errada... Sobre tudo...

— O que seria esse tudo? – perguntei confuso.

Sarah levantou a cabeça, seus olhos emanavam ira.

— Enviaram uma bomba para minha casa! – ela disse exaltada — Minha filha não está segura na escola, na casa que não existe mais, em nenhum lugar desta cidade! Estão tentando matar uma menina de dezessete anos só porque eu apreendi a merda de um carregamento de armas! Eu estava errada quando achava que poderia proteger minha filha! Errada quando não insisti que continuassem a vigilância! Errada em achar que ficaria tudo bem, que eles a deixariam em paz... Por minha causa, Levy quase morreu! Se você não estivesse...

— A bomba era para mim – disse interrompendo-a.

— Eu sei que era pra você. – ela disse mais calma – Mesmo assim, se você não tivesse ido até lá, Levy estaria morta. E alem de colocá-la em risco, eu também coloquei você!

— A culpa não é sua Sarah! Você fez o que pode, nunca imaginaria que eles enviariam uma bomba.

— Verdade... Eu nunca imaginaria isso porque eu os subestimei.

— Pare de se culpar... A culpa é daqueles desgraçados...

— Eles sabem o seu nome Gajeel. – ela disse me interrompendo – Sabe o que isso significa? Que nem você, e provavelmente nem a sua mãe estão seguros aqui! Se eles sabem o seu nome, o que garante que não saibam onde você mora?

Fiquei encarando Sarah completamente perplexo. Eles sabiam o meu nome. A caixa, apesar de ter sido entregue na casa dela, foi direcionada a mim.

— Eu quero que você vá embora. – ela disse baixo, quase num sussurro.

Encarei Sarah sem entender o que aquelas palavras significavam.

— Como assim ir embora? Ficou maluca?! – falei no mesmo tom de voz – Por que estamos sussurrando?

— As paredes podem ter ouvidos – ela disse e logo em seguida olhou ao redor, constatando que continuávamos sozinhos — Estou extremamente sã. E você vai embora. Vai para outra cidade, e eu vou demitir você.

— O que quer dizer com isso?! – falei irritado — Eu não vou...

— Fale baixo! – ela disse pondo a mão em minha boca. – Você vai embora sim! Vou tirar você e sua mãe da cidade, por tempo indeterminado.

Ela tirou a mão da minha boca, e voltei a ficar irritado. Mas desta vez falei mais baixo.

— Sei que estou correndo risco de vida, mas se você me mandar para outra cidade, quem vai proteger a Levy? Você não pode simplesmente ir embora com ela também. E duvido que outra pessoa queira arriscar a própria vida pela pirralha que não eu ou você.

— Eu realmente não entendo porque você tem tanta devoção pela vida de minha filha... – ela disse com os olhos semicerrados.

“Acho que você disse merda Gajeel” Bem, é por você. É porque Levy é uma boa garota, não merece o que está passando... Tenho compaixão sabe.

— Hm... Mas voltando ao assunto...

— Exatamente isso, o assunto! – disse abaixando o tom de voz – Eu não vou embora.

— Você vai – ela disse igualmente baixo.

— Mas Levy...

— Ela vai junto.

Meu silencio foi o suficiente para fazer com que Sarah começasse a explicar aquela historia direito.

— Você, Kimberly e Levy vão embora para Hargeon. É uma cidade pequena e turística.

— Sarah... Isso é complicado... Não sei se posso levar minha mãe junto.

— Vai ter que contar a verdade a ela. Todos os dias. Kimberly vai entender.

O silencio prevaleceu. Fiquei imaginando eu contando todos os dias para minha mãe que meu pai estava morto, que ela tinha um sério problema de perda de memória, que a pessoa que matou meu pai agora estava me caçando... Eu não sei se...

— Eu não vou conseguir – falei após minutos em silencio.

— Como não?!

— Você... Você não sabe como é! Você não viu como ela reage quando conto a verdade... Eu não vou conseguir fazer isso Sarah.

— Mas será necessário Gajeel! Escute, não importa o que você faça apenas saia da cidade. E leve sua mãe e minha filha junto. É apenas isso que eu te peço...

Respirei fundo.

— Como vai ser? – perguntei a ela.

— Vou mandar os três para Hargeon, tenho uma casa de praia na cidade. Após eu demitir você, você vai sumir. Arranjarei identidades falsas. Vão pegar um trem para a cidade. Irei arranjar documentos também, onde sua mãe será tia da Levy e terá a guarda legal dela. A matricule numa escola, não quero que ela perca estudos. Você não precisara arrumar um emprego, seu trabalho vai ser ficar invisível.

Absorvi aquelas informações imaginando quanto tempo fiquei desacordado para Sarah ter pensado em tudo.

— Quando vamos? – perguntei após um tempo em silencio.

— Imediatamente.

Virei-me e fui seguindo pelo corredor em direção a saída. Precisava arrumar tudo para uma mudança imediata.