Break Of Dead
4 Capítulo 3 - Deadlocked
Engoli em seco e olhei para tudo o que era possível ver de onde estava. Larry mantinha a arma firme na mão direita e a outra mão na corda que prendia o tio. Aos poucos todos nós presenciávamos a sua transformação, começava a gemer incessantemente e a contorcer-se na ombreira da porta, consegui até ver que os seus olhos se reviravam como o de nenhum outro humano fazia. Já se tinha levantado uma ou duas vezes mas o sobrinho mantinha-o sempre o mais longe possível. Depois Aaron voltou a aparecer por trás de nós e consigo a segui-lo trazia uma mulher velha de rosto enrugado, ao mesmo tempo que manchado de sangue e já ligeiramente deformado pela decomposição. Vestia uma camisa de noite branca que estava suja de fuligem, sangue e outros líquidos que eu não conseguia identificar. Não mordiam o rapaz pois este mantinha-a a uma distância suficiente para que nada acontecesse.
Brian continuava a segurar Marie que chorava nos seus ombros. Pude ver que pelo menos duas vezes ele olhou para mim, como se esperasse um plano de fuga. Mas eu não sabia também o que fazer. Tínhamos agora duas armas e dois monstros contra nós e a área da casa onde estávamos não era ampla o suficiente para que fosse possível movermo-nos com agilidade. Sentia-me num beco sem saída e agora amaldiçoava a minha ingenuidade em confiar naquelas pessoas. Simplesmente não sabia que o que estava a acontecer ao mundo os iria afectar tanto, em tão pouco tempo. De certa forma não tinha também a culpa completa, cheguei aqui sem saber o que se passava de todo.
- Eu não sou capaz de matar pessoas. Aaron, liberta-a e deixa-a aqui. Podem apanhar a própria comida. – Dito isso pela primeira vez vi Aaron responder positivamente e sem demoras ao irmão.
- Porquê isto Larry, pensava que eramos todos amigos, que nos estávamos a ajudar. – Tentava faze-lo parar e pensar, mas não sabia se ele mudaria de ideias tão facilmente, para uma pessoa que conheceu à um dia.
- Eu não sei se eles morrem se não comerem, ainda não tive tempo de analisar isso por isso tinha que arranjar forma de os alimentar por precaução. Já tentei que eles comecem outros dos seus, mas não resulta. Mas de qualquer forma tenho que manter eles vivos e a casa sem modificações para que quando voltem, voltem com tudo o que tinham antes. – Empurrava o tio para a frente e eu vi que este já estava mudado, gemia e mexia-se como os outros. Tudo era feito à distância logo ele não mordia o sobrinho. – Eu não sei mais o que fazer, eu… tenho que alimenta-los com as primeiras pessoas que encontrei. Ainda pensei que procurar nas outras quintas nos levassem a mais pessoas ou assim, mas nada. Tive de escolher. – Pegou numa faca e cortou a corda que permitia o novo zombie ficar preso e Aaron lá atrás também o fazia. Estávamos encurralados.
De repente o inesperado aconteceu. Em vez da mãe deles se virar contra nós, tentou aproximar-se do rapaz mais novo e este deu um grito, afastando-se para trás. Larry viu o perigo e gritou-lhe.
- Mãe somos nós, Larry e Aaron os teus filhos. – Ela não estava a tomar atenção nenhuma. Como eu tinha previsto, eles tinham perdido de alguma maneira toda a humanidade que tinham antes, mas o homem não se queria contentar com tal e correu para os separar. Tinha que aproveitar a situação. Peguei no ombro de Brian na confusão e empurrei-o para que ele percebesse que tínhamos de ir embora. Mas o Jackson apercebeu-se disso enquanto tentava agarrar as costas da mãe zombificada. – Onde pensam que vão? Ajudem! – Agora parecia desesperado, pois devia estar a ficar sem forças.
Olhei para a frente e vi que os meus alunos tinham avançado bem. O rapaz apanhou um bastão que eles tinham por ali e lançou à cabeça do tio Harry, fazendo o novo monstro jorrar um leve fio de sangue e ficar zonzo ao cair no chão. Ainda não era completamente um deles e os seus movimentos ainda eram um pouco humanos, por isso aquela estocada foi suficiente para o deitar ao chão por um tempo. Marie correu para fora e Brian ficou à umbreira. Eu continuava num impasse, ajudaria Larry ou iria embora enquanto as coisas ainda não estavam boas. Ele tentou matar-nos e por isso eu preferia ir embora. Assim fiz.
Mas ao correr para a saída, ele apanhou a pistola quando conseguiu ficar com uma mão livre e disparou em direcção à porta, passando de raspão por mim.
- Volta aqui pedaço de merda! – Gritava ele, com raiva, enquanto se via que as forças já lhe faltavam. Aaron também tentava sair do chão, mas a zombie estava a prende-lo e pressiona-lo contra o chão com ambas as mãos.
Aquela foi a decisão mais difícil da minha vida até ao momento, mas era aquilo que tinha de fazer. Ninguém fala em morte da boca para fora e se queria matar-nos, não mereciam nada mais que isto. Continuei a correr sem querer ver o que se ia passar. Disse aos alunos para seguirem para a carrinha dos Jacksons mais à frente, castanha, um pouco ferrugenta e de caixa aberta, mas pelo que eles me tinham contado enquanto ainda eram de confiança, a chave estava sempre na ignição para o caso de terem de fugir. Sentia muita pena em retirar-lhes o veículo, mas tinha que sobreviver àquilo e tal sentimento intensificou-se quando vi ao longe e em todas as direcções da quinta, que montes de zombies se aproximavam em passo largo. Pelo que sabia o som atraia-os e a pistola de Larry acabara de fazer isso mesmo.
Eles saltaram com pressa para os lugares que eram seguidos. A chave não queria pegar. E eu via cada vez que desviava o olhar para fora que um ou dois zombies apareciam no meu horizonte.
- Raios…raios…raios…raios! – Continuava a lamuriar-me.
- Vamos lá, essas coisas estão a aparecer por toda a parte! – Afirmou o rapaz de cabelos escuros ao meu lado direito, enquanto olhava por todos os vidros da carrinha. Não lhe respondi e pouco depois o automóvel pegou, para meu alívio. Preguei a fundo e segui para o portão da quinta, quebrando-o por completo à saída e sem parar o carro uma única vez. Ainda vi um ou dois mordedores que tive de contornar pelo caminho, mas os restantes já estariam na quinta. Já estariam perto da hora de almoço e foi ai que me apercebi que todas as nossas reservas de comida ficaram naquela casa, com aquela família condenada.
Por mais que eles fossem estranhos e quisesse distância de tal, ainda me sentia culpado por não ter ajudado o homem a salvar o irmão. Eles podiam ser assim para nós, mas eu não necessitava de ser assim para eles. Acho que isso me vai atormentar por algum tempo…
E voltamos à estrada ainda pela tarde, não tínhamos comida e por isso não houve refeição para ninguém, por muito que eu não tendo comido nada de manhã, agora estava esfomeado. Os rapazes estavam calados e ao meu lado, pelo menos nos primeiros 10 minutos de viagem. Depois tomaram coragem.
- Aqueles Jacksons eram doidos! Nunca devíamos ter confiado neles!
- Nós não sabíamos isso Brian, não podíamos prever o que eles queriam fazer. E afinal só queriam uma solução para a mãe deles.
- Está do lado deles Bruce?! – O rapaz mostrava-se indignado e eu compreendia.
- Não é isso que estou a tentar dizer.
- Mas é o que parece!
- Brian, o que o professor está a tentar explicar é que eles tinham um motivo, mesmo que não o certo. – Marie falava com ele para o acalmar. Existia uma certa química entre eles e isso era bom. Ele acabou por acalmar com aquilo. – Só teremos que viver com isso agora, com tudo isto. – Fazia um movimento genérico em direcção à estrada que percorríamos.
- Tudo bem… E então onde nos vamos meter agora? – Perguntava ele, cruzando os braços e olhando em frente para talvez não me encarar.
- Eu não sei…
- Olha que novidade. – Suspirou o rapaz, mas o mau feitio de Brian não continuou. A ruiva retirava algo da roupa e entregava na minha mão livre. Estava a conduzir por isso tive que encostar um pouco para o ler.
- Encontrei isso na quinta deles quando saiu com o Larry e o tio dele. Queria mostrar-lhe quando voltasse, mas não deu. – Atentamente lia tudo aquilo, pelos vistos de alguma maneira os Jackson tinha recebido aquele estranho panfleto com o símbolo dos USA.
- “De forma a proceder em segurança nesta epidemia que se alastra a olhos vivos, o governo dos Estados Unidos decidiu organizar quarentenas nas principais cidades, com as pessoas não infectadas de forma a que a doença seja diagnosticada e que o perigo não se alastre. Se recebeu este comunicado, foi um dos convocados a saber o que estamos a ultrapassar e pedimos extrema confidencialidade. Não necessitamos de alertar o público em geral.” – Citava tudo o que estava escrito para os dois ouvirem e claro que Marie já sabia do que se tratava. Por baixo de tudo aquilo estava a localização dos chamados “Campos de Refugiados”. – “Los Angeles, Chicago, Washington DC, Toronto”. Eles anunciam estas cidades como seguras para chegar ao campo de concentração de não infectados. Nós em Richmond apenas tivemos direito a quarentena, não admira que eles não tenham conseguido nada quando fugimos e que nem tenhamos tido informações destas antes de saímos de lá. Eles estavam a manter tudo em segredo.
- Então pelo que o governo diz essas cidades tornaram-se quase fortalezas. – Comentava a rapariga mais animada.
- Pelos vistos sim. Tudo o que está a acontecer pode estar por ai muito antes de nós realmente nos darmos conta. Para nós foi à três dias, para outros locais, para terem já criado campos para ajudar a população, talvez tenha passado mais tempo. – Voltei a passar o papel à minha aluna. – Então seguimos para a que está mais perto. Não tenho um mapa, mas sei de senso comum que Washington DC é a que mais facilmente chegamos. Podem ter comida, água e assim.
- E isso leva algumas horas de viagem. Nem sabemos se existe combustível para conseguirmos lá chegar.
- Temos que arriscar Brian.
- É o que a Marie está a dizer. Estamos na estrada, num beco sem saída. Necessitamos de nos pegarmos a uma ideia. Se dizem que Washington é seguro e que dispõe de abrigo para nós, iremos até ele. – Falava como se mandasse neles, mas mesmo assim gostava de deixar claro os meus ideais. Claro que a ideia de chegar a uma cidade que diziam segura era melhor que permanecer naquela estrada sem nada saber. E acabaram por aceitar.
- Tudo bem. Mas eu não me quero ver novamente envolvido com aquelas coisas Bruce. Mais um “Larry” e eu prefiro andar por ai sozinho. – De uam maneira ou de outra, tanto eu como Brian e Marie estávamos a começar a aceitar a ideia de termos monstros a viver no nosso planeta. Já tínhamos os visto e por isso era algo natural de se pensar agora. Mesmo que muitas perguntas se mantivessem acesas em mim.
Nessa noite não paramos, talvez também pelo panorama da estrada que começávamos a ter quando o sol se pós. Quanto mais avançávamos pelas estradas nortes de caminho a Washington, mais o perigo parecia espreitar a cada canto. Carros de todos os tipos estavam no meio da rua e muitas vezes contorná-los tornava-se um processo difícil. Muitos deles não tinham pessoas e estavam quase que estacionados ali, sem mais nem menos, dando um aspecto fantasmagórico aos locais. Também encontramos zombies aqui ou ali, na margem esquerda ou direita, mas quando escureceu, eles deixaram de aparecer no nosso campo de visão. Eu sabia que eles ainda por ali podiam estar a vaguear e nós não estávamos a ir muito depressa, mas era o suficiente para que não conseguissem seguir a carrinha. Marie voltava a dormir, talvez fosse a forma de se afastar de tudo aquilo, mas não sabia como com tantos ziguezagues ela o conseguia fazer. Brian permanecia atento à estrada ao meu lado. Ao olhar ligeiramente para o lado, reparei que ele ainda pegava com a palma da mão direita o bastão que trouxera da quinta.
- Ainda o trazes? – Ele percebeu logo ao que me referia e levantou-o um pouco olhando-o no escuro.
- É… Pode parecer parvo, mas foi com ele que nos safámos, logo quero tê-lo por perto agora.
- Não tem problema. Temos mesmo que ter sempre alguma arma à mão. – Lembrava-me que ainda tinha o meu facalhão. Estava aos meus pés. – Assim estaremos mais prevenidos dos zombies.
- Acha que ela se vai aguentar com isto tudo? – Ele perguntava-me num tom baixo para não acordar a rapariga, mas sabia que ela estava a dormir. Admirei-me com a questão.
- Todos temos que fazer um esforço. Ela há-de aguentar-se, como eu ou tu. – Brian ficou um pouco pensativo e depois voltava a olhar para a janela da frente.
- Quero pedir desculpa pelo que se passou à bocado… Eu não queria ser rude consigo, estava apenas… chateado com aquela gente.
- Sem problemas, eu compreendo. – Enquanto respondia ele parecia olhar para os cronómetros do carro. Apontou depois para o depósito de combustível.
- Sei que já deve saber, como é óbvio, mas estamos quase na reserva e Washington ainda fica a alguns quilómetros.
- Vou tentar encontrar nesta escuridão alguma bomba ou algum estacionamento. O bom de se ser instrutor é que aprendemos a fazer muitas coisas a um carro, incluindo roubar combustível. É um mau conselho, eu sei, mas neste momento acho que a lei não se aplica como à dias atrás.
A noite passou num ápice e quando dei por mim tinha feito uma directa enorme e para além disso o meu estomago estava pior de entre nós três. Não me queixava, mas a minha barriga sim, rosnando de minutos a minutos. Decidi pela manhã parar o carro perto de outros tantos que estavam ali na estrada sem mais nem menos, de portas abertas e de onde eu até conseguia ver corpos mortos a apodrecer do nada. Não se mexiam, mas também estaria atento a eles e disse aos rapazes também o fazerem. Sai e Brian foi comigo de taco em punhos, enquanto, a início, Marie ainda ficara na bagageira aberta olhando em redor e vendo se teríamos alguma companhia enquanto vagueávamos entre aquele aglomerado de pelo menos 5 carros abandonados.
- Procura na mala daqueles ali, não forces muito as bagageiras, se não abrirem com facilidade, desiste. Se ao menos ainda tivesse as minhas ferramentas… — A ultima frase fora mais para mim, depois de dizer ao rapaz para investigar algo de útil nos veículos mais atrás, já que paramos a carrinha no centro daquilo. Estava um pouco chateado de não me ter lembrado de ir buscar as coisas que deixei no meu carro de instrução, que tinha várias chaves de fendas e outros materiais para mudar pneus entre outros, que se podiam revelar bem úteis. A carrinha que outrora fora dos Jacksons já estava muito boa se continuasse a andar muito mais sem se desfazer toda.
Dois dos carros que inspeccionei tinham a traseira aberta por isso pude espreitar para o seu interior. Em ambos fiquei desapontado pois não tinham nada de útil para além de um monte de roupas e CDs. Na parte da frente de um vermelho estava um cadáver a apodrecer. Parecia impossível ter-se decomposto à tão pouco tempo por isso cada vez mais pensava que Richmond e a área mais perto dela tinham sido afectadas à pouco tempo, mas o resto do mundo, podia estar assim à semanas…
- Bruce! – Ouvi a voz do rapaz lá à frente e olhei para ele. Levantava a parte de uma mangueira verde.
- Muito bem. – Disse-lhe e comecei a aproximar-me dele. Nesse compasso de tempo vi que algo estava atrás dele a alguns 5 ou 6 metros cada vez mais próximo e avisei-o. Tinha estipulado que não voltaríamos a fugir simplesmente, teríamos de dar uma lição a eles. Fora algo que aprendi com os Jacksons. – Tu consegues, levanta o taco e dá-lhe com toda a força na cabeça até ele se deixar de mover. Fica atento. – Ele olhou-me com uma expressão de concentração e acenou-me virando-se para ele e concentrando a força no golpe. Eu continuava a ir para perto dele, sacando do facalhão negro do cinto e preparando-o na mão direita.
Era um homem de cabelo grisalho, mas empastado e quase da cor da fuligem. Tinha uma parte da cara arrancada e custava a mover-se por ter o pé esquerdo deslocado para o lado. Brian lançou o taco e deu o primeiro golpe em cheio na nuca e admito que ele tinha mais pontaria que eu tinha no momento em que matei o meu primeiro. O zombie foi logo ao chão e ele deu-lhe mais algumas pauladas de forma, a que no fim restava um crânio semi-esmagado. Ainda não gostava da vista, mas já vomitava menos ao estar em contacto com aquelas atrocidades. Já para ele era o primeiro que matava e por isso não sabia como reagiria. Baixou o bastão com algum sangue e continuava a olhar para ele enquanto me coloquei lado a lado.
- Que cheiro… — Comentou, sem olhar para mim. Depois o que eu esperava aconteceu. Começou a ter algumas ânsias e quase a vomitar. – Bah.
- Ninguém está habituado a isto de primeira, também tive problemas a matar o primeiro. Como te sentes? – Parecia ter parado mais e não chegou a vomitar mesmo.
- Sinto que ter alguns anos de basebol ajudou. – Sorriu, talvez para esconder a sua fraqueza e eu sorri também. Brian já não voltou a olhar para a criatura no chão. Em vez disso distraiu-se ao dar-me a mangueira. – Isto ajuda?
- Sim, era o que precisava. Só quero cortá-la um pouco para não ser tão comprida e guardar o resto. – Lembrei-me de inspeccionar se Marie ainda estava bem, para não nos ter avisado daquele monstro antes. – Marie! – Ela espreitou pelo tecto da carrinha e acenou. – Decerto não estava com atenção com aquele lado, até porque Brian estava à frente do seu campo de visão, ou então detectou-o ao mesmo tempo que eu e como o informei primeiro, não disse nada. – Tudo bem?
- Sim. – Dizia ela lá do fundo. Não queria ficar a tão grande distância assim, por isso escolheria tentar recolher gasolina de um carro mais perto do nosso. Uma coisa eu sabia: A rapariga estava menos mentalizada que o jovem e por isso tinha de lhe dar mais um tempo. Logo também tinha de a vigiar mais.
Voltamos para uma pequena van que estava completamente abandonada e com todas as portas aberta, bem perto daquela que estávamos a usar para viajar agora. Usei o facalhão e lançava-o com força contra a parte da mangueira ajustada ao tamanho que queria e encostada sobre o chão para não fugir. Depois de forçar um pouco, acabou por se cortar completamente e dar-me um pedaço bom dela, o suficiente para conseguir chegar fundo no depósito de gasolina. Como a van estava aberta, a pequena porta do lado esquerdo que trancava o depósito também o estava e por isso foi só abrir e começar a colocar o tubo por lá dentro. Quando ouvi algo salpicar sabia que estava com sorte. Pelos vistos ninguém se lembrara de levar o combustível quando deixaram o veículo ali. Talvez nem tiveram tempo para tal.
- Não está um balde ou uma garrafa na bagageira da carrinha? – Perguntava a ambos os jovens, enquanto analisava ainda aquilo que estava a fazer. Podia jurar que tinha visto algo que podia utilizar ali. Quem me respondeu foi Marie, que estava lá de pé.
- Está sim, um garrafão velho.
- Tragam-mo. Tenho que retirar o combustível para ai e depois voltar a colocar no depósito da nossa. – Não me responderam, mas ouvi os passos de Brian a afastarem-se da minha traseira.
- Olhem, está ali um! – Ouvia dizer a rapariga de cabelos ruivos e olhei em redor. À minha esquerda, lá mais à frente estava outro monstro a caminhar para nós.
- Deixem comigo. Continue com isso Bruce. – Mais uma vez Brian queria mostrar que era forte na situação e mesmo que o medo estivesse a acompanha-lo ele não vacilava à nossa frente. Entregou-me um garrafão de 2 litros empoeirado e saiu de perto de mim com o taco de beisebol na mão a girar. Não olhei para a acção que se iria desenrolar, pois também não gostava muito do que ele ia fazer. Coloquei-me ao trabalho.
Ajoelhado no chão, coloquei a boca no tubo e comecei a puxar o ar devagar para não ficar cheio de gasolina ao primeiro sopro. Sabia que a sucção iria acabar por trazê-la toda de uma vez. Agora apenas ouvia o taco do rapaz a bater em algo duro e fazer um ecoo. Nesse mesmo momento senti que a gasolina estava a subir e por segundos não comecei a engoli-la. Ia agora saindo como quem entorna água para dentro do garrafão. Não encheu nem a meio e por isso fiquei um pouco desiludido. Estava preparado para tirar a mangueira dali e começar a fazer aquilo noutro, mas quando Brian falou sabia que isso estaria fora de questão.
- Fogo, vem ai montes deles, parecem mais de 6 todos juntos e já me viram. – Comentava ele, enquanto corria para nós. Eu já estava a entornar o líquido para o nosso depósito.
- Também os estou a ver. – Dizia Marie, apenas para confirmar aquela visão de terror.
- Entrem no carro e liguem-no logo que eu disser. – Eles estavam a aprender a conduzir quando isto tudo aconteceu, deviam saber ligar um.
- Não se demore. – E assim que o disse, saltou com cuidado da traseira da carrinha e abriu a porta da frente. Pouco tempo depois já podia ouvir os gemidos bem perto. Não me atreveria a olhar para onde eles vinham, só iria atrasar o meu trabalho. Acabei mesmo em cima da hora pois quando me voltei a centrar no mundo em volta, eles estavam já perto. Com alguma dificuldade já, entrava para o interior da carrinha com ela já pronta para partir, pois ao menos sabiam como colocar a chave na ignição e ligar. Não foi necessário muito mais tempo para colocar os pés no lugar certo e a mudança onde devia, fazendo oi veículo mover-se para a frente e contornar dois zombies que estavam mesmo à frente. Sabia que tinha que ganhar uma velocidade maior que em toda a nossa viagem na carrinha, ou então o grupo de monstros estariam encima de nós brevemente.
Logo depois outros 3 repararam que tínhamos arrancado e mudavam de direcção, cruzando-se connosco. Podia atropela-los, como pensava ter feito à dias em Richmond, mas preferiu fazer um ziguezague de maneira a passar por eles do lado esquerdo, sem que conseguissem alcançar-nos. Um deles ainda tocou no capô, produzindo um som de toque entre carne e metal e descobri logo que tinha arrancado um braço, pois sangue tomava agora o local do canto direito, borrifado como se alguém o tivesse salpicado apenas ali.
Tive que me desviar um pouco da estrada para passar entre carros e criaturas e quando o aglomerado maior deles passou pela janela ao meu lado, fiquei avaliado. Ainda olhei para trás para ver alguns dos zombies a espreitarem para trás também e ficarem sem saber o que fazer já que tínhamos conseguido fazer-lhes uma finta das grandes. Até que estava a troçar deles, mas acho que isso acabou por se virar contra mim quando voltei a encarar a estrada à nossa frente. O karma é lixado…
Não era um, nem dois, nem ao menos os 6 que conseguimos fugir mesmo ali atrás, mas sim mais de duas dúzias, apenas de onde consegui olhar em segundos. O meu coração começou a palpitar, pois o pior vinha ai. Se os meus alunos disseram algo nos minutos seguintes, confesso que não dei prioridade à minha audição.
Com três deles dei eu bem conta, vinha no início daquela multidão de monstros, mas logo depois colocaram-se 6 à minha frente, quase como fazendo uma barreira, sedentos pela nossa carne e por isso não existiu outra alternativa que colocar o pé no acelerador e agarrar com força o volante. Nunca tinha atropelado ninguém por crer por isso mesmo perante aquele zombie não me senti confortável a faze-lo, mas o meu corpo e instintos fizeram tudo. A carrinha sofreu um violento safanão quando o corpo quase morto embateu de frente no capô, mas não saiu e manteve-se bem próximo do vidro, dificultando a minha visão e condução. Ai consegui ver de relance que Brian e Marie tinham sentido o impacto mais que eu e estavam a tentar recompor-se no carro, quando a rapariga também gritou devido à situação. Por pouco tudo aquilo não me fez perder o controlo.
A criatura gemeu e consegui ver a sua cara podre a olhar para mim antes de colocar o pé com força no travão e deixa-lo escorregar com força para a frente, lançado mas nem minimamente afectado por nenhum dos impactos. Se acabou com alguns arranhões e rasgões na pele podre, não foi o suficiente para pouco depois se levantar novamente. Nessa altura não sabia como estava em termos de emoções de deixava transparecer para fora, mas decerto que já algum suor frio de medo aparecia na minha testa.
Voltei a colocar o pé para acelerar mas assim que o fiz virando o volante para a direita, um amontoado de 3 deles colocaram-se à frente e não existia mais forma de conseguir dar a volta e contorná-los. O meu instinto apenas me deixou agarrar o trinco que tinha na porta e puxa-lo para baixo de maneira a trancar. Vi que Brian, desta vez do lado da janela e mais longe de mim fazia o mesmo, quando se assustou na altura que um dos mortos vivos com maxilar descaído espirrou o sangue dessa ferida ao tentar lamber o vidro que o impedia de pegar os três suculentos corpos que eramos nós. Por onde quer que olhasse, já pouco conseguia ver da estrada, pois os corpos começavam-se até a aglomerar no cimo do capô e podia jurar que alguns tinham conseguido trepar para o tecto e pelo menos um deles estava a apanhar uma “boleia” nas traseiras abertas da carrinha. Conseguia ver a pressão que estavam a exercer no vidro da frente e como isso poderia afectar a nossa hipótese de nos mantermos a salvo por algum tempo.
- Eles estão a juntar-se todos aqui à frente. Mais cedo ou mais tarde vai partir com o peso. Esta carrinha já é velha. – Falava mais para mim, de maneira a tentar raciocinar.
- Podemos tentar sair e matar aqueles que se colocam à frente. – Sugeriu Brian, mas eu sabia que não resultaria.
- Eles viriam logo para cima de nós todos ao mesmo tempo. Eu já vi um pouco como se mexem e parecem ter um sentido bem apurado quando encontram uma pessoa normal. – Mantivemo-nos em silêncio logo depois de ter falado. Ninguém mais tivera ideias para confrontar aquela situação. E o que apenas podíamos fazer naquele impasse era ver e sentir o veículo mexer-se brevemente pelo movimento que os zombies lhe davam lá fora e o vidro cada vez mais cheio de sangue, tripas e bocas coladas a gemer. Senti dois ou três calafrios seguidos naquele momento. Toquei na testa e vi que mesmo não me tendo cansado nada estava a transpirar bastante. O nosso calor corporal estava a deixar o interior da carrinha carregada de dióxido de carbono e calor que ao fim de um tempo se tornou desconfortável, mesmo em pleno Inverno.
Ai comecei a tentar esforçar-me para voltar ao mundo real e encarar aquilo de frente. Não quero morrer aqui e agora. Voltei a olhar para as minhas hipóteses e confesso que não existiam muitas: quatro vidros e duas portas. Ainda tentei procurar alguma coisa no porta-luvas fazendo Marie vasculhar pelos papeis e cartas de condução, mas nada que nos ajudasse naquele aperto. Depois de repente, algo surgiu na mente do rapaz de cabelos escuros, quase cor de carvão ao apontar para o vidro traseiro enquanto eu o olhava.
- Eles estão a ver-nos de frente e não estão a dar muito interesse em nos rodear por completo. – Quando olhei com mais atenção, finalmente compreendi aquilo que me estava Brian a tentar dizer. Realmente só estavam três monstros lá atrás, um deles na bagageira e os outros simplesmente encostados à carrinha.
- Só partindo o vidro. – Foi o que me ocorreu dizer. Mesmo que o vidro tivesse um manípulo para abrir para dentro a saída não daria nem para deixar penetrar a parte mais fina dos nossos corpos. – Isso pode ser arriscado, pois pode chamar a atenção deles para trás. E com isso partido, já não à maneira de aqui ficarmos dentro mais tempo, nessa altura só nos resta sair.
- Arriscado mas é a única saída que temos Bruce. – Dizia-me Brian, com o bastão bem preso na mão direita. Via que começava a ganhar algumas olheiras, talvez por todo o tumulto de todos aqueles dias cansativos. A ruiva mantinha-se como sempre longe das decisões, aceitando aquilo que nós dois decidíssemos. Também não a queria pressionar quanto a isso.
- Nesse caso é nisso que vamos apostar. Eu parto o vidro e vou à frente. Marie vais depois e por fim Brian. Dessa forma podemos manter as duas únicas armas que podemos usar contra eles numa posição boa. Corram para onde não exista nenhum deles, ao pelo menos onde virem que existem pouco. Sei que a adrenalina sobe-nos à cabeça, mas não se descontrolem. Eu estive já perante eles bem de perto na quinta. Se não pararmos eles são burros e lentos demais para nos apanharem. – Todos concordaram. Sabia que mais suor escorria pela minha cara, mas não o contive, pois agora segurava o facalhão e preparava-me para dar o primeiro golpe no vidro. Esperava que fosse suficiente para o partir. Lancei-o e embateu no material sem ao menos deixar-lhe um arranhão. Sabia que só assim não resultaria.
O vidro da frente começou a ceder com o peso e pude ouvir no silêncio entre nós três, que produzia um ruido pequeno de pressão. Não perdi mais tempo que o necessário.
- Brian, o taco! – Gritei para ele, quando segundos depois já o tinha em mãos. Com a mão esquerda segurava agora a faca e com a direita o taco do rapaz. Não tinha muito espaço de manobra por isso tive que me encostar ao vidro da frente para que as mãos ficassem esticadas o suficiente para fazer um movimento de martelar. Encostei a lâmina do facalhão e depois comecei sem dó a dar-lhe marteladas com o bastão.
“Tok, Tok, Tok”. Sabia que estava a fazer progressos, mas não eram rápidos para me confortar. E ao mesmo tempo parecia estar a atrair a atenção do zombie da bagageira. Quando finalmente a arma penetrou, a racha que se criou quase que atravessou todo o vidro de 50 centímetros. Ai a criatura começou a aproximar-se mais e sabia que era a minha deixa. Ele não se podia encostar. Num movimento quase acrobático, sentei o meu rabo no volante, passei o taco ao rapaz e levantei a perna esquerda e com lama ainda encrustada nas calças e sapatos e num impulso, uma das partes do vidro saiu para fora. Agarrei com mais força o facalhão e corri para fora, cortando-me sem querer na mão esquerda numa saliência. Não tinha tempo para acidentes e já lá fora, vi que a criatura se interessou mais em mim que propriamente com a carrinha como anteriormente.
- Vão! – Gritei aos jovens quando levantei a lâmina negra e tentei um corte perfeito no cérebro do zombie e por sorte ele caiu inanimado logo depois. Quando Marie saiu e logo depois Brian o fez, ainda eu me esforçava por arrancar o facalhão da cabeça dele. Os outros dois foram ao nosso encontro quando já estávamos a um passo de sair da caixa aberta da carrinha. Sabia que em minutos também as dúzias da frente perceberiam o que se passava.
O rapaz de negros cabelos embateu com o taco na cabeça de um perto dele e percebi que a força feita quase o desequilibrou, mas ao zombie apenas foi suficiente para o afastar. Enfiei mais uma vez o facalhão na cabeça de outro que constituía maior perigo e ao olhar para trás entendi que o vidro da carrinha tinha acabado de partir e como tal eles estavam a entrar e encarar-se com o nada e ao mesmo tempo sentia um alívio ter conseguido dali escapar, ou naquele momento estariam perdidos. Mas não conseguia ficar completamente descansado.
Mesmo que tenhamos conseguido avançar mais alguns metros, continuavam a formar um perímetro à nossa volta e se fosse apenas um por direcção, as nossas armas eram suficientes para os matar ou até apenas lançar para longe o tempo suficiente para nos esgueirarmos, mas o problema é que estavam sempre dois ou três juntos para onde quer que nos vira-se-mos e o que nos fazia recuar cada vez mais passos. Os carros no meio da estrada também estavam a dificultar termos campo aberto suficiente. Ao fim de pouco tempo circulavam-nos por completo à volta de um carro de dois passageiros vermelho.
- Saltem. – Disse-lhes, mas não perceberam as minhas palavras à primeira e continuavam a olhar em redor. – Para cima do carro! – Acabei por dizer e empurrar e ai sim fizeram algo. Fomos os três quase sem folego, fosse pela caminhada exaustiva, ou apenas pela pressão de estarmos rodeados daqueles mortos-vivos. No cimo tive uma perspectiva diferente de tudo aquilo, ainda pior que aquela que tivera dentro da carrinha quando decidimos avançar por aquela estrada. Eles eram muito mais que dúzias, podiam bem chegar aos milhares, caminhando lado a lado pela estrada e até pelo campo em redor para o caminho que ia para Washington DC. Parecia que um seguia o outro e depois esse outro estava a seguir um seguinte, acabando por chegar, pela cadeia das coisas, até àqueles que nos viam com os olhos esmagados, furados ou apenas apodrecidos. O gemer era o pior, pois parecia fazer eco mesmo em campo aberto. Mais uma vez via que não tínhamos volta a dar, nem passo a seguir. Engoli em seco e depois senti que calores frios percorriam o meu corpo. Ao olhar para a mão com o facalhão vi que tremia como nunca vira antes em mim mesmo. Acho que voltei a perceber o medo e o receio que deveria ter destes monstros…
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