Cabelos sedosos.

Levy

Quando cheguei à porta de casa, Gajeel já estava lá.

— Desculpa o atraso, é que passei na biblioteca e acabei me esquecendo do horário! – dizia enquanto abria a porta de casa — Tudo bem?

— Hum. – ele respondeu

— Eu estou bem sim, obrigada por perguntar! – ironizei.

Ele foi direto para o sofá, e eu para o meu quarto. Essa rotina já estava começando a ficar chata. Nem parecia que ele estava lá, se passou uma semana desde que formos ao cinema, e depois disso não trocamos nenhuma palavra e era incomodante, pois mesmo parecendo estar sozinha, quando eu andava pela casa eu sentia um par de olhos me seguindo. A propósito, eu não sei a cor de seus olhos. Nunca prestei muita atenção nele, a não ser no seu físico que era impossível não notar.

Alto, forte e imponente. Ele deve ter uns trinta anos, pra ser daquele tamanho. Só espero que não se envolva com a minha mãe, não estou a fim de ter esse cara como padrasto. Na verdade eu não sei nada sobre ele; não sei seu nome completo, sua idade, seu cargo na policia, e nem a cor de seus olhos...

— Como é possível conviver todos os dias com uma pessoa, e não saber nada!?

Fiquei indignada com isso, então fui para a sala. Resolvi fazer um questionamento com ele. Mas quando cheguei lá o encontrei dormindo. Estava deitado no sofá, com as duas mãos na barriga segurando o controle. Seus cabelos jogados ao rosto, pela primeira vez eu estava vendo-os soltos. Eram completamente negros, e dava um contraste em sua pele morena. Não resisti à tentação de tocar neles. Eram macios, e exalavam um cheiro suave.

“Que inveja... E eu aqui usando um monte de produtos pra ter um cabelo macio assim.”

Tirei os fios de seu rosto, e os coloquei atrás da orelha. Tomei um susto quando o vi abrir os olhos. Mas não consegui prestar muita atenção neles.

— O que você está fazendo? – ele perguntou sério, se sentando no sofá.

— Ah... Eu... Eu estava apenas... Estava apenas te acordando! É! Te acordando! Queria lhe perguntar umas coisas...

— Eu não estava dormindo.

— Ah....“Droga” Eu estava pensando... “Droga, droga, droga! Com certeza ele me viu mexendo em seu cabelo!” A gente não se fala muito... Mal sei seu nome.

— Para que iria querer saber meu nome?

— Só por saber.

— Redfox. Gajeel Redfox.

— Legal... O meu é...

— Eu sei seu nome.

— Ah é... Você já sabe...

O silencio prevaleceu. Eu continuei sentada no chão, pensando em algo para falar. E ele ficou me encarando.

— Pirralha, quantos anos você tem? Sete? Já sabe ler?

Okay. Agora ele passou dos limites. Peguei a almofada e taquei em sua cara.

— Eu tenho dezesseis, idiota! Não sou uma pirralha.

— É sim – ele disse tirando a almofada do rosto, e mostrando um sorriso irônico.

— Não sou não!

— No momento em que você é mais nova do que eu, você é pirralha.

— E você tem quantos anos!? Quarenta?

— Vinte e três.

— O que!? Você não tem cara de quem tem vinte e três anos!

— E você não tem cara de quem tem dezesseis.

— Tanto faz. Então é novo na policia? Está há quanto tempo?

— Pra que quer saber disso?

— Só para te conhecer mais. Você é como um estranho para mim.

— Eu sou um estranho.

— Mas é um estranho que preciso aprender a conviver! Então estranho, há quanto tempo está na policia?

— Três anos.

— E no departamento de Magnólia?

— Um ano.

— Era de qual departamento antes?

— Vim de outra cidade.

— Serio? Qual cidade? Porque se mudou?

— Você já está querendo saber demais.

— Qual seu cargo?

— Chega de perguntas.

— O que você costuma fazer?

— Pra quer tantas perguntas!?

— Já disse! Curiosidade! Pode me perguntar também se quiser.

— Está bem, por que você é tão baixinha?

— Por que você insiste em falar da minha falta de altura?

— Porque isso te irrita.

— Você é chato!

— Eu sei.

Ele apenas deu o seu costumeiro sorriso irônico, e encostou-se ao sofá. Mudava os canais da TV a procura de algo interessante. E fingindo me ignorar. Eu continuei lhe observando. Notei que ele tinha uns furos em alguns canto do rosto e orelha.

— Você já usou piercing?

— Já. Tirei por que na policia é proibido.

— Cabelo grande também não é?

— Deveria. Mas se mulheres podem ter o cabelo grande, nada me impede que eu possa também. Meu rendimento não cairá por causa do meu cabelo.

— Entendi...

Mas uns minutos em silencio. Ao menos estamos tendo uma conversa bastante produtiva. Acho que é a primeira vez que posso chamar esse dialogo de conversa.

— Hoje está tão tedioso... – falei soltando um suspiro.

— Vai dormi. – disse ele do seu jeito frio de sempre.

— Que xampu você usa?

— Por que isso te interessa? – ele disse, e dessa vez consegui com que olhasse pra mim.

— É que seu cabelo é macio... Enfim, por que não fazemos algo diferente pra variar.

— Sei de algo legal e diferente, você vai para o seu quarto e me deixa em paz.

“Chato” Sabe, você está trabalhando pra mim, deveria ser mais educado.

— Corrigindo, eu não estou trabalhando para você e sim para a sua mãe. – disse soltando uma piscada.

— Desisto de tentar socializar contigo. – me levantei, ia voltar para o lugar que não deveria ter saído.

— Ótimo! Vê se não foge! – ele gritou enquanto eu andava no corredor.

— Vou fugir sim! Quero ver quem vai me impedir! Eu preciso sair! – gritei de volta.

— Se eu fosse você, não me provocaria Pirralha!

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Passei o resto do dia em meu quarto, havia adiantado a lição de casa. Quando olhei no relógio, já iria dar nove e meia da noite. Daqui a pouco Gajeel aparecia, só para ter a certeza que eu estava em casa, e então iria embora. Era sempre assim. E hoje seria a mesma coisa, se eu não tivesse escutado a voz dele na sala, falando em um tom elevado.

— Eu sei! Eu entendo Capitã! Mas a Senhora sabe que...

— Mas alguém precisa ficar aqui. E você é o designado para esse trabalho.

— Mas eu preciso ir embora as...

— Eu sei, não se preocupe com isso. Você pode voltar para a sua casa e fazer o que precisa fazer. Só estou dizendo que o seu turno da noite não vai ser na delegacia e sim aqui.

Resolvi sair do quarto para vê o que era. Encontrei Gajeel e minha mãe na sala.

— Não tenho outra opção? – disse ele.

— Não. E por favor, vê se não demora muito para voltar.

— Sim senhora.

— Onde está Levy?

— To aqui.

— Olá filha.

— Porque está fardada? Vai trabalhar nas ruas? – disse ao notar que minha mãe não usava sua roupa social costumeira. Mas sim sua farda, com colete e o coldre na cintura.

— Vou sim querida. Tenho uma missão agora, não sei que horas vou voltar.

— Ah entendi.

— Mas não se preocupe que o Gajeel ficara aqui até eu chegar.

— O que!? – falei arregalando os olhos, e olhei para Gajeel em busca de esperança. O mesmo permanecia encostado na parede de cabeça baixa.

— Isso mesmo querida! – disse minha mãe — Não é divertido? Hahaha! Só vim lhe dar um beijo. Até mais tarde. Comporte-se. – falou e me deu um beijo na testa. Foi se dirigindo a saída e eu fui atrás.

— Serio mamãe!? Por favor! Não me deixe com esse... – não pude terminar de falar, tive a porta fechada na cara.

— Esse... O que? – perguntou Gajeel, me encarando com uma sobrancelha levantada.

— Ninguém merece... – falei e voltei para o meu quarto.

Já não bastava eu ter que passar o dia todo com ele? Minha mãe só poderia estar louca! Já deveria ser por volta das dez horas da noite, quando fui para a cozinha e escutei Gajeel discutindo no telefone.

— Eu sei! Eu já estou indo! Tive uns problemas aqui... Não, você não vai precisar esperar mais... Já disse que já estou indo! Tchau... – e desligou — Ei baixinha, coloque um casaco, está frio lá fora.

— E por que eu colocaria um casaco?

— Porque a gente vai sair.

— Hum... Era sua namorada no telefone? Sabe, se ela está irritada com o seu atraso, acho que não seria uma boa você aparecer comigo lá.

— Olha só! Você tem toda razão! Só que eu não tenho escolha, tenho? Veste logo um casaco.

— Não estou com frio.

— Você que sabe. Vamos. – ele disse e saiu em disparada para a porta.

Apenas peguei as chaves de casa e fui para fora. Ele já estava sentado em cima de sua moto, uma K1300 S da marca BMW na cor preta.

— Não precisa de algum tipo de proteção para andar nessa coisa?

— Não em Magnólia. Sobe.

Foi meio difícil subir, levando em consideração que a moto era quase do meu tamanho...

— Escuta, estou te levando para minha casa. Você não vai falar nada. Sem perguntas, entendeu?

— Isso pareceu uma frase de estuprador. Está me levando para sua casa para abusar de mim?

— Não gosto de crianças.

— Idiota...

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Lembrete: NUNCA MAIS andar de moto com o Gajeel!!!

É que assim, ele não simplesmente anda de moto, ele voa. E aquela coisa parece que vai virar num Transformers a qualquer momento. E tudo que é maior do que eu, e que tenha uma aparência amedrontante, me assusta. Então a junção de Gajeel conduzindo uma K1300 S, que chega a 250 km/h facilmente, não me agrada muito.

Finalmente pude sentir o prazer de pisar em terra firme quando chegamos a sua casa. Por fora ela era bem simples. Chegava a ser meiga, agradável e acolhedora. O que é estranho sendo que é a casa do Gajeel de que estamos falando.

Ele abriu a porta e antes mesmo que pudesse entrar, uma mulher, muito bonita, de cabelos platinados, um corpo escultural e a pele levemente rosada, apareceu. Ela lhe sorriu gentilmente antes de lhe dizer oi.

“Essa deve ser a namorada dele...”

— Como ela está? – perguntou Gajeel.

— Está muito bem! Não é um de seus melhores dias, mas está bem. Desculpa apressar você, é que eu ainda tenho um compromisso. – ela disse saindo da casa.

— Também fui pego de surpresa.

— E essa garotinha, quem é? – a tal mulher sorriu pra mim. Então fui gentil e sorri de volta. Porem, ela me chamou de garotinha....

— Não sou uma garotinha, tenho dezesseis anos!

Gajeel soltou um longo suspiro perante a minha resposta. A mulher apenas lhe encarou de uma forma confusa.

— Posso te dizer que ela é o meu trabalho. – ele respondeu — Bom, até amanhã Mira.

— Até. – ela acenou e foi embora.

— Essa é sua namorada? – perguntei.

— Sem perguntas. – disse simplesmente, e entrou na casa.

A casa por dentro era bastante arrumada, e surpreendentemente clara. Levando em consideração que a cor mais clara que já vi o Gajeel vestindo era cinza, eu estava realmente surpresa com o interior da casa.

— Tem certeza que está na casa certa? – perguntei, e ele me ignorou.

Subimos uma escada que dava direto para o corredor, onde tinha três portas. Suponho que sejam os quartos. Gajeel se dirigiu para uma das portas e antes de abri-la se virou ficando de frente para mim.

— Você irá ficar aqui. Não vai sair, ou perambular pela casa. É pra ficar aqui, e sem nenhum pio!

Levantei as mãos para o alto em sinal de rendição. Assim que Gajeel abriu a porta, notei que se tratava de um quarto.

— Ei! Cadê minha garota favorita!? – ele disse de uma forma... empolgada?

— Gajeel? – falou uma voz doce e suave, mas ao mesmo tempo um pouco fraca.

Tentei olhar quem estava no quarto, mas ele encostou a porta impedindo minha visão. Então apenas fiquei escutando.

— Quem mais seria? – disse Gajeel — Tudo bem com você?

— Sim. Estou um pouco enjoada. São os remédios que aquela menina de cabelo estranho me dá! Não acredito que preciso tomar tudo isso. Acho que ela está me dando remédios a mais.

— Não está não. A Mira é muita boa no que faz. Tenho certeza que ela está dando tudo certinho. E acho bom a senhora está tomando todos.

— Ela fica me observando até ter a certeza de que eu tomei.

Escutei uma risada rouca, e acredito que tenha vindo do Gajeel. Ele riu! Ele sabe rir!

— O que você fez hoje? – ele voltou a perguntar, depois da risada.

— Fomos ao parque caminhar um pouco. Eu queria ter ido até o emprego do seu pai, mas a Mira não deixou. Poxa, não vejo seu pai desde a hora que acordei, e ele não me ligou. Sabe que horas ele volta?

— Hoje ele precisou ficar até tarde no trabalho, mãe.

Agora entendi por que ele estava sendo simpático...

— Mesmo assim, ele poderia dar noticias... Como foi na faculdade?

— Foi bom... Escuta, sexta feira eu vou ter uma prova. Então vou precisar ir estudar na casa de uns amigos agora noite.

— Tudo bem querido. Vai lá. Vê se não volta tarde.

— Vou esperar a senhora dormi. Não tenho pressa.

— Do jeito que estou sonolenta...

Faculdade? Mas Gajeel não faz faculdade! Por que ele mentiria pra mãe?

Quando fui tentar me arrumar para escutar mais da conversa, acabei fazendo barulho na porta... Ops!

— Que barulho foi esse? Será que é seu pai chegando?

— Ah... Não, mamãe! Fique sentada. Não é o papai, é... Uma amiga. Ela vai junto comigo estudar, estou lhe dando uma carona.

— E porque você não disse antes! Exijo conhecê-la! Traga ela aqui agora!

— Acho que ela não está muito afi...

— Gajeel! Quero conhecê-la!

— ...Tudo bem.

Assim que ele saiu do quarto, não precisei encará-lo para saber que me fuzilava pelos olhos. Ele se aproximou do meu ouvido, sussurrando.

— Você vai entrar, dizer oi e vai cair fora. Se ela te perguntar algo você é minha colega de sala, estamos fazendo faculdade de direito e daqui a pouco vamos para um grupo de estudo, entendeu? Vem. – E saiu me puxando.

Eu não estava pronta psicologicamente. Primeiro por que a voz rouca e ameaçadora dele ainda abalava minha mente. E segundo por que... Não havia um segundo. A voz dele me arrepiava e eu havia esquecido qual era a desculpa que eu deveria dar.

— Ola querida! – falou a mãe dele assim que me aproximei da cama — Meu filho é meio idiota e tentou te esconder de mim! Meu nome é Kim, prazer em conhecê-la! Você é?

— Eu... Eu sou a Levy. O prazer é todo meu, Senhora Kim.

A Sra Kim tinha uma aparência frágil e delicada. A pele morena estava um pouco pálida, seus cabelos eram longos e negros e estavam desbotados. Seus olhos negros eram gentis e transmitia tranquilidade. E se antes eu estava abalada pela voz de Gajeel, agora eu tentava entender como aquela mulher que parecia ser tão meiga, tinha parido um armário.

— Vocês são da mesma sala? – perguntou ela, me despertando dos meus pensamentos.

— Ah... Sim, somos.

— Você é muito lindinha, meu filho nunca me apresentou as namoradas dele antes.

— Ah! Não! Eu...

— Mamãe! Ela não é minha namorada!

— Não é o que parece! Olha como ela está corada!

— É que... Eu... Ah... Isso foi meio... Constrangedor... Nós não somos namorados, Sra. Kim.

— Ah que pena. Adoraria ter uma nora! Gajeel é chato! Então achar uma mulher que o aguente não é fácil!

Segurei o riso ao ver a cara emburrada que ele fazia para a mãe. Aquilo de alguma forma era... Fofo.

— Mamãe, acho melhor a senhora descansar.

— Infelizmente... Aquela garota colocou alguma coisa na minha comida... Desculpe-me Levy, mas estou morrendo de cansaço.

— Tudo bem, tenha uma boa noite.

— Obrigada. Apareça mais vezes! Foi um prazer te conhecer!

— O prazer foi meu.

— Boa noite mãe. Descanse bem. – ele lhe deu um beijo na testa lhe cobrindo em seguida.

Saímos do quarto e voltamos para a sala. Ficamos longos 10 minutos sentados, sem falar nada.

— Então...

— Sem perguntas.

— Só uma!

— Não.

— Por favor!!!

— Não.

— Por que mentiu pra ela?

— Eu não menti.

— Mentiu sim! Disse que frenquentava faculdade!

— Já respondi sua pergunta.

— Seu pai trabalha de que?

— Ele não trabalha.

— Então por que sua mãe disse qu...

— Meu pai morreu.

Silencio.

— Ah... Desculpa...

Deveria ter ficado quieta Levy.

— Não precisa pedir desculpas. Meu pai morreu já faz um ano. Minha mãe não aceitou a morte dele então entrou em depressão. Teve alguns problemas e no final, depois de tanto pedir que esquecesse que ele estava morto, isso acabou acontecendo...

— Quer dizer que ela...

— Tem uma espécie e Alzheimer. Uma perda de memória. Suas lembranças só duram um dia. Às vezes para ela eu ainda estou na faculdade, outras vezes estou trabalhando, e algumas raras eu ainda estou no ensino médio. Então eu não menti. Apenas omiti a verdade.

— Então... Provavelmente ela nem se quer vai se lembrar de mim...

— Não. A não ser que vire uma rotina. Como a Mira, ela cuida da minha mãe todos os dias, então sua mente acabou se acostumando e as lembranças dela com a Mira ficaram gravadas. Mas é por que elas têm a mesma rotina sempre.

— Entendi...

— Vamos embora.

— Vai deixá-la aqui sozinha?

— Ela toma remédio para dormi. E meu trabalho ainda não acabou. Entro no segundo turno agora.

— Então, você sai da minha casa todos os dias no mesmo horário, para vim até aqui dar boa noite para a sua mãe, e depois volta para a delegacia?

— Algo do tipo, agora chega de perguntas. Eu já falei demais.

Ele já estava se dirigindo para a porta, porem eu pensei bem e resolvi tomar uma decisão.

— Gajeel... Eu quero ficar...