Casa de Praia

Levy

— Tudo bem – falei sem interesse nenhum.

E então começou os “O que’s”.

— O que? – disse minha mãe expressando surpresa.

— O que?! – disse Juvia parecendo irritada.

— O que? – falei desinteressada – Qual o problema?

— Você entendeu o que eu disse filha?

— Sim mãe, você disse que eu teria que passar um tempo fora da cidade junto com o Gajeel, até a investigação sobre a explosão chegar a alguma conclusão.

— Não querida, você não entendeu! – disse Juvia exaltada – Você vai sumir do mapa junto com aquele cara! Compreende isso? Vai ter que conviver com ele em algum lugar que sua mãe provavelmente não vai contar para mim, e você não pode gostar disso!

— Juvia, você está paranóica demais... – falou Kana trazendo quatro milk-shakes.

Após Gajeel ter fugido do hospital para algum lugar desconhecido, e minha mãe ter levado a senhora Kim e Mira para a casa, viemos para o Alberona’s Bar. É uma lanchonete que foi da mãe da Kana, e que após ela morrer Gildarts assumiu. Já havia passado da meia-noite, e minha mãe disse que tinha algo importante para dizer, lógico que as meninas quiseram ficar junto a mim depois do ocorrido.

— Bem... – começou minha mãe – Então você realmente não vê problema em passar um tempo afastada com o Gajeel? Até umas semanas atrás eu lembro de ver vocês quase se matando...

Ah sim, agora eu entendi porque minha mãe pareceu surpresa por eu ter aceitado tudo calmamente. Ela não sabia que eu e o Gajeel estávamos nos dando bem até demais...

— É que eu entendo a situação, mãe... – comecei tentando ser o mais natural possível – Eu quase morri! Não entendo esses acontecimentos mas sei que é para o meu bem, e eu não quero passar por aquilo de novo! Então, se eu tiver que me afastar por um tempo, mesmo que tenha que aguentar o Gajeel, se for para o meu bem então eu farei o sacrifício.

Minha mãe riu. Uma risada simples e rápida, mas foi uma risada. E isso foi bom, pois finalmente ela tirou do rosto aquele olhar acabado.

— Que bom que você entendeu querida – ela disse pegando na minha mão por cima da mesa – Talvez as coisas fiquem difíceis a partir de agora, mas assim que resolver tudo trarei você de volta!

Devolvi um sorriso a ela, que foi desfeito assim que ouvi Juvia batendo na mesa com força após dar um gole no Milk-shake dela.

— Ah! Faça-me o favor, tia Sarah! – disse Juvia extremamente irritada — Não tem nenhum outro jeito de resolver isso?!

— Infelizmente não – mamãe disse, voltando a usar seu semblante sério — É arriscado demais deixar a Levy perambulando por aí, principalmente depois do que houve...

— Você poderia deixar várias pessoas de guarda junto dela, então!

Juvia estava irritada demais com tudo isso... Me pergunto o que houve para agora ela está odiando tanto o Gajeel... Nem falar com ele mais ela fala!

— Como espera que eu proteja a cidade de outros problemas se grande parte do batalhão está cuidando dos meus problemas pessoais? Isso está completamente fora de questão, Juvia. – disse Sarah aparentemente calma.

Não havia outro jeito, ela sabia disso. Essa idéia era o melhor que ela poderia fazer por mim.

— Juvia, relaxa! — Kana interviu – Nós sabemos que você é super protetora e tudo o mais, mas a tia Sarah não se preocupa menos que você! Por isso ela decidiu isso!

— E outra – eu disse – Eu não sou tão infantil a ponto de arriscar minha vida por orgulho, entendo que isso é necessário.

— Ou entende que vai ter uma chance de se pegar... — Juvia começou porem dei um chute discreto na sua canela por debaixo da mesa.

Foi forte o suficiente para doer. E sutil ao ponto de ninguém notar. Nos encaramos por poucos segundos. Ela não pretendia me entregar, não é?

— O que você ia dizer querida? – disse Sarah encarando Juvia.

Essa dava seu melhor sorriso inocente e retornava sua fala.

— Eu dizia que, Levy também deve entender que essa é uma chance de se... Perguntar se é realmente necessário tantas intrigas com o Gajeel... Talvez até fiquem mais próximos...?

— Sim – falei devolvendo seu sorriso falso – Se ele ajudar não sendo muito chato.

— Vocês realmente não se dão bem – disse Juvia seguida de uma risada forçada.

— Pois é...

— Confesso que acho isso é estranho... – começou Sarah — Mas é bom ver que você está fazendo um esforço pra se dar melhor com ele, querida.

Eu e Juvia ficamos nos encarando enquanto mamãe e Kana estavam distraídas com seus Milk-shakes. Juvia tinha a intenção de contar a verdade para a minha mãe, assim de repente, ou foi só calor do momento? Ela sabe que eu gosto do Gajeel, porque fica tão irritada com isso agora? Acho que ela leu meus pensamentos, pois sussurrou tão baixo que acho que nem chegou a sair som de seus lábios, a palavra “Lolicon”. Ou pelo menos foi isso que eu entendi.

— Bem meninas, já está bem tarde! Que tal irmos para a casa? – disse o Tiozão surgindo de algum lugar da lanchonete.

— Acho essa uma excelente idéia! – disse mamãe – Estou morta, uma noite de sono me faria bem.

— Então vamos indo, amanhã o dia de vocês será longo – disse Gildarts já fechando a lanchonete — E Juvia... – disse enquanto íamos para o carro — Nem pense em ir para casa. Você vai fazer companhia para mim. Alguém precisa aguentar essas mulheres!

— Apenas avisando que “dessas” mulheres, eu sou a adulta. – disse mamãe.

Rimos no caminho para a casa da Kana com as piadas que o Tiozão contava. Distraída com as risadas e a caminhada até a casa, comecei a pensar na minha atual situação. Minha mãe certamente não sabia que eu sabia de tudo, por isso me escondeu detalhes de para onde vou e por que eu vou. E também não falou mais nada sobre a bomba enviada para a nossa casa. Depois que relatei o que havia ocorrido, ela não comentou mais... Então ela não sabe que Gajeel já me contou tudo.

Pensando nisso, irei viver com ele agora... Na hora talvez eu não tenha pensando direito, mas analisando melhor a situação, estou completamente eufórica com essa idéia.

Digo, eu convivo com ele diariamente, já estou até acostumada com a sua presença. Porem agora, não apenas vamos conviver juntos diariamente, mas vamos dormir na mesma casa também. E o que mais me deixa eufórica é que vamos estar longe de conhecidos... Não vamos precisar nos esconder, ou fingir qualquer coisa...

Me pergunto se ele pensa o mesmo que eu...

Após três semanas desde a explosão, depois de passar a noite na casa da Kana, eu e minha mãe fomos para um pequeno apartamento. Ele pertencia ao governo e estava fora de uso a anos após ter sido confiscado pela policia. Cederam o apartamento para nós temporariamente. E nas últimas três semana ficamos lá. Ou melhor, eu fiquei.

Mamãe vivia fora, dizendo que tinha uns problemas para resolver, e eu não poderia sair de casa. Havia um policial – estagiário para ser mais exata – que ficava de guarda na porta. Nessas três semanas eu também não vi Gajeel. Me pergunto se ele realmente havia fugido do hospital para bem longe de todos, ou estava apenas ocupado demais.

Passar três semanas trancada em um apartamento pequeno era uma merda! Piorava ainda mais ao não ter sequer um livro para passar o tempo. Estava triste por perder meus bebês, mas ao menos o fogo não chegou em nenhum dos quartos, então não cheguei a perder muita coisa.

Eu também não poderia receber visita das meninas. Falava com elas apenas pela internet. Minha mãe disse que não queria arriscar que alguém descobrisse onde estávamos.

Esse tempo sozinho serviu-me para refletir. Refletir sobre mim, sobre minha vida, sobre o armário cabeludo que eu não via há tempos...

Daqui a dois dias, irá fazer três meses que nos conhecemos. E daqui a seis dias, irá fazer dois meses que estamos... Tendo alguma coisa. Não sei se posso chamar de namoro, pois ele mesmo nunca disse nada sobre isso. A gente... Se pega. Se beija. Se amassa... Não sei dizer se ele considera algo oficial ou não. Talvez para ele isso seja apenas um caso. Para mim... Bem, eu não sei dizer o que é...

No mês que ele passou como meu “professor substituto de Educação Física”, eu treinei muito. Tanto em casa, como na escola. Gajeel dizia que as aulas de Educação Física na escola serviam como um aquecimento, para que quando eu chegasse em casa já fosse direito treinar alto defesa ou seja lá o que ele estivesse ensinando.

Havia evoluído um pouco. Não conseguia derrubar ele no chão, mas conseguia desarmá-lo. O que eu achava ser algo muito bom. E se tornava ainda melhor, pois sabia que ele não pegava leve comigo. Muitas vezes fiquei com marcas roxas pelo corpo, e com certeza não eram marcas de amor... O pós-treino se resumia em eu e Gajeel se atracando no sofá.

Assim que ele me beijava pela primeira vez, eu não raciocinava pelas próximas horas. Seu beijo era selvagem ao mesmo tempo em que era carinhoso... Meio contraditório, mas era isso que eu sentia quando sua língua se enroscava com a minha e suas firmes mãos acariciavam meu cabelo... Minha cintura... Minhas coxas... Aquelas mãos nunca ficavam paradas! E eu adorava e odiava isso. Adorava porque seu toque é extremamente gratificante e excitante. Odiava porque ele se colocava um limite. O mais intimo que Gajeel chegou a me tocar, foi quando deu um singelo e nada discreto aperto nos meus glúteos macios. Ao menos foi isso que ele disse...

“- Eu adoro seus glúteos macios... – falou Gajeel com sua voz rouca e inebriante ao pé de meu ouvido.”

Eu ia protestar, mas não tive tempo, pois logo após meus lábios foram tomados pelo dele e não me lembro de mais nada que não seja as mãos, os lábios, os olhares e o cheiro do Sr. Gajeel Redfox.

Fiquei horas perdida em meus pensamentos, quando notei já estava anoitecendo. Decidi ir arrumar minhas malas. Ao que mamãe havia me dito, era hoje que eu me mudaria para sei lá onde... Com o Gajeel... Sozinhos... Por tempo indeterminado...

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— Chegamos... – disse Gajeel estacionando o carro em algum lugar em meio a noite escura.

Não sabia onde estávamos. Depois que minha mãe chegou em casa, ela apenas me deu um pasta preta e três passaportes de trêm. Disse para entregar ao Gajeel assim que o visse. Ela me deixou na estação de trêm e fiquei a procura de achar Gajeel. Até que o vi sentado em um dos bancos da estação, com a senhora Kim ao seu lado.

Ela observava tudo com um olhar perdida. Me aproximei e nem consegui dizer nada, pois logo em seguida ele se levanto já dizendo um sonoro “Vamos” e saiu andando. E sua mãe foi o seguindo.

Entramos no trêm, e após sentarmos Gajeel ficou me encarando. Imediatamente entreguei a pasta e os passaportes para ele.

Sem dizer nenhuma palavra, ele abriu a pasta e começou a mexer nos papeis que tinha. Logo entendi do que se tratava quando ele me entregou um conjunto de documentos, onde o nome escrito era July Martinez e estava com a minha foto.

— Minha mãe anda aprendendo alguma coisa comigo, pelo jeito. – falei para cortar o clima silencioso.

Gajeel encarava irritado os papeis nas mãos deles. Por alguns instantes pensei até ter visto um tique em seu olho esquerdo. Me inclinei para ver o que o deixava tão irritado. Então vi sua foto seguida do nome Romeu Martinez.

Eu tentei. Juro que tentei. Mas foi impossível segurar o riso. Ou melhor, a gargalhada alta que acabei dando.

Gajeel, ou Romeu... – não consigo levar esse nome a sério – Apenas me encarou com um olho fuzilante.

Eu iria irritá-lo mais, porem fui cortada por uma voz baixa e melodiosa da mulher ao seu lado.

— Quem é você? – perguntou Kim olhando para mim

Gajeel suspirou. Fechou a pasta e encarou a mãe.

— Eu já disse quem viria conosco mãe. A filha da Sarah...

— Ah sim! A menina McGarden! – ela disse com um pequeno sorriso no rosto – Ele te contou mais do que contou para mim sobre essa tal viagem?

— Se eu te disser que não o vejo a três semanas, você acredita? – falei devolvendo o sorriso.

Observei Gajeel pelo canto dos olhos, ele havia virado o rosto para o outro lado, porem não falou nada. Nenhuma gracinha. Nenhuma provocação... Me pergunto se ele está com algum problema na fala, ou simplesmente está me evitando...

A viagem foi em silêncio. Quando chegamos, fomos para o estacionamento da estação e lá havia um carro corsa sedan 2014 preto nos esperando. Gajeel estava com as chaves, e assim que ajeitamos as malas, fomos para algum lugar desconhecido. No meio do caminho ele deu um remédio para a dona Kim, que dormiu a viajem toda.

A única coisa que eu sabia era que hoje é dia dois de agosto e estávamos em Hargeon. Era uma pequena cidade turística do estado de Fiore. Me lembro que aqui havia muitas praias, mas apenas isso.

Gajeel desceu do carro e tentei enxergar algo com a luz dos faróis. Já passava da meia noite, havíamos pegado o ultimo horário do trem, e foi uma viagem de duas horas e meia contando com a viagem de carro. O chão não era asfaltado, e logo em frente havia um portão de madeira. Gajeel o abriu e voltou para o carro.

Assim que adentramos a propriedade, eu desci do carro e tentei observar tudo de mais perto. Havia uma casa, e o cheiro de maresia era forte. Também escutei sons de ondas então deduzir ser uma casa de praia. A propriedade aparentemente era pequena. O chão era grama e só havia espaço para um carro. Logo vinha uma casa, o que podíamos ver parecia ser apenas a lateral dela. Um caminho de pedras brancas nos levava até a entrada. Peguei apenas algumas malas, enquanto Gajeel carregava Kim no colo, subimos três degraus e Gajeel destrancou a porta. Depositei minhas malas no chão e tentei achar algum interruptor de luz.

A casa me parecia familiar, mas ao mesmo tempo não. Uma simples decoração rústica enfeitava a sala. Havia apenas dois sofás pequenos e uma estante, perto da estante havia uma escada que subia para o segundo andar da casa. Do outro lado havia uma bancada que separava a sala da cozinha. Na cozinha também não havia muitas coisas. Uma geladeira, um fogão e um armário. Mais em frente da porta de entrada, havia outra porta. Porem essa era de vidro e dava direto para a praia. Não percebi que havia ficava tanto tempo parada observando a casa, foi tempo o suficiente para Gajeel levar Kim para o andar de cima, descer, pegar as malas restante no carro, voltar e trancar a porta. Só voltei para a realidade quando escutei a voz de Gajeel ecoando naquela casa.

— Se lembrando de algo? – ele perguntou.

— Tem alguma coisa para lembrar? – o olhei confusa.

— Sua mãe não falou com você sobre o lugar que viríamos?

— Ela apenas disse que eu iria sumir por um tempo, mas não disse para onde iria.

— Essa era a casa de praia do seu pai – ele disse – Sarah falou que você não vem para cá a anos, achei que estivesse relembrando de algo já que ficou parada no meio do caminho.

Observei a casa novamente.

Então era isso que a fazia me parecer familiar. Lembro de sair com meu pai para ir pescar. Lembro que era sempre ele e um amigo. Lembro que havia uma casa onde eles passavam o final de semana... Mas não lembro dos detalhes de nada.

— Acho que a ultima vez que vim para cá eu ainda era pequena...

— Você era? – disse Gajeel com um tom debochado.

— Sim, eu ERA pequena. Deveria ter uns quatro anos... Não me lembro muito do lugar em si, mas lembro que havia um lugar.

— Se você está dizendo que cresceu algo desde os quatro anos, me pergunto se você era algum tipo de anã ou pigmeu...

— Haha, muito engraçadinho você!

Ficamos em silêncio por um tempo. E eu não aguentava mais silêncio.

— Pelo jeito você voltou ao normal. Você estava tão quieto que me perguntava se era você mesmo.

Olhei para o homem encostado na bancada da cozinha, e seu olhar parecia triste, mesmo estando com o seu sorriso debochado de sempre. Ele se desencostou da bancada e com um gesto de cabeça me pediu para segui-lo até a porta grande e de vidro que dava para a praia.

Sentamos na escadaria que descia para a areia. Estava noite, e a lua era a única coisa que iluminava a pequena praia. As ondas eram tão pequenas que parecia que a água estava parada. A brisa fresca de verão soprava e bagunçava meus cabelos.

Olhei para Gajeel e ele estava com o olhar perdido no céu. Fiquei admirando então a silhueta de seu rosto. O olhar sempre selvagem parecia mais melancólico. Na lateral do rosto havia uma barba bem ralinha para fazer.

— O que anda acontecendo? – perguntei.

Ele continuou olhando para o céu quando me respondeu.

— Não é nada, é só que... Permaneci em silencio na viagem porque não queria falar nada na frente da minha mãe. Já foi difícil fazer ela vim, não queria que ela desse algum escândalo...

— O que você contou pra ela?

— Falei que uma coisa ruim havia acontecido e que teríamos que sair da cidade por um tempo junto com a filha de Sarah e Mike McGarden.

Então Kim conhecia meus pais?

— E ela aceitou isso? – perguntei depois de analisar como ela poderia conhecer os meus pais.

Lembro de ela ter me chamado de menina McGarden. Então acredito que conheça minha família...

— Não totalmente – disse Gajeel — Então falei que meu pai estaria nos esperando. Só precisava de uma desculpa para fazê-la viajar, ela não vai lembrar-se de nada mesmo...

— Não diga isso! – falei e ele dirigiu o olhar para mim — Você disse que com o tempo ela acabou se acostumando com a presença da Mira, provavelmente vai sentir falta dela amanhã.

— É... Falando nisso... Vou precisar da sua ajuda amanhã, então não se assuste quando eu te acordar.

Falando em acordar, Gajeel me lembrou de um pequeno detalhe...

— Você... Você pretende dormir comigo? – senti minhas bochechas corarem após dizer isso.

Gajeel olhava para mim, e quando devolvi o olhar minhas bochechas coraram mais. Pois Gajeel estava com um sorriso malicioso no rosto.

— Gihi, desculpe te desapontar pirralha, mas não vai ser dessa vez que você vai ter meu corpinho – ele disse segurando em meu queixo.

Tem como uma pessoa ficar mais vermelha do que antes? Sendo que o antes já era o extremo?

— Eu não sei do que você está falando! – disse virando o rosto e me livrando de suas mãos — Pelo o que eu me lembre, a casa só tem dois quartos!

— Eu sei – ele disse simplesmente – E eu e minha mãe vamos ficar em um, e você ficara no outro.

— Poderia ter dito isso desde o inicio... – falei. Ou melhor, sussurrei. Porem ele conseguiu escutar.

— Se eu tivesse dito desde o inicio, teria perdido a diversão que é ver você envergonhada!

Gajeel então levantou da escada me pegando no colo.

— Ei! O que pensa que está fazendo?!

— Vamos nadar um pouco! Gihihi – ele disse correndo para a água.

— Está louco! – falei tentando me solta de seu aperto – A água deve está extremamente..!

Não tive tempo de terminar a frase. Logo senti a água gelada me consumindo. Prendi a respiração quando Gajeel deu um mergulho ainda me segurando.

— Isso está gelado!! – falei assim que retornamos a superfície.

— Vem cá que eu te esquento – ele disse e antes que eu protestasse me puxou colando nossos corpos e preenchendo meus lábios com os dele.

Como sempre seu beijo me calava e me fazia esquecer completamente a raiva. E pelo jeito o frio também...

Acordei com Gajeel acariciando meu cabelo. O sol atravessava a janela do quarto onde eu estava. Na divisão eu acabei ficando com o quarto que eram dos meus pais. Havia uma cama grande de casal, um guarda-roupa e uma penteadeira. Tudo em madeira com desenhos entalhados. Não havia janelas, mas havia uma porta grande de vidro que dava para uma pequena sacada com visão para o mar.

Já no outro quarto, havia duas camas de solteiro e um guarda roupa. Esse não tinha sacada, mas havia uma janela bem ampla. Apesar do quarto ter sido feito para mim, a maioria das vezes que vim para essa casa era sempre com meu pai e o seu melhor amigo. Então estava mais acostumada com o quarto de casal.

— Hora de me ajudar – disse Gajeel parando com a caricia.

Sentei-me na cama me espreguiçando e ele se sentou na ponta me esperando terminar.

— Então, o que devo fazer? – perguntei depois de um bocejo.

Ele então me passou uma seringa.

— O que é isso? – perguntei.

— Escute...Vamos agora para o outro quarto e... – ele parecia receoso — Eu vou contar a verdade para minha mãe. – disse depois de um suspiro – A sua ajuda vai ser no momento certo. Quando chegar a hora quero que injete isso nela, entendeu?

— Mas o que tem aqui? – perguntei novamente.

— Você vai entender na hora certa – ele disse se levantando.

Foi quando notei que Gajeel usava apenas uma samba canção azul marinho e uma camiseta preta. Seus cabelos estavam preso em um coque frouxo e desleixado. Chegava até a ficar fofo juntando com a cara inchada de sono.

Eu usava apenas um babydoll com desenhos de morango... E tenho certeza que meu cabelo não estava um bagunçado fofo.

Segui-o até o outro quarto. Mas antes que entrássemos, Gajeel parou na porta e se virou para mim.

— A propósito – sussurrou ele – Não a deixe ver isso.

Escondi a seringa atrás de mim e entrei no quarto. Kim se encontrava sentada em uma das camas. Apesar de estar séria, ela parecia ansiosa.

— Voltei – falou Gajeel se sentando ao lado dela – Bem, por onde posso começar... – ele disse pensativo.

— Comece me dizendo que lugar é esse! Como vim parar aqui? – disse Kim, aparentemente irritada.

— Bem mãe... Estamos numa casa de praia. Eu trouxe você para cá enquanto dormia.

Que direto.

Kim abriu a boca para protestar mas Gajeel a interrompei colocando um dedo sobre a boca dela.

— Você deve está se perguntando que casa de praia é essa e porque eu trouxe você para cá – ele afastou o dedo e continuou – Você se lembra dessa garota?

Kim então me encarou. Por algum motivo fiquei nervosa, tentei dar um sorriso mas acho que saiu desastroso.

— Eu não sei... – disse Kim depois de me analisar por longos minutos.

Iria dizer meu nome, mas Gajeel foi mais rápido.

— Você se lembra do Mike e da Sarah não é?

— É claro que sim! Como posso esquecer do melhor amigo do seu pai! – ela disse sorrindo.

Melhor. Amigo. Do. Meu. Pai?

Olhei interrogativa para Gajeel. Se meu pai, era melhor amigo do pai dele, então isso significava que ele o conhecia. E como assim ele conhece o meu pai e nunca me disse nada?!

Porem, Gajeel apenas suspirou e voltou a olhar pra mãe.

— Você... Se lembra que eles tiveram uma filha?

— Lembro... – Kim voltou a olhar para mim – É ela?

— Sim – Gajeel respondeu.

— É um prazer conhecê-la querida! – disse Kim se levantando e me dando um abraço – Qual seu nome?

— É... É Levy.

— Que lindo nome Levy! Eu sou Kim – ela disse sorrindo.

— É um prazer conhecê-la – falei devolvendo um sorriso a ela.

— Espere! Acho que sei onde estamos. – ela falou empolgada – Provavelmente essa é a casa de praia do McGarden! Apesar de eu nunca ter vindo aqui tenho certeza que é! Então quer dizer que seu pai está aqui também não é mesmo?! – disse se dirigindo para a porta – Metalicana!

— Não é nada disso mãe...

— Como assim? – disse ela voltando pro quarto.

— Mãe... Essa é a casa de praia do Mike, mas não há mais ninguém aqui alem da gente.

Ela se aproximou novamente de Gajeel, mas não falou nada.

— Para ser mais exato estamos escondidos. – Gajeel começou – Existe um cara que está perseguindo essa garota. Ela não fez nada. Ninguém fez nada! Mas um maníaco psicopata a esta perseguindo simplesmente porque eu e a mãe dela apreendemos uma maldita mercadoria.

— Do que você está falando Gajeel? – disse Kim – Como assim você e a mãe dela? Eu não estou entendendo...

— Mãe eu sou policial... Há algum tempo já. Trabalho para a Sarah...

— Continuo não entendendo nada Gajeel! – dessa vez ela aumentou o tom de voz e começou a andar de um lado para o outro do quarto – Como assim você é policial? Você não tem idade para isso! Que historia é essa de perseguição? Quem está perseguindo quem? Cadê seu pai?! – a ultima parte ela disse quase gritando.

Gajeel respirou fundo e se levantou da cama.

— Escute bem o que vou dizer senhora Kimberly, por que o que vou falar é sério.

Kim parou de andar e encarou Gajeel. A diferença de altura era tão igual quanto eu ao lado dele. Kim era um pouco mais alta que eu. Seus cabelos eram tão longos e negros quanto os do Gajeel. Porem sua pele era pálida, e seu corpo magro. Uma vez Gajeel disse que os remédios que ela tomava a deixaram com a saúde um pouco fraca.

— Eu sou policial e trabalho para a Sarah. Há uns meses atrás ela apreendeu a mercadoria de um traficante, e por causa disso ele começou a perseguir a filha dela. Fui encarregado de protegê-la, porém acabei me tornando alvo também. Algumas semanas atrás houve uma explosão na casa dela. Eu fiquei internado e você sabia disso porque foi me ver no hospital!

Conforme ele falava, as expressões de Kim era de choque, surpresa e confusão.

— Sarah nos mandou para cá para nossa segurança. Levy estava sendo perseguida. Eu estava sendo perseguido e você provavelmente seria também, pois é a única família que eu tenho...

— Como assim a única família que tem? – ela disse confusa — Você tem eu e seu...

— Mãe – Gajeel a cortou – Esse traficante que está nos perseguindo é o mesmo que matou Mike...

— Mike morreu?! – ela disse surpresa colocando as mãos sobre a boca.

Olhou para mim como quem dizia que sente muito, porem Gajeel ainda não havia terminado...

— E também... – ele voltou a dizer – É o mesmo que... Matou o papai.

Senti Kim prender a respiração enquanto se afastava de Gajeel.

— Por que está dizendo isso... – ela disse tremula.

— Porque é a verdade – Gajeel disse dando um passo na direção dela.

Mas cada passo que ele dava, ela se afastava dois.

— Papai morreu a um ano, mãe.

— É mentira...

— Não, não é. Escute...

— Não toque em mim! – ela gritou. Foi tão repentinamente que cheguei a levar um susto. – Você está mentindo! – ela gritou novamente.

Lagrimas escoriam pelo seu rosto enquanto ela se afastava do quarto.

— Seu pai... Não... Ele não está...

Ela sussurrava enquanto se afastava pelo corredor com as mãos na cabeça.

— Prepare a seringa... – disse Gajeel ao meu lado.

Ele foi em direção a ela, mas antes que chegasse ela soltou um grito. Um grito tão forte que eu pude senti a dor na minha garganta.

Gajeel a abraçou por trás, prendendo os braços dela, porém Kim começou a se debater.

— Me largue! – ela gritava – Seu mentiroso!

Ela voltou a dar outro grito estridente e jogou a cabeça para trás. Essa se chocou com a do Gajeel que perdeu um pouco o equilíbrio e acabou caindo sentado no chão.

Kim tentou sair de seu aperto, mas ele passou as pernas pela cintura dela e apertou ainda mais o abraço.

— Agora Levy! – gritou Gajeel.

Não pude perceber que em todo esse momento eu estive em choque.

Corri para onde eles estavam, e tentei da melhor forma possível aplicar a seringa. Porem Kim não parava de gritar e se debater. Consegui aplicar em seu braço apesar da dificuldade.

Gajeel a imobilizou e ela aos poucos parava de se debater. Em alguns minutos ela apenas chorava, e Gajeel a soltou aos poucos.

Ele a pegou no colo e a levou novamente para a cama. Depois de ajeitá-la desceu as escadas sem nem se quer olhar para mim. Segui-o e o vi sentado na mesma escadaria de ontem à noite.

— O que foi que aconteceu? – falei calmamente enquanto me aproximava. Ele demorou um pouco para me responder.

— Ela sempre tem essa reação quando conto a verdade pra ela...

— Mas por quê?

Sei que não deveria tocar no assunto no momento, mas a curiosidade me matava. Nunca imaginaria que a doce e sempre encantadora senhora Kim reagisse daquela forma.

— É uma longa historia... – Gajeel disse depois de um tempo em silencio

— O que tinha na seringa?

— Era um tipo de calmante. Ela já deve ter pegado no sono agora, quando acordar provavelmente estará mais calma... Mas continuara lembrando-se do que contei, então é provável que ela me odeie.

Em todo esse tempo eu havia permanecido parada na porta de vidro. Não havia visto o rosto de Gajeel. Mas quando me aproximei para sentar-se ao seu lado, vi dor e tristeza naquele olhar que na maioria das vezes sempre era selvagem, irônico ou malicioso.

Kimberly sofria ao saber da morte do marido. E Gajeel sofria ao ver o sofrimento da mãe.

Por isso ele evitava contar a verdade para ela. Por isso ele não se importava de todos os dias ter que inventar uma desculpa diferente.

Ele fazia isso para não vê-la sofrer. E em contra partida evitava sofrer junto. Ele fazia tudo isso por amá-la demais. Pois como ele mesmo havia dito, ela era a única família que ele tinha...

Dirigi minhas mãos para os seus cabelos, e comecei acariciar aquelas madeixas macias de dar inveja a qualquer mulher.

— Ela não te odeia Gajeel... Mas já que estamos aqui, e ela está dormindo, porque não começa a contar a tal longa historia? Eu diria que estamos com tempo de sobra...

Ele deu um sorriso torto, e apesar de ainda ser um sorriso triste, ao menos era um sorriso...

— Podemos deixar isso para outro dia? – ele falou me encarando – Estou afim de me afogar no momento...

Olhamos para o mar. O sol radiava nas águas cristalinas. Aquela praia era tão intocada que a água chegava a ser quase transparente. Me levantei e puxei Gajeel pela mão.

— Vem, pode deixar que eu afogo você.

Fomos andando de mãos dadas para a água. E daí que ainda estávamos de pijama? Já havíamos mergulhado de roupa e tudo ontem a noite, mais uma vez não iria fazer mal.

E ao olhar para aquela água semi-incolor que ao ter os raios solares a tocando chegava parecer diamante, algo me dizia que a temporada naquela casa seria longa... Muito longa...