Os próximos dias passam rapidamente. Caleb não é uma pessoa que fala muito, e eu não insisto. Passamos por vários lugares, mas não paro para prestar atenção à paisagem. Antes eu adorava viajar para todos os lugares, mas até essas paisagens incríveis perdem a graça quando sei que eles estão por toda parte.

Durante a maior parte do tempo, eu fico trancada no caminhão, ajudando a organizar as coisas que ele pega, dividindo tudo em caixas. Ele não me deixa acompanhá-lo em suas missões, e eu nem quero. Ele diz que sou muito descuidada, e eu concordo.

Depois de dias de estrada, finalmente estamos perto.

Estou arrumando as coisas como sempre, depois de tomar um copo de suco que Caleb me trouxe. Ele saiu há alguns minutos e já não tenho mais nada para fazer, então decido dar uma olhada em algumas caixas que me chamaram atenção desde a primeira vez em que as vi. Uma grande escrito “Brinquedos”, por exemplo.

Abro com cuidado. Há carrinhos, bichos de pelúcia e bonecas. Fico imaginando se nesse lugar para onde vamos, tem muitas crianças.

Uma das bonecas me chama atenção, por ser muito parecida com uma que eu e Allie costumávamos brincar. Seu rosto de porcelana, com bochechas rosadas, o cabelo lhe caindo em cascata e o vestido vermelho com bolinhas brancas. Seus olhos pintados de marrom possuem uma leve mancha prateada em volta da íris.

O susto me faz deixar a boneca cair das minhas mãos de volta no topo da caixa. As lembranças voltam sem convite. Me lembro da primeira vez em que vi esses malditos olhos.

O vento era forte e fazia nossos cabelos voarem para todos os lados. Mas esse frio não nos incomodava, porque eu e Emily estávamos rindo demais. Emily era minha melhor amiga desde a terceira série, quando brincávamos juntas por sermos excluídas do resto da turma. Os tempos mudaram e agora éramos bem mais populares. Ainda não entendíamos como aquilo tinha acontecido, mas quando se está no ensino médio, as coisas acontecem tão rápido e com tanta intensidade que fica difícil entender os acontecimentos. Mas nós não ligávamos.

A porta da cafeteria se abriu e entramos no ambiente aconchegante, com mesas alinhadas próximas às grandes janelas e bancos de couro. Caminhamos até o balcão e pedimos o de sempre, conversando sobre o baile de formatura enquanto esperávamos. Após sermos servidas, saímos de volta para o vento gelado com os copos em nossas mãos a caminho da casa de Emily.

Mas na primeira esquina, algo inesperado aconteceu, e um desconhecido acabou esbarrando em mim, levando meu copo ao chão e quase me derrubando também. Ele olha pra mim e se desculpa da melhor forma possível.

Não estava prestando atenção em suas desculpas. Eram seus olhos que me chamavam atenção. São verdes, em contraste com o cabelo grisalho e o tom corado de sua pele. Mas no meio desses olhos, há uma fina camada prateada contornando sua íris. Eu estou surpresa demais para falar.

-Não tem problema. — Emily diz em meu lugar. – Acidentes acontecem.

O homem concorda com a cabeça e segue seu caminho. Emily me olha confusa, segurando os cabelos castanhos para evitar que voem.

-O que deu em você? Porque está tão estranha?

-Você viu os olhos daquele homem?

-Nem reparei. Por que?

-Eles eram... Estranhos. Diferentes de tudo que já vi.

-Do que está falando? – Ela continuava sem entender.

-Nada, deixa pra lá. Devo estar imaginando coisas.

Essa última lembrança fez as lágrimas voltarem aos meus olhos. Emily é outra pessoa que eu sinto muita saudade. Sinto saudade de nossas conversas longas no telefone, das nossas fofocas, das madrugadas que passamos acordadas.

Sinto saudade de ser uma pessoa normal.

Olho novamente para a boneca inerte sobre a grande caixa, os olhos ainda fixados em algum ponto, a mancha prateada se destacando.

Fecho a caixa com tudo e limpo as lágrimas. Ouço passos e logo Caleb entra.

Ele não parece perceber que eu estava chorando, se percebeu não comentou nada, e eu agradeço por isso.

-Bom, espero que esteja ansiosa. Essa é nossa última parada. Agora vamos para casa, finalmente. – Ele diz, mas sinto um leve tom de desânimo em sua voz.

-E por que não parece tão feliz com isso?

Ele passa a mão pelos cabelos.

-É só que... Eu tenho um pouco de medo da reação do grupo quando te conhecerem.

-Você acha que eles podem não me aceitar?

-Eu não sei. Alguns deles são... difíceis de lidar. Mas não seria a primeira vez que eu teria que aturar a fúria deles.

-Eu não quero causar nenhuma briga...

-Hanna, está tudo bem. Eu te convidei. Eu quero que você venha.

-Ok.

-Bom, você vai ter que ficar aqui atrás por mais um tempo. Não pode saber onde é nosso esconderijo. Sinto muito.

-Tudo bem.

Ele sorri.

-Mal posso esperar para te mostrar tudo.

“Mal posso esperar para ver mais gente normal e conseguir ajuda para encontrar Allie.”- Penso.

-É melhor irmos logo. — Ele diz.

Algo me diz que esse será meu primeiro passo em direção à liberdade.

***

Viajamos por mais algumas horas. Em um momento, eu sinto a mudança do solo abaixo do caminhão. Acho que estamos andando sobre a areia e acho isso estranho. Também acho estranho o fato de estar ficando cada vez mais quente. Mais tempo se passa e nada. Até que finalmente descemos o que acho que é um morro e paramos.

A porta se abre atrás de mim e Caleb entra com um pano nas mãos.

-Chegamos? – Pergunto, ansiosa.

-Quase lá, mas antes preciso que coloque isso. – Ele aponta um pedaço de pano para mim e eu entendo.

-Você vai me vendar?

-Lamento. – Ele realmente parece incomodado em fazer isso.

-Você vai me vendar no meio do nada?

-Hanna, confie em mim.

Eu me viro e ele coloca a venda em meus olhos, delicadamente. Ele me guia para fora do caminhão e sinto a areia abaixo dos meus pés. O ar é quente e úmido e estou morrendo de curiosidade para saber onde estamos. Ele continua me guiando. Uma mão na minha e a outra nas minhas costas. Sinto que estamos subindo, descendo e fazendo curvas por vários minutos até que ele finalmente para e tira minha venda.

Estamos em uma caverna, ou melhor, um túnel subterrâneo com algumas caixas. A maioria aberta e praticamente vazia.

-Onde exatamente estamos?

-No depósito.

-Embaixo da terra?

-Sim. Espero que não tenha nenhum problema com isso. Porque se tiver, acredite, teremos grandes problemas.

-Não, eu só... Não esperava por algo do tipo.

-Escute, eu preciso que fique aqui um pouco enquanto vou falar com os outros. Não tente me seguir, ou vai se perder.

-Ok, vou ficar aqui.

-Eu volto logo. – Ele diz e me vira as costas, desaparecendo em uma das curvas de pedra e areia.

Eu simplesmente fico paralisada, olhando em volta o túnel íngreme e mal iluminado apenas com duas luminárias iguais a do caminhão. Não sei exatamente porque, mas algo nesse lugar me lembra Emily. Talvez lembre das noites que passava em sua casa e nós assistíamos vários filmes, inclusive de ficção científica e pessoas presas em cavernas.

Uma noite se destacava entre as outras. A noite em que ouvi falar pela primeira vez sobre as almas.

Estava deitada na cama de Emily, ouvindo música no meu iPod. Ela estava na cozinha, pegando alguns chocolates para que continuássemos nossa conversa sobre quem ficou com quem e quem brigou com quem na nossa última festa da escola. Ela voltou logo depois não só com o chocolate, mas com refrigerante e pipoca e se sentou ao meu lado na cama, ligando a TV. Um noticiário passava e Emily parecia interessada. Eu continuei ouvindo música porque nunca gostei de noticiários.

-Hanna? -Ela perguntou, me cutucando.. Tirei os fones de ouvido e peguei um punhado de pipoca.

-O que?

-Você acredita em ETs? – Ela olhava para as próprias mãos.

Ela finalmente me olhou, percebendo que eu não respondia. Eu comecei a rir e ela me encarou confusa.

-Sério?

-Sério, Hanna! Porque não acreditar?

-Por favor, Emily! Acreditar em ETs é como acreditar em vampiros, sereias, lobisomens, fadas e essa baboseira toda! Todos não passam de lendas idiotas para assustas as crianças!

-Eu não estou falando de ETs verdes e estranhos que falam com voz engraçada e abduzem seres humanos para experiências. Eu estou falando de extraterrestres de verdade, Hanna! De seres de outras galáxias invadindo nosso planeta e tomando conta de tudo, tomando nossos corpos e se infiltrando entre nós!

Eu pisquei, incrédula.

-Você anda vendo muita ficção científica.

-Talvez sim, mais... Muitos acontecimentos têm feito sentido. Vê os noticiários? Eles não são a mesma coisa, as notícias não são as mesmas. Alguma coisa está mudando. Sei disso. Eu também achei que estava imaginado coisas, mas então achei isso. – Ela se vira e pega o notebook que está em sua escrivaninha e digita alguma coisa e depois me mostra um site. Nele já algumas fotos, textos e vídeos espalhados. Não sei do que se trata.

-Para o que estamos olhando, exatamente?

-É um site que eu achei há alguns dias. Ele tem relatos de uma suporta invasão alienígena que está acontecendo. Segundo eles, há vários casos de humanos se tornando hospedeiros de invasores desconhecidos. Suas mentes são apagadas, enquanto seus corpos permanecem intactos e prosseguem suas vidas aparentemente sem alteração.

-Emily, isso é loucura!

-Eu sei, eu achei que fosse uma brincadeira de mau gosto. Mas então eu vi essas fotos.

Ela clicou em uma página que abriu com várias fotos em miniatura. Ela clicou em uma para que aumentasse. Era uma garota japonesa em um parque, com cabelos negros e lisos caindo sobre os ombros. Seus olhos possuíam um leve tom prateado. Emily continuou passando as fotos que no começo não tinham nada em comum, a não ser os olhos.

-Essas são as fotos dos supostos hospedeiros. Notou alguma coisa familiar?

Eu a olhei confusa, mas logo minha mente me levou ao dia da cafeteria.

-Ah meu Deus! O homem que esbarrou em mim! Os olhos deles eram iguais a esses!

Mal eu sabia que aquilo seria apenas o começo. Logo o site saiu do ar e a censura era cada vez mais rígida. As pessoas começaram a agir estranho demais.

Hoje essas criaturas possuem tudo o que um dia foi nosso e agora estou enfiada em uma caverna no meio do nada, fugindo como uma criminosa, longe de onde deveria ser minha casa. Isso nunca seria a vida que imaginaria para mim, anos atrás. Mas ainda tenho esperança. Sei que parece inútil e cômico, mas tenho a esperança que um dia não precisarei me esconder. E nesse dia quero estar com Allie, e é por isso que não vou desistir de procurá-la. Não importa o que aconteça.

Notas finais
Então, gente... O que acharam?
Espero que tenham gostado.
Que tal deixar um comentário?
Beijos e até a próxima.