Break Of Dead
5 Capítulo 6 - Just Move On
Continuava a mover-me sem parar, pé ante pé, com o facalhão a pender na mão direita. Ao meu redor pouco havia a não ser um cheiro a morte e alguns carros abandonados, como em toda a estrada 95. Esta parte estava especialmente degradada, com acidentes de carros e até corpos de pessoas mortas muito antes de se poderem tornar em algo mais, umas de tripas para fora, outra apenas a apodrecer depois de alguns dias ao ar livre.
Brian apontou para a frente, um murro com uma referência de onde estávamos. Escrito em preto dizia Dale City, a mais amigável pequena cidade dos arredores (Dale City, the friendliest little city around). Aposto que já foi, mas não agora.
- Terá muito deles? – Perguntou o rapaz, tentando deslumbrar para o interior daquela cidade.
- Mesmo que tenha, é uma das nossas últimas chances.
E era mesmo. Estávamos na estrada tempo o suficiente para eu dizer que aquela cidade estava ali mesmo bem para a situação em que nos encontrávamos. Não quero ser demasiado impreciso, mas eu contei bem uns 30 dias, por isso bem, podemos dizer que já viajamos todos naquele monovolume cinzento bem perto de um mês e mais alguns dias desde que fugimos do parque de campismo. Seguíamos pelo caminho contrário ao que Claire fizera durante dias até ir ter com os bombeiros até ao local onde fixaram acampamento, mas pelo menos sabiam que a estrada estava mais ou menos livre para passagem. Cada dia estávamos mais perto de Washington DC, mas agora já não era o nosso destino, apenas queríamos seguir em frente para algum lado.
Continuamos a avançar com precaução e fazer o que já era habitual: sempre que encontrávamos um local que anteriormente albergava vidas, deixamos o grupo no carro protegido, enquanto dois ou três saem para procurar comida. Umas vezes tínhamos sucesso, outras não, mas só nos restava arriscar. Uma coisa que nunca era feita era entrarmos demasiado dentro de uma localidade. Sabíamos perfeitamente que estava tudo arruinado e por isso os mordedores ainda deveriam rondar por ai. Se tivéssemos de fugir, que ao menos estivéssemos a um pé da estrada 95, onde os outros continuavam. Desta vez a tarefa tinha-me calhado a mim e ao meu ex-aluno.
- A Claire e o Marcus nunca vão melhorar a sério, pois não? – Perguntou-me ele, enquanto saltava-mos um murro pequeno para entrar realmente em Dale City.
- Tão cedo não me parece. Aquilo que aconteceu ainda está muito presente em todos nós. – E estava mesmo. A morte de Tanya e Jack não tinham ficado em vão nas nossas cabeças. Muitas vezes existiam discussões no carro que indirectamente estavam relacionadas com tal, mesmo que a mulher já estivesse mais recuperada, o seu sorriso nunca mais foi o mesmo.
- A culpa foi toda minha. – Até aquele dia ainda não tínhamos tido tempo para falar de nada a sós e longe dos outros e Brian devia ter aproveitado para desabafar. A ferida da cabeça tinha sido quase completamente curada, faltando só um pequeno arranhão que desapareceria em alguns dias.
- Não te culpes, podia ter acontecido a qualquer um de nós. Não estávamos preparados.
- Não estávamos. Mas será que estamos agora? – A conversa foi interrompida quando avistamos um zombie idoso mais à frente. Escondemo-nos na parede traseira de uma das casas para que ele passasse sem nos ver. Retomamos o passo quando ele estava suficientemente afastado para causar problemas. – Continuar a viajar assim não dá em nada. Qualquer dia estamos novamente na mesma situação que quando fugimos da quinta e demos de caras com aquela manada de zombies.
- Eu sei, mas ninguém quer fazer nada e eu não estou em posição de lhes ordenar seja o que for. Limito-me a conduzir quando quero que os outros descansem. Temos de nos manter unidos para vencer isto, a nossa separação deu na morte de uma pessoa. Quer dizer duas, mas o Jack já estava…
- Sim, eu sei, condenado. – Estava ali mesmo uma loja excelente para começar a procurar. Em vez de arrombarmos a porta, decidimos seguir pelo vidro gigante da montra, que estava meio partido. Fizemos um momento de silêncio e olhamos em redor à procura do monstro em que os donos da loja se tinham tornado, mas à primeira vista não estava ali nenhum. Mesmo assim seguimos para as prateleiras com cautela. – Bem, mesmo assim eu achava melhor que te impusesses mais Bruce. O Marcus e o Dennis não são bons líderes, eu e a Marie só estamos vivos porque seguimos contigo.
Tive de me rir. Eu não queria comandar ninguém, todos eram livres de fazer o que quisessem, mesmo que para isso tivessem de ouvir a minha opinião, é claro. Isso é que nunca me tiravam, o “direito ao voto”.
- Eu… — Calei-me quando ouvi um leve gemer. Fiz sinal para Brian se calar também. Agachamo-nos e esperamos que se movimenta-se, tendo todo o campo de visão necessário para não sermos apanhados de surpresa. Pelos vitos existia um, com parte do crânio esmagado e cabelo a cair aos bocados, sem dentes quase nenhuns. Andava a coxear e era muito lento, pelo que tivemos de esperar algum tempo até que ele se colocasse a jeito. Fiz sinal a Brian e seguimos. – Ei aqui! – O monstro olhou logo para mim, a gritar de euforia. Tinha a roupa de empregado por isso devia ter morrido ali encarcerado, ou então apenas escolheu um mau sítio para se esconder. O rapaz apareceu por trás e deferiu-lhe uma pancada forte com o seu bastão preferido, tendo dado outro golpe quando este já estava no chão, apenas para a precaução. Estava a melhorar e já não se preocupava tanto em mata-los, nem mesmo eu. Aquilo era a vida agora, a lei do mais forte e do mais vivo…
Apanhamos tudo o que pudemos e colocamos em ambas as mochilas que tínhamos conseguido arranjar pelo caminho. Existiam ainda algumas garrafas de água, uma ou duas latas de comida, também muita estragada e podre que nem tocamos e até atum e conservas, coisas que eu não comia á muito tempo. Devia chegar para avançar mais uns dias, não queria arriscar entrar mais e depois ter um encontro inesperado com muitos comedores. Tínhamos sobrevivido assim, aos poucos de cada vez e esperava que continuasse a resultar.
Sair dali foi tão fácil como chegar, pois parecia que aquela zona, para além de destruída com várias casas arrombadas, janelas abertas e com as cortinas manchadas ao vento a baloiçar, não estava tão assim habituada por aquelas criaturas naquele momento. Aquela zona do bairro, com casas de uma única família, estavam dispostas de um lado ao outro da rua, casas estas que em tempos tinham sido habitadas por pessoas que agora não davam sinal de vida. Estávamos perto de sair por onde tínhamos vindo, perto da tabuleta de entrada, mas decidimos apanhar um atalho por entre um quintal da casa mais exterior da cidade, que nos levaria lá num instante. Existia sempre o risco que usarmos aquele caminho e sermos surpreendidos por zombies que por ali ainda estivessem, mas não faria mal arriscar um pouco.
- Parece uma casa bem grande, conseguia connosco. – Comentou Brian, ao olhar do telhado cor de tijolo da casa, até ao chão em terra. – Não era melhor que o carro? Já me doem as costas e primeiro que fiquemos a dormir na bagageira, onde é mais confortável, temos que rodar. É sempre um tempão para voltarmos para lá. – Ele tinha razão, dormir em bancos de um monovolume não era propriamente algo que gostasse.
- Não sei, pode ser mais perigoso aqui que no próprio campo de campismo onde tivemos problemas. Isto é uma cidade, podemos ficar ainda mais cercados deles. – O quintal estava livre de movimento indesejado, restando apenas sangue aqui ou ali, documentos à muito esquecidos e uma fonte com água a apodrecer. Por isso saltamos a cerca branca, que ainda era um pouco alta.
- Ou podemos não ficar… — Disse ele ainda do outro lado, quando saltou e trepou e por fim o ajudei a descer. – Esta zona estava quase deserta. Encontramos dois zombies e ainda existem mais lojas como aquela para arranjar mantimentos. Não seria de tentar que isto resulte? – Apontou simbolicamente com o bastão ensanguentado para a casa que tínhamos acabado de deixar. Fiquei a olhar para as janelas dela por pouco mais de um minuto.
- Falamos primeiro com os outros. – Foi tudo o que disse. Claro que a ideia me agradava, não estava numa casa à mais de um mês. E sentir algum conforto, nem que fosse por pouco tempo era melhor que nenhum. Até então a estrada 95 tinha-se revelado, dentro dos possíveis, calma mas quem sabe até quando?
Quando lá chegamos, estava tudo quase como deixamos, apenas o turno de vigia no cimo do veículo tinha mudado, quem estava agora no tejadilho era Marie em vez de Dennis. Marcus estava mais à esquerda a inspeccionar um carro ali ao lado e Claire estava no interior, sem se mover muito nem falar muito, como já estava a ser costume. O bombeiro de cabelo rapado estava na bagageira, deitado. Quando olhava para aquele cenário sentia-me mesmo em baixo. Fazia-me lembrar que tínhamos perdido duas pessoas pelo caminho e que isso iria afectar aquele grupo para sempre. Sinceramente estava farto da estrada.
- Então o que conseguiram? – O loiro veio logo ter connosco e eu passei-lhe a minha mochila. Marcus tinha assumido um papel de quase líder como sempre, arranjando planos bons para prosseguir e até então tinha dado. Só quem não estava muito de acordo com ele sempre era a Filmore, claro.
- Latas de pêssego, atum, água. Não muito mais. – Brian também lhe passou a mochila dele, colocando-a no chão perto de onde ele se tinha agachado para revistar o que estava no interior. – Existiam mais algumas lojas, mas estavam demasiado penetradas na cidade, não me queria meter entre outra manada deles.
- Fizeste bem, isto deve bastar por agora. – Voltava a fechar o fecho da mochila e colocou-a sobre o ombro direito enquanto agarrou a outra pela alça e levantou-a do chão. – Vamos descansar um pouco e partir daqui mais daqui alguns minutos. – Que cidade é esta?
- Dale City, diz ali num murro. – Não tínhamos mapa, mas o homem parecia saber bem as redondezas. Afinal, também ele tina escapado de Washington por ali.
- Já não estamos longe. Depois é só sair da 95 e seguir por uma das pequenas vias à esquerda. Não necessitamos de passar pela cidade, aquilo está um caus, pior que em qualquer outro lado acredita.
- E vamos para onde? – Questionou o meu ex-aluno, ao meu lado.
- Não sei, estava a pensar no norte, Canada quem sabe. Lá existem mais neve e montanhas e menos pessoas com que nos tenhamos que preocupar que se tenham transformado também.
- O norte? Isso fica a quilómetros daqui e o inverno ainda está a meio. Não aguentamos até que ele termine. – Finalmente o rapaz estava a dar realmente a sua opinião. A pressão e o mal-estar faz destas coisas. – Daqui apanhamos montes de chuva e neve durante todo este tempo e estamos a morrer de frio. Termos conseguido aquecer-nos até aqui foi um milagre.
- E que outra coisa podemos fazer? As cidades estão infestadas, as estradas ora estão ora não. Não existe mais nenhum lugar seguro, nenhum. – Marcus falava mesmo já sem muito ânimo. A viagem estava também a desgasta-lo e isso notava-se.
- Dale City tem um bairro inteiro quase sem zombie nenhum. Eu e o Bruce vimos, não tivemos problemas em chegar à loja. Abatemos apenas dois pelo caminho, enquanto noutras vezes foram quase à meia dúzia. A melhor opção é a casa que fica mais externa e perto da estrada, fica a o que, 1 quilómetro daqui? Parece-me justo que tenhamos pelo menos um momento de descanso.
- Pensava que a questão aqui era continuar sempre a mover não? Ao menos assim eles não nos podem cercar…ah… — Suspirou e pareceu retomar algum fôlego. — Já não sei de nada… Se todos acharem bem podemos ir ver essa casa. – Começava a ver que alguns flocos de neve caiam perto da minha cara e até no meu cabelo pastoso e sem um banho decente por dias. – E vamos decidir isso rápido, antes que o nevão me meta dentro do carro e já não me faça sair de lá tão depressa.
Quando fui dizer a Claire o que pretendíamos fazer, porque eu era uma das únicas pessoas para as quais ela ainda dirigia alguma palavra, foi-me dada a resposta “Finalmente alguém tem uma ideia de jeito” e saiu de carro comigo, confirmando aceitar a tentativa de arranjar abrigo para aquele dia. Nenhum apresentou nada contra a investigação e por isso pegamos nas coisas mais importantes, como a comida algumas mantas e colocamo-nos a caminho da cidade novamente, sendo que eu e Brian íamos à frente, levanto todo o grupo pelo mesmo caminho que fizemos à pouco. Tinha mesmo começado a nevar a sério e por isso tínhamos de ser rápidos ou congelávamos. O chão ia ficando com os nossos passos cravados na neve que já estava aglomerada e até a saltar o murro de antes senti mais frio que à minutos atrás. Aceleramos o passo, o suficiente para que se tivéssemos companhia, não fosse o que chegasse para nos seguirem.
Depois chegamos à cerca e decidimos rondar a casa, tanto para ter a certeza da sua segurança, como por Claire, que não pretendia andar a saltar cercas. Tudo conferido, resolvemos voltar ao quintal e tentar a nossa sorte de entrada pelas traseiras.
- Parece boa. – Confirmou Dennis, olhando em redor. – E não está muito danificada. É capaz de nos deixar mais quentes que o carro.
- Não faças já a festa, primeiro temos que tentar abrir isto. – Marcus avançava e tentava ver como a porta funcionava. Primeiro tentou empurra-la, depois puxa-la e também usar a maçaneta, mas como seria de esperar estava trancada. – A única maneira é tentar partir a fechadura, parece ser velha e deve sair. – Afastou-se, levantou o machado e tentou ser o mais preciso ao embater com ele na ombreira da porta. Primeiro uma, depois outra e por fim a terceira. Não tinha feito muito barulho, mas também não tinha sido pouco, por isso sentia-me mais seguro quando finalmente lá estivesse dentro. Ele puxou novamente da porta e ela pareceu querer já deixar passar-nos. – Já está. – Mas quando a tentou abrir, ela ficou pressa quando foi aberta 10 centímetros. – Foda-se, um trinco.
Claire perdeu o interesse e sentou-se nas escadas de madeira que tinham sido construídas para chegar à porta que estava ligeiramente alta. Eu tentei arranjar outra maneira.
Foi quando olhei para cima, para as janelas que tive uma ideia. Algumas delas estavam abertas e sem barras de madeira a trancarem a passagem.
- Ei, eu posso tentar chegar ali para destrancar a porta. – Confirmei, fazendo quase todo o grupo sair do lugar e olhar para cima ao meu lado. Apenas Claire se manteve no mesmo local. Apontei para um tubo por onde descia a água da chuva que ia desde o chão até ao segundo andar. – Sempre fui bom a trepar várias coisas, uma casa não há-de ser nada demais. – Desde pequeno que subia até às árvores do meu bairro. Porque não tentar ali, para a segurança de todos.
- Tens a certeza? Ainda é alto. – Comentou o loiro, inspeccionando. – E não sabemos se a casa está infestada deles ainda.
- Se não formos ver, não ganhamos nada com isso não é? – Acho que com o mundo estava agora, todos tínhamos de estar preparados para assumir algo mais perigoso de vez em quando. E eu estava preparado para assumir o risco de entrar ali.
Deixando o resto para trás, apenas eu avancei para o tubo por onde descia a água da chuva, mesmo que soubesse que um ou outro estaria a ver como eu ia subir. Tanto o piso como o próprio tubo estavam escorregadios e por isso seria muito mais difícil ter aderência e conseguir-me sustentar, ainda para mais com a neve a começar a cair em força. Depois olhei para a árvore que estava no quintal, alta e que chegava bem ao tamanho do segundo andar, apenas separada do telhado por algo como uns bons centímetros. Iria tentar por ali, mesmo que soubesse que para ter sucesso, teria de saltar de um lado para o outro e só podia fazer isso bem uma vez.
Coloquei a primeira mão no tronco meio molhado e vi que tinha até uma certa aderência, o que era bom. Coloquei a outra mais a cima numa abertura e empurrei o corpo para cima, tentando rapidamente encontrar algo onde prender o sapato. Depois movi-me para cima, com os pés já bem ligados à própria árvore e subi ficando numa posição estranha onde ela tomava dois ramos diferentes e formava um “v” no tronco. Decidi-me por aquele que ficava na direcção da casa, como é claro e comecei a subir como se sobre uma corda, cruzando os pés e puxando com as mãos. A cada momento o chão ia ficando mais longe, mas a neve parecia ficar cada vez mais próxima, pois quando finalmente cheguei ao cimo do ramo grosso, tive logo que limpar a cara, que tinha ficado completamente molhada e fria da neve que se acumulou.
Não quis arriscar partir aquilo com o meu peso, por isso em vez de me tentar levantar logo, segui sentado para a frente, pegando com as mãos um outro ramo acima daquele em que estava para o caso de se partir, ficar suspenso. Mover-me ali não foi nada fácil, pois sempre que me movia para a frente, trabalhava as coxas e com isso, apertava de certa forma as minhas “jóias de família”. Senti-me aliviado por saber que estaria seguro e com alguma agilidade me levantei e equilibrei, já a cerca de 2 metros do fim do ramo.
Tinha de pegar impulso por isso não podia conferir se o fim era tão seguro como o inicio da árvore, mas como estava numa de experimentar, respirei fundo, concentrei-me na parte em que me queria agarrar e corri o mais rápido que pude. Ouvi um leve “crik” de um partir, mas já estava em ascensão e logo depois quase que cravei as mãos e os dedos na ponta do telhado da casa. Olhei para baixo mas as alturas nunca foram algo que me afectasse muito. Consegui ver Marcus e Marie olharem para cima, para o que estava a fazer, antes de voltar a concentrar-me na casa que queria escalar. Tinha de descer um pouco, pois a janela aberta e com as cortinas a remexer estava mais a baixo. Vi o parapeito e deixe-me cair, mas não correu totalmente como eu queria. Bati com o punho esquerdo no parapeito da janela, mas com sorte a mão direita segurou logo o local. Antes que as forças me falhassem, levantei a dorida e puxei-me para dentro.
Mexia o osso e de certa forma continuava bem dorido. Enquanto ainda rodava a mão esquerda a outra retirava o facalhão preto do cinto e levantava-o para cima. Estava num quarto de bebé, digo isto porque tinha à minha esquerda um berço e uma daquelas camas com grades para eles não fugirem, enquanto à minha direita estava alguns brinquedos espalhados, mas os armários estava abertos e algumas roupas estavam caídas no chão, como se alguém fugisse com pressa e nem tivesse tempo de as apanhar todas. O primeiro andar estava praticamente todo assim, roupas no chão, atafulhadas ou apenas uma ali e outra aqui e as outras duas divisões também mostravam que o mundo estava mesmo diferente daquilo que era, pois nem as camas estavam feitas, apenas com os lençóis levantados e amarrotados. Dois quartos e um escritório foi tudo o que encontrei e nada de zombies para já. O corredor do segundo andar ainda tinha uma porta mesmo em frente das escadas que quando tentei abrir, estava trancada e não existia sinal de chaves por ali. Ainda coloquei o ouvido na madeira para escutar, mas estava tudo silencioso, pelo que presumi que nada de mal para ali estaria.
Desci as escadas de madeira escura, o mais lento e silencioso que consegui e sempre com os olhos postos em tudo o que poderia ser suspeito ou um daqueles monstros à espreita para me comer. Mas mesmo quando cheguei à cozinha, tudo me pareceu seguro. Iria primeiro abrir a porta e depois com a ajuda do grupo analisar o primeiro andar. Tirei o trinco de metal e ao rodar a maçaneta, consegui logo que ela abrisse. Tinha tido sucesso.
- Bom trabalho Bruce. – Comentou Dennis, o primeiro a entrar, batendo com a mão no meu ombro nas minhas costas duas vezes.
- Como está a casa? – Perguntou-me o loiro, quando já todos estávamos na cozinha e Brian estava a fechar a porta.
- No segundo andar completamente limpa. É só certificarmo-nos que o primeiro andar também o está. – E dito isso Marcus denominou o amigo bombeiro e Marie para irem ver. Brian emprestou o seu taco à rapariga, mesmo que eu soubesse que ela não tinha gostado muito da ideia. Mas agora todos nos tínhamos de proteger e ela tinha de aprender que não existiam mais “crianças” neste mundo, tal como Brian estava a aprender depressa. Eu ainda quis ir com eles, mas ele disse que eu já tinha feito o suficiente. Por isso limitei-me a ficar com eles na cozinha, que era uma divisão comum com a sala de jantar e por isso era bem ampla, dispondo para o balcão com bacia e tudo o que uma cozinha levava e ainda do lado esquerdo com espaço para uma mesa redonda de madeira com aspecto rustico e 8 cadeiras altas. Umas até tive que levantar, pois estavam para ali caídas.
Pela primeira vez desde a morte da filha, Claire falava para mim de uma maneira normal quando passei por ela a caminho de me encostar um pouco ao balcão de mármore.
- Nada, não restou nada. Quem aqui vivia foi inteligente o suficiente para levar tudo. – Dizia, enquanto apontava para o frigorífico de inox, com congelador em baixo incluído, sem nada mesmo.
- Pode querer dizer que tiveram tempo para escapar e se calhar arranjar um local seguro.
- Só espero que finalmente tenha-mos encontrado o nosso. – A mulher falava com uma ligeireza tal, que até assustava. Era como se falasse, mas não estivesse bem ali. Resolvi não lhe dizer mais nada. Ela ainda necessitava de mais um tempo de luto.
Quando me encostei finalmente e disfrutei de um momento de descanso, os dois que foram na patrulha pelo resto da casa e pelos vistos estava tudo limpo.
- Uma sala grande, uma casa de banho minúscula, o hall de entrada e uma casa das máquinas. Nenhum comedor. – Comentou Dennis, ao pousar o seu machado sobre a bancada.
- Sendo assim acho que podemos dormir por aqui esta noite, pelo menos. – Dizia Marcus, ao escolher o outro lado da bancada para falar connosco. – Com a comida que conseguimos hoje, devemos conseguir aqui ficar. Sempre é melhor dormir num lugar mais aconchegado como este que no carro o tempo todo. Tiveste uma boa ideia desta vez rapaz. – Falou para Brian e mesmo não querendo, ele ficou com aquela cara de todo orgulhoso.
- Desde que não nos decidas abandonar novamente, eu fico cá por pelo menos uma noite… Se entretanto a nossa sorte contigo não nos deia noutra situação… — E dito isso Claire afastou-se com as suas coisas. Os outros também se foram afastando e tentando arranjar pela casa um espaço para se deitarem. Afinal era excitante para todos terem pela primeira vez em muito tempo uma casa finalmente para dormir mais quente e confortavelmente. Até o Inverno deixar de fazer o seu enorme efeito, pois ai já conseguiríamos mais facilmente lidar com dormidas ao relento. Neste momento é que é mesmo insuportável.
Quem ficou por ali foi o loiro, com a mão pousada sobre a mesa e a outra levantada a massajar a própria cabeça e o cabelo amarelo emaranhado.
- Ela continua fula, certo? – Eu e Marcus tínhamos criado uma ligação maior no último mês, quase tão boa como aquele que estava a conseguir com Brian, mas via que muitas vezes não conseguia falar com ele devido a estar bastante afectado por tudo o que acontecera no parque de campismo. Eu tinha colocado tudo para trás das costas, percebia como ele se sentia, ou pelo menos tentava, ao tentar salvar o melhor amigo e as pessoas não podem ser punidas por coisas como essas. O que interessava era que nos tínhamos de manter unidos. Mas Claire não estava a ajudar. Eu também entendia, mas não era o melhor. Todos tínhamos perdido pessoas importantes, quase todas as que tínhamos da vida e não podíamos ficar assim por todas.
- Claro e eu ficaria assim também se estivesse na situação dela. Ela chorou no carro por dez dias e noites e tu também a ouviste, todos nós ouvimos. Talvez foi por isso que o melhor foi virmos para esta casa. Necessitamos de algum espaço cada um, espaço que à muito não temos. – Encostou-se ao balcão, com a mão sobre a testa. – Eu passo os dias a dar voltas à cabeça e a sentir-me culpado por ter-vos deixado no parque de campismo, sozinhos. Só tu e o Brian é que realmente sabiam defender o acampamento e acredito que se lá tivesse-mos estado, as coisas tinham sido diferentes… Talvez a Tanya…
- Não te podes culpar mais por isso. Eu compreendo que quisesses ajudar o Jack a todo o custo, mesmo que aquilo que te dissemos fosse evidente. Eu não trouxe comigo, a princípio, ninguém que me fosse chegado, mas acredito que se um amigo meu estivesse naquele estado, eu também hesitaria. Agora vejo o Brian e a Marie e até vocês todos como pessoas mais chegadas a mim. Se algum de vocês fosse mordido, eu decerto que não vos mataria tão facilmente.
- Há um pouco de humanidade dentro de nós, ainda que pouca reste pelo que estamos a ver neste mundo. – Tentou sorrir, mas só resultou num movimento forçado. – Obrigado por estas palavras Bruce. Se não te importas, vou combinar com os outros e arranjar um espaço para dormir. Necessito de algumas horas para voltar a ficar composto. O carro não foi o melhor local neste mês. – Bateu com força sobre o meu ombro e saiu dali, a caminho de onde os outros também estariam espalhados.
Sai para a sala e soube pelo Dennis que ele tinha ficado com o sofá que estava ali mais à frente, enquanto Marcus já estava a arranjar coisas mais fofas para pousar e deitar-se em cima no chão da sala. Claire ficaria no quarto de casal. Eu não queria discutir com ela outras opções, como dar a cama a pessoas mais desgastadas, pois acho que ela naquele momento também merecia. Marie ficaria na cama do quarto de solteiro e eu e Brian encontramos colchões pequenos num dos armários e pousamo-los no chão daquele quarto, para ficarmos os três.
Para além de Marcus, que parecia mesmo necessitar de se deitar um pouco. Os restantes ficaram pela casa. Como queria ter a certeza absoluta que estávamos pelo menos em segurança quanto aos possíveis mordedores que pudessem por ali andar a vaguear, à procura de uma brecha na casa para entrar, também eu me coloquei numa jornada à procura de janelas ou portas semiabertas. Pelo menos no rés-do-chão não havia nada de especial e algumas das janelas até estavam tapadas por tábuas que pelos vistos pareciam resistentes. Aquelas pessoas deviam estar a tentar proteger a casa, mas pelos vistos tinham fugido de Dale City, pelo menos não estavam ali simplesmente. Nem queria pensar se elas já encontraram o fim como Tanya e Jack, ou ainda andavam por ai a tentar sobreviver como nós.
- Vê se existe alguma coisa com que possamos ficar nessas gavetas. – Afirmei para o Brian que estava entre a sala e o hall de entrada. Ele acenou e colocou-se logo ao trabalho, assim que eu subi as escadas. Ao início existia algum receio, mais por parte de Brian e Marie de roubar as coisas das lojas por onde passámos nos últimos tempos, mas eu não lhe chamo propriamente roubar, mas sim procurar. Se não o fizermos morremos à fome e acho que neste momento não deve existir no mundo, se isto estiver espalhado pelo mundo todo claro, pessoa alguma que se preocupe com essas regras. O governo não parecia estar a fazer nada contra esta infestação e com isso a minha esperança que de repente, alguém aparecesse com militares e outras forças de intervenção e que tudo isto fosse tratado como qualquer epidemia. Mas os zombies são agora aos montes e já devem ter ultrapassado a população viva. Não perdi completamente a esperança, mas sei que ela está mais reduzida que nunca.
A primeira coisa que fiz foi voltar a dirigir-me ao quarto por onde entrei para abrir a casa aos outros e fechar a janela que com tanto tempo de frio que apanhou, estava perra, mas fechou na mesma. Olhei pela janela para o resto da vizinhança e para além da neve que continuava a cair, estava tudo muito calmo. Realmente desde que começara o tempo mais gélido, que os mordedores tinham ficado mais lentos e pela estrada, chegamos a ver uns até congelados. Já não tínhamos tantos meses assim de gelo pela frente e eu até achava que o pior já tinha passado, mas parece que quando voltei a ficar dentro de quatro pareces, voltei a ter um frio descomunal, até de bater o dente. Podia ser que ainda tivessem deixado roupas para trás, algo quente para colocar. Mas ao vasculhar todas as gavetas de todos os armários do andar de cima, fiquei a saber que quem quer que tivesse vivido ali, tinha levado tudo mesmo. Não sobrara nem as roupas interiores, nem as meias, nem nada. Ter conseguido uma manta nova debaixo da cama de casal, foi para mim um grande feito.
Deixei-a ali e segui para investigar mais umas coisas. Algo que me intrigou foi que em nenhuma divisão estava uma única fotografia e assim nem podia saber que família por ali vivia. Ao menos tinham um espelho de corpo inteiro no quarto principal e pude ver a minha figura. Desde o dia em que me penteei e preparei para mais uma aula de condução, com os dois rapazes que agora me acompanhavam, aquela era a primeira vez que me vi depois de tudo o que passamos. O cabelo tinha crescido pouco, mas dava para ver a diferença, principalmente por estar algo desgadelhado. Tentei dar-lhe um ar mais normal agora que tinha oportunidade. Levei a mão ao queixo e reparei que já não fazia a barba á algum tempo e que esta estava a crescer a olhos vivos, nada demais pois foi apenas um mês e tal, mas já algo que me desconfortava. Tinha visto que tanto Dennis como Marcus também estavam a ficar com as suas grandes, já que quando os conheci no parque de campismo estavam completamente feitas. Até Brian estava com uma mínima típica de um rapaz de 17 anos. Foi nesse momento que pensei em ver se existia água, mas mais uma tentativa falhada, pois a torneira da casa de banho apenas pingou uma gota mínima e mais nada.
Igual foi com a electricidade. Parece que esta infestação zombie tinha também afectado a electricidade e a canalização de maneira a que o seu fornecimento tinha acabado. Á uns bons dias atrás lembro-me de ligar a luz de um estabelecimento para que o escuro não afectasse a nossa busca por alguma comida e também para nos afastar de possíveis mordedores. Naquela altura deu, mas parecia que foi necessárias mais umas noites para que acabasse também, como tudo parecia estar a acabar na nossa sociedade. Os Jackson tinham falado que naquela altura, quando chegamos a eles, já não tinham energia, mas isso podia querer dizer que a electricidade para locais mais pequenos tinha acabado primeiro e aos poucos, até os geradores de outros locais tinham ido a baixo por completo. As noites eram bem mais escuras agora e isso tornasse um pouco irónico: Só quando realmente à monstros à noite, em cada sombra, é que não existe luz municipal para que os vejamos. Isso foi um dos maiores problemas na estrada, à noite era impossível avançarmos na escuridão, porque a estrada era muito diferente daquela que fizemos à noite vindos dos lados de Richmond.
O quarto de casal, aquele que ficava mesmo à frente daquele que eu usei para entrar a primeira vez ali tinha duas janelas, uma virada para Dale City, que usei para ver como as coisas estavam. Ruas vazias, carros acidentados aqui e ali e quase sem movimento de zombies, apenas um ou dois a mais de 50 metros da casa. Depois fui até à outra, que estava virada para a casa do lado e dava também para ver parte do quintal ali. A neve continuava a cair em peso e não deveria parar tão cedo. O edifício que estava à frente tinha algumas marcas de sangue na porta lateral, mas de resto parecia tão abandonada como aquela. Até ver uma sombra a escapar-se no telhado, escura num pano de fundo branco. Mas aquilo não podia ser a minha imaginação.
Devo ter descido as escadas rápido demais, pois quando cheguei ao fundo das mesmas, todos me olharam de onde estavam.
- Eu vi alguém… — Foi tudo o que consegui dizer, antes de Dennis se aproximar.
- Como assim alguém? Estás parvo Bruce?! Deves ter visto um comedor.
- Não, não era um deles, eu vi algo a mexer-se e sei que era humano. Tem de haver pessoas nesta vizinhança. – Nesse momento Marcus já se tinha levantado e chegado onde todos nos reuníamos, perto do hall.
- O que te leva a querer isso?
- Que eu saiba os zombies não escalam e eu vi uma… sombra no cimo do telhado desta casa aqui ao lado. Desceu do outro lado, por isso só consegui ver brevemente o trajecto. – Fazia desenhos mentais, com a ajuda da minha mão, que apontava na direcção onde essa ficava em relação ao local onde estavam.
- Mas é perfeitamente normal que possa existir outras pessoas ainda por ai a tentar sobreviver.
- Eu sei que é Dennis, mas quando olhei… eu sei que estávamos a ser observados até eu dar com ele, ou ela. Foi então que resolveu escapar para onde eu não conseguisse ver.
Perdurou o silêncio. Marcus deu umas voltas pelo hall até que voltou a falar.
- E queres fazer o quê? Tentar encontrar essa pessoa?
- É melhor que nos mantermos aqui sem saber as suas intenções. Acho que sabendo que estávamos aqui, seria mais fácil para essa pessoa vir ter connosco, mas em vez disso apenas ficou a observar e fugiu. Não quererá isso dizer algo?
- Ele tem razão Marcus. Se ao menos investigarmos um pouco essa casa aqui ao lado, podemos ficar a saber se continuamos aqui seguros ou não. Imagina desde quanto eles podem estar a ver-nos. E se forem ladrões? Como o mundo está já espero de tudo. – Dennis pareceu chamar à razão o colega pois este acenou e correu para voltar a ir buscar o machado.
Saímos os dois, apertando os poucos agasalhos que tínhamos e fomos até à cerca que ficava para além da árvore no quintal e que separava-nos da casa ao lado, muito parecida com esta onde ficamos, mas claro por fora tinha outro tipo de azulejos e coisas assim que a diferenciava. Como ele era um pouco mais alto, susteve-se na cerca com as mãos e espreitou para o outro lado, da direita para a esquerda.
- Livre. – E logo a seguir, completou o trabalho ao içar-se com apenas as forças de braços para o outro lado. Com maior custo também eu subi a cerca, tentando arranjar apoio para os pés que de vez em quando escorregavam sobre a madeira mas lá segui também para perto dele.
Aquele jardim também estava coberto de neve, mas tinha ao canto superior esquerdo também um baloiço. Aquilo fazia-me lembrar das crianças… como podiam elas sobreviver a isto? Mas o bombeiro tirou-me logo das minhas ideias, ao apontar para a porta de trás. Ao contrário daquela que era possível ver da janela onde eu encontrara a sombra no telhado e estava agora à esquerda com ligação para a parte da frente da casa, aquela que se podia dizer mais como entrada directa do jardim para a parte de trás da casa estava apenas semi-fechada. Não sei se isso quer dizer alguma coisa, mas já é um indício.
- Prepara o facalhão. Não sabemos se estamos a lidar com ladrões. – Comentou Marcus, de machado em punho. Não era uma ideia de recusar, se nos estava a ver ao longe, não sabemos desde quando o estão a fazer, podem muito bem-estar a planear roubar os suprimentos que temos vindo a arrecadar, mais propriamente aquele que eu e Brian conseguimos hoje.
Fomos pé ante pé e com bastante cuidado em direcção à porta, ele à frente e eu mais atrás, mas juntos. Cada um dum lado da porta, Marcus colocou a mão na maçaneta e agarrou-a com força. Depois abriu de rompante e entrou com o machado levantado e preparado. Apenas se ouvia o vento e a princípio não estava ali ninguém. Esta casa era mais pequena que aquela onde estávamos e por isso não foi difícil inspeccioná-la. Tudo vazio. Estávamos preparados para voltar depois de não descobrirmos nada. Mas eu sempre fui de reparar em pormenores e por isso chamei o bombeiro até perto da cozinha e depois levantei a lata de comida que estava por ali.
- Ainda está fresca, cheira a comida e os restos não apodrecidos. – Dava para ver claramente que alguém se tinha servido dela á pouco, ou então já tinha secado, mesmo com aquele tempo húmido.
- Foda-se, está mesmo aqui alguém! – Pareceu fazer-se luz na cabeça de Marcus. – Vamos embora, temos de avisar os outros, sejam eles bons ou maus, teremos outras oportunidades de conferir, desde que agora todos saibam.
Saímos de rompante pela mesma porta e voltamos à cerca, de maneira a voltar para o outro lado. Ele foi primeiro como da última vez, mas antes de passar a segunda perna para o outro lado eu próprio ouvi um clique de uma arma pronta a disparar, carregada para matar. Pouco depois tinha um cano frio encostado à cabeça e Marcus quando olhou para trás de mim, paralisou ali.
- Nem mais um passo… — Suave e perigoso.
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